Diretrizes para a Coluna Anpof

A Coluna Anpof tem como objetivo a publicação de textos inéditos produzidos pela comunidade filosófica que, além de dar visibilidade às pesquisas realizadas nas mais diversas áreas, busquem dialogar com questões contemporâneas a fim de contribuir para o debate público.

Serão avaliados textos inéditos em língua portuguesa com extensão entre 500 e 1500 palavras. Ocasionalmente, os textos submetidos à Coluna Anpof podem ser divulgados, com a permissão dos autores, em veículos da imprensa nacional.

Os textos podem ser submetidos pelo email: comunicacao@anpof.org.br, indicando no campo “assunto”: Submissão para a coluna anpof.

A filosofia em tempos de morte

Prof. Dr. Wendel de Holanda

Muito se escuta que a visão moderna ocupou quase que totalmente o espaço que antes parecia pertencer exclusivamente às formas antigas de compreensão da realidade, no sentido de que talvez agora uma postura mais pragmática e objetiva sobre o mundo se impõe, pela sua eficácia, à vida hodierna. Todavia, após cinco meses de confinamento social, essas abstrações parecem apenas nos aborrecer e tampouco conseguem alimentar qualquer expectativa positiva com relação a um futuro pós-pandêmico. O que nos obriga, diante da gratuidade dos acontecimentos e da morte iminente, a assumir uma posição menos ingênua sobre a realidade, como aquela talvez compartilhada pelas doutrinas helênicas e pelo cristianismo antigo [1].

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Homenagem à María Lugones por Susana de Castro (UFRJ)

“El lado oculto/oscuro del sistema de género fue y es completamente violento. Hemos empezado a entender la reducción profunda de los anamachos, las anahembras, y la gente “del tercer género”. De su participación ubicua en rituales, en processos de toma de decisiones, y en la economia precoloniales fueron reducidos a la animalidad, al sexo forzado con los colonizadores blacos, y a una explotación laboral tan profunda que, a menudo, los llevó a trabajar hasta la muerte.”
(María Lugones, in: “Colonialidad y Gènero”)

 

A comunidade filosófica foi surpreendia com a notícia do falecimento no dia 14 de julho da Professora argentina radicada nos Estados Unidos, María Lugones, aos 76 anos de idade. Professora da Universidade de Binghamton no Estado de Nova Iorque, ela havia participado recentemente de uma conversa virtual no dia 6 de junho ao lado da antropóloga brasileira Ângela Figueiredo sobre “Colonialidade e Gênero” no canal do YouTube, História em Quarentena. Nesse dia, analisou a importância do movimento Black Lives Matter nos EUA, fez referência à contribuição da feminista indiana Vandana Shiva para a reflexão sobre os impactos da Covid, e deu uma aula brilhante sobre feminismo descolonial, entre outros assuntos. Pela sua fala, notava-se o quanto estava conectada com os acontecimentos presentes e seus significados políticos. Ninguém poderia imaginar que morreria um mês depois. Deixa um vazio na vida de todos aqueles e aquelas com os quais trabalhou e para as/os quais teve um papel formativo fundamental em suas vidas, mas deixa também um legado intelectual para a filosofia contemporânea política e ética, em particular para os estudos feministas descoloniais. Ela mesma se intitulava uma teórica da resistência (“Toward a Decolonial Feminism”, 2010), resistência ao que nomeou de ‘sistema moderno colonial de gênero’.

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A condição kafkiana da atualidade

Ulisses Razzante Vaccari (1)

Parece não restar dúvidas de que as redes sociais ocasionaram transformações no plano das relações humanas e, em especial, no mundo político. Ao mesmo tempo em que as redes assaram a desempenhar um papel preponderante em eleições presidenciais, os políticos passaram a fazer política principalmente por seus meios.

A relação entre política e meios de comunicação não é nova na história. Hitler, em 1935, fez uso do cinema visando construir a imagem de salvador da pátria, como ficou registrado em O triunfo da vontade, da cineasta alemã Leni Riefenstahl.

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RAHEL JAEGGI E A RECONSTRUÇÃO PRÁTICO-MATERIALISTA DA TEORIA CRÍTICA

José Crisóstomo de Souza,
Professor do Departamento de Filosofia da UFBA e membro do GT Poética
Pragmática, de pesquisa, discussão e elaboração em filosofia.

 

Retomo o que comecei a dizer em coluna anterior 1 a propósito da Teoria Crítica, alemã e de Jaeggi em particular, agora assinalando o que considero interessante em sua proposta deweyano-hegeliano-marxiana para um desenvolvimento filosófico materialista e prático. Farei isso em confronto com posições marxianas, de quem acho dá para aproveitar para isso um lado inexplorado: seu materialismo prático-material, não dialético-negativo. Se se trata de tornar a TC não só mais pragmatista, mas também mais materialista, como Jaeggi nos diz que gostaria, não é sem cabimento envolver Marx na discussão; ele é a matriz originária da TC, matriz à qual essa permanece atrelada de várias maneiras.

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Enem 2020 e a pandemia do novo coronavírus ou breves considerações sobre meritocracia

Prof. Me. Rafael Costa (Escola de Aplicação – UFPA)

 

Desde o final de março de 2020, quando divulgou o cronograma original para a realização do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) desse ano, o Ministério da Educação (MEC) se viu em mais uma situação extremamente polêmica e de acirramento de tensões políticas. Em pleno crescimento da curva de contágio e mortes pela Covid-19, em meio ao início da adoção das medidas de distanciamento e isolamento social, da suspensão completa das atividades não essenciais e das aulas presenciais no território nacional, sem que houvesse ao menos o vislumbre de retomada dessas atividades, o exame deveria ser realizado em novembro de 2020.

As críticas por parte de diversos setores da sociedade, e sobretudo dos/as estudantes, foram abundantes e incisivas. Diante de uma sociedade aturdida pela pandemia do novo coronavírus, com sua vida normal suspensa e sem previsão de retorno, e com a interdição de muitas vidas, ceifadas pela doença causada pelo vírus, não parecia oportuno organizar a realização de um exame, ainda mais um exame a ser aplicado em novembro, período em que tradicionalmente ocorrem as provas; portanto, demonstrando claro descompasso entre o cronograma apresentado e a crise sanitária e social instalada no país.

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A ruína da política ambiental brasileira e a urgência de responsabilidade

Prof. Dr. Jelson Oliveira (1)

A gravidade da questão ambiental no Brasil é tamanha que as críticas às (des)políticas do atual governo têm reunido juristas, políticos, empresários e ambientalistas de diferentes posições e com divergentes interesses. Cria-se quase uma unanimidade em torno do problema, mostrando que o assunto é tão escabroso e evidente, que a maior parte das pessoas compreende que todos perderemos muito com isso – seja em termos propriamente ambientais, seja em termos econômicos ou políticos. 

Assistimos, estarrecidos, o governo Bolsonaro e seu ministro Ricardo Salles colocando em prática a afirmação criminosa feita na reunião (também ela criminosa) do dia 22 de abril de 2020: estão aproveitando a “oportunidade” trazida pela pandemia para “ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”. Isso, na prática, significa depredação das já parcas políticas ambientais e desmonte dos órgãos de pesquisa e de fiscalização, cujas consequências são uma aceleração no esgotamento dos recursos naturais, da destruição das florestas (especialmente a Amazônica), da extinção da fauna e do genocídio dos povos tradicionais (especialmente os indígenas), em benefício das forças do agronegócio, do latifúndio, da mineração e outros genocidas, que agora têm voz decisiva no altar da pátria, no qual o sangue de inocentes continua sendo oferecido ao deus do progresso.

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Vinte e cinco anos sem Cioran

Alfons C. Salellas Bosch 1

Cumprem-se em 2020 os vinte e cinco anos da morte do filósofo romeno Emil Cioran. Nascido em Rășinari em 1911 e radicado em Paris desde 1937, Cioran foi autor de cinco obras em língua romena e outras dez em francês, que representam uma viagem intelectual que parte de um niilismo vitalista, influenciado por Schopenhauer, Chestov e a filosofia da história de Oswald Spengler, e chega a um ceticismo temperado à la Montaigne. Filho de um sacerdote ortodoxo rural, cursou estudos de filosofia na Universidade de Bucarest, na qual graduou-se com um trabalho sobre Bergson em 1932. Em 1934 publicou seu primeiro livro, Pe culmile desperării (Nos cumes do desespero). Três anos mais tarde, conseguiu uma bolsa do Instituto Francês e se trasladou a Paris. Em 1946, no mesmo ano em que renuncia à nacionalidade e se declara apátrida, o regime comunista romeno interdita sua volta ao país e proíbe os seus livros. Autor de culto, reivindicado por escritores e pensadores iconoclastas, Cioran, através do paradoxo e da autoironia, cultivou um pensamento assistemático e fragmentário na forma de aforismos lúcidos e ensaios provocadores, que registram e se defrontam com o absurdo da condição humana.

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COLUNA ANPOF HOMENAGEM - SOBRE O PROFESSOR CARLOS ROBERTO V. CIRNE LIMA

Alvaro L. M. Valls

 

“Buenas, me espalho!
Nos pequenos dou de plancha, nos grandes dou de talho!”
(Capitão Rodrigo Cambará, O Tempo e o Vento.)

 

No início dos anos 80, o Prof. Valério Rohden, então Chefe do Departamento de Filosofia da UFRGS, viabilizou o retorno ao corpo docente dos cassados da ditadura. Voltaram Ernani Fiori, Ernildo Stein, João Carlos Brum Torres e Carlos Cirne Lima. Na cerimônia de recepção aos anistiados políticos, Cirne Lima falou por eles, contando como os bons departamentos haviam sido dizimados. Fiori comentou depois que, como sempre, Cirne Lima fora generoso, pois “dizimar” era um verbo fraco para o expurgo de tantos excelentes professores de nossas universidades, cassados nos anos 60 e 70. O próprio Cirne Lima gostava de contar histórias daqueles tempos obscuros, e de como alguns que não haviam sido cassados na primeira leva redigiram uma carta denunciando o erro que era cassar professores sem nenhuma razão justa. Um enviado do governo federal, na Reitoria, foi entrevistar então os signatários, solicitando com maneiras corteses que se retratassem, retirando as assinaturas. Ele, Cirne Lima, se negou, recusando o argumento de que “Revoluções não cometem erros”, e preveniu o entrevistador do perigo que seria solicitar tal coisa dos professores Brito Velho, que viriam a seguir. Resultou que os que se negaram a se desdizer foram cassados.

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O Eichmann de Hannah Arendt

Prof. Dr. Adriano Correia (UFG)

Este texto foi publicado no dia 30 de junho na Revista Estado da Arte,
inaugurando a parceria com a Coluna Anpof

 

Em um ensaio em homenagem a Bertolt Brecht para a revista The New Yorker (1966), coligido posteriormente na obra Homens em Tempos sombrios (Companhia das Letras,), Hannah Arendt menciona um trecho das notas de Brecht à obra A Resistível ascensão de Arturo Ui (1941), uma sátira da ascensão de Hitler ao poder: “Os grandes criminosos políticos têm de ser expostos de todos os modos, e especialmente pelo ridículo. Porquanto eles são acima de tudo não grandes criminosos políticos, mas os perpetradores de grandes crimes políticos, o que de modo algum é a mesma coisa. O fracasso nos empreendimentos de Hitler não significa que ele era um idiota, e a abrangência dos seus empreendimentos não significa que ele era um grande homem”.

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O RACISMO, ESSA BESTA NUNCA DORMENTE Uma reflexão a partir de Hans Jonas

Jelson Oliveira 1

Há tanto racismo na filosofia quantos foram os seus autores, quase sempre homens, quase sempre brancos, quase sempre europeus ou norte-americanos. Compreendido como conjunto de teorias que tentam legitimar a superioridade de uma raça ou de uma etnia sobre a outra, nossa história coleciona horrores como aqueles que aparecem em afirmações de Hegel, para quem o negro era um homem selvagem, indomável e carente de valor e caráter 2 , de Kant, para quem os africanos não teriam nenhum talento ou sentimento que os elevasse acima do ridículo 3 , de Hume, que afirmou sem pestanejar que os negros eram inferiores aos brancos 4 ; de Voltaire, Tocqueville e tantos outros 5 . Falou-se o pior contra negros, indígenas e judeus, árabes e asiáticos. Com sua força cultural, a filosofia, assim, não saiu incólume da agrura dos tempos e, como tal, sujou-se bastante nas suas improbidades. E delas precisa se limpar, vez ou outra.

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