Diretrizes para a Coluna Anpof

A Coluna Anpof tem como objetivo a publicação de artigos e ensaios produzidos pela comunidade filosófica que, além de dar visibilidade às pesquisas realizadas nas mais diversas áreas, busquem dialogar com questões contemporâneas a fim de contribuir para o debate público. Também são aceitos textos de homenagem, resenhas e traduções. 

As submissões devem ser feitas em língua portuguesa com extensão entre 500 e 1500 palavras. Os textos devem ser inéditos e podem ser produzidos por qualquer pessoa que pertença ou tenha pertencido a algum programa de pós-graduação brasileiro, contemplando estudantes de mestrado e doutorado. 

Ocasionalmente, os textos submetidos à Coluna Anpof podem ser divulgados, com a permissão das autoras e autores, no Estado da Arte ou no Le Monde Diplomatique Brasil, veículos com os quais temos parceria.

Os textos podem ser submetidos pelo email: comunicacao@anpof.org.br, indicando no campo "assunto": Submissão para a coluna anpof.

Será avaliada apenas a versão final do texto.

As instituições importam, também para a filosofia brasileira

Tiago Medeiros

Em momentos distintos do século passado, o slogan “instituições importam” foi pintado nas fachadas dos departamentos de economia, sociologia e história, sobretudo nos Estados Unidos e na França. Esse dizer revelava a coincidência de terem aquelas ciências percebido que suas atividades teóricas e aplicadas não precisavam — e nem deveriam — permanecer restritas a uma performance de foco e desfoco nas noções de estrutura e agente, em que, ao se conferir nitidez a uma, turvava-se a imagem da outra e vice-versa. Celebraram os cultores das ciências sociais e das humanidades o acesso a dispositivos simultaneamente constituintes das estruturas sociais e padronizadores das ações individuais, dispositivos esses irredutíveis a quaisquer daquelas categorias. Estando sujeitas a mudanças que redefinem a forma das estruturas ou a conduta dos agentes, e expressando as regras que dão conteúdo às interações, as instituições cumpririam o papel de mediar e plasmar a vida social. A sensibilidade a esse papel, sumarizada no slogan institutionsmatter, fez prosperarem os movimentos ou correntes autonomeados institucionalismos.

Na filosofia, contudo, o institucionalismo não reverberou com a mesma consistência, figurando a temática das instituições apenas episodicamente nos textos de uns poucos interessados. Talvez, o modo como aquelas ciências conduziram o debate, muito voltado a questiúnculas sem abrangência, e muito mais interessado na análise institucional do que na crítica e na reconstrução das instituições, tenha espantado os filósofos do mainstream institucionalista. Apesar disso, não são poucos e nem secundários os pensadores que, desde Hobbes (com destaque para Montesquieu e Hegel), especularam sobre a natureza das instituições, sobre a predisposição humana a formá-las e conservá-las, sobre o que confere a elas necessidade ou, ao contrário, sobre o que atribui a elas contingência.

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RAHEL JAEGGI E O FIM DA TEORIA CRÍTICA ALEMÃ

José Crisóstomo de Souza
GT Poética Pragmática

O título quer evocar a narrativa de Engels, “Feurbach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã”, onde a palavra Ausgang, fim, pode ser também resultado ou saída. Nessa narrativa, Feuerbach representa uma ruptura incompleta com limites da filosofia anterior, v.g. Hegel, enquanto o materialismo marxiano aparece como sua completa superação. Engels define assim, a seu gosto mas plausivelmente, o que é Marx com relação a Hegel e Feuerbach, e vice-versa. Decretando ao mesmo tempo a exaustão do paradigma filosófico anterior, idealista, que, entretanto, reconstruído em versão naturalizada à-la séc. XIX, seguiu em frente, justamente com Marx, séc. XX adentro, inclusive como Teoria Crítica. Na sequência de duas colunas Anpof anteriores, (1) este texto quer fazer coisa análoga, levando adiante o mesmo desenvolvimento, a outro fim, que supere o próprio Marx; embora ciente de que narrativas são uma maneira de articular opções filosóficas, que não dispensa sua análise sistemática. 

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Filósofos racistas

Douglas Lisboa Santos de Jesus
Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFBA

O verbo de 2020 é cancelar. Qualquer pessoa que não pertença a grupos historicamente marginalizados ou oprimidos e que faça ou fale algo que possa ser interpretado como uma ofensa a esses grupos, é cancelada. É um tipo de linchamento — um linchamento intelectual. Isso aconteceu há pouco com David Hume. A Universidade de Edimburgo revogou uma homenagem a ele porque pessoas — quais? — não estavam mais confortáveis com um filósofo racista. Como se nota, o cancelamento é paternalista. Nesse caso específico, o cancelamento impede o debate franco e aberto sobre a participação de filósofos na elaboração de teorias racistas. Sugiro que sigamos na direção oposta.

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A área Ensino de Filosofia nos cursos de licenciatura em Filosofia: um estudo preliminar (1)

Dr. Christian Lindberg L. do Nascimento (2)

Os pesquisadores em Ensino de Filosofia não sabem, do ponto de vista da estrutura acadêmica brasileira, seu verdadeiro local. Em alguns casos, são lotados nos Departamentos de Filosofia, em outros, no Departamento de Educação ou similares. Como se sabe, no âmbito das linhas de pesquisa da CAPES, ela não figura na área Filosofia, muito menos na Educação. Esta situação impacta na identidade da área de conhecimento Ensino de Filosofia.

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Estamos imunes ao autoritarismo? Notas sobre o ensino de filosofia

 
Frederik Moreira dos Santos –
Docente da UFRB/CETENS – Licenciatura em Educação do Campo
Doutor em Ensino, Filosofia e História das Ciências pelo PPGEFHC-UFBA/UEFS
Membro do Centro de Estudos de Dewey e Pragmatismo, e do Grupo de Pesquisa
Poética Pragmática – UFBA

 

Estamos vivendo tempos de tensões provavelmente irreversíveis entre modos de vida social. De um lado grupos querendo polarizar o debate político e, de outro, grupos buscam ser ouvidos para que suas subjetividades na forma de ser e agir possam ser garantidas. Tal debate sugou o interesse na construção de políticas públicas educacionais que impactam a própria política escolar. Um exemplo recente deste tipo de cooptação foi o projeto político-educacional chamado: Escola Sem Partido. Discutirei duas principais questões nesta apresentação: 1) O conflito de crenças, na educação filosófica, seriam uma barreira para a sua aprendizagem? 2) Quais mudanças cognitivas poderíamos esperar? Mostrarei que apesar do problema da mudança de crença, na construção de conhecimento, não adquirir tanta relevância na aula de filosofia, o fantasma da mentalidade autoritária (TEIXEIRA, POLO 1975; LIMA et al. 2020) assombra o avanço da troca intelectual interdisciplinar. Defenderei que este fantasma é que deveria ser o alvo, de qualquer política educacional, para ser exorcizado.

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PAUTAS IDENTITÁRIAS, IGNORÂNCIA BRANCA E O DIABO MORA NOS DETALHES

Rogério Saucedo Corrêa 1

 Em "A importância das questões identitárias", Érico Andrade responde ao texto "Irracionalismos identitários", de Rogério Severo. Este reclama que a discussão atual sobre questões identitárias incorre em duas bizarrices decorrentes da mudança do significado antigo para o significado novo da palavra “racismo”. O antigo é aquele que todos nós entendemos, usamos e que está tanto nos dicionários quanto na Constituição da República Federativa do Brasil. O novo é o conceito descritivo de racismo epistêmico.

Por um lado, essa mudança implica um irracionalismo, pois, dado o significado descritivo, alguém como Martin Luther King, que era um antirracista, nos dias de hoje poderia ser considerado um racista, uma vez que em seu famoso discurso ele pede que os afro-americanos sejam julgados pelo seu caráter e não pela cor de sua pele. Por outro lado, a sobreposição dos dois significados de racismo implica em uma postura semirreligiosa. Se sobreponho o conceito descritivo ao normativo e condeno moralmente todo e qualquer indivíduo, ainda que ele não tenha cometido nenhum ato ou defendido qualquer crença moralmente condenável, cometo um erro inferencial, pois parto de um conceito descritivo para outro normativo. O exemplo paradigmático desse erro é Djamila Ribeiro. A postura é semirreligiosa, porque, dado o erro inferencial, sou levado a considerar toda e qualquer pessoa que nasce em uma sociedade estruturalmente racista como herdeira de um pecado original, o racismo.

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Para as novidades envelhecidas a respeito do pragmatismo – vamos dar à Wesen, ciao.

Cassiano Terra Rodrigues - Professor do IEFH-ITA
Membro do Centro de Estudos de Pragmatismo – PUC-SP

Não é de hoje que se defende que Nietzsche teria antecipado o pragmatismo antes dos pragmatistas estadunidenses. Ao menos no Brasil, Scarlett Marton há décadas defendeu o argumento (2006). Recentemente, nesta coluna, André Itaparica retornou ao assunto. Logo após ler o texto do prof. Itaparica, comentei nas minhas redes digitais: se incluído o velho Peirce no debate, essa afirmação não se sustenta. A conversa rendeu e, após intervenções do próprio prof. Itaparica e dos profs. José Crisóstomo de Souza, Fernando de Moraes Barros e Renato Rodrigues Kinouchi, resolvi escrever este texto.

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Coluna Anpof - Homenagem "RECORDANDO O VALÉRIO: Um retrato fragmentário" Prof. Dr. Álvaro L. M. Valls

Álvaro L. M. Valls (UNISINOS/CNPq; ex-UFRGS)

 

1. Ao analisar minuciosamente, em sua obra monumental, a Filosofia no Brasil (UNESP, 2017), o professor Ivan Domingues, da UFMG, após 400 páginas, chega à seguinte observação:

Em todo campo intelectual e respeitante ao seu conjunto, prevalece no Brasil, à diferença dos Estados Unidos, a indiferença a e a pouca disposição de celebrar as obras e os vultos, que se vão, e não proporcionando a quem lhe consagra toda uma vida, diferentemente das artes, a menor esperança de ter seu feito lembrado, e menos ainda depois de morto (DOMINGUES, p. 403. Grifos ALMV.)

2. É verdade que, ao se referir ao período dos 50 anos mais recentes, Ivan quer atentar ao “conjunto da obra”, dado que para a nossa filosofia mais atual, tal como para a literatura, não seriam os autores o que interessa, “e muito menos autores sem obras e mestres sem discípulos, embora a realidade por toda parte esteja cheia deles” (id., p. 431). Ora, quem conheceu o Valério Rohden já sabe que esta última frase não se aplicaria a ele, autor de grandes obras e mestre dedicado, que formou bons e produtivos discípulos, entre outros: Udo Mösburger, que o ajudou a traduzir a Crítica da Razão Pura, e Delamar Volpato Dutra, que se doutorou sob sua orientação e se encarregou de escrever sobre ele e sua obra, há dez anos, quando Valério faleceu no dia 19 de setembro de 2010 (bastando uma rápida consulta ao Google para ler seu belo artigo e obter uma ideia da grandeza e da importância do professor Valério).

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Uma Agenda para a Filosofia no Brasil - Horizonte de um Projeto Coletivo

Profs. Ivan Domingues (UFMG) e Luis Fellipe Garcia(UFMG)

Uma questão que acompanha reflexão filosófica desde os seus primórdios é: o que é a filosofia? Desde a filosofia antiga, quando se contrapunha uma concepção de filosofia ligada à contemplação do ser a uma ideia de filosofia como modo de vida, discute-se em que consiste essa prática à qual consagramos nossas energias intelectuais e vitais. Seja contemplação ou modo de vida, a filosofia é certamente um acontecimento cultural fruto da circulação e diversidade de ideias, como o atesta a sua origem no Mediterrâneo, onde estímulos intelectuais de três continentes transitavam promovendo o encontro de ideias oriundas do oeste asiático, do Egito e da Grécia. Em um mundo como o de hoje, onde pensamentos das mais diferentes origens têm circulado cada vez mais e se mostrado sempre mais presentes no horizonte de produção do saber, a filosofia inicia, por toda parte, um processo pelo qual ela se debruça mais sistematicamente sobre essa realidade intercultural.

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Ações afirmativas e cotas: as peças se movem no tabuleiro

Prof. Dr. Fernando de Sá Moreira

Há quase duas décadas, as ações afirmativas se tornavam uma grande questão de debate público no país, em especial quando se apresentaram na forma de cotas étnico-raciais de acesso à graduação nas universidades estaduais e federais. É verdade que debates sobre elas já existiam. A depender da definição, é possível encontrar propostas de descriminação positiva no Brasil desde, no mínimo, o abolicionismo do século 19. No entanto, o nível de atenção pública atingido pelo tema nos primeiros anos do século 21 foi inédito.

De acordo com um estudo de 2015 dos pesquisadores João Feres Júnior e Verônica Toste Daflon, considerando apenas os jornais O Globo e Folha de S. Paulo, foram publicadas mais de duas mil matérias sobre ações afirmativas entre 2001 e 2012. Esse surto de interesse foi claramente motivado inicialmente pela implantação de cotas sociais e raciais expressivas na UERJ, UENF, UNEB e UnB; e, posteriormente, pelas demais políticas afirmativas em mais de 120 universidades e institutos federais pelo país.

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