Diretrizes para a Coluna Anpof

A Coluna Anpof tem como objetivo a publicação de textos inéditos produzidos pela comunidade filosófica que, além de dar visibilidade às pesquisas realizadas nas mais diversas áreas, busquem dialogar com questões contemporâneas a fim de contribuir para o debate público.

Serão avaliados textos inéditos em língua portuguesa com extensão entre 500 e 1500 palavras. Ocasionalmente, os textos submetidos à Coluna Anpof podem ser divulgados, com a permissão dos autores, em veículos da imprensa nacional.

Os textos podem ser submetidos pelo email: comunicacao@anpof.org.br, indicando no campo “assunto”: Submissão para a coluna anpof.

A filosofia como cuidado

Luís Fernando Crespo 1

 

 Viver um período de isolamento, por conta da pandemia do COVID-19, leva-nos a pensar a dimensão do cuidado de diferentes modos. Ao invés de um cuidado apenas individual, a humanidade é convocada para um cuidado coletivo – a ideia de que isolar-se não apenas implica cuidado de si, mas que inclui o cuidado do outro, é algo que, para algumas pessoas, não é de claro entendimento. Por isso é que medidas cada vez mais duras são tomadas pelos poderes constituídos com o intuito de fazer com que as pessoas deixem decircular e aguardem até que passe o momento crítico de contaminação. Não haveria necessidade de  instrumentos mais severos, caso as pessoas entendessem e assumissem a responsabilidade pelo cuidado. Parece faltar a própria consciência do cuidado.

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Quando a cor importa: o racismo estrutural na esquerda

Érico Andrade

 

Para João Pedro Matos Pinto

Os fascistas nunca esconderam o seu desejo pela punição da população negra. A famosa frase “bandido bom é bandido morto” tem endereço e cor. Esse texto não é para eles. Quem se coloca no lugar de julgar quem deve morrer e viver já abandonou qualquer resíduo disso que ainda chamamos de forma vaga de humanidade. O que pretendo entender é porque o campo da esquerda negligenciou por tanto tempo a questão da segurança pública responsável por chacinar vários negros e negras por todo país.

A minha hipótese não se pavimenta pelo caminho mais óbvio. De fato, os campos progressistas sempre entenderam, com razão, que a violência está relacionada à desigualdade econômica. Que era preciso colocar no centro da discussão sobre a violência o combate à desigualdade. Meu ponto, contudo, não é esse. A questão que levanto, e que é inspirada no questionamento do deputado Federal do PSOL RJ Marcelo Freixo, é por que entregamos à direita o monopólio sobre a discussão a respeito da atuação da polícia. Eu tenho um palpite. Racismo.

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O riso do inferno

Por Vilmar Debona

 

Alegria maligna! Poucas palavras expressariam os deboches, as gargalhadas e as agendas de lazer não canceladas do Chefe de Estado brasileiro ante os milhares de mortos pela COVID-19. Um dos últimos exemplos foi seu passeio de jet ski no dia em que o número de vítimas fatais passou de 10 mil. É certo que palavras não estão dando conta do Brasil de 2020, mas alegria maligna continua uma expressão apropriada.

Imagens de vastos terrenos retalhados por covas para cadáveres da pandemia não são as mais funestas. Nosso pandemônio tropical insiste em ser particular. Em lugar do luto, a imagem do riso medonho do Presidente, em lazer num clube de tiros; um anúncio de churrasco e festa no Palácio do Alvorada, posteriormente cancelado e chamado de “brincadeira”; as gargalhadas de puro deboche maldoso da secretária de Cultura naquela tentativa de entrevista.

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Dialética e política Em memória de Ruy Fausto

Rodnei Nascimento
Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de São Paulo.

 

Autor de uma obra incontornável sobre o pensamento de Marx e o significado da dialética em geral, faleceu, no último dia primeiro de maio, o filósofo e professor Ruy Fausto, aos 85 anos de idade. Em plena atividade intelectual e política, estava envolvido com uma releitura intensa das obras de Adorno sobre quem planejava publicar um novo livro. No plano prático, acabara de lançar junto com alguns colegas a revista Rosa, que se seguiu à revista Fevereiro - ele era bom com esses títulos - ambas dedicadas à intervenção no debate teórico e política de esquerda. Com espírito sempre jovem e entusiasmado com os novos projetos, foi entretanto pego de surpresa por uma parada cardíaca quando se encontrava em seu apartamento, na cidade de Paris, onde vivia desde o início dos anos 70.

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“Eu não sou racista” – O uso falacioso de estereótipos sobre racistas: observações a partir de um caso concreto

Fernando de Sá Moreira 
Professor Adjunto de Filosofia da Educação do Departamento de
Fundamentos Pedagógicos (SFP/FEUFF)
Universidade Federal Fluminense (UFF)

 

No início de abril de 2020, o Ministro da Educação do Brasil, Abraham Weintraub, publicou um tuíte no qual usava o personagem Cebolinha, da Turma da Mônica, para satirizar a China e levantar suspeitas quanto a um suposto "plano para dominar o mundo". Na postagem, ele explorava a dificuldade de pronúncia do som de “R” que muitos chineses apresentam ao falar português, pronunciando-o como “L”. Trata-se da mesma dificuldade apresentada pelo personagem de Maurício de Sousa.

Essa é uma "piada" cansativa e repetitiva, que pode ser enquadrada em uma modalidade de preconceito e discriminação conhecida como “racismo recreativo”. Asiáticos são constantemente estereotipados a partir dessa “brincadeira”. Na verdade, mesmo brasileiros de ascendência asiática, cuja língua nativa é português, são caracterizados como “satirizáveis” a partir de estereótipos raciais tais como o explorado pelo ministro.

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O Covid-19 no Brasil e a Filosofia: O Horror Chegou, Onde Estão Os Intelectuais?

Hilton Leal da Cruz 1

Recentemente pudemos acompanhar uma calorosa polêmica em torno das declarações do conhecido filósofo Agamben acerca da pandemia provocada pelo vírus Covid-19. Minha própria posição em relação às declarações a que faço referência consiste, abreviadamente, nos seguintes pontos: 1- Já faz muito tempo que a filosofia, como disciplina estritamente teórica, tem perdido progressivamente sua capacidade de dialogar com as demais esferas da cultura; me refiro pontualmente à arte e à política. 2- Como consequência desse afastamento a nossa formação, na melhor das hipóteses, nos tem tornado incapazes de fazer frente aos desafios de nosso tempo. Pior ainda, acontece que, em certas situações, quando não nos mantemos reclusos nos nossos respectivos círculos de iniciados e pretendemos falar ao grande público sobre questões de interesse coletivo o temos feito através de discursos que transitam entre o delírio e a irresponsabilidade. Diversos filósofos, de diferentes países e tradições têm, de formas diversas, apontado essas e outras tantas deformações do discurso filosófico contemporâneo, mas, pela limitação do espaço, não vou comentá-los. No texto que segue, eu apenas tento contribuir com o trabalho desses autores; trabalho esse que entendo como um esforço de autocrítica do discurso filosófico tendo em vista a sua responsabilidade frente à esfera pública.

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RAHEL JAEGGI E A RECONSTRUÇÃO PRAGMATISTA DA TEORIA CRÍTICA

José Crisóstomo de Souza 1

 

A Teoria Crítica, aqui apenas um outro nome para Escola de Frankfurt, sofreu uma verdadeira revolução com o desenvolvimento do pensamento de Jürgen Habermas. Inicialmente uma complementação de Marx por Freud, e um retorno a Hegel como dialética radicalmente negativa e totalizante, a Teoria Crítica deixou, com Habermas, de ser o marxismo cultural, intelectual, absolutamente negativo, anti-moderno, da primeira geração, de Adorno e Horkheimer, para se reconciliar, em termos político-ideológicos, com os ganhos democrático-liberais da Modernidade, e contribuir para aprofundá-los. Em termos filosóficos, por via da superação de uma razão autoritária, monológica, centrada no sujeito, bem como do modelo das filosofias da consciência, entre as quais, paradoxalmente, está o próprio paradigma da produção, de Marx. Tais modos de pensamento são substituídos em Habermas pelo paradigma de uma razão socializada, provedora de uma normatividade democrática baseada em idealizações tácitas, encontradas na própria prática regular da interação discursiva.

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A “pandemia dos números” e a temporalidade na experiência do isolamento social

Carlos Diógenes Côrtes Tourinho
Professor do Departamento de Filosofia e
do Programa de Pós-Graduação em
Filosofia da UFF

 

Na experiência do isolamento social, o caráter vertiginoso dos números da pandemia no Brasil e no mundo coloca-nos, continuamente, de um modo um tanto quanto peculiar se compararmos com a nossa vida habitual pré-pandêmica, face a tabelas, gráficos, estudos de projeções relacionados à expansão da doença, bem como frente aos efeitos econômicos e políticos resultantes deste crescimento em diferentes escalas. Retornamos, diariamente, confinados à limitação do espaço de nossas residências, aos números da pandemia, na expectativa de delinear algo sobre um futuro iminente, um tanto quanto nebuloso para cada um de nós. A analogia com o número assume, pela excepcionalidade do momento, contornos mais realçados e, por conseguinte, mais do que o habitual, somos recolocados em um registro no qual somos impelidos à apreciação e, sobretudo, diferenciação do fenômeno da COVID19 quase que ostensivamente em termos “numéricos”. E para além do sentido literal de se tomar algo nos referidos termos, a apreciação numérica supõe um sentido da nossa relação com o espaço, não deixando, contudo, de mexer com a nossa temporalidade. Afinal, sentimos, por vezes, durante a experiência do isolamento social, como se os dias fossem “todos iguais”. A compreensão deste sentimento exige-nos, antes, que consideremos o tratamento numérico e a relação com o espaço que ele supõe.

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O cansaço da filosofia

Roan Costa Cordeiro 1

 

A impotência do discurso filosófico já foi denunciada tantas vezes que até nos cansamos. Mas, assim como a metafísica que se evola da Tabacaria, tal denúncia, na verdade, “é uma consequência de estar mal disposto”. Mais vale arrumar a mala. Na onda de outros que o disseram antes, vale afirmar que nosso problema consiste na incapacidade de pensar o presente, ou melhor, de pensar os eventos que se chocam sobre nós e com os quais pouco nos chocamos. Sim, disto o discurso filosófico pode ser acusado: de fazer com que não nos dediquemos com zelo ao tempo da irrupção, de não contribuir para nos debruçarmos, quietamente, sobre as dores e os prazeres dos dias: deste dia – de um dia.

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AS FALÁCIAS DO HOMO ECONOMICUS EM TEMPOS DE PANDEMIA (1)

Prof. Dr .Castor M.M. Bartolomé Ruiz
Professor Titular do Programa de Pós-Graduação Filosofia –
Coordenador Cátedra Unesco-Unisinos de Direitos Humanos e violência, governo e governança
Coordenador Grupo de Pesquisa CNPq Ética, biopolítica e alteridade

 

Esta pandemia do coronavirus está colocando a humanidade perante muitos desafios, porém, entre eles, talvez estejamos sendo testemunhas de uma grande crise civilizatória que está fazendo tremer os alicerces estruturais e culturais construídos pelo capitalismo nos últimos quatro séculos. Este modelo impôs a cultura do homo economicus como uma espécie de nova religião naturalizada. A cultura do homo economicus, muito mais que um projeto econômico ou político, tornou-se um modo de subjetivação através do qual as atuais gerações globalizam a cultura da mercantilização da vida e a descartabilidade econômica de tudo que se toca.

A pandemia mostrou a crua nudez das falácias do discurso do homo economicus, que foram ensinadas e impostas como verdades naturais do modelo neoliberal de vida. De outro lado, a imprevisibilidade do evento pandêmico abre uma nova temporalidade, quase messiânica na leitura benjaminiana, em que, de repente, todo que era sólido se desmancha no ar e irrompem novas oportunidades para pensar outras formas-de-vida. O novo, que sempre estar por vir, depende, inicialmente, da nossa capacidade de nos desfazer dos odres velhos que azedam a vida no planeta.

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