Um cético em busca da verdade

Michel Ghins
Professor Emérito da Universidade Católica de Louvain
Professor no Departamento de Filosofia da UNICAMP de 1983 a 1991
Membro do CLE desde 1993

Pegadas sobre a praia se apagam pouco a pouco à medida que se aproximam da linha branca e longínqua das ondas. O céu é rutilante, vermelho e claro ao mesmo tempo. Desse crepúsculo incandescente – ou seria da aurora? –, destaca-se, nítido, um nome: Oswaldo Porchat.

A capa de Rumo ao ceticismo oferece-nos uma viva evocação do itinerário filosófico de Porchat, partindo do “homem comum” ao qual ele se identifica inicialmente para progredir na via do conhecimento. Reside aí um paradoxo, pois ele era manifestamente dotado de qualidades humanas e intelectuais fora do comum? Sem dúvida, mas esse paradoxo é apenas aparente, pois o philósophos deve, em primeiro lugar, ter a sabedoria de reconhecer que ele é um homem semelhante aos demais, com suas crenças que lhe permitem orientar-se e agir na vida ordinária.

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O Sagitário da Filosofia Brasileira (sobre Oswaldo Porchat)

Prof. Dr. Marcelo Carvalho (UNIFESP)

 

A filosofia brasileira, sobretudo a paulista, por muito tempo pensou a si própria a partir do mito de que o trabalho rigoroso de leitura de texto, a leitura estrutural ensinada pelos franceses, era incompatível com a construção viva e atual da filosofia. Não é raro que se encontre a afirmação de que esse trabalho rigoroso sobre o texto estaria na origem de uma certa inapetência da filosofia (paulista!) para a polêmica aberta e para a elaboração sobre questões contemporâneas.

Os dois lados dessa suposta dicotomia foram apresentados a mim simultaneamente em 1989, no segundo ano de minha graduação. Ambos compunham a figura insólita de Oswaldo Porchat, ao mesmo tempo arauto do rigor na leitura dos textos (tradutor, com Ieda, do ensaio metodológico de V. Goldschmidt), e argumentador incansável sobre os mais diversos temas contemporâneos, autor de um projeto filosófico próprio, firmemente voltado a pensar a filosofia a partir de sua própria experiência. Tive a oportunidade de falar a Porchat sobre o impacto que teve sobre mim aquela dupla provocação, apresentada sem contradição, como dois lados de uma mesma moeda, duas partes da mesma aula. Porchat foi a maior influência em meus anos de formação. Suas aulas da graduação sobre ceticismo grego redirecionaram meus interesses e definiram minha maneira de trabalhar com filosofia. Aprendi, a partir daquele encontro, a me dedicar à estruturação minuciosa do que lia, a procurar o vento e o relevo interno ao texto, que determinava seu curso. Mas aprendi sobretudo a entrar de imediato em debate com esse mesmo texto, a apropriar-me dele e combatê-lo, a atualizá-lo e questioná-lo.

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Homenagem a Porchat - Uma amizade filosófica

Prof. Dr. Bento Prado Neto - UFSCar

 

Em primeiro lugar, eu gostaria de agradecer o convite para contribuir para essa homenagem a Oswaldo Porchat – é um enorme prazer, e uma honra. Tenho, creio eu, uma dupla qualificação para tanto: de um lado, sou aluno e orientando de Porchat, de outro, sou filho do Bento, que foi um interlocutor privilegiado de Porchat. Como aluno e orientando, eu poderia testemunhar a enorme lista de qualidades de Porchat: o professor incomparável (um tanto severo, mas sempre extremamente cordial), o professor que, sem abrir mão da mais aguçada fineza historiográfica, abre espaço para – ou antes exige – a reflexão pessoal (cobrando, além disso, dos alunos o máximo de coerência e clareza argumentativas); o orientador exemplar, o orientador que não dá trégua ao orientando, ao mesmo tempo em que o estimula a pensar por conta própria... A lista de qualidades seria longa e, como lista, como mera lista, seria fastidiosa - e, por ser longa, eu acabaria me esquecendo de algumas no entanto importantes. Meus colegas desta homenagem percorreram esses temas, ao mesmo tempo em que enfocaram as várias facetas de Oswaldo Porchat, facetas que vão muito além do trabalho de ensino e orientação (sua produção como historiador da filosofia, como filósofo, seu papel crucial na organização institucional do trabalho filosófico no Brasil, etc, etc). Vou me ater a um aspecto em que Porchat foi particularmente fundamental para a minha formação, mas que creio ser igualmente relevante para todos.

Refiro-me à amizade entre Porchat e Bento – enquanto “amizade filosófica”, como uma vez caracterizou o Plínio – amizade que acabou definindo um pouco para mim as feições que se deveria atribuir à atividade filosófica. Por me faltar engenho e arte, não vou procurar oferecer um retrato bem acabado dessa amizade (seria um prato cheio para um bom retratista, dada a sua riqueza, interesse e também seus lados divertidos); vou apenas evocar um traço, que me marcou especialmente.

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Em Memória do nosso querido Oswaldo Porchat

Prof. Dr Roberto Horácio de Sá Pereira

 

É difícil para cada um de nós que o conheceu pessoalmente descrever a figura extraordinária que foi Oswaldo Porchat.

Eu o conheci em meados de 1994 por ocasião de um congresso em Florianópolis sobre ceticismo (do qual também participavam o saudoso professor Ezequiel Olaso e vários colegas discípulos e ex-alunos do nosso querido Porchat). Eu acabara de retornar da Alemanha com uma tese escrita sobre ceticismo e estava inteiramente deslocado no Brasil. Sentia-me me mais estrangeiro no meu próprio país do que no exterior. O ambiente no IFCS/UFRJ era o pior possível: havia uma guerra fria entre diversos grupos, quase todos movidos pelos dois piores vícios filosóficos: a arrogância, por um lado, e o ressentimento, por outro. Hoje, refletindo retrospectivamente sobre o meu passado, faço a minha autocrítica: em muito contribui para aquele antagonismo sem sentido. Oswaldo Porchat certamente muito contribuiu para a minha auto-crítica.

Como de hábito, perdi o primeiro voo para Florianópolis, chegando ao local do encontro quando todos já almoçavam. Recordo-me de que me aproximei à mesa meio sem-graça onde todos comiam e conversavam descontraidamente, tendo reconhecido ali apenas o professor Danilo Marcondes. Foi quando o Porchat, ao me perceber se aproximar, levantou-se e veio ao meu encontro se apresentar e me apresentar ao grupo todo. Nunca tive experiência igual de acolhimento. De imediato percebi de que eu estava diante de uma pessoa realmente especial, ímpar em todos os aspectos. Percebi naquele gesto simples todas grandes virtudes de um grande mestre: simplicidade, generosidade e afetuosidade e acolhimento.

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AS VIRTUDES DO CÉTICO - Homenagem ao professor Oswaldo Porchat

Pro. Dr. Waldomiro J. Silva Filho (UFBA, CNPq)

 

Foi em uma manhã qualquer de setembro de 2010. O telefone tocou sem insistência ou urgência. Era um dia agradável, luminoso, com a brisa peculiar aos setembros em Salvador. Do outro lado, aquela voz poderosa e cerimoniosa. Porchat soubera por alguém que eu tinha retornado de um longo período no exterior e queria notícias. Havia mais de um ano que não nos falávamos. Contei-lhe sobre minha viagem de modo direto, sem rodeios: passei um período em uma excelente universidade, um dos melhores departamentos de filosofia do mundo, mas eu me sentia destroçado por dentro, pois estava claro para mim que, ou eu realmente não tinha qualquer talento para a filosofia, ou a filosofia não poderia me oferecer o que eu estava procurando – o fato é que não alcancei e não tinha qualquer esperança em alcançar algum conhecimento ou sabedoria ou tranquilidade da alma. Não era um lamento, mas eu me sentia seguro para falar de modo sincero com ele.

Porchat me ouvia em silêncio. Talvez por educação, ele me falou que esse sentimento já lhe ocorrera. Logo depois, num tom surpreendentemente grave, Porchat antecipou que o que estava para me dizer, com certeza, iria me decepcionar. Ele se descobrira um cético rústico. A conversa seguiu num ritmo amistoso, bem-humorado, mas avançava por um terreno realmente profundo e áspero da filosofia, com seus aspectos exegéticos, técnicos. Para mim era surpreendente que alguém como Porchat pudesse dar ouvidos às minhas aflições intelectuais e, no mesmo passo, partilhar comigo suas ideias.

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Homenagem a Oswaldo Porchat - Prof. Dr. Roberto Bolzani

 

A primeira vez em que falei com Oswaldo Porchat foi ao telefone, de um orelhão. Eu estava terminando minha graduação de Filosofia na USP e pretendia fazer Mestrado sobre algum tema em Platão, meu filósofo favorito. Nesse momento, primeiro semestre de 1985, soube que Porchat voltaria ao Departamento, vindo da UNICAMP. Eu havia assistido a uma conferência feita por ele em meu ano de ingresso no curso, 1980, ou no ano seguinte. E, mais importante, adquirira um fino volume de artigos publicado pela Brasiliense, intitulado A filosofia e a visão comum do mundo, contendo artigos dele, de Bento Prado e Tércio Ferraz. Não me lembro exatamente em que momento de minha graduação li esses artigos, especialmente “O conflito das filosofias”, “Prefácio a uma filosofia” e o artigo que dá o título ao volume, de Porchat, e “Por que rir da filosofia”, de Bento, mas nunca me esqueci do notável efeito que produziram em mim. Hoje, passados mais de trinta anos, sinto-me mais capaz de expressar o que sentia então: estavam ali dois exemplos paradigmáticos de algo que, mais tarde também entendi, me fascinava em Platão, uma aliança bem-sucedida entre profundidade de reflexão e escrita primorosa. Aqueles textos, junto com alguns artigos de Gérard Lebrun, me convenciam de que a Filosofia estava viva, de que ainda era possível pensar com o vigor e a originalidade que eu podia observar nas várias filosofias que conheci nos bancos da escola, e isso, no caso dos dois, em Português. Graças a eles, minha trajetória de estudante, que julgo nunca ter terminado, percorreu-se com um prazer que provavelmente não existiria sem eles.

No texto de Bento eu encontrava um contraponto aos de Porchat. Com Bento, eu deparava com uma concepção de reflexão filosófica antes ensaística do que sistemática, que parecia recusar a ideia de que a filosofia se define exclusivamente pela racionalidade clássica e que, por isso, atenuava em mim os resultados da poderosa força argumentativa presente nos artigos de Porchat e a concepção de Verdade que os fundamentava. Impressionava-me, ao mesmo tempo, o modo como Porchat mobilizara o argumento do “conflito das filosofias”, conjugando-o com os pressupostos filosóficos do assim chamado método estrutural de análise. A escrita fluente – diferente da de Bento, mas não menos cativante – ia desenvolvendo com clareza impressionante uma argumentação impecável, que concluía, sem inibições, pelo abandono da filosofia – um abandono profundamente filosófico, ao mesmo tempo racional e dramático. Contudo, nos artigos seguintes, tal exercício argumentativo se veria acompanhado do tom confessional, da ideia de filosofia como discurso em primeira pessoa, consciente de seus limites humanos e precários, mas que proporcionava um retorno àquela filosofia antes abandonada e agora repensada. Esses artigos de Porchat, agora eu sei, me encantavam porque dialogavam com a tradição mais remota da filosofia, adotando suas exigências mais características de racionalidade, ao mesmo tempo em que incorporavam a elas o elogio das verdades da vida de todos os homens, a chamada vida comum. Reunidos ao ensaio de Bento, eles me causaram, com o tempo, a impressão de que a filosofia, afinal, se vê necessariamente diante do desafio metafilosófico de pensar sobre si mesma. Sem o pretenderem, esses dois pensadores brasileiros me conduziram por esse caminho que, desajeitadamente, continuo tentando trilhar.

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Agamben e “o que é a filosofia?” Ajuda italiana para o feminismo e toda a filosofia social

Prof. Dr. Paulo Ghiraldelli

Se Judith Butler ler o último livro de Agamben, O que é filosofia? (1) ela pode encontrar resposta para as questões que fez no início dos anos noventa, e que acreditou serem impossíveis de responder. 

Na época, levando em conta a literatura feminista já existente, e defendendo a ideia de que a nossa linguagem constrói o gênero, o sexo e, enfim, até mesmo o corpo, não sabia dizer se havia ou não alguma coisa prévia à linguagem, sobre a qual esta atuaria para fazer aquilo que nos aparece feito. Haveria ou não uma “materialidade”, uma espécie de pré-corpo, que iria se transformar, pelos “discursos” (Foucault) ou pela “ressignificação” (Derrida) ou pela “interpelação” (Althusser) no corpo? Apesar de não negar a “materialidade” prévia do corpo (algo que se espetado flui sangue, algo que é machucado etc), ela preferiu assumir que uma tal questão, no limite, não poderia ser de fato respondida.

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Para ler Butler como alvo e pensadora dos discursos de ódio

Carla Rodrigues (UFRJ), Susana de Castro (UFRJ), Marília Pisani (UFABC), Fabio
A. G. Oliveira (UFF), Príscila Teixeira (UFRJ), Valéria Wilke (UNIRIO), Izilda
Johanson (UNIFESP) integrantes do GT Filosofia e Gênero

 

Quando, em 1997, a filósofa Judith Butler publicou Excitable speach, ainda estava desdobrando algumas ideias centrais discutidas em Gender Trouble, livro de 1990, aqui traduzido por Problemas de gênero apenas em 2003. Nesse espaço temporal que separam a primeira edição norte-americana – há uma segunda edição de 1999 com nova introdução em que a autora revisita a própria obra –, a produção intelectual de Butler se deu em função de críticas e debates surgidos a partir de propostas apresentadas no seu primeiro livro. Foi assim com Bodies that’s matter (1993), com The Psychic Life of Power: Theories in Subjection (1997) – cuja tradução brasileira chega em breve às livrarias como A vida psíquica do poder: teorias da sujeição, mais um título da coleção filosófica da Autêntica –, e com Excitable Speech: A Politics of the Performative, infelizmente ainda sem edição brasileira. Suas ideias nesse livro são de grande ajuda, inclusive para a compreensão do que consiste os discursos de ódio usados contra ela neste momento no Brasil.

Desde Gender Trouble, a filósofa estava se valendo da noção de performatividade da linguagem, tal qual proposta pelo linguista John Austin, para pensar a subversão da identidade, aqui entendida como uma dada construção social fundada num substrato natural, o sexo anatômico. Em outras palavras, ela apontava a insuficiência de pensar a diferença sexual apenas na chave do par sexo/gênero. Além de manter uma dualidade entre masculino e feminino, havia uma limitação política em pensar a diferença sexual numa abordagem binária, que constrangia o debate numa chave teórica de reprodução da heteronormatividade. É nesse sentido que Butler propõe pluralizar as dimensões narrativas – conjunto de práticas e discursos – que se impõem sobre os corpos. Desta pluralização, a possibilidade de reinvenção contínua torna possível visualizar as dimensões em que a heterossexualidade compulsória atuam. Trata-se, então, de abrir a possibilidade de produzir novos corpos, não apenas novos discursos.

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A FILOSOFIA DE PORCHAT: TECHNÉ, NEO-PIRRONISMO, PRAGMATISMO

Prof. Dr. José Crisóstomo de Souza

Durante seu percurso intelectual, Oswaldo Porchat Pereira veio a desenvolver, aos poucos, uma concepção filosófica própria, que chamou de neo-pirronismo, de ceticismo e – para neutralizar preconceitos – de “empirismo cético”. Antes de chegar a ela, porém, teve de se livrar, segundo ele nos conta, da “ideologia” da receita goldschmidtiana de filosofia que tão fervorosamente abraçara e pregara ao lado dos colegas de departamento. Pois, junto com o método, e embutido nele, o estruturalismo de Victor Goldschmidt passaria “uma filosofia sobre a história da filosofia”, e mesmo “uma filosofia sobre a filosofia” (2) – que permanece até hoje pouco tematizada entre nós e que bloquearia toda possibilidade de efetivamente fazermos filosofia. Gradualmente, Porchat passou a desencantar-se das perspectivas abertas – ou melhor, fechadas - ao trabalho propriamente filosófico, pelo goldschmitismo exclusivo, enquanto entrava em contato com o ceticismo grego, desafiador das pretensões da grande filosofia, de sistema.

Foi naquela conjuntura que, um tanto desencantado da filosofia, Porchat resolveu dedicar-se ao estudo da lógica formal. Foi então que saiu novamente do país (depois de sua formação goldschmidtiana na França), dessa vez para fazer na área de lógica um pós-doutorado de dois anos, de 1969 a 1970, na Universidade da Califórnia, Berkeley, com o professor Benson Mates. Bem mais adiante, em 1983, faria um outro pós-doutorado, dessa vez em Oxford, na Inglaterra, onde teve a experiência, marcante, de um modo vivo e discutido de fazer filosofia, baseado na argumentação própria sobre temas e problemas, em vez de voltado para a história da filosofia, muito menos para a exegese e o comentário estruturalista da obra dos filósofos canônicos, históricos. Esse contato com o modo anglo-saxônico de fazer filosofia, em universidades da Inglaterra e dos Estados Unidos, certamente contribuiu para mudar sua forma de encarar o trabalho na área, tanto no que diz respeito à pesquisa como ao ensino. Isso ainda que a forma que Porchat desenvolveu para essas coisas seja sua, resultado de um desenvolvimento próprio, no qual mantém-se ainda fiel ao modelo de leitura goldschmidtiana da obra filosófica, embora agora apenas como um “momento” do trabalho em filosofia.

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OPÇÕES REJEITADAS*

Roberto Mangabeira Unger
(Universidade de Harvard)

 

Despertamos num mundo particular: não apenas o mundo natural que habitamos, mas o mundo das instituições e práticas, incluindo as práticas discursivas, que avultam ao redor de nós. Para bem ou mal, estas práticas se situam entre nós e o quadro absoluto de referência, a visão do alto, o ponto de vista das estrelas.

No entanto, sempre nos experimentamos, enquanto indivíduos e em contato com os outros, como fontes de iniciativas capazes de resistir às estruturas estabelecidas de organização e crença. Qual deveria ser nossa atitude em relação a tais estruturas de organização e crença comum? Deveríamos nos render a elas e tentar tirar o melhor partindo delas, explorando, por todos os modos possíveis e pela luz que elas projetam, suas possibilidades ocultas de transformação? Ou deveríamos procurar estabelecer uma posição a partir da qual submetê-las a julgamento?

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Porchat e Abraham Lincoln

Harvey Brown 
Wolfson College, Universidade de Oxford
Membro de Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência, e do Departamento de
Filosofia da UNICAMP de 1978 a 1984.
 

Porchat deve ter se perguntado no que ele próprio tinha se metido. Ele me encontrou pela primeira vez no final de 1978 no dia em que me levou de Campinas para a UNICAMP para me apresentar o campus e meu novo escritório. Ele viu um homem alto, magricela e recém doutorado em Londres, o qual antes de pisar no Brasil tinha somente a mais vaga noção da diferença entre Brasil e Argentina e, dentro do Brasil, entre Campinas e Manaus, e que mal falava umas poucas palavras em português. Esse homem de olhos grandes, 28 anos de idade, de cabelos ruivos indomáveis e que se revelou mais jovem do que alguns de seus alunos, deveria dar um curso de pós-graduação em português em cinco meses. Se tinha alguma ansiedade sobre o novo recruta da UNICAMP, Porchat não o demonstrou.

Eu me perguntei no que eu mesmo tinha me metido. Fiquei impressionado com a aparência inusitada de um homem de boa constituição, perdendo os cabelos, com um amplo sorriso, alguma coisa parecida com uma barba no estilo do Abraham Lincoln e de óculos grandes e grossos como o fundo de uma garrafa de Coca-Cola. A gentileza e a bonomia de Porchat eram óbvias desde o princípio. Mas, depois de ter me levado ao banco no campus e de termos voltado a seu carro, ele parecia perplexo. Era esse o seu carro, ele se perguntava, ou ele tinha entrado sem querer no carro de outra pessoa? Demorou alguns minutos para decidir que esse era o seu carro. Fui acometido por uma sensação tênue de ansiedade. Esse homem atrapalhado seria o meu chefe!

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Porchat, a lógica e a verdade: Homenagem ao professor Oswaldo Porchat

Eduardo Barrio (UBA, Argentina)

 

Não me lembro exatamente da data em que conheci o querido Oswaldo Porchat. Eu sei que o privilégio de tê-lo conhecido e de ter trocado ideias filosóficas com ele deveu-se ao nosso amigo comum Plínio. Naquela época, e hoje pode parecer difícil de entender, os laços entre as comunidades filosóficas do Brasil e da Argentina não eram muito fortes. Como é habitual em nossos países, voltamos os olhares e a atenção filosófica quase que exclusivamente para a Europa ou para os EUA. Talvez também a barreira linguística tenha colaborado. Em qualquer caso, Porchat é uma figura fundamental nessa integração. Sem ele, a estrada percorrida teria sido completamente diferente.

Para aqueles de nós que conhecemos Porchat, é fácil lembrar sua paixão pela discussão filosófica e pela formação de comunidades de discussão como uma das suas principais características. O projeto de lançar as bases para construir uma grande comunidade filosófica brasileiro-argentina foi algo que o impactou desde o início. Juntamente com Ezequiel de Olaso e pensando sobretudo nos jovens e no futuro, ele trabalhou incansavelmente no projeto de criar algo que não existia. Há pessoas que têm a capacidade de antecipar o que está por vir e Porchat foi uma delas. Ele viu o que agora faz parte do nosso cotidiano: inúmeros colóquios, encontros, congressos, projetos, convites, discussões e trocas entre nós. E, claro, ele não ficou nessa visão: ele contribuiu decisivamente para fazer tudo isso acontecer.

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O legado de Porchat

Prof. Dr. Paulo Faria - UFRGS

Foi a mais completa reversão de expectativas. Por muito tempo ficamos nos perguntando o que acontecera.


Corria o ano de 1982. Eu havia ingressado na primeira turma do recém-inaugurado Mestrado em Filosofia da UFRGS, e Porchat foi convidado a proferir a aula inaugural do novo programa.


Eram os anos da ‘promoção filosófica da visão comum do mundo’. Porchat ainda não encontrara a via de conciliação com o ceticismo que passaria a explorar a partir de ‘Sobre o que aparece’ (1991).


Sua aula magna teve a limpidez de uma épura. A história da filosofia é a história do conflito das filosofias. O reconhecimento, penosamente conquistado, da indecidibilidade desse conflito convida à suspensão do juízo, mas essa só se consuma na renúncia completa à filosofia, que abre caminho para a redescoberta da vida comum e, finalmente, para a promoção filosófica da visão comum do mundo.

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Porchat e a lógica e filosofia analítica em São Paulo - Homenagem ao professor Oswaldo Porchat

Prof. Dr. Pablo Rubén Mariconda

 

Após a divulgação dos resultados do vestibular de 1968, fui à Rua Maria Antônia, onde então ficava o Departamento de Filosofia, para saber se tinha chance de conseguir fazer minha matrícula no curso. Na época, o vestibular não estava unificado (não existia a Fuvest) e os cursos realizavam suas próprias provas de ingresso; costumavam liberar as listas de todos os aprovados, mesmo que seu número ultrapassasse as vagas disponíveis, e isso gerava o que se chamava então de “excedentes” e um movimento pelo aumento de vagas na universidade pública. Eu era um deles, um dos quatro excedentes da Filosofia nesse ano. Subi ao segundo andar e numa porta com um pequeno guichê, que ficava junto à escada, pedi para falar com algum professor do departamento. Pouco depois apareceu um homem de compleição grande, alto, forte, usando um par de óculos de lentes grossas e esverdeadas, com uma barba preta notável que contornava todo o rosto mas o deixava praticamente todo a mostra; o cabelo era preto, curto e penteado para a frente. Cumprimentamo-nos, deu me a mão de maneira franca e antes que eu pudesse dizer a que vinha, adivinhando minha agitação e temores juvenis (eram épocas difíceis), foi logo anunciando que o Departamento de Filosofia não tinha excedentes e que todos os aprovados anunciados podiam efetuar suas matrículas. Fiz a minha matrícula em algum momento de fevereiro de 1968 com a nítida impressão de que tinha conhecido um filósofo e de que ele naquele ato havia cumprido uma decisão filosófica de agir com justiça e acolher na filosofia todos os aprovados no concurso. Agir com justiça e autonomia não era uma prática muito comum em 1968, por isso, senti desde o primeiro contato com Porchat que o curso de filosofia era um lugar onde eu talvez pudesse fazer o que mais desejava que era estudar e aprender sobre os mais diversos assuntos, das ciências às artes.

Tive também o privilégio, um pouco depois, de assistir à aula inaugural de filosofia para o ano letivo de 1968, ministrada por Porchat com o título “O conflito das filosofias”. Logo que a aula começou, com Porchat lendo seu texto, senti que algo importante começava a ser apresentado. À medida que ele continuou a apresentar seus argumentos, com sua fala um pouco arrastada, mas facilmente audível, percebi que não se tratava de uma aula comum, daquelas que seguem um padrão, que cumprem uma etapa, como as que eu estava acostumado a receber no secundário ou mesmo a ministrar a partir dos quinze anos ensinando idosos a ler e escrever, ou “vendendo” aulas particulares a partir dos 16 anos. Percebi, no meio da aula, que era ouvinte de uma conferência na qual, paradoxalmente, apresentava-se a filosofia como um campo aberto ao conflito, marcada por diferenças intransponíveis. Os argumentos delineados já mostravam essa tendência – tão marcante em Porchat, como depois pude comprovar – de a filosofia deixar de tratar de si própria, de sua própria história, e voltar-se para o mundo de nossa realidade comum, abandonando a ideia dogmática de um sistema de filosofia para apresentar-se como uma prática de análise e crítica do que mais nos constrange na vida cotidiana.

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MEMÓRIA DO PORCHAT - Homenagem ao professor Oswaldo Porchat

Prof. Dr. José Raimundo Maia Neto

 

A primeira disciplina de filosofia que cursei, lecionada por Emílio Eigenheer, data do início dos anos 80, quando era aluno do curso de graduação em ciências sociais da UFF. O Emílio encontrava-se então bastante interessado no ceticismo, organizando a tradução de uma coletânea de artigos do Popkin em colaboração com os seus colegas de UFF Danilo Marcondes e Renato Lessa, os quais também tive a felicidade de ter tido como professores. Embora a disciplina fosse sobre filosofia moderna, o Emílio me recomendou a leitura do livro recém-publicado do Porchat e do Bento Prado Júnior, A Filosofia e a Visão Comum do Mundo. Lembro-me de ter ficado muito impressionado na ocasião pelo estilo em primeira pessoa, confessional, dos textos do Porchat, com sua formação religiosa e posterior descrença, com sua experiência do conflito das filosofias, com o relato do seu abandono da filosofia e retorno à vida comum. A passagem pelo ceticismo foi fundamental neste percurso do Porchat, embora neste momento ele ainda não considerasse o pensamento cético como a fonte principal para a solução de suas inquietações intelectuais. Nesta ocasião, encontrando-me bastante envolvido com o existencialismo (especialmente Kierkegaard), fui impressionado mais pelo aspecto vivido, existencial, do discurso do Porchat do que pelos argumentos céticos considerados nos seus textos.

A leitura dos textos do Porchat certamente contribuiu para a minha decisão de mudar de área, começando um mestrado em filosofia na PUC-Rio logo após minha graduação. Após conhecer a obra, vi e escutei pessoalmente seu autor em 1986 no primeiro colóquio realizado no Brasil inteiramente dedicado ao ceticismo, organizado pelo Porchat no Centro de Lógica e Epistemologia da Unicamp que ele havia fundado. Fui ouvinte deste evento inaugural dos estudos sistemáticos sobre o ceticismo no Brasil. Mais tarde, Plínio Smith me disse que ele também, então jovem estudante já sob a orientação do Porchat e terminando a graduação, encontrava-se nesta mesma audiência. Pouco depois do evento em Campinas, o Danilo convidou o Porchat para uma palestra na PUC e eu pude, após a palestra, timidamente falar-lhe do meu projeto de mestrado de estudar a ficção de Machado de Assis do ponto de vista do ceticismo. O Porchat não somente acolheu com entusiasmo o projeto como se dispôs a colaborar. Fiz então uma viagem de um dia a São Paulo onde passei uma memorável tarde na casa do Porchat, a quem expus minha interpretação do ceticismo na obra de Machado, recebendo sugestões e informações preciosas sobre o pirronismo antigo. Até então conhecia o ceticismo antigo de forma incipiente e sobretudo através de comentadores. Porchat ajudou-me a articular a minha leitura da sucessão cronológica dos romances de Machado, seguindo um determinado padrão evolutivo formal e de visão de mundo, ao caminho do filósofo rumo ao ceticismo, descrito por Sexto Empírico nos capítulos iniciais dos Esboços do Pirronismo.

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O FILÓSOFO NA VIDA COTIDIANA - Homenagem ao professor Oswaldo Porchat

Prof. Dr. Plínio Junqueira Smith

Conheci Porchat quando eu tinha 15 anos, muito antes de saber que eu estudaria filosofia. Eu estava indo a pé de São Sebastião para a praia de Guaecá, onde ele tinha uma casa, porque, naquele momento, eu estava namorando a Patrícia, sua filha. Eu tinha ido de ônibus até São Sebastião e o taxi para Guaecá era muito caro. Decidi, então, ir a pé; um trajeto de mais de 9 kilômetros carregando uma mala. Outra pessoa que também estava no ônibus e ia para Boraceia (a praia anterior) foi comigo. Após deixá-lo em Boraceia e começar o caminho para Guaecá, um carro para no acostamento e, de um lado, a Pati desce. Ela me diz que estavam indo buscar a Lúcia S., que também chegava para passar uns dias na praia conosco e com um monte de outros amigos. Eu poderia tê-los esperado na rodoviária... Logo em seguida, do outro lado, sai o motorista para me cumprimentar: uma pessoa alta e com óculos de fundo de garrafa me estendeu a mão. Foi assim que conheci Porchat. Ou, pelo menos, é assim que me lembro.

Na praia, quando estávamos na varanda da casa, lembro-me de que Porchat veio contar o paradoxo do barbeiro: um barbeiro – o único da cidade - que faz a barba de todos (na cidade) que não fazem a própria barba. Ora, perguntava-nos Porchat, ele faz ou não faz a própria barba? Se sim, segue-se uma dificuldade, porque, se ele faz a própria barba, ele não pode fazer a própria barba, já que ele só faz a barba de quem não faz a própria barba; se, de outro lado, ele não faz a própria barba, ele faz a própria barba, porque ele faz a barba de quem não faz a própria barba. Qual a solução? Não sei por que, mas respondi que ele ia até a cidade vizinha fazer a sua barba. Naquela época, se bem me lembro, eu ainda não fazia barba... Mas eu já ia ouvindo Porchat falar de filosofia e contar histórias da UNICAMP.

Assim era Porchat: sempre procurava os mais jovens, gostava de conversar com eles, não se inibia para falar de suas coisas, aliava filosofia e praia. Diversas vezes, ele organizou encontros em Guaecá com seus orientandos, convidando uns 5 ou 6 por vez. Lembro-me de ter ido uma vez. Acho que eu já morava em Curitiba nessa época. Não somente discutíamos bastante filosofia, mas também aproveitávamos o sol, a praia e a natureza. A filosofia estava imersa no dia-a- dia. Porchat dizia que se tivesse mergulhado numa água gostosa em dias quentes como aqueles, Descartes jamais teria inferido o cogito; a seu ver, Descartes precisava ter mergulhado o seu cogito num mar como o nosso. E, então, caminhava uns passos e ia nadar.

Uma noite, andando pela praia lá pelas 2 da madrugada, com a lua crescente (ou minguante) e, portanto, sob luz moderada, mas suficiente, Porchat nos avisa: “cuidado, um buraco!”. De fato, uma criança cavara um buraco na areia e não o tapara, e alguns de nós estávamos quase caindo nele. Porchat sempre se colocou ao lado da jovem Trácia, que riu de Tales, quando este caiu num buraco, pois, enquanto contemplava as estrelas, não via o chão à sua frente; Porchat usava essa história para nos advertir para não cairmos no mesmo erro dos filósofos especulativos. Foi então que, para evitar não cair no buraco, Porchat deu um ou dois passos para o lado e... caiu em outro buraco! Não consegui me impedir de comentar: “Porchat, de que adianta evitar um buraco, se você, para não cair em um, cai em outro?” Eu me referia à sua aceitação de uma filosofia da visão comum do mundo e à sua noção de um “homem comum”, impregnadas de dogmatismo. Embora ele já tivesse abandonado a filosofia da visão comum do mundo em favor do neopirronismo, ele ainda se atinha às ideias de uma visão comum do mundo e de homem comum, as quais jamais abandonaria.

Esse seu gosto por estar entre os jovens foi uma constante em sua vida. Fazia parte de sua postura como professor. Um professor é, antes de tudo, uma pessoa dedicada às pessoas mais jovens, para ensinar-lhes o que sabe, para corrigir-lhes onde for preciso, para orientar-lhes na direção certa. Porchat me disse diversas vezes: uma pessoa inteligente sem orientação produz resultados medianos, mas, se tivesse sido bem orientada, produziria resultados muito bons; uma pessoa mediana bem orientada é capaz de produzir bons resultados, mas, se mal orientada, produzirá coisas fracas. Para ele, essa dedicação constante era fundamental para perpetuar a filosofia, para melhorar o cenário filosófico. E, fiel às suas ideias, ele sempre foi esse orientador firme, que procura dar a formação mais sólida possível a seus orientandos, ajudando-os a dar o melhor de si mesmos.

Durante sete anos, eu e Roberto Bolzani íamos semanalmente à sua casa, para os seminários de orientação. De férias, só fevereiro (quando Porchat ia para Guaecá) e duas semanas em julho. Lembro-me de, em janeiro, voltar da praia toda quinta só para os seminários em sua casa (eu os preparava na praia); uma vez, deixei de viajar para Itacaré com meu primo porque eu tinha de apresentar os seminários em janeiro... Lemos juntos: o Tratado e a primeira Investigação de Hume; os Princípios e os Três Diálogos, de Berkeley; os Acadêmicos, de Cícero; as Hipotiposes pirrônicas de Sexto Empírico; inúmeros artigos sobre o ceticismo. Passados sete anos, defendi meu doutorado, fui um ano para a UFSCar, com Bento, e depois para a UFPR, e Roberto se tornou professor da USP. Era chegado o momento de ter outros orientandos: Felipe Chaimovich, Luiz Eva, Tuxo, Marquinhos, Vitor, entre outros. Dada sua orientação muito exigente (que exigia dele um tempo enorme para seus orientandos), Porchat nunca orientava mais do que duas ou três pessoas ao mesmo tempo. Mas até o final de sua vida, ele sempre estava orientando alguém.

Porchat também se dedicava a seus alunos de modo geral. Ele dizia que gastava cerca de 30 horas semanais para preparar uma aula. 30 horas! E sobre um assunto que ele já sabia de cor e salteado! Ele se explicava assim: é que eu quero estar preparado para toda e qualquer pergunta que os alunos possam fazer. Quando ele me disse isso, eu ainda não era professor, mas eu só ia observando o seu exemplo para imitá-lo depois na medida das minhas forças. Ter tido Porchat como modelo certamente aprofundou em mim o gosto pela docência.

Não espanta que, diante de tamanha dedicação à formação de jovens filósofos, Porchat tenha publicado relativamente pouco. Não sobrava tanto tempo assim para a pesquisa. Mas é que sua docência e sua orientação estavam, de fato, inextricavelmente ligadas. Porchat não orientava senão sobre autores e temas nos quais estava trabalhando. Quando fui estudar com ele, propus estudar Platão, Leibniz ou Husserl; ele me respondeu que eu podia escolher entre Sexto Empírico, Hume e os positivistas lógicos. Fui para casa, li Hume e, na semana seguinte, respondi: quero estudar Hume. Roberto Bolzani, que também queria estudar Platão, foi estudar Sexto. Deixamos de estudar o autor preferido para que pudéssemos receber a formação que Porchat dava. Depois, Porchat orientou sobre outros autores que queria estudar: Montaigne, Locke... Seus cursos também versavam sobre autores e temas que ocupavam a sua reflexão filosófica.

Ficou famoso seu primeiro curso na pós, em que os alunos deviam apresentar textos de 2 ou 3 páginas de reflexão pessoal sobre um assunto predeterminado para discussão. Essa era a matéria prima da aula; ele não dava uma aula expositiva, mas ouvia o que os alunos tinham a dizer (e, se não tinham o que dizer, tinham que pensar arduamente para ter o que dizer...). Depois, como deu certo, ele repetiu esse curso algumas vezes. Esses cursos refletiam a mudança de seu pensamento sobre o ensino da filosofia e sobre o papel do professor de filosofia em sala de aula. A seu ver, o professor deveria estimular os alunos a pensarem criticamente por conta própria, e não inibi-los; em vez de brilhar, exibindo sua erudição, o professor deveria ajudar os alunos a desenvolverem suas capacidades intelectuais, sem jamais perderem a motivação e o impulso que os levou à filosofia. Porque Porchat era assim: procurava aplicar seriamente ao que fazia aquilo que pensava.

Não tenho dúvidas de que ele se via muito mais como professor do que como filósofo. Lembro-me quando, no final de um colóquio no Centro Cultural São Paulo, fomos jantar fora, ele, eu, os participantes e alguns alunos. Eu dei-lhe carona. No caminho, ele me disse algo que me surpreendeu. Ele me disse que, pela primeira vez na vida, aos 80 anos, ele sentira que tinha feito algo importante na filosofia. E me agradecia por ter organizado o colóquio. Quem conhece Porchat, conhece sua sinceridade e sua honestidade. Foi um momento em que eu percebi claramente também a sua modéstia. Nunca me passara pela cabeça que Porchat poderia não ter muita consciência da enorme importância de sua obra para a filosofia brasileira. De fato, ele não sabia julgar adequadamente o que ele tinha feito. Não é preciso lembrar aqui da máxima socrática para dizer que é muito difícil para qualquer um saber avaliar a si mesmo. O professor se foi, deixará muitas saudades, mas os discípulos e sua filosofia ainda permanecem.

 

ANPOF 2017/2018

Preconceito e política

Prof. Dr. Eduardo Jardim de Moraes (PUC-RJ)

 

Li, com constrangimento, a matéria escrita por Vladimir Safatle, intitulada “O preconceito é um exercício da liberdade?”, de 13 de outubro de 2017, na Folha de São Paulo, que defende a intervenção “em todos os níveis, sobre práticas sociais que minam a adesão a princípios igualitários, sob pena” de ocorrer uma expansão incontrolável de todo tipo de preconceito. Em sua argumentação, o colunista faz uma crítica do artigo de Hannah Arendt, “Reflexões sobre Little Rock”, de 1959, com incorreções que dizem respeito ao seu conteúdo, as quais motivaram esses comentários de um velho leitor de A condição humana.

Inicialmente, o colunista retoma a caracterização errônea de Hannah Arendt como pensadora liberal, tendo por objetivo desqualifica-la. Ao longo detoda a sua obra, desde os anos cinquenta até a morte em 1975, Hannah Arendtcse propôs a definir o que é liberdade, tomando distância tanto do liberalismo quanto da tradição hegeliano-marxista. No primeiro caso, o liberalismo defendia uma concepção “negativa” da liberdade, isto é, afirmava que o homem é livre quando não sofre nenhum tipo de constrangimento, especialmente do Estado. No segundo caso, na tradição historicista, a que pertencem teóricos tanto de direita quanto de esquerda, a liberdade era vista como o resultado bem sucedido do desenvolvimento histórico. Em oposição às duas orientações, Hannah Arendt defendeu que a liberdade, em sentido próprio, tem um estatuto positivo, não depende do curso da história, mas se realiza no plano político da existência humana, isto é, em um contexto público e plural, e apenas nele.

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O Avesso do Direito: Do terror à banalidade do mal

Maria Borges - Professora de Filosofia da UFSC
 
A Universidade brasileira vive hoje sobre uma ferida aberta: a morte de um Reitor. Por quase dois anos, sob a liderança do Reitor Prof. Luiz Carlos Cancellier de Olivo, a Universidade Federal de Santa Catarina floresceu na arte, na ciência e na tecnologia, apesar das dificuldades econômicas. A convivência tornou-se mais pacífica, pois os adversários não eram considerados inimigos e todos eram convidados a sentar na mesa e na sala do Reitor. Essa harmonia desaparece numa operação denominada Ouvidos Moucos, que prende o Reitor, sob a alegação de obstrução de justiça relativa a uma suposta irregularidade de bolsas do programa de Ensino à Distância. Não havia julgamento, nem processo, apenas um inquérito inicial, onde só um lado fora ouvido. Uma operação de 100 homens é montada para invadir a universidade, apreender documentos e prender 5 professores e o Reitor. Sem julgamento prévio, nem direito a defesa. Na prisão, Cancellier é despido, sujeito à revista íntima, algemado e acorrentado. Depois de solto, é impedido de entrar na Universidade, da qual era um Reitor eleito e aclamado, elogiado até mesmo pelos seus adversários, por seu espírito conciliador. Devido ao terrível sofrimento acarretado pela injustiça e humilhação moral, suicida-se em 2 de outubro de 2017, trazendo consigo um bilhete: “minha morte foi decretada no momento em que fui banido da Universidade”.

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BRASIL 2018: verso a um novo acordo Katechontico

Evanildo Costeski/UFC

Como foi possível o golpe de 2016? São várias as explicações e os motivos. Não é minha intenção discorrer sobre todos os caminhos e as trilhas que levaram ao Impedimento parlamentar da Dilma. Todavia, em minha opinião, uma explicação sobrepõe-se: o golpe não foi exógeno, não veio de fora, mas foi gerado pelo próprio sistema político que governou o Brasil nos últimos anos. Foram os acordos políticos dos últimos catorze anos, comandados pela esquerda, que geraram o golpe, como uma célula cancerígena não tratada que, invariavelmente, leva a uma metástase. 

Isso significa que os acordos foram maus em si? Que deveriam ter sido evitados? De maneira nenhuma! Foram necessários e, em sua maioria, corretos do ponto de vista da governabilidade. No Brasil, o Presidente é eleito, mas não governa ou, pelo menos, não governa sozinho. Os acordos devem ser vistos como naturais, próprios do sistema político e da tradição cultural brasileira. O Presidencialismo de coalização não é ruim em si. A sua forma degradada, denominada recentemente de “presidencialismo de cooptação”, deve sim ser execrada, entretanto, deve-se cuidar para não jogar fora a água suja com o bebê.

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Filosofia no Brasil - Ensaios Metafilosóficos

Ivan Domingues (UFMG)


Notícia sobre o Lançamento e Comentários

Acabo de lançar pela Editora UNESP o livro de minha autoria Filosofia no Brasil: Legados e Perspectivas – Ensaios Metafilosóficos, culminando um momento importante em minha carreira, ao fazer um acerto de contas comigo mesmo, como filósofo, como intelectual e como brasileiro.

Não podendo sumariar-lhe o conjunto, com suas 560 páginas, organizado em seis passos argumentativos, recobrindo quinhentos anos de nossa história, e adiada a apresentação do seu making of para uma outra ocasião, vou na sequência apresentar brevemente aos leitores da Página da ANPOF o seu escopo, junto com o tema central ou seu hardcore e as hipóteses de trabalho.

Começo pelo escopo: como bem mostra o título completo, colocando em evidência em uma de suas metades legados e perspectivas, que o leitor interessado nestas matérias não espere que vai ter às mãos um livro de história da filosofia ou da história da filosofia brasileira, nem, menos ainda, de um livro de exegese de um autor ou de mais autores. Trata-se, antes, de um livro de ensaios, tendo por eixo o cruzamento entre a metafilosofia e a história intelectual. A consideração e aceitação desses pontos são fundamentais para a compreensão e a avaliação da proposta levada a cabo com intenções e metodologias diferentes, como veremos na sequência, entrando a história da filosofia e a exegese filosófica como fonte, meio e ferramenta, não como tema, problema ou objeto.

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