Coluna ANPOF

Porchat, a lógica e a verdade: Homenagem ao professor Oswaldo Porchat

Eduardo Barrio (UBA, Argentina)

 

Não me lembro exatamente da data em que conheci o querido Oswaldo Porchat. Eu sei que o privilégio de tê-lo conhecido e de ter trocado ideias filosóficas com ele deveu-se ao nosso amigo comum Plínio. Naquela época, e hoje pode parecer difícil de entender, os laços entre as comunidades filosóficas do Brasil e da Argentina não eram muito fortes. Como é habitual em nossos países, voltamos os olhares e a atenção filosófica quase que exclusivamente para a Europa ou para os EUA. Talvez também a barreira linguística tenha colaborado. Em qualquer caso, Porchat é uma figura fundamental nessa integração. Sem ele, a estrada percorrida teria sido completamente diferente.

Para aqueles de nós que conhecemos Porchat, é fácil lembrar sua paixão pela discussão filosófica e pela formação de comunidades de discussão como uma das suas principais características. O projeto de lançar as bases para construir uma grande comunidade filosófica brasileiro-argentina foi algo que o impactou desde o início. Juntamente com Ezequiel de Olaso e pensando sobretudo nos jovens e no futuro, ele trabalhou incansavelmente no projeto de criar algo que não existia. Há pessoas que têm a capacidade de antecipar o que está por vir e Porchat foi uma delas. Ele viu o que agora faz parte do nosso cotidiano: inúmeros colóquios, encontros, congressos, projetos, convites, discussões e trocas entre nós. E, claro, ele não ficou nessa visão: ele contribuiu decisivamente para fazer tudo isso acontecer.

Lembro-me de que havia uma linguagem comum entre nós: seu estilo de abordagem dos problemas filosóficos, seu rigor argumentativo, sua capacidade de análise era o que estávamos procurando. Assim que o conheci, percebi que estava diante de uma figura única. Eu não estava errado. Naquela época, eu já estava preocupado com o conceito de verdade e nas inesquecíveis viagens a São Paulo e a Curitiba defendia o deflacionismo sobre a verdade. Como é bem sabido, Porchat defendeu explicitamente uma certa versão do correspondencialismo. Nossas discussões, que também envolveram aqueles que rapidamente se tornaram meus melhores amigos no Brasil, são para mim inesquecíveis. Então, minha paixão pela lógica e nossos desacordos me uniram ainda mais a eles. Juntamente com Plinio e Waldomiro, Porchat tornou-se uma referência obrigatória para minhas ideias sobre a possibilidade de um desacordo sem que as partes cometam erros. Qual conceito de negação devemos adotar se quisermos tolerar a possibilidade de discordar de maneira argumentada? Para os céticos e para Porchat, esse desacordo bem argumentado era típico, especialmente na filosofia. Devo também destacar outra característica que me surpreendeu: sua horizontalidade. Porchat já era naquele momento um dos mais importantes filósofos ibero-americanos, enquanto eu era um jovem filósofo com um doutorado, com o desejo de elaborar teses filosóficas. Porchat prestou atenção a todos igualmente, discutiu as ideias de todos, independentemente da hierarquia ou de quem éramos. Essa grande virtude não era muito difundida no meu país e provavelmente também não no Brasil dessa época. Não havia hierarquias e todos nós éramos igualmente importantes. Ou, o que é melhor, as únicas coisas importantes eram as ideias e os argumentos. Obviamente, o ceticismo de Porchat sempre o colocava na posição de ser um crítico devastador para qualquer ideia dogmática que pudesse nos tentar. Sempre havia outro argumento a ser dado, sempre havia um novo desafio. Sua horizontalidade, sua modéstia, sua generosidade e espírito crítico foram e continuarão a ser uma grande inspiração para mim.

Finalmente, aqueles de nós que conheceram Porchat nunca esquecerão suas histórias. Posso dizer que conheci a Grécia através da sua insuperável história. Porchat estava na Grécia e, tendo lido “Padaria” na porta de entrada de uma padaria, entrou para comprar pão. Como não falava grego moderno, pediu um pão em grego antigo, já que a palavra “padaria” em grego continha a palavra “pão”. O padeiro não entendeu, Porchat repetiu e o padeiro continuou não entendendo. Uma pessoa ao seu lado perguntou-lhe se ele falava francês e, então, explicou-lhe que, embora no nome do lugar a palavra “pão” tinha sido preservada, a palavrausada para o pão era outra desde a invasão turca! Causa uma tristeza saber que não teremos novas histórias... Mas essa sensação de vazio é compensada por seu legado, que é e será indelével em nossas comunidades filosóficas. Há pessoas que mudam o mundo ao seu redor, Porchat era uma delas.

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