Coluna ANPOF

10 (Anti-) Teses sobre a filosofia brasileira

 
Prof. Dr. Henry Martin Burnett Junior (UNIFESP)
 
Com quantos quilos de medo se faz uma tradição?
(Tom Zé, “Senhor cidadão”)

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“Há infinitas carreiras diante de ti”, diz o providencial pai ao filho em vias de entrar na maioridade. (1) O ano é 1881, em pleno Brasil Império, mas já respirando os ares da transição para o que viria a se chamar um dia República Federativa do Brasil. A se acreditar no romancista ou em sua refinada ironia, ainda não havia àquela altura nada parecido com um pensamento original brasileiro, pois, como diz Machado de Assis, “não há por ora a força necessária à invenção de doutrinas novas”; (2) ao que John Gledson acrescenta: “A consequência lógica é a cópia – em certo sentido, quanto mais descarada melhor, pelo menos para o nosso satirista. O imitador, ou até mesmo o plagiário, vira símbolo nacional: paradoxalmente, o medalhão torna-se um ‘original’”. (3) Mais de cem anos depois, releio este conto à luz de um tema dos mais incômodos, que vira e mexe retorna ao nosso debate acadêmico: a assim chamada “filosofia brasileira”. Por trás de ricas discussões, antigas ou recentes, sóbrias ou exaltadas, uma questão central dá o tom: existe, pode vir a existir ou já existiu um pensamento filosófico brasileiro? A tensão positiva entre os pares guarda a resposta nas entrelinhas da discussão – já que o debate é uma necessidade desde sempre –: não, não existe uma filosofia brasileira, caso contrário não se perguntaria tanto por ela. Então, copistas são o que de mais original conseguimos produzir nessa área?

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Passado tanto tempo do diagnóstico de Machado de Assis, muito se pensou sobre o Brasil e muito se produziu sobre ele. A lista pode ser facilmente elencada se procurarmos sob o guarda-chuva “pensamento brasileiro”, e será inevitável constatar que nenhum filósofo aparecerá no cânone onde comparecem os nomes de Sérgio Buarque de Holanda, Antonio Cândido, Gilberto Freyre, Caio Prado Jr., Celso Furtado – mas também Euclides da Cunha, Raimundo Faoro entre tantos que pertencem a esta tradição e que sempre será retomada quando o tema Brasil estiver em foco. A filosofia brasileira, por sua vez, não se ocupou com os problemas domésticos, logo, não poderia ter produzido uma reflexão autônoma e conceitual sobre questões ligadas ao Brasil; (4) salvo engano, nenhum país produziu filosofia a partir de questões lançadas a partir do exterior e quando o fez foi para auto-afirmar-se – ao que parece, mesmo o nacionalismo filosófico nacional é capenga. Isso não se aplica à tradição da metafísica, cujas bases gregas foram retomadas ao longo dos séculos, seja para assenta-las como fundamento do pensamento lógico-racional, seja para opor-se a elas através de reinterpretações da tradição – este último movimento apenas na transição entre os séculos XIX e XX quando a metafísica e a ideia de Deus perderam representatividade. É apenas nesse momento que a filosofia se abre para a vida social, que a experiência nas cidades modernizadas passa a lançar questões aos filósofos. A obra de Nietzsche ocupa, nesse sentido, o lugar do ponto de inflexão, pois foi nela que os grande temas metafísicos foram obrigados a conviver com problemas “menores”, produzidos a partir da dinâmica rediviva entre ciência, arte e vida, todas em nova chave. Nosso texto-mote permite criar um paralelo que pode alimentar nossa reflexão e ajudar a rir um pouco dela, ao modo de Nietzsche: “Mas, qualquer que seja a profissão da tua escolha, o meu desejo é que te faças grande e ilustre, ou pelo menos notável, que te levantes acima da obscuridade comum. A vida, Janjão, é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra” (p. 99-100). As gerações que se sucederam na história da filosofia cumpriram a tarefa com primor, sucedendo-se e construindo sempre novos e monumentais sistemas, de Platão a Hegel. E nós? Como uma sombra opaca da filosofia europeia, nos contentamos majoritariamente em comentar indefinidamente aquela grande tradição. Nem poderíamos alegar que o século XX já não produzia grandes sistemas, o que nos desobrigaria, porque de fato eles já não tinham lugar ou sequer necessidade; entretanto, a filosofia pós-Nietzsche deu ao mundo os não-sistemáticos Adorno, Benjamin, Deleuze, Foucault, Agamben e tantos outros (por aqui, como ouvi de uma ilustre professora certa vez, ‘fulano poderia ter sido um grande filósofo, se quisesse, mas não quis’) – enquanto isso, nós criamos uma tradição de comentários dos comentadores desses filósofos, além de mantermos a atenção voltada para toda a tradição metafísica, que também tem entre nós grandes especialistas. Se nós “amassamos as esperanças” das gerações anteriores? Nem isso, porque à medida que a filosofia brasileira – sempre a universitária, pois tudo o que está fora dela e que poderia ser considerado um exercício filosófico não existe para quem normatiza a área – era sucedida por novas gerações, o único amasso produzido era da qualidade, cada vez mais superficial, cada vez mais tateante, até o lugar onde estamos hoje, quando produzimos uma quantidade abundante de artigos em geral irrelevantes; e desvalorizamos os livros...

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- Creia que lhe agradeço; mas que ofício, não me dirá?
- Nenhum me parece mais útil e cabido que o de medalhão.


O copista não se tornaria apenas a autoridade filosófica nacional, nas décadas seguintes seria convidado a sentar nos gabinetes, ocupar cargos públicos na área da educação, disputaria palmo a palmo as bolsas; se tornaria o medalhão da filosofia, com doutorado e tudo. Embora varie na idade, todos estão contemplados pelo elenco machadiano:
“Geralmente, o verdadeiro medalhão começa a manifestar-se entre os quarenta e cinco e cinquenta anos, conquanto alguns exemplos se deem entre os cinquenta e cinco e os sessenta; mas estes são raros. Há-os também de quarenta anos, e outros mais precoces, de trinta e cinco e de trinta; não são, todavia, vulgares. Não falo dos de vinte e cinco anos: esse madrugar é privilégio do gênio” (p. 101). Está armada a rede de onde, deitados, podemos apreciar a cena: do “aluno-professor”, que não consegue ouvir mais do que 10 minutos sem intervir com a mão no queixo, ao bolsista “sênior”, passando pelos estudantes de pós-graduação, pelos televisivos – recentes, mas muito inteligentes –, há medalhões-filósofos para todos os gostos e de todas as idades.

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Como é possível, perguntaria um leitor de Machado entrado no século XXI, alimentar uma carreira assentada num par de pés de barro? Assim, ensina o bruxo: “Uma vez entrado na carreira [passado no concurso], deves pôr todo o cuidado nas ideias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. O melhor será não as ter absolutamente” (p. 101). O que os professores-pesquisadores brasileiros fazem com suas ideias a não ser escondê-las até perto da morte? Mas como poderiam fazer diferente, se hoje um bom pesquisador é aquele que se ocupa principalmente de coisas sérias, profundas, conceituais e ocultas, mas somente as tradicionais? Ter ideias autônomas passaria por enfrentar a menoridade do lugar onde
brotariam essas ideias, mas e se o lugar envergonha o medalhão, e se os problemas tacanhos de paisinho deslocado não são dignos de consideração intelectual, se nem objetos o são [um pouco de Teoria do conhecimento]? Melhor é abafá-las, sábio conselho, ou seria preciso criar algo como uma Escola de Reflexão Nacional voltada para os problemas domésticos de toda ordem: a política menor, a música comercial, as artes sem forma, a singular dinâmica de classes, o racismo, a miséria perene, enfim, os brasis; seria uma filosofia pobrinha –

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Se há uma boa dose de crueldade nisso a culpa é do Machado de Assis; lembremos que toda ironia tem um quê de crueldade, ou nem precisaríamos dela. O que somos nós senão os filhos do pai frustrado no conto extemporâneo? “– Tu, meu filho, se me não engano, pareces dotado da perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste nobre ofício. Não me refiro tanto à fidelidade com que repetes numa sala as opiniões ouvidas numa esquina, e vice-versa, porque esse fato, posto indique certa carência de ideias, ainda assim pode não passar de uma traição da memória” (p. 101). O copista não apenas repete o que ouve, ele sobretudo repete o que lê. Assim, orientandos assumem mediunicamente o carma de seus orientadores, que por sua vez incorporaram as grande cisões históricas da filosofia tradicional, e assim todos se sentem continuadores desse monumental legado.

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Mas e os professores e pesquisadores que vieram antes de nós e que nutriram nossa ambição de sermos filósofos? “Eis aí um sintoma eloquente, eis aí uma esperança. No entanto, podendo acontecer que, com a idade, venhas a ser afligido de algumas ideias próprias, urge aparelhar fortemente o espírito. As ideias são de sua natureza espontânea e súbitas; por mais que as sofreemos, elas irrompem e precipitam-se. Daí a certeza com que o vulgo, cujo faro é extremamente delicado, distingue o medalhão completo do medalhão incompleto” (p. 101-2). Toda geração precedente é maior do que as que a sucedem, o que inverte até mesmo a ordem natural que reza que toda geração deve superar a que lhe antecede; é por isso que lhes devemos tanto. Sempre seremos mais medalhões que nossos orientadores, entre os quais alguns que ousaram se deixar afligir por ideias próprias…

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“Com este regime, durante oito, dez, dezoito meses – suponhamos dois anos [tempo atual do mestrado para a CAPES], – reduzes o intelecto, por mais pródigo que seja, à sobriedade, à disciplina, ao equilíbrio comum. Não trato do vocabulário, porque ele está subentendido no uso das ideias; há de ser naturalmente simples, tíbio, apoucado, sem notas vermelhas, sem cores de clarim… – Isto é o diabo! Não poder adornar o estilo, de quando em quando…” (p. 103). A figura paterna – que não se confunde com o orientador, antes com uma autoridade oculta por trás de comissões e pareceristas anônimos – sugere que aprendamos desde a iniciação científica a arte da sobriedade, do comedimento, da disciplina, seja em nossas falas públicas a convite, seja em nossas reles comunicações. Se por um lado o conto fala da contenção necessária da elocução, por outro também permite estender o pito aos nossos textos, que não podem transgredir a forma-artigo, sacramentada à esta altura como a moeda de troca de toda relação acadêmica, hoje pouco mais que contabilidade cega. A afetação intelectual mais que necessária estava lá atrás, veja-se: “Sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocardos jurídicos, máximas, é de bom aviso trazê-los contigo para os discursos de sobremesa, de felicitação, ou de agradecimento” (p. 104); não que nossos pares não possam, a partir de juízos bem expressos, formular novas questões, ou ao menos recicla-las, mas “alguns costumam renovar o sabor de uma citação intercalando-a numa frase nova, original e bela, mas não te aconselho esse artificio; seria desnaturar-lhe as graças vetustas” (p. 104). Sobretudo não formular, não infringir, não corromper – um bom copista é melhor que nada.

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Como então se distinguir, se fazer notar, se impor num meio igualitário e planificado? Submergindo nele ao ponto de desaparecer. “O mesmo direi de toda a recente terminologia científica; deves decorá-la. Conquanto o rasgo peculiar do medalhão seja uma certa atitude de deus Término, (5) e as ciências sejam obra do movimento humano, como tens de ser medalhão mais tarde, convém tomar as armas do teu tempo. E de duas uma: – ou elas estarão usadas e divulgadas daqui a trinta anos, ou conservar-se- ão novas: no primeiro caso, pertencem-te de foro próprio; no segundo, podes ter a coquetice de as trazer, para mostrar que também és pintor. De oitiva, com o tempo, irás sabendo a que leis, casos e fenômenos responde toda essa terminologia; porque o método de interrogar os próprios mestres e oficiais da ciência, nos seus livros, estudos e memórias, além de tedioso e cansativo, traz o perigo de inocular ideias novas, e é radicalmente falso” (p. 105). Conselho: ler menos, apenas o básico, para saber que frases dizer e quando, sempre entrecruzadas pelas pontuações de praxe – “gostaria de agradecer sinceramente pelo convite”; “faço minhas as palavras do colega”; “farei uma questão apenas como provocação”; “isso me é muito caro” e minha preferida: “faltam cinco minutos”. Decorar a terminologia, mas sem impor-se, integrar-se sorrateiramente, fazer parte do grupo mais influente, sentir-se seguro para repetir corretamente o que ouviu em toda sua “fase de formação”; eis a garantia única de notoriedade.

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“Qualquer que seja a teoria das artes, é fora de dúvida que o sentimento da família, a amizade pessoal e a estima pública instigam à reprodução das feições de um homem amado ou benemérito. Nada obsta a que sejas objeto de uma tal distinção, principalmente se a sagacidade dos amigos não achar em ti repugnância” (p. 107). Se acabássemos com o anonimato dos pareceres o sistema de avaliação ruiria, porque todos se veriam. Por isso é tão importante saber usar o poder que nos é concedido, porque pessoalmente todos são amigos, e como é bom ter amigos… Para isso, previne nosso autor: “Em semelhante caso, não só as regras da mais vulgar polidez mandam aceitar o retrato ou o busto, como seria desazado impedir que os amigos o expusessem em qualquer casa pública. Dessa maneira o nome fica ligado à pessoa; os que houverem lido o teu recente discurso (suponhamos) na sessão inaugural da União dos Cabeleireiros, reconhecerão na compostura das feições o autor dessa obra grave, em que a ‘alavanca do progresso’ e o ‘suor do trabalho’ vencem as ‘fauces hiantes’ da miséria. No caso de que uma comissão te leve à casa o retrato, deves agradecer-lhe o obséquio com um discurso cheio de gratidão e um copo d’água: é uso antigo, razoável e honesto (p. 107). Não há nada mais misterioso que um parecer… se positivo então…

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Fala mais Machado de Assis, que eu já copiei-te demais: “– Podes e deves; é um modo de convocar a atenção pública. Quanto à matéria dos discursos, tens à escolha: – ou os negócios miúdos, ou a metafísica política, mas prefere a metafísica. Os negócios miúdos, força é confessá-lo, não desdizem daquela chateza de bom-tom, própria de um medalhão acabado; mas, se puderes, adota a metafísica; – é mais fácil e mais atraente. Supõe que deseja saber por que motivo a 7ª Companhia de Infantaria foi transferida de Uruguaiana para Canguçu; serás ouvido tão somente pelo ministro da Guerra, que te explicará em dez minutos as razões desse ato. Não assim a metafísica. Um discurso de metafísica política apaixona naturalmente os partidos e o público, chama os apartes e as respostas. E depois não obriga a pensar e descobrir. Nesse ramo dos conhecimentos humanos tudo está achado, formulado, rotulado, encaixotado; é só prover os alforjes da memória. Em todo caso, não transcendas nunca os limites de uma invejável vulgaridade.
– Farei o que puder. Nenhuma imaginação?
– Nenhuma; antes faze correr o boato de que um tal dom é ínfimo.
– Nenhuma filosofia?
– Entendamo-nos: no papel e na língua, alguma, na realidade, nada. “Filosofia da
história”, por exemplo, é uma locução que deves empregar com frequência, mas proíbo-te
que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que
possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc.
– Também ao riso?
– Como ao riso?
– Ficar sério, muito sério...” (pp. 109-110).

 

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1 Machado de Assis, “Teoria do medalhão”. In: Papeis avulsos. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011, p. 99. Cito a partir daqui apenas a numeração das páginas entre parêntesis no corpo do texto. Os colchetes eventuais são observações minhas.
2 Idem, “A nova geração”. In: Notas semanais. Campinas: Editora da Unicamp, 2008, p. 89, apud John Gledson, in: “Prefácio” a Machado de Assis, op. cit., p. 21.
3 John Gledson, op. cit., p. 21-22.
4 A exceção talvez seja a Escola do Recife, hoje bastante esquecida e que envolvia diversas abordagens além da filosófica, como a sociológica, a jurídica e folclórica. Dois nomes de proa ainda ecoam daquela época, Tobias Barreto e Silvio Romero, para ficarmos em dois exemplos. Não me parece que alguém tenha invocado a sério este exemplo nas discussões recentes; ademais, aqui não é o lugar para uma retomada do seu legado.
5 “A atitude do deus Término é a da imobilidade, a da fixidez das estátuas, já que esse era o deus que protegia os limites na Antiga Roma, representado por um grande marco de pedra”. Nota 8, p. 105 da edição citada, por Hélio Guimarães.
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