RAHEL JAEGGI E O FIM DA TEORIA CRÍTICA ALEMÃ

José Crisóstomo de Souza
GT Poética Pragmática

O título quer evocar a narrativa de Engels, “Feurbach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã”, onde a palavra Ausgang, fim, pode ser também resultado ou saída. Nessa narrativa, Feuerbach representa uma ruptura incompleta com limites da filosofia anterior, v.g. Hegel, enquanto o materialismo marxiano aparece como sua completa superação. Engels define assim, a seu gosto mas plausivelmente, o que é Marx com relação a Hegel e Feuerbach, e vice-versa. Decretando ao mesmo tempo a exaustão do paradigma filosófico anterior, idealista, que, entretanto, reconstruído em versão naturalizada à-la séc. XIX, seguiu em frente, justamente com Marx, séc. XX adentro, inclusive como Teoria Crítica. Na sequência de duas colunas Anpof anteriores, (1) este texto quer fazer coisa análoga, levando adiante o mesmo desenvolvimento, a outro fim, que supere o próprio Marx; embora ciente de que narrativas são uma maneira de articular opções filosóficas, que não dispensa sua análise sistemática. 

Jaeggi, vimos, quer ser um novo desenvolvimento pragmatistizado, agora hegeliano-marxiano-deweyano, da Teoria Crítica, que é ela própria um desenvolvimento de Marx enquanto sua raiz e fundamento. Qual o desafio que tais desenvolvimentos na minha opinião seguem adiante sem enfrentar? De um lado, a questão da fundamentação da normatividade, em Marx, que a TC herdou mas não foi ainda capaz de enfrentar. De outro, a recuperação, em Marx, de um ponto de vista materialista prático-produtivo, social, sem seus velhos problemas – o que desafia a “linguistificada” filosofia de agora. Habermas não se ocupou rigorosamente da primeira, que entretanto denunciou abertamente; enquanto, seguindo o espírito do tempo, descartou como inviável a segunda. Mas foi quem tratou de dar um fim, pragmatista kantiano, à TC, por uma revolução muito além do que a Escola de Frankfurt se dispõe a encarar. Para que não digam que exagero, invoco, sobre isso, juízo de Axel Honneth (seguinte expoente da Escola, de quem Jaeggi foi orientanda), na apresentação do livro dela sobre alienação. (2)

Do mais amplo e radical alcance normativo, anticapitalista, alienação, conceito central do próprio Marx, foi, segundo Honneth, o “conceito fundamental” da TC - “ponto de partida” de toda sua “análise e crítica social.” Conceito que, entretanto, foi tomado pela Escola como “um fato além de dúvida” - “tão auto-evidente que nem precisava de definição ou justificativa”. Conceito que por sua vez “pressupõe uma concepção de essência humana” – inaceitável para a filosofia pós-metafísica “das últimas décadas”. Uma noção, Honneth conclui, cuja “morte assinala claramente o perigo de que a TC se torne obsoleta” (p.24). Como então a Teoria Crítica acaba de encontrar seu fim? Ou temos aqui uma narrativa de amadurecimento que deixa para trás uma Crítica mal-fundada, de Capitalismo e Dominação, por outra melhor, mais prática e transformadora?

Eu não poderia estar mais de acordo com Honneth, tendo exposto, desde 1990, o essencialismo, o substancialismo e a teleologia do materialismo histórico de Marx, (3) por uma crítica para além do paradigma “linguocêntrico” ou “intersubjetivista” no interior do qual o problema tem sido enfrentado – insatisfatoriamente. (4) No Brasil essas coisas demoram de chegar,
mais ainda de ser discutidas. Enfim, resta a questão: O que fica do vocabulário normativo ao qual a TC mantém-se fiel, que compreende noções, correlatas a alienação, como fetichismo (da mercadoria), ilusão necessária, patologia social (geral), dominação, emancipação. O que fica do gênero de Crítica do Capitalismo e da Modernidade que a TC sempre sustentou? Que outro paradigma filosófico ela assumirá agora, em distinção ou reconstrução de Marx?

Mesmo Jaeggi, cuja TC considero uma contribuição no caminho certo, em livro que discute seu paradigma, (5) cita com aprovação (p.24) um juízo de Marx, do Capital, de que, “do ponto de vista de uma formação social superior, a propriedade de indivíduos particulares sobre a terra parecerá tão desagradável quanto a propriedade de um homem sobre outro”. Jaeggi cita isso para interpretar de modo historicista o recurso ao termo “desagradável”, enquanto deixa de lado a invocação de Marx, para efeitos normativos, de um “ponto de vista de uma formação superior” – que sabemos qual é, para ele. Sem que indague como Marx estabelece esse fundamento normativo forte, afinal comunista); enquanto, de outro lado, afirma seu compromisso com “uma abordagem não teológica de progresso.” (p.37).

Ainda nesse livro, Jaeggi destaca o suposto caráter materialista anti-utópico (nem moralizante, nem romântico, nem anarquista, diz ela) da normatividade marxiana, com relação a mudança social (p.190). Sem entender que é fácil parecer anti-utópico quando simplesmente se inscreve sua “formação social superior” - mais utópica impossível - no próprio movimento imanente e necessário do Capitalismo, como sua “negação determinada.” - noção que é esgrimida livro afora (inclusive por sua anti-hegeliana opositora, Amy Allen), sem reconhecimento do alcance normativo, determinista, que tais noções lógico-negativas envolvem. Isso apesar de Jaeggi reafirmar sua descrença em qualquer “forte lógica teleológica da história” (p.190). O que nos deixa perguntando: uma lógica teológica fraca, então? Eis a moderação “sem conceito” e “sem reconstrução” que me parece tem marcado o marxismo da TC como um humanismo do ser-genérico, um “marxismo atenuado” com relação a materialismo, determinismo, essencialismo, fundacionismo.

O “conceito dialético de negação determinada”, Jaeggi propõe, é “das lições mais importantes da concepção hegeliana e marxiana de mudança social” (p.203). Mas não é; uma perspectiva prática material não precisa disso. Ao contrário, essa é a parte hegeliana ruim, que desvirtua o materialismo prático-poiético de Marx, que precisa ser salvo dessa negatividade lógica, nada pragmática, politicamente nociva, que visa atribuir ao marxismo um alcance normativo forte – comunista. Entendo que deveríamos abandonar esse negativismo hegeliano- marxiano, que subordina um abordagem materialista-prática, potencialmente melhor que a pragmatista deweyana, a um esquema lógico, de afirmação >negação/alienação >negação-da-negação/emancipação, que emoldura o materialismo histórico de Marx, incluindo sua crítica do Capitalismo, resultando em vícios teoricistas, nada experimentalistas.

Creio que, em vez disso, para uma melhor reconstrução prático-materialista de Hegel, noções como atividade sensível, espírito objetivo, holismo, interacionismo, não-dualismo, podem interessar bem mais. (6) Com vistas a isso eu recomendaria o retorno a uma elaboração de filosofia geral, sobre relações entre prática, crença, materialidade, racionalidade, normatividade.Começando por uma reconstrução do famoso fio-condutor materialista histórico, de Marx, na Crítica da Economia Política, em termos de nosso enredamento prático-produtivo com o mundo, a ser liberto de implicações deterministas e dualistas, e conciliado com uma noção “sensível” de intencionalidade, também com contingência e criação. Na direção de um materialismo prático não dialético-negativo, mas dialético-interativo, holista, atento à consideração dos objetos, que inclua uma noção de posição (Setzung) reconstruída num paradigma da produção liberto dos parâmetros das filosofias da (auto-)consciência e do sujeito metafísico. Sob o fio condutor desse materialismo, elementos básicos do pragmatismo, como a máxima de Peirce, a sentença de Bain e o ponto de vista do agente, de Dewey, encontram sua melhor tradução - materialista.

Rumo a tal materialismo prático, a própria Jaeggi abre espaço, entre outras coisas, para uma consideração destacada, tanto de circunstâncias materiais (elas próprias “atividade sensível”), como também de objetos e práticas enquanto materiais e produtivas, que podem oferecer, para uma Forma de Vida, uma dialética pervasiva entre práticas, relações, objetos e constituição da subjetividade. É nesse quadro que podemos ainda desenvolver uma melhor consideração de racionalidade e normatividade, enquanto entretecidas com práticas e interações, tão intersubjetivas quanto materiais. (7)

Para deixar claro a que isso é alternativa, volto à questão: Onde está, para além de seu materialismo (quase-)prático, o fundacionismo normativo - transcendental, essencialista, comunista – da TC de Marx? Quanto a isso, é preciso reconhecer que o verdadeiro fio condutor da sua TC é outro; é o da alienação e do fetichismo da mercadoria, está entre o homem de Feuerbach e a narrativa dialética-negativa da história, que incorpora o primeiro. Está no humanismo do homem genérico, estabelecido por uma hermenêutica do Cristianismo, como alienação do homem de sua essência-gênero, cujo diagnóstico passa a Marx seu imperativo categórico. Uma essência por sua vez passada a substância, e inscrita na narrativa histórica de sua negação/alienação, e, materialistamente disfarçada, na crítica da economia política, como capítulo da mesma narrativa. A Crítica primeira, para Marx, é da religião, e tudo em Marx é nesse sentido crítica e superação da religião como alienação, do indivíduo que lhe corresponde e da suposta base material, na economia, para as três coisas. Na crítica da economia política, a essência genérica aparece do trabalho como essencialmente social, um caráter cuja ocultação e frustração Marx chama fetichismo - noção que deveria merecer, de Honneth e da TC em geral, a mesma suspeita que ele lança sobre alienação.

Por aí creio que o ponto de vista de Jaeggi, como tradução pragmático-materialista do hegelianismo, poderia levar a melhor termo uma reconstrução da Teoria Crítica do que a pragmático-kantiana de Habermas. Até ao ponto em que eu poderia talvez me encontrar com ela, desde onde eu próprio tenho partido.

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1 Colunas de 21/05 e 07/07/20.
2 Jaeggi, Entfremdung, 2014.
3 Como exemplo, veja-se meu “Marx and Feuerbachian Essence” (2005).
4 Minha crítica ao atual linguocentrismo filosófico está p. ex. em “O Mundo Bem Nosso” (2015).
5 From Alienation to Forms of Life. 
6 Sobre elementos pragmatistas de Marx, ver nosso “Considerações sobre o (não-)pragmatismo de Marx”.
7 Essa reconstrução põe a TC em diálogo com desenvolvimentos “materialistas” como o enativismo, a orientação-para-objetos, as críticas ao mentalismo.
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