Efeméride Celebrando 50 anos de As palavras e as coisas

Ivan Domingues (UFMG)

Gostaria de compartilhar com o leitor desta feliz iniciativa da ANPOF uma importante efeméride da filosofia mundial: os cinquenta anos de As palavras e as coisas, de Michel Foucault – obra que veio a lume no dia 08/04/1966, na prestigiosa coleção Bibliothèque des Sciences Humaines, da Gallimard, então dirigida pelo eminente historiador Pierre Nora e a que seu título viu-se definitivamente associado.

Trata-se de uma celebração, portanto, e com este intuito, neste breve artigo, além das necessárias informações sobre a obra relativas à publicação, vou acrescentar outras tantas acerca da sua recepção – e, por extensão, do autor – em diferentes pontos do globo, não só no Brasil. E ainda, ao me associar à celebração, registrar minha relação pessoal, juntamente com as impressões, tanto em relação ao autor, cujos cursos segui no Collège de France, quanto no tocante à obra ela mesma, que de uma maneira ou de outra está ligada à minha formação bem como ao meu percurso intelectual.

Começando pela publicação – justamente de um ex-normalien da Rue D’Ulm, com a reputação de crème de la crème do sistema de ensino francês, e de um autor como ele, com uma carreira totalmente fora do esquadro, em grande parte passada no exterior, não numa universidade da província, antes de desembarcar em Paris, em torno dos 50 anos –, ela veio a lume quando Foucault já tinha seus 40 anos e era já bastante conhecido, ao menos nos meios franceses. Pouco depois seria a vez dos Estados Unidos, de outros países da Europa e de outros cantos do mundo, como o Japão, o Irã e o Brasil. Ao voltar ao ponto, o título e o subtítulo merecem mais de uma explicação, assim como as suas traduções, especialmente a tradução inglesa.

Sobre a escolha do título principal, há mais de uma versão, a melhor delas e a mais completa é a de Didier Éribon que conta, respaldado em depoimento de Pierre Nora, que Foucault hesitava entre três possibilidades: [1] La prose du monde, a sua preferida, mas da qual ele desiste depois de saber que Merleau-Ponty, já falecido, tinha a intenção de publicar um livro com este título – o que de fato vai consumar-se, com a Gallimard publicando o livro do filósofo três anos mais tarde, em 1969, e cujo autor Foucault muito admirava, mas não queria “parecer muito marcado” por sua influência

(então, desiste do título, mas o conserva no segundo capítulo, onde se ocupa da episteme da renascença); [2] L’ordre des choses, que lhe parecia a segunda melhor alternativa; [3] e, enfim, Les mots et les choses, o título preferido de Pierre Nora, que no fim prevalece, tendo Foucault se rendido a seus argumentos, segundo Didier Éribon (Cap. 5 – As muralhas da burguesia, in: Michel Foucault - Uma biografia, 1926-1984. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 159).

Não menos importante do que o título principal, também o subtítulo mereceu igual hesitação do autor, segundo Paul Rabinow, de Berkeley, que privava de proximidade com ele e que lembra que Foucault oscilou entre duas possibilidades: uma arqueologia do estruturalismo e uma arqueologia das ciências humanas, tendo prevalecido a segunda.

Por seu turno, no tocante às traduções, ligadas ao sucesso mundial da obra, invariavelmente, como a brasileira, elas se limitaram a transcrever o título francês e o subtítulo. A exceção é a edição inglesa, que saiu em 1970 justamente com um dos títulos inicialmente cogitados por Foucault para o original francês: The order of things – An archeology of human sciences. A editora foi a Tavistock, de Londres, e nela consta um precioso Prefácio, que dá uma espécie de guia de leitura, para sorte do leitor britânico e americano, a mesma não sendo do leitor francês ou brasileiro, que deverá aventurar-se a ler um livro sabidamente difícil sem esta ajuda. A particularidade da edição inglesa é que ela traz este título, descolando-se do francês, devido ao fato da Penguin ter editado em 1968 o livro de Ernest Gellner, Words and Things, inicialmente publicado em Boston pela Beacon Press e com grande sucesso nos dois lados do Oceano (subtítulo polêmico: An Examination Of, and an Attack On, Linguistic Philosophy).

Somem-se as edições portuguesa e brasileira, com a portuguesa saindo muito rápido, pela Portugália, de Lisboa, sem data, mas com Prefácio do tradutor acusando o ano de 1967, portanto dois ou três anos antes da inglesa, e a brasileira, traduzida por Salma Muchail, pela Martins Fontes, em 1981, e tendo chegado à 10ª edição em 2016.

Por último, eu acrescento que em 2015 Foucault entrou na famosa Coleção La Pleiade da Gallimard, a mais prestigiosa da França e sem par no mundo, uma espécie de académie des belles lettres, imortalizando a quem nela entra ou nela entrando porque já imortal, podendo agora o leitor dos quatro cantos do mundo ler Les mots et les choses em papel bíblia, com o autor ladeado com outras glórias do pensamento e da língua

francesa, como Pascal e Balzac. E, por falar em Gallimard, o leitor que porventura se interessar poderá assistir no site da editora a uma entrevista de Foucault sobre Les mots et les choses, concedida a Pierre Dumayet em 1966, à época do lançamento do livro.

Passando à recepção, este não foi o livro preferido de Foucault, nem o mais influente e impactante. O preferido era Vigiar e punir. Os mais impactantes foram e são Vigiar e punir e História da sexualidade, segundo mostram rankings recentes. Assim, o Ranking da Thomson Reuters' ISI Web of Science de 2007 Webmetrics, onde desponta como autor mais citado em humanidades, incluindo os países anglo-saxões, vindo em seguida Pierre Bourdieu (2º), Derrida (3º), Giddens (5º), Goffman (6º), Habermas (7º), Weber (8º) e Freud (11º). Mais recentemente, em 2016, num ranking organizado por um professor da London School, acerca dos livros de filosofia mais citados em ciências sociais do Google Scholar, o livro de Foucault Vigiar e punir aparece classificado em 7º lugar e História da sexualidade (3 vls) em 11º, ficando a Estrutura das revoluções científicas de Thomas Kuhn em 1º e Paulo Freire, com a Pedagogia do oprimido, em 3º. Por fim, num outro tipo de levantamento, mas não menos eloquente, na Argentina Vigiar e punir aparece como a obra mais pirateada (Clarin, 12/01/2010). Ora, em nenhum destes rankings Les mots et les choses aparecerá como campeão, mas nem por isso será menos influente. De fato, mais em filosofia por causa da questão do sujeito e do antropologismo a que se viu definitivamente associada. Menos em ciências humanas e sociais, a que em parte foi destinado e onde encontra hoje pouca audiência, não estando elas hoje preocupadas com questões de método e muito menos epistemologia.

No entanto, em termos de impacto do autor e da obra, a exemplo do Brasil e dos Estados Unidos, pode-se dizer sem exagero que ela integra o conjunto das publicações de Foucault ao qual ele deve sua celebridade e identidade de filósofo francês, antes de tudo, com direitos a modismos e outras coisas.

Assim, ao concluir o segundo tópico, ao pensar a recepção mais do autor do que da obra especificamente, tem-se que a recepção do filósofo nos Estados Unidos deve ser contrastada em dois momentos diferentes, com as costas leste e oeste na linha de frente. Recepção difícil em Nova York, onde tudo começou, conforme relata François Dosse que, em seu livro consagrado a Deleuze e Guattari, fala de uma verdadeira celeuma que cercou a visita da dupla acompanhada de Foucault à “Big Apple” em 1975, quando tudo terminou muito mal. O contexto foi o Simpósio consagrado à “Esquizocultura”, organizado por um certo Lottringer e realizado no anfiteatro do Teacher’s College, da

Universidade de Columbia, com os três franceses ilustres como convidados de honra e o objetivo de divulgar nas terras da América a French Theory. Contudo, como nota Dosse, em vez de promover o objetivo, junto ao auditório lotado de 2000 assistentes, o resultado foi um verdadeiro desastre. Por um lado, com Foucault sendo acusado de agente da CIA por um dos presentes, e ele próprio revidando o ataque e ganhando o embate, ao dizer que o americano era um agente da KGB. Por outro, com Deleuze hostilizado por uma líder feminista como “falocrata ignorante, atrevendo a falar de coisas que não entende, como na conferência e no seu livro, ao falar das mulheres e do desejo” (Dosse, Artmed, p. 381). Em contraste, na viagem de Foucault à Califórnia tudo será diferente. O contexto foram as famosas conferências sobre a “Cultura do self” em Berkeley nos anos 80, e lá o filósofo se transformando em verdadeiro ícone. A “conquista do Oeste”, para usar a expressão de Dosse, prossegue depois com Derrida, na Califórnia, como Foucault, e nas Escolas de Letras antes de tudo, onde se converterá em filósofo cult, com direito a t-shirts, e não estou a par de que coisas mais.

Quanto ao Brasil, consta que ele nos fez vários visitas: 1965, 1973, 1974, 1975 e 1976, ao certo, mas há quem acrescente novas datas (1966) e até mesmo ele incógnito, longe das tietagens e celebrações. Antes de tudo, a São Paulo e à USP, como lembram Giannotti e Paulo Arantes, segundo os quais ele disse uma vez, ao se referir ao Departamento de Filosofia da USP, que ele era um verdadeiro “Departamento Francês de Ultramar”. Mencione-se ainda a famosa viagem ao Rio de Janeiro para uma série de conferências na PUC-Rio, as quais resultaram no livro publicado primeiro aqui, em língua portuguesa, em 1973, e só mais tarde em francês: trata-se de A verdade e as formas jurídicas, que anuncia Surveiller et punir, publicado em 1975, e em que além do mais podemos ver uma preciosa complementação de As palavras e as coisas, ao focalizar as ciências humanas e o direito numa perspectiva pragmático-funcional, como dispositivos do saber-poder. Quem quiser inteirar-se sobre estas visitas, poderá consultar dois dossiês publicados pela revista Cult em 2011 e 2014, disponibilizados na Web.

Faltou acrescentar nesses relatos e dossiês a viagem a Belo Horizonte, também em 1973, acerca da qual os estudiosos relatam várias conferências em diferentes instituições. De resto, conferências onde ele tratou de temas correlatos à obra então transformada em verdadeiro ícone, a História da loucura, bem como à menos conhecida do público culto mais amplo, As palavras e as coisas. Sobre esta última, lembro que ele

se lhe referiu na conferência proferida na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FAFICH-UFMG), onde abordou os temas do antropologismo, do anti-humanismo, de Sade e de Nietzsche, e da morte do homem, ao repercutir os dois últimos capítulos do livro. E eu, jovem estudante, sem entender direito o que estava escutando, estava lá no meio da multidão, impressionado com a performance da vedete francesa famosa.

Passo então, ao concluir esta efeméride, ao “meu” Foucault e às minhas impressões pessoais sobre a obra. Digo, antes de mais nada, que à época em que fiz meu doutorado na Sorbonne, Paris I, frequentei os dois últimos cursos que Foucault ministrou no Collège de France, entre 1981 e 1983, e que resultaram em seus dois últimos livros, L’usage des plaisirs e Le souci de soi. Foi a todos os títulos uma experiência única. Uma vez por semana lá estava eu no auditório, tendo chegado no mínimo meia hora antes para poder sentar-me e ter o privilégio de assistir ao grande espetáculo, que era teatro puro, e cada aula uma verdadeira conferência. Eu não sabia que ele estava doente. Ninguém sabia que era AIDS, doença desconhecida à época e, de fato, o diagnóstico só foi dado algum tempo depois, post-mortem. Polêmico e desabusado, o lado vedete e narcisista de Foucault, como se sabe, era detestado por Lévi-Strauss, que se lhe referia com todas as reservas e a maior das más-vontades deste mundo, como uma vez ao imitar seu fraseado “M’a tu vus à la télé?”

De minha parte, considero que Foucault foi grande, mesmo que narcisista, e o maior filósofo francês depois de Sartre. Lamentavelmente morreu muito cedo, aos 58 anos. Meu embate com ele começou em minha tese de doutorado. Ainda que o tenha citado muito pouco, ele foi a verdadeira fonte de inspiração, cuja visão das ciências humanas eu procurava refutar e dar outra resposta para a questão epistemológica. Desde então eu passei a me referir a Foucault, em meio a uma profunda admiração pela potência de seu intelecto e sua imensa capacidade de criação intelectual, contrastada com sua retórica marcante meio barroca e seu temperamento sofístico empedernido, como um camaleão filosófico: vem a ser, um autor que transmuta o tempo todo e é de domínio e captação difícil, que desliza muito e é chegado a afirmações contundentes, tudo de caso pensado, feitas para chocar e confundir, como ao dizer n’A arqueologia do saber “eu nunca fui estruturalista e nem usei a palavra estrutura”. Afirmação que foi logo desmentida pelos estudiosos, como Edgardo Castro em seu dicionário, que as contou em As palavras e as coisas e mostrou que foram precisas 79 vezes. Por isso, todo cuidado é pouco.

Este é, portanto, o “meu” Foucault, o Foucault epistêmico da fase arqueológica, e antes de tudo de As palavras e as coisas. A ele tinha me dedicado todo um estudo ao realizar minha tese de doutorado, a qual, no entanto, não era uma resposta direta àquela obra, mas nela tinha se inspirado, e resultando no livro O grau zero do conhecimento: o problema da fundamentação das ciências humanas. A ele também dediquei todo um capítulo, justamente às implicações epistemológicas de As palavras e as coisas, em meu recente livro O continente e a ilha: duas vias da filosofia contemporânea. Contudo, eu nunca havia oferecido um curso inteiramente consagrado a ele, menos ainda um livro.

Daí, motivado pela efeméride, a ideia de oferecer esse ano, na UFMG, um curso de pós-graduação inteiramente dedicado digamos ao “meu” Foucault, o Foucault “epistêmico” de As palavras e as coisas. Trata-se da primeira homenagem.

Haverá ainda uma segunda: a publicação, no próximo ano, de dois estudos sobre Foucault. [1] a reedição de O continente e a ilha, hoje esgotado e onde o leitor encontrará um capítulo revisado e ampliado tendo como objeto a obra famosa; [2] a publicação de um novo livro, mais alentado, que deverá vir a lume com o título As palavras e as coisas e a arqueologia das ciências humanas.

Ao concluir, não posso deixar de mencionar a nota sumamente triste e a todos os títulos chocante ligada à recusa da PUC-SP de hospedar a Cátedra Michel Foucault, decisão tomada no início do ano 2015 pelo Conselho Superior da Fundação São Paulo, mantenedora da instituição. Tudo isso com direito a parecer técnico e a outros tantos embasamentos obscuros, além de inconfessáveis, resultando num verdadeiro desastre e pondo termo a um trabalho pacientemente conduzido ao longo dos anos, associado à implantação da Chair: assim, toda uma coletânea de áudios do filósofo francês, já disponível no Departamento de Filosofia da PUC-SP e fonte preciosa para os estudos foucaultianos no Brasil, deverá ser devolvida caso a decisão do Conselho não seja revertida – e tudo indica que não vai ser revertida.

Porém, nem por isso estamos perdidos nestes tempos de darkness. Facilitados hoje pela Web, os estudiosos da obra de Foucault poderão consultar o site Projet ANR (2007-2010) "La bibliothèque foucauldienne", de responsabilidade do Philippe Artières e do Jean-Claude Zancarini (EHESS/ENS), com a proposta de investigação do modus operandi de Foucault, com várias vertentes ou linhas investigativas, e uma delas sobre As palavras e as coisas, baseada em manuscritos, fichas, colóquios, áudios, etc. Site da bibliothèque: http://lbf-ehess.ens-lyon.fr/

13 de Outubro de 2016.

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