Estereótipo de gênero e política no Brasil

Yara Frateschi

Em um país com acachapantes índices de violência contra a mulher, onde 42% dos homens acham que “mulher que se dá ao respeito não é estuprada”, que tem uma das mais baixas taxas do mundo de presença de mulheres no poder legislativo e onde elas recebem em média 74,5% da renda dos homens, vale se perguntar sobre a relação entre o machismo enraizado na cultura brasileira, o impeachment da presidenta Dilma Rousseff e a instauração de um novo governo de “homens brancos” encabeçado por Michel Temer. Não assumo aqui a tarefa de elaborar um diagnóstico mais amplo ou analisar detidamente as etapas do processo que levou ao afastamento de Dilma Rousseff. Me interessa notar que embora ela não tenha sido afastada do cargo porque é mulher ou porque os “machos” que encarnam a razão pública brasileira não teriam suportado que o cargo mais alto do executivo estivesse nas mãos de uma senhora, ainda assim a violência simbólica perpetrada pela grande mídia contra o seu governo se consuma também com a utilização de estereótipos de gênero.

O mais recente livro de Jessé Souza, A radiografia do golpe, mostra o passo a passo do golpe, desde as manifestações de junho de 2013 até o afastamento da presidenta em abril de 2016. O livro sustenta a tese de que o golpe se deu por um amplo acordo de interesses, “editando ‘o velho acordão brasileiro’ entre as diversas elites, agora comandado pela elite financeira”1. O autor se empenha em desvelar a hierarquia entre esses interesses (o primeiro aser considerado é o econômico) e a maneira pela qual eles se juntam para produzir o afastamento de Dilma Rousseff. Na narrativa que Souza constrói para o golpe a elite econômica, sob o comando da fração financeira, se une contra o governo depois de ganhar a batalha pelo juro alto e alia-se à mídia (especialmente a televisiva) e à casta jurídica para a consumação do seu objetivo. O que me interessa particularmente aqui é a construção de um cerco ideológico, com o protagonismo da grande mídia, que se torna porta voz da reação dos setores mais conservadores da classe média2.


Em poucas palavras, o golpe foi construído cuidadosamente com o ataque sistemático ao PT, às políticas (bem-sucedidas) de inclusão implementadas pelos seus governos e à figura da presidenta, tudo isso, claro, com a contribuição luxuosa do judiciário em sua cruzada hipócrita e seletiva contra a corrupção. A grande farsa do combate à corrupção (que vem junto com a demonização do PT) cai como uma luva para a classe média e sua parcela mais

conservadora, profundamente incomodada com a melhoria das condições de vida das classes populares, incômodo que foi se transformando em ódio quando se viu obrigada a compartilhar espaços sociais com as classes populares ascendentes. Esses são alguns dos fatores que permitem a construção de uma suposta “base popular” para o processo golpista, “que é, de fato, uma base elitista fundada nas classes do privilégio”3. Esse ator político conservador, normalmente discreto e recluso, é convertido subitamente em “classe revolucionária” com alta dose de autoconfiança, passando a explicitar publicamente o seu conservadorismo, seu moralismo e seu ódio aos pobres.

A construção de um cerco ideológico para deslegitimar o governo Dilma conta ainda com outro recurso: transformar a presidenta numa mulher tresloucada, de ânimo instável e, portanto, totalmente incapaz de ocupar um cargo que exigiria racionalidade e temperança. Caso emblemático é o da edição de 6 de abril de 2016 da revista Isto é, com o título “As explosões nervosas da presidente”. A capa estampa uma Dilma fora de si, histérica, aparentemente afetada por uma “doença” há muito associada ao aparelho reprodutor feminino, mais especificamente, ao útero. Mas o “retrato” lembra também uma bruxa de boca e olhos escancarados e sobrancelhas exageradas que invadem a testa (e que deve ter despertado o imaginário das famílias intoxicadas pelos desenhos da Disney e suas vilãs como a Úrsula, inspirada, por sua vez, na drag queen Divine). Ora, se a bruxaria serviu para queimar um batalhão de mulheres na fogueira, por que não serviria para queimar os 54, 5 milhões de votos que Dilma Rousseff recebeu em eleições democráticas? A mencionada revista fez uso de um preconceito profundamente enraizado, e um símbolo clássico da dominação de gênero, para desqualificar Dilma Rousseff: o estereótipo da mulher comandada pelos afetos, que perpetua a eterna desconfiança a respeito da racionalidade feminina. Fazia parte do projeto de criar uma aparência de legitimidade a um processo de afastamento que carecia de efetiva legitimidade que o afeto descambasse para a histeria (aliás, cumpre perguntar se essa estratégia misógina da grande mídia seria necessária se de fato as provas do crime de responsabilidade fossem materiais).

Pudemos ver como a grande mídia adotou a estratégia de “novelizar” a política e reduzi-la ao embate entre mocinhos e bandidos: o mocinho vai se tornando o “aparato jurídico-policial elevado à condição de paladino da higiene moral da nação” (encarnado no juiz Sérgio Moro) e o bandido é representado pelo PT e pelas classes populares4. Mas não apenas. É interessante notar que o enredo conta agora também uma vilã perigosa, que por sua falta de racionalidade e desequilíbrio emocional coloca em xeque os interesses da “nação brasileira” e,

principalmente, aciona a desconfiança do sagrado mercado. Quem pode confiar em uma doida? O uso dessa violência simbólica de gênero atiça agora a misoginia das parcelas mais conservadores da classe média, como revelam os comentários nos sites de revistas, jornais e redes sociais.

Michel Temer assume como interino e extingue o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos e, uma vez derrotada definitivamente a vilã, nomeia o seu ministério sem a presença de uma mulher sequer, rompendo com uma tendência de aumento da presença feminina nos ministérios desde a eleição de Fernando Henrique Cardoso: enquanto este nomeou 4 mulheres, Lula nomeou 11 e Dilma, 14. A mensagem é muito clara e transmite que a questão de gênero não afeta este governo, que abandona a luta contra a dominação simbólica e material da mulher. O que nos anima é que a reação foi bastante significativa e veio de diversos lados, da mídia estrangeira, da mídia alternativa, de grupos organizados de mulheres e de entidades internacionais (como a ONU mulheres). Mas a solução que o governo encontrou para a acusação de machismo não é apenas profundamente desanimadora, ela é também profundamente violenta da perspectiva de gênero.

No dia 5 de outubro de 2016, entra em cena na novela a personagem que faltava: a mocinha. Marcela Temer estreia na vida pública como embaixadora (voluntária) do Programa Criança Feliz. No seu currículo nada consta que a qualifique profissionalmente para estar à frente de um programa com orçamento estimado em R$ 300 milhões para 2017, mas isso não tem nenhuma importância, pois ela tem experiência como mãe de Michelzinho. Para a primeira dama, a sua qualificação é “o instinto”. Marcela Temer se apresenta com um vestido discreto rendado em um cenário composto por um paredão de homens, entre eles o presidente e os ministros Alexandre de Moraes (Justiça), Eliseu Padilha (Casa Civil), Mendonça Filho (Educação) e Osmar Terra (Desenvolvimento Social). Marcela é o exato oposto da mulher dura ou descontrolada, características comumente atribuídas à Dilma Rousseff. Ela é maternal e emotiva na medida certa, como convém às mulheres. Um corpo dócil, obediente à racionalidade daqueles homens que a escoltam.

A grande mídia foi bastante simpática à sua nomeação. A Isto é ressalta os seus “gestos delicados”, a Folha destaca o seu “tom emotivo”, o Estado de SP, o “seu tom maternal”, o G1 ressalta o seu trabalho junto às crianças pobres. Que a grande mídia não tenha questionado a sua nomeação é algo que está em perfeita harmonia com a cobertura favorável que vem fazendo ao governo de Michel Temer. Nada a estranhar, afinal ela está sendo muito bem paga para isso

com aumento extraordinário de recursos do governo federal5. Interessa notar que a ausência de qualificação profissional da primeira dama foi suprida pela grande mídia com estereótipos de gênero. Se antes os estereótipos serviram para desqualificar Dilma Rousseff, agora eles servem para qualificar Marcela Temer. Nos dois casos, se perpetua a violência simbólica contra a mulher, que oscila entre a histérica e a maternal, entre o corpo descontrolado e o corpo dócil, sempre carente de atributos racionais.

Acontece que Marcela Temer não é apenas um corpo dócil. Antes retratada como “bela, recata e do lar”, agora ela lembra uma sinhazinha bondosa. O conteúdo do seu discurso de posse fala diretamente para a classe média moralista e reacionária que apoiou o impedimento de Dilma Rousseff: “Os cuidados na primeira infância ajudam a inibir o comportamento agressivo e violento na adolescência. Dessa forma, esse adolescente se tornará um adulto mais preparado para a vida”6. Marcela, a maternal, vai cuidar das crianças pobres para que elas não se tornem violentas. É estereótipo de gênero a serviço do preconceito de classe.

1 Souza, Jessé. A radiografia do golpe. São Paulo, Leya, 2016, p. 129.

2 Idem, p. 89.

3 Idem, p. 96.

4 Idem, p. 50.

5 http://www.ocafezinho.com/2016/10/01/trem-da-alegria-2-verba-publica-para-revista-epoca-cresce-900-para-jornal-o-globo-230/

6 Conferir a íntegra do discurso de posse de Marcela Temer em https://www.youtube.com/watch?v=jPIQY-vRV-k.

14 de Outubro de 2016.

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