A filosofia e a desigualdade de gênero

Maria Isabel Limongi (UFPR)

À Marilena Chaui, com carinho

O último encontro da ANPOF abriu-se com uma mesa de discussão sobre gênero e Filosofia, e, com isso, suscitou uma reflexão bastante nova e muito bem-vinda entre nós: como compreender e como lidar com os dados recolhidos por Carolina Araújo (Cf. “Mulheres na pós-graduação em Filosofia no Brasil – 2015”, Forum de Debates/ ANPOF) sobre a desigualdade de gênero na área de Filosofia? Os dados são eloquentes: entre docentes e discentes da comunidade de pós-graduação em filosofia no Brasil apenas 27% são mulheres, sendo que a proporção de mulheres diminui em 48%, conforme se avança na carreira. Tão eloquentes que apenas confirmam e sistematizam o que já era bem sensível a qualquer um, e, em especial, a toda mulher que, como eu, se embrenhou na área, graduando-se, pós-graduando-se e atuando como professora universitária e pesquisadora em Filosofia. Todas nós sentimos na pele o peso desses dados. E, por isso mesmo, não gostaria de silenciar sobre a questão, publicando aqui o que pretendia desenvolver na ocasião, se tivesse chegado a tempo para participar da mesa, como teria gostado imensamente, não apenas para poder contribuir com o debate, mas também para participar do clima emotivo e combativo que, pelo que soube, ali se criou.

Os dados relativos à desigualdade de gênero na área de Filosofia e a preocupação com eles não são um privilégio local. Em 2013, por ocasião da expulsão de um professor de Filosofia da Universidade de Miami, acusado de assediar moral e sexualmente suas estudantes, o New York Times publicou uma série de artigos assinados por mulheres- filósofas em torno do tema. Dados semelhantes aos nossos foram então divulgados e debatidos. Sabemos também que os números não são privilégio da área de Filosofia e que se repetem em outras áreas acadêmicas, como a Química ou a Física. Os dados dizem respeito a como se comporta a Filosofia enquanto área acadêmica.

Sob esse ângulo, chama atenção o fato de que os números apontam para uma diminuição progressiva da presença de mulheres na carreira: a desigualdade de gênero é menor nos cursos de graduação do que no corpo docente das pós-graduações. Ou seja, não é que as mulheres não se interessem pela Filosofia, não é que não se identifiquem de antemão com a área, em função, talvez, de ser um ofício tradicionalmente exercido por homens e associado ao masculino. As mulheres se interessam tanto quanto os homens pela Filosofia, mas, uma vez tendo se interessado, e tendo sido admitidas nos cursos universitários em pé de igualdade com os homens, em algum momento, desistem. De algum modo, por alguma razão, elas são expulsas da área. É isso o que preocupa, quando, em resposta às lutas feministas do último século, assume-se como desejável uma representação igualitária de gênero em todas as áreas do saber. É isso o que precisa ser compreendido e interpretado. Por que as mulheres desistem?

A resposta a essa pergunta depende, em boa parte, de algum tipo de pesquisa empírica. Seria preciso inquerir as mulheres sobre isso. Como faltam dados, resta-me recolocar a pergunta e seguir uma trilha mais especulativa. Pergunto: seria possível localizar na própria Filosofia, enquanto domínio do saber, ou no modo como ela é exercida no ambiente acadêmico, algo que pudesse explicar por que as mulheres desistem dela?

A pergunta é perigosa e é preciso evitar o equívoco de respondê-la apelando para certos traços supostamente masculinos da Filosofia – quer exaltadores da sua suposta masculinidade, como a “racionalildade”, quer denegridores, como a “vontade de poder”. Num caso como no outro, a Filosofia não seria para as mulheres! Há tempos as feministas denunciaram esse tipo de representação do “masculino” e do “feminino” como uma forma de reprodução das estruturas tradicionais de dominação de gênero.

Mas, se a Filosofia não é “masculina” ou “feminina”, é certo que é perpassada por uma disputa de gênero, sendo muitas vezes utilizada como uma forma de dominação, não só de gênero, mas também. O episódio que ocasionou a série de artigos publicados no New York Times é bastante significativo quanto a isso: o professor acusado de assédio alega que a acusante não conhece filosofia da linguagem o suficiente para distinguir os diversos contextos de comunicação e interpretar corretamente as palavras proferidas por ele, que foram então mal interpretadas como uma forma de assédio sexual. Ao desqualificar desse modo a mulher que o acusa, o professor incorre no que se chamaria um assédio moral – o que fortalece a acusação contra ele! (Cf. Alcoff, L. M. “What’s wrong with philosophy?” http://opinionator.blogs.nytimes.com)

Como no caso desse professor em relação à sua estudante mulher, sabemos que Filosofia é frequentemente usada como um instrumento de desqualificação ou rebaixamento de outros discursos. É o que ocorre quando ela se postula como um discurso para poucos, difícil e inacessível, e não raro nos depararmos com um tipo de discurso propositalmente incompreensível e impenetrável ou excessivamente elevado que se pretende passar por “Filosofia”, mas que apenas quer colocar o seu interlocutor no lugar da ignorância, no lugar de quem não está em condições de entender o que é dito, seja porque o que se diz é muito abstrato, seja porque exige muita leitura, muita cultura ou o domínio de um jargão, seja ainda porque é um discurso para iniciados.

Esse tipo de arrogância não é evidentemente um traço exclusivo da Filosofia, mas de todo saber “elevado”. Não é tampouco algo inseparável da Filosofia – que pode ser feita de tantas maneiras e também como forma de elucidação e resistência. Mas é um traço marcante e recorrente, e penso que isso tem a ver com certas características da Filosofia - em especial, com a dificuldade que há, em função do tipo de reflexão em que ela consiste, de aferir competências filosóficas. Definir o que é a “boa filosofia” é, no mínimo, controverso, muito mais que em quaisquer outras áreas universitárias, nas quais é possível recolher resultados positivos do trabalho analítico e conceitual, com base nos quais aferir competências.

Não que isso seja impossível de fazer na área de Filosofia, e é isso o que têm procurado fazer (não sem dificuldade, é verdade) nossas mais recentes políticas de avaliação: definir critérios mais ou menos objetivos de competência, que passem além do apadrinhamento e a indicação dos já reconhecidamente competentes. Mas, nenhum critério de avaliação, por mais objetivo que seja, será capaz de anular o fato que, não só na Filosofia, mas nela em especial e de forma inseparável, a competência esteja associada a uma aparência de competência, a uma capacidade retórica de se fazer persuadir, de bancar o próprio discurso e de conferir autoridade à própria fala. Isso é parte do jogo e faz a graça da coisa. Afinal, o que é Filosofia senão uma arena de disputa entre diversas perspectivas discursivas? Mas é aqui, me parece, que as mulheres se encontram em desvantagem, já que, ao contrário dos homens, nunca foram encorajadas a autorizar seus próprios discursos. Nesse jogo, elas costumam se intimidar e, quando não, o fazem às duras penas.

Não fui muito além de declarar as razões que me teriam feito desistir da Filosofia, nas tantas vezes em que pensei nisso, e de relatar o que observo aqui e ali, nas minhas orientandas de pós-graduação, por exemplo, muitas das quais têm um medo danado de “falar besteira”. Mas não vejo outro caminho para lidar com a questão, senão perguntando a nós mesmas o que nos teria feito ou efetivamente fez desistir da Filosofia. Se o que eu disse a partir da minha experiência pessoal fizer sentido para as outras mulheres, se essa for mesmo uma causa da evasão feminina, um caminho para revertê-la seria o de encorajar

nossas estudantes a bancarem seus próprios discursos. Mas, sem perder a ternura, é claro! Sem deixar de desconfiar de si mesmas, como as mulheres aprenderam a fazer, já que, sem essa desconfiança, não pode haver boa filosofia, mas apenas formas de dominação pelo discurso.

No que se refere ao aspecto autobiográfico da questão, não posso deixar de mencionar o papel que desempenhou na minha vida uma certa fala da Marilena Chaui, nos primórdios do meu curso de graduação em Filosofia, justamente num momento em que, já tendo largado o curso uma vez, eu voltava a pensar nisso. Ela disse (e o contexto, que eu não vou detalhar, era notadamente feminista, ela se referia a um certo colega seu claramente misógino): “não caiam nessa de que pensar bem é pensar difícil, é não se fazer compreender!”

Não sei se ela se lembra de ter dito isso. Não sei se é algo que ela costumava dizer ou se disse apenas aquela vez. Nem mesmo tenho certeza de que ela tenha efetivamente dito isso. Pouco importa, o fato é que eu guardo essa fala na memória como uma fala feminista da Marilena, e que minha relação pessoal com a Filosofia foi profundamente marcada por ela. Eu sempre me interessei por filósofos que, tendo denunciado o caráter abstruso da (vã) filosofia, se preocuparam com a clareza e a comunicabilidade de seus pensamentos. E hoje me dou conta que, por trás desse interesse, havia uma motivação feminista, infundida pela Marilena!

08 de Novembro de 2016.

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