A voz das invisíveis: notas sobre gênero e filosofia

Joana Tolentino [1]

Estimulada pelo excelente artigo de Maria Isabel Limongi sobre filosofia e desigualdade de gênero, recém publicado nesta coluna, que tem se mostrado espaço aberto e profícuo de debate, e por considerar este tema de suma relevância, ouso apresentar aqui minha contribuição em algumas notas mais. Parece-me que o momento é fértil para explorar a relação entre gênero e filosofia e alguns fatos recentes corroboram para isso, como a campanha “Filósofas: quantas somos?”, que pretende ter acesso a dados e dar visibilidade à presença (ou às ausências) das mulheres na filosofia institucionalizada no Brasil, bem como a criação do GT Filosofia e Gênero para o XVII Encontro da ANPOF, realizado em Aracaju. No que tange à questão de gênero, me concentrarei aqui na reflexão sobre as mulheres e a filosofia, traçando um recorte restrito em um campo aberto que é muito mais abrangente.

Ainda que não soe incomum identificar a filosofia como um campo do saber profundamente masculino - assim como a física e as engenharias – é importante dizer (embora pareça óbvio), citando minha amiga Juliana Lira, que se trata de uma tipificação ocidental do masculino, que agregou a esse nome um conjunto de traços que o identificam. Não há um universal masculino. O que penso ser válido destacar aqui, a partir do estudo da professora Carolina Araújo (Cf. “Mulheres na pós-graduação em Filosofia no Brasil – 2015”, Fórum de Debates/ ANPOF), é que as mulheres têm interesse e procuram a graduação em filosofia, diferente do que ocorre em outras áreas, citadas acima, em que a procura por parte das mulheres é baixa em todos os níveis de ensino e pesquisa. Na filosofia, ao contrário, as mulheres aportam, mas depois vão transferindo-se para outros cursos, abandonando, desistindo. Concordo com os elementos apontados no texto pela professora Maria Isabel para essa evasão, assim como admiro o tom autobiográfico que ela imprimiu ao artigo ao abordar seara nada simples da tradição patriarcal na qual estamos inseridas.

No entanto, gostaria de salientar aqui outro elemento, a importância dos modelos, dos paradigmas - de filósofas, pesquisadoras, coordenadoras, reitoras, presidentas - na construção cultural, arquetípica e, por fim, pessoal daquela mulher que cogita, ao longo ou ao fim de sua licenciatura ou bacharelado, fazer da filosofia profissão, busca, trabalho, pesquisa, escrita, meio de vida. Assim coloco uma questão que me parece relevante: o quanto a quase total ausência de filósofas na tradição da história da filosofia, tal como a concebemos, afasta as mulheres do fazer filosófico? Destaco aqui a dificuldade das mulheres estabelecerem elos subjetivos e singulares de pertencimento a uma categoria da qual se encontram excluídas, devido ao silenciamento imposto às vozes das filósofas ao longo da história canonizada da filosofia. O quanto, como pesquisadoras e professoras, somos veículos da transmissão e consolidação de um saber falocêntrico, que não nos leva em conta, que nos invisibiliza? Como a nossa tradição filosófica contribui, ainda que via aceitação e passividade, para o ideário sexista e misógino que ainda impera em nossa cultura, em nossas sociedades e, em escala micropolítica, nos espaços de produção do saber, como as universidades e as escolas?

Tomarei a liberdade de fazer aqui também um percurso um tanto biográfico, unindo vida, pesquisa, escola, trabalho, academia, filosofia. Durante toda a minha graduação, mestrado e doutorado, sempre em filosofia, não vi ser ofertada nenhuma disciplina que tivesse como bibliografia básica obras de filósofas. A exceção, que só confirma a regra, foi uma vez que nós, estudantes, convencemos um professor bastante acessível a nos dar aulas sobre Hannah Arendt, proposta que ele aceitou generosamente, apesar do visível desconforto pela autora não ser seu objeto de pesquisa. Quantas autoras são objeto de pesquisa de nossos professores e professoras de pós-graduação? Até o último e recente encontro da ANPOF, para o qual foi criado o GT Edith Stein, nunca antes houve um GT voltado exclusivamente para o pensamento de uma filósofa. Talvez nem seja esse o formato mais interessante, mas cabe dizer que não faltam GTs focados em um ou outro filósofo, proliferando ano após ano. Ao final da minha graduação só tinha ouvido falar, além de Hannah Arendt, sobre Simone de Beauvoir, porém mais como um apêndice do existencialismo de Sartre, o que é profundamente injusto. A leitura de livros seus, tais como Por uma moral da ambiguidade, mostram traços de sua filosofia existencialista radical. No entanto, não é incomum que até mesmo Simone de Beauvoir (um clássico da filosofia, responsável pela única questão sobre uma filósofa presente em provas do Enem) seja criticada por ter voltado suas pesquisas para questões femininas ou de gênero, sobre velhice, adolescência. Será realmente possível delimitar com precisão questões e temas por princípio filosóficos e não filosóficos? Se possível, será isso de fato desejável pela comunidade filosófica?

Emendei o bacharelado na licenciatura e no mestrado e, ao perceber que estava pouco a pouco enveredando de forma definitiva para uma carreira na filosofia, entrei em pânico. A única filósofa brasileira viva que fulgurava em nosso inconsciente coletivo era Marilena Chauí, o que dava um certo alento pela existência de alguma (e tão brilhante!), mas ao mesmo tempo vinha um profundo desespero por ser apenas uma, quando somos mais da metade da população brasileira e mundial. No ano seguinte entrei em sala de aula, na universidade e no ensino médio, para ensinar Platão, Merleau-Ponty, Adorno, Benjamin, Aristóteles, Montaigne, Espinosa, Epicuro, Rousseau, Hume, Nietzsche, Foucault... São todos pensadores vigorosos e muito os admiro. Mas há uma violência simbólica em tudo isso. O quanto foi e ainda é necessário para nós, mulheres, operar uma alienação de nós mesmas, a fim de seguirmos identificadas com a filosofia? Ação (ou reação?) diante da escassez e mesmo ausência de imagens positivas e empoderadoras para nos identificarmos com nós mesmas no interior do logos filosófico.

Ao longo de dez anos, em instituições privadas e públicas, estaduais ou federais, me senti agente dessa prática de exclusão epistêmica, via silenciamento e invisibilização. Essa prática, que se insere em processos de colonialidade no interior dos quais o saber filosófico encontra-se profundamente enraizado, configura-se, em última instância, como um epistemicídio de grupos inteiros. Como filósofa e professora de filosofia começou a me incomodar profundamente a naturalização tácita desse epistemicídio em nossa prática cotidiana. Logo nós, filósofos e filósofas, cultivados na admiração e no espanto, na não aceitação passiva do dado, adeptos da dúvida e do questionamento! Tornou-se vital para mim, então, problematizar o cânone filosófico e, com ele, relativizar o que se denomina por história da filosofia, rever o sentido do currículo e os recortes curriculares, a violência neles implícita, valorizar mais as lacunas, os pensamentos marginais, os anormais (que não foram normalizados, docilizados), trazer à memória o que fazia parte outrora apenas do esquecimento. Mais ou menos como fizeram os filósofos do início da contemporaneidade, ao trazer à cena os filósofos gregos mais antigos, trágicos, inserindo-os definitivamente na história da tradição filosófica, anterior a Sócrates.

Ao pensar, no departamento de filosofia do Colégio Pedro II, possíveis ações efetivas contra o machismo e a misoginia que ainda imperam nos espaços de ensino em plena segunda década do séc. XXI (basta visitar os tantos sites de recentes coletivos de mulheres, femininos que têm surgido nas universidades e colégios), saltou-me aos olhos o quanto ainda negligenciamos as relações entre saber e poder. Dissociamos nossa prática da teoria filosófica e de seu conteúdo, lidando com os saberes filosóficos como neutros. Vale ressaltar que na grande área das humanidades, na qual comumente a filosofia vê-se inserida, somos a disciplina que menos trabalha com modelos, pensamentos e paradigmas de autoras mulheres – em especial as ciências sociais e a história estão anos luz à nossa frente na busca por uma equidade nas relações entre produção de conhecimento e representações de gênero.

Quando propus uma pesquisa de iniciação científica Jr, registrada e com aporte de recursos, sobre a presença das mulheres na filosofia, com bolsistas da 2ª e 3ª séries do ensino médio, meu objetivo mais localizado era dizer para a comunidade escolar que existem mulheres filósofas, que a filosofia não é exclusividade dos homens, não é um saber com gênero determinado. Como objetivo mais ampliado da pesquisa pretendo abrir fendas e fissuras naquilo que se denomina como tradição filosófica, evidenciando os processos de poder nela imbricados, a colonialidade, os silenciamentos, a violência epistêmica.

Ao começarmos a pesquisar sobre as mulheres na filosofia surgiu a primeira dificuldade: que elemento seria necessário e mesmo suficiente para classificar uma mulher como filósofa? Ser formada em filosofia, ter pós-graduação na área, desenvolver pesquisa sobre tema reconhecidamente filosófico? Esse elemento acadêmico, embora ainda pareça injusto e excludente, poderia até valer como critério para a contemporaneidade, mas em épocas em que não havia este saber institucionalizado, que parâmetros adotar? Quantos filósofos famosos ficariam de fora da história da filosofia se adotássemos a academia como critério. Com o intuito de deixar as jovens pesquisadoras com alguma liberdade, pelo menos para fazer o recorte que desejassem no objeto da pesquisa, me surpreendeu positivamente a primeira amostragem que me foi apresentada de uma busca preliminar na internet. Elas afirmavam a necessidade de incluir na lista filósofas orientais, da Antiguidade, vivas, modernas, negras, medievais, latinoamericanas, contemporâneas, brasileiras. E assim, para além de nomes com os quais eu já esperava me deparar, tais como Judith Butler, Angela Davis, Maria Zambrano (além dos já citados), surgiram nomes como Diotima, Hipátia, Safo de Lesbos, Lopamudra, Mary Wollstonecraft, Rosa Luxemburgo, Emma Goldman, Marilena Chauí, Djamila Ribeiro, Lélia Gonzalez, Audre Lorde, Thereza Santos.

O que seria, então, necessário para afirmar uma pensadora como filósofa? Talvez apenas um pouco mais de coragem na formulação, enunciação e afirmação de nossos discursos, associados às nossas práticas – e currículos, programas, problemas, questões. Sou muito grata a Marilena Chauí por ser inspiração para toda uma geração de mulheres que fazem filosofia no Brasil, bem como às professoras Rosa Dias, Ethel Rocha, Lia Levy, Clara Acker, Ana Miriam Wuensch, Susana de Castro que muito me potencializam e também às guerreiras companheiras de trabalho no Colégio Pedro II. Mas tenho especial gratidão à Jéssica, Thaís, Maria Clara e Ana Luiza, estudantes e jovens pesquisadoras-bolsistas que, antes dos 18 anos de idade, já são capazes, com propriedade, de construir outras narrativas para o saber filosófico e sua tradição, muito mais plurais, coloridas e complexas. Independente da profissão que venham a escolher, esse saber que se enraíza na desconstrução de ordenamentos arbitrários, unilaterais e excludentes, constitui-se como importante legado para as gerações futuras – legado esse, penso eu, profundamente filosófico.

[1] Professora do departamento de filosofia do Colégio Pedro II, doutora em filosofia pelo PPGF-UFRJ, membro do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar e mãe de dois filhos.

11 de Novembro de 2016.

FaLang translation system by Faboba