Assembly: a organização multitudinária do comum

 
ASSEMBLY divulgacao em alta chapado
Assembly: a organização multitudinária do comum

Autores: Antonio Negri e Michael Hardt
ISBN: 978-85-94444-02-8
Editora: FILOSÓFICA POLITEIA
Edição: 2018

Número de páginas: 438

Em todo o mundo, movimentos sociais multitudinários erguem-se contra a injustiça e a dominação, tomam brevemente as manchetes ao redor do globo e, então, aos poucos, somem de vista. Mesmo quando conseguem derrubar algum líder autoritário, eles têm sido, até agora, incapazes de criar alternativas novas e duradouras. Como diz Maquiavel, eles não desenvolvem a necessária robustez de raízes e galhos para sobreviver a adversidades climáticas. A grande novidade desses movimentos é seu caráter radicalmente horizontal. Justamente por isso, muitos creem que lhes faltam a capacidade de produzir novos líderes. Onde estão, perguntam Negri e Hardt, os novos Martin Luther Kings, Rudi Dutschkes e Stephen Bikos?

Ao mesmo tempo, cresce a indignação com as políticas corruptas que beneficiam, sobretudo, as finanças e as grandes corporações. Crescem a indignação com a desigualdade social e o medo da destruição da Terra e de ecossistemas. É patente que o Estado, em larga medida, serve o capital privado, não o bem comum. Com a ascensão dos movimentos políticos de extrema-direita em vários países, tornou-se ainda mais urgente a questão da organização democrática e durável dos movimentos sociais.
 
Os movimentos horizontais mostraram suas insuficiências, mas não é possível voltar às formas hierarquizadas e centralizadas de representação e liderança política, seus partidos e instituições. Em vez de repudiarmos a liderança, dizem os autores de Assembly, devemos demarcar suas funções políticas centrais e, então, inventar novos mecanismos e práticas que nos permitam satisfazê-las. É um erro traduzir críticas válidas da liderança em uma recusa de organizações e instituições políticas de fôlego, banir a verticalidade apenas para fazer da horizontalidade um fetiche e ignorar a necessidade de estruturas sociais duráveis.
 
A partir dos conceitos desenvolvidos em Império, Multidão e Bem-estar comum, Assembly discute como os grandes movimentos sociais podem desenvolver estratégias e táticas políticas capazes de produzir formas duradouras de viver e de compartilhar a riqueza comum.
 
“O título deste livro, Assembly, visa apreender o poder de se reunir e de agir politicamente em conjunto. Aqui, porém, assembly não aparece de modo teoricamente exaustivo; tampouco buscamos analisar detalhadamente qualquer prática específica de assembleia ou reunião. Em vez disso, abordamos o conceito transversalmente e mostramos como ele reverbera com uma ampla rede de princípios e práticas políticas, das assembleias gerais, instituídas pelos movimentos sociais contemporâneos, às assembleias legislativas da política moderna; do direito de reunião afirmado em tradições jurídicas à liberdade de associação, central para a organização do trabalho; das diversas formas de congregação em comunidades religiosas à noção filosófica de agenciamento maquínico que constitui novas subjetividades. Assembly é uma lente que nos permite reconhecer novas possibilidades políticas democráticas.”

Sobre os autores
ANTONIO NEGRI é filósofo e militante ligado ao operarismo italiano e aos movimentos altermundistas. Lecionou na Universidade de Pádua, na Universidade de Paris e na École Normale Supérieure de Paris.
 
MICHAEL HARDT é filósofo e estudioso dos movimentos sociais. Leciona na Universidade Duke, nos Estados Unidos, onde dirige o Social Movements Lab. Escrevendo juntos desde 1994, Negri e Hardt são autores da tetralogia Império, Multidão, Bem-estar Comum e Assembly. Seu pensamento dialoga com os movimentos sociais democráticos, as forças de liberação e as lutas contra a exploração do capital globalizado, propondo formas alternativas de vida e subjetivação, de produção e gozo da riqueza comum. Seus estudos propõem formas políticas e econômicas que permitam a construção de um mundo mais democrático e igualitário.

Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

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Consciência, natureza e crítica social em Hegel, Feuerbach e Marx

Eduardo Ferreira Chagas; Renato Almeida de Oliveira

Em uma tentativa de trazer melhor explanação a respeito dos conceitos de consciência, natureza e uma crítica social, os autores Eduardo Ferreira Chagas e Renato Almeida de Oliveira transitam nas leituras dos clássicos entre Hegel, Feuerbach e Marx, abordando assim, direta ou indiretamente, assuntos como religião, fenomenologia, moral, ética, antropologia, ciências sociais etc.

Chagas, Eduardo Ferreira; Oliveira, Renato Almeida de. Consciência, Natureza e Crítica Social em Hegel, Feuerbach e Marx. 
Porto Alegre, RS: Editora FI, 2019, 305 p. ISBN: 978-85-5696-519-6.

Disponível em: https://www.editorafi.org/519hegel

"Nísia Floresta, uma brasileira desconhecida: feminismo, positivismo e outras tendências" Prof. Dr. Paulo Margutti

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Nísia Floresta, uma brasileira desconhecida: feminismo, positivismo e outras tendências

Paulo Margutti

A ideia do presente livro surgiu de circunstâncias relativamente fortuitas. Estávamos redigindo a 2ª Parte de nossa História da Filosofia do Brasil, relativa à primeira metade do s. XIX, e Nísia Floresta fazia parte da lista de pensadores a serem considerados no período. Acontece que as informações a respeito dela são muito reduzidas na bibliografia disponível sobre a história da filosofia brasileira. De um modo geral, os pesquisadores que trabalharam essa questão não fazem menção a ela. Isso é surpreendente, pois estamos diante de uma mulher inteligente, culta e bastante independente em suas ações. Ela foi capaz de romper seu casamento com apenas quatorze anos de idade; de unir-se posteriormente a um estudante de direito; de adquirir, talvez em parte como autodidata, uma cultura humanística muito acima da média não só das mulheres, mas também dos homens de sua época; de publicar livros e artigos com conteúdo filosófico na imprensa nacional, tratando de temas candentes no país, como a educação feminina, a escravidão, a situação dos índios, a repressão governamental a levantes liberais e a defesa da imagem do Brasil em confronto com a civilização europeia; de fundar e dirigir um colégio para meninas, utilizando uma pedagogia reformista em relação à educação feminina; de viajar pela Europa por muitos anos, fazendo análises eruditas e por vezes refinadas das regiões que visitou; por fim, de fazer amizade com Augusto Comte, que a tinha em grande consideração e chegou a pensar na possibilidade de que ela liderasse um salão positivista em Paris. Apesar de possuir tantos atributos interessantes, ela permaneceu ignorada entre nós até mais recentemente.

ISBN: 978-85-5696-536-6
Nº de pág.: 374

Donwload gratuido em: https://www.editorafi.org/536nisia

Enciclopédia das ciências filosóficas: 200 anos

 2018 ECF200A
Enciclopédia das ciências filosóficas: 200 anos 
Ricardo Pereira Tassinari; Agemir Bavaresco; Marcelo Marconato Magalhães (Orgs.)

O Congresso Internacional da Sociedade Hegel Brasileira (SHB) é um evento que ocorre a cada dois anos com a finalidade de promover o intercâmbio científico-filosófico sobre estudos e pesquisas relativas à filosofia de G. W. F. Hegel desenvolvidos no Brasil e internacionalmente. G. W. F. Hegel é um dos pensadores mais reconhecidos na história da filosofia contemporânea. Sua obra suscita, desde sua publicação, diversas questões quanto à intenção e alcance especulativo do sistema hegeliano, que justificam não apenas seu estudo contínuo, como também um esforço sempre renovado de reinterpretar sua filosofia à luz dos novos contextos históricos e filosóficos. Em 2017, comemorou-se 200 anos da 1ª edição da Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Compêndio. Nessa obra, Hegel expõe um dos últimos, senão último, grande sistema da história da filosofia, capaz de conciliar um pensamento lógico-dialético-especulativo consciente de si próprio com a natureza e o espírito, em especial, com o conhecimento, a liberdade, a história, a ética, o direito, a estética, a religião, a filosofia e a sua história. Para marcar esta data a SHB organizou o IX Congresso Internacional, realizado na Universidade Estadual Paulista UNESP/Marília, com a colaboração do Grupo Hegel e o Idealismo Especulativo (GHIE) e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia, de 08 a10 de novembro de 2017.

ISBN: 978-85-5696-358-1
Nº de pág.: 440

Disponível em : https://www.editorafi.org/358agemir

Biopolítica: críticas, debates e perspectivas de Thomas Lemke

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Autor: Thomas Lemke
ISBN: 978-85-94444-03-5
Editora: FILOSÓFICA POLITEIA
Edição: 2018
Número de páginas: 191
Sinopse: Por que estudar o conceito de “biopolítica” no século XXI em um país da semiperiferia do capitalismo? A pergunta é provocadora. Afinal, o signo forte de nossa história, sempre atualizado e reconfigurado, não seria muito mais a política da morte e da espoliação, do silenciamento e da exclusão, do desaparecimento e da negação? Como falar em política da vida, quando é precisamente esta que parece estar banida do horizonte de expectativas e dos cálculos da arte de governo tupiniquim? Se Michel Foucault ensinou que biopolítica “faz viver e deixa morrer”, os polos não seriam invertidos ao Sul do Equador? Ora, justamente nesse momento, a incursão genealógica no termo permite-nos desvendar seus aspectos mais relevantes para o contemporâneo. O livro do sociólogo alemão Thomas Lemke realiza um minucioso e denso percurso nas sendas da biopolítica. De sua aparição nas obras do cientista político

Rudolf Kjellén no início do século XX, passando pela escola geopolítica do geógrafo Friedrich Ratzel, pelas teorias nacional-socialistas pangermânicas, até as tradições mais recentes, como a biotecnologia e a biopolitologia, e as contribuições de Michel Foucault, Giorgio Agamben e Antonio Negri, entre outros, Lemke refaz criticamente o desenho do conceito e suas mutações no tempo. Seguindo a trilha aberta por Lemke, talvez possamos começar a juntar as peças do quebra-cabeça que permita compreender como um dispositivo híbrido, plástico e estratégico corporifica-se perante nossos olhos, amalgamando micro instituições de sequestro disciplinar, espetaculares mecanismos soberanos e subjetividades neoliberais
empreendedoras de si, bem ao gosto da dialética periférica, na qual a exceção sempre foi a regra e vice- versa; biopolítica e necropolítica mostram-se nos trópicos como dois lados da mesma moeda. O livro em mãos opera como um farol que ilumina importantes elementos da ontologia de nosso presente.


Tradutor: Eduardo Altheman C. Santos é mestre e doutor em Sociologia pela FFLCH/USP. Realizou estágio de pesquisa na Universidade Goethe sob orientação de Thomas Lemke. É autor de O poder da economia e a economia do poder – neoliberalismo e governamentalidade em Foucault (ed.FFLCH/USP, 2015), e tradutor de Foucault, governamentalidade e crítica.

NOTA DE PESAR: FALECIMENTO DO PADRE ROQUE ZIMMERMANN

A coordenação nacional do Mestrado Profissional em Filosofia PROF-FILO lamenta o falecimento do Padre Roque Zimmermann, que, como professor e deputado federal, dedicou-se de maneira exemplar à defesa do ensino de Filosofia no nosso país. Em 2001, durante o seu segundo mandato como deputado federal pelo PT-PR, Pe. Roque foi o principal porta-voz no Congresso Nacional da mobilização ocorrida nas décadas anteriores nas escolas e universidades brasileiras visando a inclusão da Filosofia e da Sociologia como disciplinas obrigatórias no currículo do ensino médio. O projeto de lei de sua autoria, que modificava o Art. 36 da Lei de Diretrizes de Bases da Educação (LDB), foi aprovado pelo Congresso Nacional, em setembro daquele ano. Todavia, a lei correspondente não chegou a entrar em vigor, pois o projeto aprovado foi em seguida vetado na íntegra pelo então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso. Somente sete anos mais tarde, durante o mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pela Lei 11.684/2008, a Filosofia e a Sociologia viriam a figurar obrigatoriamente no ensino médio. Hoje, transcorrido mais de uma década da vigência dessa lei, os seus extraordinários efeitos positivos não podem mais ser ignorados, exceto por interesses espúrios. Trata-se de uma conquista da comunidade escolar e filosófica brasileira que a nós do PROF-FILO cabe consolidar e expandir, mantendo vivo o legado e a memória daqueles a tornaram possível. Por isso, manifestamos aqui nosso irrestrito reconhecimento e agradecimento ao Pe. Roque, cuja dedicação e compromisso com o ensino da Filosofia e da Sociologia nas escolas permanecerão como uma luz para os tempos sombrios que se anunciam.

Curitiba, 17 de fevereiro de 2019.

Investigações Kantianas: Uma Homenagem a Juan Bonaccini

Trata-se de uma produção internacional elaborado com o esforço de pesquisadores da Argentina e do Brasil. Organizado por Hernán Pringe (UBA) e Fernando Raul Neto (UFPE), o livro conta com produções de Mário Caimi (que também fez um lindo prólogo para este livro), Arthur Leandro da Silva Marinho, Claúdia Jáuregui, Fernando Moledo, Fiorella Tomassinni, Ileana Beade, Jesus Vásquez Torres (UFPE), João Paulo M. Araújo, Juan A. Bonaccini (in memoriam), Laura Pelegrín, Luciana Martínez, Ariela Paolucci, Matías Oroño, Miguel Herszenbaun, Newton De Oliveira Lima (UFPB), Pablo Moscón, Renato de Medeiros Jota.

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Lógica e metafísica em Hegel

 2019 LM

Não há dúvida de que Hegel tinha especial interesse pela lógica. Mas terá sido ele um pensador metafísico? São dele as afirmações de que a lógica "coincide com a metafísica, ciência das coisas apreendidas no pensamento" e de que a lógica "constitui a metafísica propriamente dita ou a filosofia especulativa". Enfim, como pensar a relação entre lógica e metafísica é o assunto deste livro.

Editora:  UNISINOS 
ISBN-10:  9788574318219 
Idioma:  PORTUGUÊS 
Origem:  Nacional 
Edição:  1 
Número de páginas:  173 
Lançamento:  2019 

Disponível em: http://www.edunisinos.com.br/lstDetalhaProduto.aspx?pid=295

F. A. Trendelerburg - A questão lógica no sistema de Hegel - Dois panfletos

Hegel

Friedrich Adolf Trendelenburg (1802-1872) em geral está ausente nos livros de história da filosofia e seu estudo no Brasil ainda é incipiente. Os dois artigos deste livro enfatizam um aspecto fundamental de sua obra: a crítica do método dialético do filósofo G. W. F. Hegel (1770-1831), que marcou todo o pensamento dialético posterior. Chamada por Trendelenburg de "questão lógica", apresenta uma nova perspectiva de análise do sistema de Hegel, demonstrando que seus maiores impasses estão na Lógica.

Em razão do prestígio do sistema de Hegel e da lealdade de seus discípulos, a discussão da questão lógica era superficial ou simplesmente deturpada graças a interpretações grosseiras do assunto. Foi nesse momento que o professor berlinense resolveu publicar os dois artigos, visando responder a seus críticos e relatar a situação de momento da discussão a respeito da questão lógica - caráter elucidativo acerca da crítica da dialética hegeliana e viés panfletário em relação a seus detratores.

Luiz Gustavo Onisto de FREITAS
mestre em filosofia pela PUC/SP e doutorando na UFMG, é professor adjunto na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Suas pesquisas tratam das transformações do pensamento dialético ao longo da história da filosofia.

https://www.loyola.com.br/produtos_descricao.asp?lang=pt_BR&codigo_produto=34941

https://www.livrariacultura.com.br/p/livros/filosofia/f-a-trendelerburg-a-questao-logica-no-sistema-de-hegel-2111895038

Entrevista com ministro da Educação publicada na Revista Veja

O ministro da Educação diz que o sistema de cotas deve acabar, defende a volta da educação de moral e cívica e mensalidade nas universidades federais

Por Gabriel Castro, Maria Clara Vieira, publicada em 1º de fevereiro de 2019

Em novembro passado, o professor Ricardo Vélez Rodríguez, de 75 anos, sentou-se diante de Jair Bolsonaro, na Granja do Torto, em Brasília, para uma sabatina. O presidente eleito estava em busca de um nome para comandar o Ministério da Educação, ainda hoje conhecido pela sigla MEC. “Vélez, você tem faca nos dentes para enfrentar o problema do marxismo no MEC?”, perguntou Bolsonaro logo de início. A conversa durou mais de duas horas. Dias depois, o professor, que nasceu na Colômbia e se naturalizou brasileiro em 1997, foi anunciado como o chefe de uma das pastas mais importantes do governo. Todos os dias, quando deixa o ministério, Vélez é involuntariamente lembrado de sua missão original. Na saída do prédio, há um vistoso totem com um mosaico de Paulo Freire, educador celebrado pela esquerda. O ministro não pretende remover o monumento ali instalado durante o governo Lula. “Não sou iconoclasta a esse ponto”, diz. Se tiver oportunidade, no entanto, ele cogita estender a homenagem a outros nomes — um deles, Olavo de Carvalho, o filósofo que o indicou ao cargo, conhecido pelas posições extremadas e pelo palavreado chulo. Na terça-feira 29, Vélez, que fala português com forte sotaque, recebeu VEJA em seu gabinete em Brasília para a seguinte entrevista.

O senhor ficou mesmo surpreso ao receber o convite para assumir o Ministério da Educação?

Certo dia, um assessor do presidente me ligou e disse: “Olhe, o deputado Bolsonaro está interessado no seu nome. Caso fosse indicado, o senhor aceitaria ser ministro?”. Eu disse: “Aceitaria, mas queria conversar com o candidato antes de ser convidado”. Isso foi antes da eleição. Mais ou menos na mesma época participei de um almoço com alguns discípulos do Olavo de Carvalho. Eles diziam: “Ô ministro!”. Eu perguntei: “Mas que ministro?”. Eles respondiam: “Nós estamos pensando em sugerir o senhor”. O Olavo indicou o meu nome. Depois da eleição, o assessor me telefonou novamente e disse: “O presidente vai querer entrevistá-lo”. Então vim a Brasília para falar com ele. Eu nunca havia pensado em ser ministro.

Como foi a conversa?

A primeira pergunta que me fez o presidente: “Vélez, você tem faca nos dentes para enfrentar o problema do marxismo no MEC?”. Eu disse: “Presidente, é o que faço há trinta anos”. Eu, como professor de universidade pública, fui marginalizado na concessão de bolsas de doutorado e pós-­doutorado. Nunca consegui uma bolsa por causa do aparelhamento do MEC pelos petistas.

Petistas?

Eles já tomavam conta do ministério desde os anos 1990.

O senhor afirmou em uma entrevista que a universidade não é para todos. O que isso quer dizer?

Em nenhum país a universidade chega a todos. Ela representa uma elite intelectual, para a qual nem todo mundo está preparado ou para a qual nem todo mundo tem disposição ou capacidade. Universidade não é elite econômica nem elite sociológica. Nos governos militares, deu-se muita ênfase às universidades. Criaram-se as grandes universidades, que receberam muita verba do governo, desenvolveram-se. E a preparação de professores para o ensino básico e fundamental ficou em segundo plano. Foi um erro.

Por quê?

Os primeiros anos do ensino fundamental preparam para o ensino médio. O ensino médio prepara para o vestibular. O vestibular prepara para a universidade. E a universidade prepara para o desemprego. É o funil da insensatez. O que precisamos resgatar no Brasil é a valorização do ensino fundamental e dos cursos profissionalizantes. Além disso, se continuarmos nesse modelo, as universidades vão cair no buraco da inadimplência. Precisamos equacionar uma solução que salve a universidade e que não dependa de pôr mais dinheiro público.

Cobrar mensalidade dos alunos nas universidades é uma alternativa?

É uma possibilidade. Gosto do regime vigente na Colômbia. Lá, paga-se de acordo com a renda. Se você é rico paga mais, se é pobre recebe bolsa. Há outras questões importantes. A relação entre professor e aluno nas faculdades públicas, por exemplo, é de um para sete, um para oito. Tem de ser um para vinte, daí para cima. E segundo: tem de haver Lei de Responsabilidade Fiscal para os reitores. Eles são habitantes deste belo país, também estão submetidos à lei. O CPF deles pode ser rastreado pelo juiz Sergio Moro, por que não? Querem mais dinheirinho? Paguem as contas.

O senhor é contra a eleição direta para reitor das universidades federais?

Recebi representantes da Andifes (entidade que representa os reitores) no meu gabinete. Disse a eles: “Vamos ser honestos. O tempo é curto, estamos velhos, barrigudos, vamos tratar dos problemas reais da universidade”. Qual é o principal problema de um reitor de universidade federal? O sindicato, que é da CUT, o elege e ele fica refém. O tal Andes (sindicato dos professores de ensino superior) é um monstrengo que persegue o reitor durante todo o seu mandato. Por que não fazer um banco de currículos e ter um comitê que escolhesse os três melhores candidatos? Os nomes seriam apresentados ao ministro ou ao presidente. É um sistema mais correto que esse que envolve o sindicato ou a CUT.

O governo pretende acabar com o sistema de cotas nas universidades?

As cotas são uma solução emergencial, e, como tudo no Brasil, o provisório vira definitivo. Essa é a lógica macunaímica brasileira. Isso não conduz a lugar nenhum. Temos de chegar ao momento de eliminar as cotas para dizer que elas não são mais necessárias porque elevamos o nível do ensino fundamental. De imediato, não vamos abolir as cotas, até porque me matariam quando eu saísse à rua. Mas as cotas têm de ser eliminadas com o tempo.

O senhor acha que esse dia está ali na esquina ou levará décadas?

Quatro anos é pouco tempo. Mas tenho certeza de que, se fizermos o dever de casa, meu sucessor conseguirá iniciar esse processo.

O senhor pretende mudar a Base Nacional Comum Curricular, aprovada recentemente?

Não. Ela já foi fruto de muitos debates, e sou favorável à ideia de ter um roteiro geral para orientar os professores. No entanto, pretendo mexer na interpretação. Se a base serve para que as escolas atinjam determinados objetivos genéricos, tudo bem. Mas isso pode ser adaptado para a realidade de cada escola e região.

O senhor planeja alterar algo da reforma do ensino médio, que reduziu a carga de conteúdo obrigatório e abriu brecha para o ensino técnico?

Há muita coisa que precisa ser complementada. Mas, se formos mexer, mexeremos democraticamente. Vai para o Parlamento, será transitado em julgado, sem canetada.

O senhor apoia o projeto Escola sem Partido?

Posso dizer uma maldade? Se o José Dirceu (ex-ministro do governo de Lula) achou o fim da picada, é porque o Escola sem Partido deve ser algo bom. Sou contra a ideologização precoce de crianças na escola. A escola não serve para fazer política. A ideologização nas escolas é um abuso, um atentado ao pátrio poder e uma invasão da militância em um aspecto que não lhe compete. Quem praticar isso ostensivamente vai responder à legislação que existe neste país.

A liberdade de cátedra inclui ensinar marxismo, fascismo e liberalismo, ou o senhor discorda?

Liberdade não é fazer o que você deseja. Liberdade é agir, fazer escolhas dentro dos limites da lei e da moralidade. Fazer o que dá vontade não é ser livre. Isso é libertinagem. No Brasil, por força de ciclos autoritários, temos uma visão enviesada da liberdade. Liberdade não é o que pregava Cazuza, que dizia que liberdade é passar a mão no guarda. Não! Isso é desrespeito à autoridade, vai para o xilindró. Nossas crianças e adolescentes devem ser formados na educação para a cidadania, que ensina como agir de acordo com a lei e com a moral.

Isso não é perseguição ideológica?

Já existe clima persecutório. E é das esquerdas contra os que pensam de modo diferente delas. Se pensa diferentemente do coletivo, você está lascado pelo resto da vida, assassinam a sua reputação. A minha já foi assassinada várias vezes. E isso é um abuso terrível contra o qual temos de nos reerguer com raiva. O PT foi mestre em assassinar reputações. Essa prática fascista, leninista, não pode mais ocorrer.

Mas como evitar que a perseguição de esquerda seja substituída pela perseguição de direita?

Doutrinas ideológicas devem ser estudadas apenas no ensino superior. O dever do professor universitário é ensinar aos alunos todas as posições ideológicas e colocar entre parênteses o seu ponto de vista, para não induzir o aluno a adotar o ponto de vista do mestre. Se o mestre for muito bom, o estudante terminará fazendo as escolhas certas.

Por que o senhor acha que a disciplina educação moral e cívica deve voltar ao currículo?

Os alunos devem sair do ensino básico e do fundamental sabendo que há uma lei interior em todos nós. Se nós a transgredimos, mesmo enganando até a própria mãe, sentimos uma coisa chamada remorso. A primeira parte dessa disciplina pode ser dada nas quatro primeiras séries do ensino fundamental. Os estudantes podem aprender, por exemplo, o que é ser brasileiro. Quais são os nossos heróis? O PT tentou matar todos eles. Carla Camurati (cineasta) colocou dom Joãozinho (refere-se a dom João VI) como um reles comedor de frango, sem nenhuma serventia. Ele era um grande estadista, um grande herói. Outro ponto: hoje, adolescente viaja. É necessário lembrar que existem contextos sociais diferentes e que as leis dos outros devem ser respeitadas. O brasileiro viajando é um canibal. Rouba coisas dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião; ele acha que sai de casa e pode carregar tudo. Esse é o tipo de coisa que tem de ser revertido na escola.

Se o senhor fosse trocar o busto de Paulo Freire no MEC, quem colocaria no lugar?

Do século XIX, Tobias Barreto. Do século XX, Antonio Paim. Do século XXI, Olavo de Carvalho. Ele soltaria um palavrão e me xingaria se soubesse. Aliás, reconheço que Olavo fez um grande trabalho de formação humanística. Muitos jovens saíram do marxismo e se tornaram pessoas de bem lendo Olavo de Carvalho. Então, a obra educadora dele é importante.

Olavo de Carvalho defendeu recentemente o fechamento de universidades públicas.

Deve-se dar um descontaço aos xingamentos do mestre Olavo. O efeito prático do que ele diz é para que você mude de atitude. Esse chute é para estimular a pessoa a pensar e a mudar de atitude. Um recurso pedagógico que só um mestre da talha de Olavo de Carvalho pode se dar ao luxo de utilizar.

https://veja.abril.com.br/revista-veja/faxina-ideologica/

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