Nota de falecimento do Prof. Dr. Giovanni Queiroz (UFPB)

É com imenso pesar que comunicamos o falecimento do Prof. Dr Giovanni Queiroz, hoje, 19 de abril, em João Pessoa, Paraíba. Era professor de Filosofia da Universidade Federal da Paraíba, da área de lógica. A ANPOF se solidariza com esta perda irreparável para toda a nossa comunidade e especialmente à comunidade da UFPB..

 

A BNCC e o futuro da filosofia no Ensino Médio – Hipóteses

Ainda há muita nebulosidade em torno da Base Nacional Curricular Comum, o que torna difícil antecipar o futuro da filosofia como unidade curricular do Ensino Médio. Procurando imaginar cenários e possibilidades, gostaríamos de propor alguns pontos de reflexão ou mesmo algumas hipóteses. Parece-nos estratégico fazer circular amplamente “modelos” de compreensão e de ação, pois neste momento já os há numa direção pessimista e mesmo derrotista: são muitos os que se resignam cada vez mais diante da ideia de que a filosofia foi tirada do Ensino Médio, o que não é bom para ninguém, mas sobretudo para professores e estudantes de filosofia.

1. A BNCC não exclui a filosofia nem dá diretrizes rígidas para a sua configuração no Ensino Médio. Ela mesma afirma explicitamente não constituir- se no currículo dessa fase formativa, mas apenas na definição das suas aprendizagens essenciais. O fato de a filosofia ter deixado de ser disciplina obrigatória não significa que ela tenha saído do currículo nem que precise sair. O futuro da unidade curricular de filosofia ainda é incerto, pois a BNCC permite que ele seja decidido nas instâncias estaduais e municipais e mesmo nas escolas.

2. A permanência de filosofia como unidade curricular dependerá da resistência das escolas. Na elaboração de seus projetos pedagógicos, em função da reorganização que virá (definindo especializações na formação), as escolas podem manter o ensino de filosofia. Não apenas as escolas que se especializarão em “ciências humanas”, mas mesmo as escolas especializadas em “ciências exatas” poderão ter horas de formação em filosofia. A melhor estratégia de resistência, neste momento, parece-nos estar na ação dos professores: começando por seus estudantes e pelo Conselho de Escola, eles podem iniciar um movimento de conscientização: (i) sobre a continuidade da filosofia como unidade curricular; e (ii) sobre a importância da filosofia na formação humana. A partir daí, em união com os professores da escola, do município, do estado e do país, os professores podem e devem lutar para que os projetos pedagógicos das escolas conservem filosofia (como também sociologia, história e geografia!). O MEC e as secretarias estaduais de educação apostarão na atual propaganda derrotista e na possibilidade de as próprias escolas assimilarem a falsa ideia de que a “filosofia caiu”, tirando-a do seu currículo. Se as próprias escolas excluírem por si mesmas a filosofia do Ensino Médio, a “legitimidade” da retirada será maior (nisso parece investir a BNCC).

3. A BNCC, sem anular o modelo clássico da formação por aulas, oferece outros modelos formativos (laboratórios, oficinas etc.), válidos para todas as unidades curriculares. Nisso há uma possibilidade forte de encontrar itinerários formativos em filosofia, até mesmo com um aporte de modernidade metodológica.

4. No entanto, parece-nos urgente inserir na resistência dos professores o esclarecimento de que filosofia não faz parte das “ciências humanas”. Por questões de facilidade, talvez não seja um problema incluí-la nessa rubrica, mas convém lembrar que ela a transcende; do contrário, não haveria filosofia da matemática, das ciências exatas, da biologia etc. Nesse ponto e indo além dele, a BNCC contém uma ambiguidade perniciosa: ela dilui a especificidade da filosofia e dá a entender que o trabalho de reflexão sobre a própria reflexão (bem como sobre pressupostos e métodos, e sobre os caminhos da abstração e da argumentação) pode ser feito por todas as unidades curriculares. Não deixa de haver certa parte de verdade nisso, pois é desejável que todas as áreas do saber explicitem seus pontos de partida e seus métodos, mas também é desejável que se reconheça que há uma área do saber na qual esse trabalho é realizado com toda a tecnicidade que ele requer e na qual se pode obter um maior grau de criticidade, como defende a própria BNCC. Não é necessário entrar aqui no debate sobre a identidade da filosofia; não dividamos as forças de resistência! O que importa é defender o ideal da atividade filosófica como o trabalho do phílos do saber, trabalho daquele que se interessa pelo saber por ele mesmo, e não em vista de sua mera aplicação ou do “saber fazer” tecnicista, autoritário e desumanizador.

5. A urgência de esclarecer os pontos já elencados confirma a necessidade de os professores de filosofia participarem do debate sobre o Ensino Médio (como também sobre o Ensino Fundamental), numa atitude de diálogo que procura encontrar caminhos para mostrar a importância da manutenção da unidade curricular de filosofia. A BNCC, do início ao fim, opera com conceitos que apenas a filosofia pode analisar até o limite reflexivo que tais conceitos exigem. Assim, com base na própria BNCC os professores dispõem de conteúdos em torno dos quais dialogar a fim de convencer sobre a importância da formação filosófica específica no Ensino Médio. Por exemplo, a BNCC opera com as ideias de dignidade humana, de sentido e atribuição de sentido, de teoria e experiência, de natureza e cultura, desconhecimento e contextos de produção de conhecimento, de universalidade e diferença etc.

6. Do lado dos colegas professores e estudantes universitários, parece possível e necessário um envolvimento com a resistência da filosofia como unidade curricular nas escolas, oferecendo formações (tão desejadas por nossos colegas professores do Ensino Médio) e participando do debate público. Por exemplo, é possível intervir na agenda de discussões das secretarias estaduais de educação para implantação da BNCC (agenda esta já fixada em vários estados). Para além do aspecto reflexivo do debate, há dados administrativo-econômicos que podem ser explorados: nos estados em que há professores efetivos de filosofia do Ensino Médio será mais vantajoso mantê-los na ativa do que dispensá-los ou mantê-los na categoria de “afastados” (por mais que isso nos espante, essa categoria existe, ao menos no estado de São Paulo). Outro risco é que os professores efetivos de filosofia (e sociologia, história e geografia) nas escolas que não tiverem especialização em “ciências humanas” sejam reaproveitados para outras funções (como bibliotecários, orientadores etc.).

Com essa reflexão e essas hipóteses, não queremos dizer que a conservação ou a retirada da filosofia dependem só dos professores do Ensino Médio e do envolvimento dos professores e estudantes universitários. Nossa tentativa é apenas a de conceber certa atitude realista em que seja ativada nossa parte de possível luta e resistência! Agradeceríamos se nascesse algum diálogo aqui, mesmo que seja para contradições, as quais nos permitiriam melhorar nossa própria visão. O tempo urge!



Juvenal Savian Filho (Unifesp)
Marcelo Carvalho (Unifesp)
Vinicius Berlendis de Figueiredo (UFPR)

PELA OBRIGATORIEDADE DAS DISCIPLINAS DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA NO ENSINO MÉDIO

IMPORTANTE! VOTE! COMPARTILHE!

VAMOS IMPEDIR QUE A FILOSOFIA E A SOCIOLOGIA SEJAM RETIRADAS DO ENSINO MÉDIO!

Foi pouco divulgado, mas O Ministério da Educação (MEC) entregou ao Conselho Nacional de Educação (CNE) a 3º versão da Base Nacional Comum Curricular para o ensino médio no dia 03/04/18. Nesta versão consta que, entre outras, as disciplinas de FILOSOFIA E SOCIOLOGIA NÃO CONSTAM MAIS COMO DISCIPLINAS OBRIGATÓRIAS a partir da Reforma do Ensino Médio.
Convocamos todos e todas colegas da área de Ciências Humanas a apoiarem no Site Ecidadania (vinculado do Senado Federal) a proposta "Pela obrigatoriedade das disciplinas de Filosofia e Sociologia no Ensino Médio". Essa proposta pede pela reinserção das disciplinas de Filosofia e Sociologia como componentes obrigatórios do currículo do ensino médio. Visando uma carga horária de 12 períodos distribuídos nos 3 anos letivos.


PEDIMOS APOIO DOS/AS COLEGAS DA ÁREA DE HUMANAS PARA VOTAR NA PROPOSTA QUE VISA MANTER A OBRIGATORIEDADE DAS DISCIPLINAS DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA NO ENSINO MÉDIO NO LINK ABAIXO:
https://www12.senado.leg.br/ecidadania/visualizacaoideia…

À Comunidade Filosófica Brasileira

Nós, membros do GT Filosofia e Gênero da ANPOF, acompanhamos apreensivamente os últimos acontecimentos que culminaram na prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Entendemos que não foi dado ao ex-presidente um julgamento justo nem o direito constitucional à ampla defesa. Como frisado pelo ministro Marco Aurélio de Mello, a presidente do STF não poderia ter colocado para votação o pedido de HC da defesa de Lula antes do julgamento das ações declaratórias que tratam de artigos do código de processo penal e da constituição, que diz “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. Os ADCs estavam desde novembro na mesa da ministra Cármen Lúcia que resiste em pô-los em pauta. Se essas ADCs tivessem sido postas em pauta muito provavelmente a possibilidade de prisão em segunda instância teria sido rejeitada. Rosa Weber sempre se declarou contra o cumprimento de pena antes que o processo tenha transitado em julgado. No entanto, a manobra de Cármen Lúcia fez com que o tema fosse personalizado na figura de Lula, e Rosa Weber, então, usou o argumento falacioso de que só mudaria a jurisprudência da prisão em segunda instância se fosse julgado em abstrato e não a partir de uma pessoa específica (sic). A rapidez com que o julgamento de Lula transcorreu pulando centenas de casos que aguardavam julgamento no TRF4, a manobra da ministra Cármen Lúcia ao pedir para votar ao final sabendo que, como presidenta da corte, deveria seguir o princípio jurídico de, na dúvida, ser sempre favorável ao réu (in dubio pro reo) e, não menos preocupante, a rapidez com a qual o juiz Sérgio Moro expediu o mandado de prisão, corroboram a tese de que estamos assistindo a uma acintosa perseguição jurídico-política ao ex-presidente a fim de que ele não possa disputar as próximas eleições. É inadmissível que o judiciário seja conivente com essa perseguição. O STF é o guardião da Constituição e seus membros por não possuírem mandato, mas serem eleitos para ocupar o cargo em caráter permanente, até a aposentadoria, não deveriam jamais agir casuisticamente e negar o direito à ampla defesa a qualquer pessoa. Enquanto ao Lula é negado o HC, outros políticos, como por exemplo, o senador Aécio Neves, não tiveram dificuldade em obtê-lo. Em situação semelhante ao julgamento de Lula, Cármen Lúcia resolveu o empate de 5 votos a 5 aprovando o HC para Aécio. Mas no caso do Lula agiu diferente. Logo, o judiciário não tem sido imparcial em seu julgamento.

A situação do país é grave. Nossas instituições estão visivelmente sendo manipuladas por interesses alheios aos da população brasileira na sua totalidade. Mais uma etapa do golpe foi cumprida. Só nos resta agora reagir a essa manipulação midiática e a essa espetacularização e parcialidade do judiciário. Conclamamos esta comunidade a escrever uma carta aberta endereçada aos ministros do STF externando nossas preocupações. Que esta carta seja assinada por cada um dos membros da Anpof que assim o desejarem. Solicitamos à diretoria da ANPOF que seja a responsável pela escrita do texto-carta coletiva e que encaminhe sua proposta aos coordenadores do GT que se encarregarão de mostrá-la a seus membros. Lembramos apenas que o tempo infelizmente urge e cada dia que passa mais longe do estado democrático de direito ficamos. Não podemos nos omitir nessa hora triste pelo qual está passando nosso país.

10 de Abril de 2018

Esclarecimentos sobre a inscrição de trabalhos no XVIII Encontro Anpof

XVIIIEncontro

O XVIII Encontro Nacional da Anpof acontecerá em Vitória, na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) – Campus Goiabeiras entre os dias 22 e 26 de outubro. O Programa de Pós-graduação em Filosofia da UFES, o Mestrado Profissional em Filosofia (PROF-FILO/Núcleo UFES) e o Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Espírito Santo serão os anfitriões do evento. As inscrições para apresentação de trabalhos estão abertas desde o dia 1º de março e seguem até o dia 7 de maio.

Quais os valores?

Eles aumentam conforme se aproxima a data do evento. Até o dia 7/5 os valores são esses:

·         Docentes e pesquisadores com submissão de trabalho: R$450

·         Docentes e pesquisadores de universidades estrangeiras com submissão de trabalhos: R$485

·         Alunos de pós-graduação: R$200

·         Graduando ou graduado: R$150

·         Docente Ensino Médio: R$150

·         Público em geral: R$200

Como me inscrever?
Todo o processo é feito através dessa página (https://pub.eventsys.com.br/#/xviii_encontro_nacional_anpof--426503681/ colocar esse site como hiperlink). Você deve, primeiramente, selecionar sua categoria – conforme indicadas acima – e preencher uma ficha com suas informações. É necessário informar e-mail, nome, CPF ou passaporte, número de telefone, endereço completo, titulação e instituição. Em seguida, escolher se você quer se inscrever no encontro da Anpof ou Anpof Ensino Médio.

Qual a diferença?
Esta será a quarta edição da Anpof Ensino Médio. Ela dedica-se, exclusivamente, ao Ensino da Filosofia na Educação Básica. Está voltada, portanto, aos professores de Ensino Médio de Filosofia e pesquisadores da área.

Onde me apresento?
Se você optar por apresentar seu trabalho, você deve escolher em qual Grupo de Trabalho ou Sessão Temática. Caso opte pelo GT, quem avaliará seu trabalho são os professores membros daquele grupo, que você pode saber quem são através do site da Anpof (colocar esse hiperlink http://www.anpof.org/portal/index.php/pt-BR/2013-11-25-22-44-25/grupos-de-trabalho). Se você se inscrever numa ST, quem avaliará seu trabalho será a própria coordenação de pós-graduação onde você atua.

Quais as regras de submissão do trabalho?
Por fim, você deve inserir o título do seu trabalho, três-palavras chave separadas por vírgula e um resumo com 3 mil caracteres (máximo). Indique quem é o coautor, caso haja. Lembramos que, caso todos os autores desejem certificado de participação, ambos devem se inscrever. Caso seu trabalho seja aprovado, você terá 20 minutos para apresentá-lo seguidos de 10 de debate. O dia 07 de maio é o prazo final para submissão de trabalhos e no dia 28 de maio serão divulgados os resumos aprovados.

Lançamento de livro: "O que é Individualidade? Uma investigação sobre a condição humana"

o que e individualidade

"O Que é Individualidade? Uma Investigação Sobre a Condição Humana" de Aldineto Miranda Santos.

A primeira questão que constitui as entrelinhas deste livro é: como se plasma, na história das ideias, o surgimento do indivíduo? Além disso, busca responder como surge a ideia de individualidade. Este é um trabalho de arqueologia das ideias, de vasculhar buscando pistas, tal qual um detetive que forma quebra-cabeças para desvelar as hipóteses e chegar à verdade. Utilizando-se da figura de Antígona, personagem intensa da obra sofocliana homônima, analisa as tragédias antiga e moderna e os seus pressupostos, realizando um reencontro entre literatura, história e filosofia. A ousadia é postular a existência de um arquétipo de individualidade que é forjado já na antiguidade, a partir do qual busca-se compreender esse conceito. Tratar desse tema é sempre instigante, pois diz respeito à condição do homem como ser-no-mundo. Significa um esforço de compreensão sobre o ser humano e o que há de mais íntimo em seu ser.

Sumário:
1. Breves palavras sobre a obra; 2. Em busca da individualidade; 3. Antígona: protótipo de individualidade; 4. Eva Perón, uma mediação do trágico moderno.


Características
ISBN: 9788546210886
Autor: Aldineto Miranda Santos
Editora: Paco Editorial
Edição: 1ª Edição
Área: Filosofia - Sociologia - Geral
Idioma: Português
Ano de Publicação: 2018
Número de Páginas: 128
Acabamento: Brochura 

Adquira em: https://www.pacolivros.com.br/o_que_e_individualidade/prod-5354366/

 

BNCC: A experiência fragmentada do saber e o ensino de Filosofia

Silvio Carneiro (UFABC) e Christian Lindberg (UFS)

Anunciada ao Conselho Nacional de Educação (CNE) no dia 03 de abril de 2018, a Base Nacional Curricular Comum do Ensino Médio (BNCC/EM) apresenta as novas linhas desenhadas pelo atual Ministério da Educação (MEC) para este estágio escolar. O impacto sobre o ensino da Filosofia é direto, sendo este o momento de encontro formal dos jovens com o conteúdo de nossa área nas escolas.

O processo de composição da versão final deste documento é fruto de uma súbita ruptura do processo democrático, ainda que problemático, que havia sustentado a legitimidade do documento até então. A BNCC da educação básica estava prevista na Lei de Diretrizes e Bases (LDB), em seu Artigo 26, visando uma normatividade que garantisse uma formação comum na educação básica, complementada por cada estabelecimento escolar e cada sistema de ensino.

A ruptura se dá em dois níveis: primeiramente, a letra do documento não contém o espírito colaborativo entre as diversas instâncias de grupos interessados (previsto em lei, aliás), considerando não apenas as instâncias do poder executivo (Estados, municípios e União), bem como os movimentos sociais da educação e as associações acadêmicas. Todo este conjunto estava, em certa medida, presente na formulação do Plano Nacional de Educação (PNE), este sim, uma lei que avança em muitos pontos, mas – sem audiência apropriada no espaço público – acaba por ser letra morta. Após 3 versões, temos uma BNCC que em nada avança na absorção das críticas presentes na consulta aberta ao público. Conforme a análise do prof. Fernando Cássio, é preciso se questionar o caráter participativo que o MEC tanto propaga. Segundo Cássio: “A superexploração do vistoso número de 12 milhões de ‘contribuições’, cujo significado pode ser questionado de muitas formas, inocula no debate público um falso consenso, como se a coleta de milhões de cliques de concordância e a mera publicização das opiniões de milhares de ‘indivíduos’ — profissionais da educação ou não — fossem capazes de, automaticamente, forjar a democracia no processo de construção do currículo brasileiro”. (ver a matéria em: https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2017/Participa%C3%A7%C3%A3o-e-participacionismo-na-constru%C3%A7%C3%A3o-da-Base-Nacional-Comum-Curricular).

Fato comprovado pela segunda ruptura da ação do MEC na BNCC que em nada levou em conta as propostas curriculares ao Ensino Médio, desenhadas nas versões anteriores do documento. Com o pretexto de uma “crise” na educação a partir dos resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), o então ministro Mendonça Filho decretou a Medida Provisória nº 746/2016, que visa a reforma do Ensino Médio. Com isso, o MEC rompe as estruturas curriculares: de um lado, uma BNCC para o ensino infantil e a educação fundamental; de outro, uma BNCC voltada para o Ensino Médio. Nesse sentido, a BNCC foi apresentada em dois tempos: aprovando-se o documento para o Ensino Infantil e a Educação Fundamental no ano passado e, agora, apresenta a versão dirigida ao Ensino Médio. Já em uma primeira leitura desta versão em nada se encontra a presença das duas edições anteriores da BNCC. Todo um processo de debate sobre as matrizes curriculares comuns ficou reduzido às decisões de gabinete do MEC (e seus parceiros mais íntimos como as “bem-intencionadas” empresas da educação), sustentados por uma “crise” da educação e a necessidade de reformas unilaterais e sem a representação do debate com a comunidade educacional.

Sendo um pouco pragmático, independente das questões políticas envolvidas, uma BNCC resolve nossos problemas? E, dado o diálogo com a comunidade filosófica, qual a situação dos conteúdos filosóficos nessa situação?

 

BNCC e a estrutura escolar

Como vai funcionar a BNCC/EM? De acordo com a Lei nº 13.415/2017, estabelece-se que a matriz da BNCC/EM ocupará no máximo 1.800 horas, sendo complementadas pelos itinerários formativos, que são a ênfase na formação em áreas específicas como: “Linguagens e suas tecnologias”, “Matemática e suas Tecnologias”, “Ciências da Natureza e suas Tecnologias”, “Ciências Humanas e Sociais Aplicadas” e, por fim, “Formação Técnica e Profissional”. Apenas para ficarmos no mérito da aplicação da BNCC nas escolas, os problemas ressaltam desde o início dessa estrutura, pois as redes de ensino podem aprovar um currículo comum reduzido a poucas horas, uma vez que não se prevê o mínimo da carga horária, mas sim um teto máximo. Didaticamente, também é questionável se nesse formato, ao invés de uma formação flexível – tal como se propaga – não se incentiva uma especialização precoce e precarizada nos 3 anos do Ensino Médio.

Além disso, é necessário se questionar: as redes de ensino estão preparadas para a oferta de todos os itinerários formativos? É importante ressaltar que com o impulso de criação de municípios no Brasil recente, muitos não oferecem mais do que uma unidade escolar do Ensino Médio. E não poucas destas deixam a desejar em suas estruturas. Mesmo que seja interessante o processo de escolha dos estudantes em seu itinerário formativo, haverá oferta para tal? Aliás, como será feita a aplicação desta BNCC, levando em consideração a realidade da maior parte de nossos estudantes, que estudam no período noturno? Eis alguns descompassos graves que aceleram a desigualdade escolar, ao invés de promover uma integração da rede de ensino que assegure aos estudantes seus direitos à educação. Salvo por medidas precarizadas de implantação – recorrentes nos diagnósticos de políticas educacionais e das estruturas escolares do Brasil, a BNCC implica em um aumento no fosso educacional presente nos elevados índices de evasão escolar.

 

Os componentes curriculares na BNCC

Uma outra maneira de se pensar os efeitos da BNCC/EM é verificar se o documento garante os direitos de acesso à cultura e educação, previstos na LDB. Em sua crítica à composição disciplinar do currículo do Ensino Médio, a secretaria executiva do MEC, Maria Helena Guimarães de Castro, acaba identificando o tédio dos jovens na escola com a ausência de uma nova dinâmica curricular, que caracteriza como interdisciplinar. Salta aos olhos, no entanto, que em sua reforma se mantenham como obrigatórias as disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática, diluindo as demais disciplinas nas áreas de conhecimento e nas ênfases curriculares dos itinerários formativos. Há assim, na BNCC-EM, disciplinas obrigatórias e outras – grande parte – diluídas no que Castro denomina de “flexibilidade”. Resolve?

Basta ter um pouco mais de experiência nas escolas para notar que, se houve alguma mudança nas escolas por parte da BNCC, foi apenas a institucionalização do que não funcionava. Pois a obrigatoriedade das disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática apenas repõe o modelo curricular centrado nestas disciplinas, que sempre tiveram uma elevada carga horária nos currículos escolares, deixando às demais 11 disciplinas a disputa por algum espaço nas escolas. O caso da Filosofia e da Sociologia é emblemático. Não fosse sua obrigatoriedade disciplinar, agora extinta, as suas duas horas mínimas – e diferenciais - sequer existiriam – conforme avaliação de pareceres anteriores do próprio Conselho Nacional de Educação.

Do absurdo da reforma, o MEC sequer escuta suas próprias estatísticas. Emblemático é o diagnóstico sobre as redações do ENEM, cuja maior parte foi anulada por falta de aderência ao tema. Ora, não seria a ausência de disciplinas de Humanidades um dos fatores para tal problema? Não para o MEC, cuja flexibilidade termina aonde os índices do Banco Mundial iniciam. Pois, em vistas de uma avaliação questionável como o PISA (Programme for International Student Assessment), tal discurso da flexibilidade é construído. Decerto, um grande número de países tem submetido reformas educacionais conforme os resultados de tal exame. Contudo, é importante notar que um exame não é o processo escolar e uma proposta de currículo não pode ficar submetida ao esperado de um exame, muito pelo contrário. Pensar um currículo contextualizado à realidade local e como avalia-lo, eis o desafio – aceito em países como a Finlândia, para quem o PISA é apenas um meio educativo dentre tantos outros.

Se é verdade que a Filosofia, embora não tenha mais o estatuto de uma “disciplina obrigatória, não se extingue do currículo, é verdade também que sua função foi diluída na composição curricular por áreas, em um difícil espaço a ser dividido com as disciplinas de História, Geografia e Sociologia. Novamente, pensando na aplicabilidade da proposta, a atual estrutura da escola não está preparada para uma articulação como essa. Das melhores experiências interdisciplinares (como, por exemplo, a escola da Ponte), não se desconsidera a presença do profissional formado na área capaz de articular e produzir conhecimentos em um processo interdisciplinar com referências e nortes claros em um projeto político pedagógico discutido à exaustão para dar conta dos inúmeros itinerários formativos de seus estudantes. No modelo atual da rede pública do Ensino Médio, o professor de Filosofia passa na melhor das hipóteses alocado num período de 6 aulas semanais do Ensino Médio. Tempo inviável para a integração com o corpo docente, sobretudo quando em geral, para dar conta de sua carga didática, a professora de Filosofia se vê obrigado a “pingar” de escola em escola. Exceção aos casos dos Institutos Federais, cujo incentivo à pesquisa e ensino envolve um projeto de professores com dedicação exclusiva, por exemplo. Serão nossas redes de ensino capazes de alterar o básico e valorizar finalmente seu corpo docente? A interdisciplinaridade não existe sem essa contrapartida.

O impacto do BNCC nas licenciaturas

O MEC, através de seus dirigentes, tem enfatizado que a BNCC-EM trará impactos na política nacional de formação inicial e continuada dos professores. No caso específico das licenciaturas, afirmam que os arranjos curriculares devem ser orientados pela nova configuração curricular do ensino médio, ou seja, por área de conhecimento. Caso isto se confirme, muito provavelmente, os atuais cursos de licenciaturas sofrerão modificações profundas, deixando de ter o caráter específico para serem convertidas em cursos que congreguem grandes áreas do conhecimento, como as Humanidades.

A resposta do MEC à valorização do professor vem com a deformação de base nas licenciaturas. O projeto de residência pedagógica (RP), lançado recentemente no edital 06/2018/CAPES, assume um modelo pelo qual restringe o espaço de formação do estágio ao período de um ano, nos anos finais de formação docente.

Levando em conta as estruturas das licenciaturas, em geral com duração de 3 anos, o projeto de residência pedagógica do MEC passa a regulamentar o estágio de docência nos limites de uma única escola e, praticamente, reforça um projeto de formação tão criticado como o 3 + 1 (três anos de disciplina específica + um ano de formação das disciplinas pedagógicas). Concentrado em um ano, o edital da RP dissolve modelos integrados de estágio no decorrer da formação. Voltada ao processo final de formação, o projeto de residência pedagógica praticamente estabelece um período restrito, com vivências reduzidas de estágio. Muito embora o modelo de residência pedagógica seja mais do que interessante, necessário para a formação ambientada de nossos professores, será importante notar como será a articulação desse estagiário em Filosofia diante de uma escola em mudanças...

Também é preocupante o fato de que o projeto de RP prevê um número mínimo de docentes-estagiários. Ora, conforme é notável nos últimos anos, a quantidade de alunos das licenciaturas depende do horizonte de empregabilidade oferecida pela rede. Diluída nas áreas interdisciplinares, a Filosofia passa a ser mais restrita no espaço escolar, caso as redes não façam um debate adequado de como absorver as diversas especialidades em suas escolas. O risco de esvaziamento dos cursos de licenciatura é enorme, algo a que nossa comunidade deve ficar atenta.

Por fim, além do impacto na formação inicial, a formação continuada dos atuais docentes da educação básica será reorientada, tendendo a impactar nos cursos de pós-graduação, a exemplo do mestrado profissional em Filosofia (Prof-Filo). As reformas das licenciaturas, sobretudo no caso da Filosofia, em nada equaciona a atual realidade do corpo docente que leciona Filosofia nas escolas públicas estaduais, na qual registra que 80% dos docentes que lecionam Filosofia no país não tem formação específica, conforme o censo escolar.

A Filosofia como habilidade e competências na BBCC-EM

As competências da área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas da 3º versão da BNCC/EM indica que o discente, após concluir o ensino médio, deve “reconhecer e combater as diversas formas de desigualdade e violência, adotando princípios éticos, democráticos, inclusivos e solidários, e respeitando os Direitos Humanos.” Eis o momento da BNCC/EM que, talvez, a Filosofia seria protagonista.

A despeito das versões anteriores da BNCC, a disciplina Filosofia foi convertida a um capítulo da Ética e Filosofia Política, algo semelhante ao que versava a LBD aprovada em 1996. Isso representa um retrocesso histórico, ocasionando na prática a redução das possibilidades de se trabalhar conteúdos filosóficos nos atuais termos da BNCC/EM. O aluno fica distante de debates centrais na formação filosófica mais ampla presente no debate epistemológico, estético, metafísico e mesmo lógico.

Sobre a ausência da lógica, em particular, a BNCC/EM chega a ser contrária aos seus próprios fundamentos. Afinal, o documento ignora sua própria consideração de um jovem que investiga, lança hipóteses, argumenta, segue a “dúvida sistemática”, identifica ambiguidades e contradições etc. Todas essas ações contempladas pelo exercício lógico-filosófico desaparecem nos atributos das competências e habilidades da área de humanidades.

 

O que fazer?

E agora, o que fazer? Provavelmente. sem ter a pretensão de expor uma fórmula pronta, alguns caminhos precisam ser trilhados para preservar a Filosofia no Ensino Médio. O primeiro deles consiste em participar das audiências públicas que o Conselho Nacional de Educação promoverá ao longo do ano. Tais audiências serão o penúltimo espaço para propor alterações na 3º versão da BNCC/EM.

A última alternativa acontecerá após estas audiências, ou seja, no plenário do CNE. Até lá, dialogar com os conselheiros e procurar interlocutores aliados pode trazer bons dividendos.

Nesta etapa de discussão da BNCC é bom retomar o debate que consta na lei 13.415/2017, mais precisamente o artigo 3º, § 2o, que afirma que a Filosofia deve ser incluída, de forma obrigatória, como estudos e práticas. A propósito, este item foi uma inclusão do Congresso Nacional visto que o projeto de lei inicial não constava nada do tipo. Em outros termos, a BNCC/EM precisa especificar o que significa tratar a Filosofia como “estudos e práticas” e, em seguida, incluir a disciplina Filosofia obrigatoriamente, respeitando a deliberação do parlamento federal.

Por falar em autonomia das redes estaduais para constituir seus arranjos curriculares e a inexistência de uma lei nacional que obrigue ou proíba o ensino da Filosofia, deve-se averiguar se as leis estaduais voltam a prevalecer. vale lembrar que, antes da lei nacional ser aprovada, muitos entes da federação já garantiam o caráter obrigatório da Filosofia como disciplina. Decerto, a pressão para incluir a Filosofia como disciplina recairá nos Estados e no Distrito Federal, especialmente em órgãos, como os Conselhos Estaduais de Educação, e as Secretarias Estaduais de Educação.

Por fim, para além de todos os caminhos legais, nenhum deles se efetiva sem o consenso das escolas. A autonomia escolar é preservada de maneira saudável, uma vez que é nela que ressoam as demandas da comunidade local. A existência de um projeto político pedagógico de cada escola passa a ser essencial, pois através dele a comunidade manifesta o projeto formativo de seus discentes. Um debate nas escolas se faz necessário para que se reconheça o contexto de cada uma destas instituições e, a partir dele, possa se configurar uma rede curricular adequada aos processos formativos, incluindo de maneira equilibrada e verdadeiramente flexível os componentes curriculares.

Sem esse diálogo direto, é grande o risco de se reproduzir um currículo mínimo, concentrado em disciplinas obrigatórias mediante a dispersão dos demais saberes. Isso não é interdisciplinaridade e sequer flexibilização. Pelo contrário, o MEC apenas inventa a roda das matrizes curriculares concentradas em detrimento de um currículo integrado. Perde não apenas a Filosofia, mas todo o conjunto de saberes na pseudo-formação ofertada como novo rumo em cenário de propaganda. Sobre isso, a necessidade de uma discussão se faz presente hoje.

Lançamento do livro: "Filosofia do cérebro" de João de Fernandes Teixeira

9788534933322

"Hoje em dia existem muitos livros de qualidade que expõem para o público os últimos avanços e resultados das novas ciências do cérebro. Mas estava faltando um livro acessível, que tratasse das novas relações mútuas entre a filosofia e a neurociência. Essa é, pois, a proposta deste livro. Para elaborá-lo, o autor, além de uma ampla investigação nos mais atuais estudos científicos sobre o assunto, utilizou várias obras e artigos de sua própria autoria. O objetivo de tão empenhada pesquisa é iniciar o leitor em uma área ainda pouco explorada no Brasil: a reflexão sobre a neurociência e seus fundamentos, que tem levado, nas últimas décadas, a uma expansão da temática da filosofia. A publicação está dividida em quatro capítulos, além de um prefácio, conclusão, sugestões de leitura e bibliografia, e segue os moldes da coleção "Como Ler Filosofia", com quadros explicativos ao longo da leitura."

Autor: João de Fernandes Teixeira possui graduação em Filosofia pela Universidade de São Paulo (1977), mestrado em lógica e filosofia da ciência pela Universidade Estadual de Campinas (1982) e doutorado (PhD) em filosofia pela University of Essex (Inglaterra). Fez pós-doutorado nos Estados Unidos em 1998, no Center for Cognitiver Studies, na Tufts University, sob a supervisão do Prof. Daniel Dennett. Participou do grupo de ciência cognitiva do Instituto de Estudos Avançados da USP. Foi professor na UNESP (campus-Marília) de 1982 a 1991. Em 1992 ingressou na Universidade Federal de São Carlos, na qual se aposentou como professor titular em 2016. Tem experiência na área de Filosofia, atuando principalmente nos seguintes temas: filosofia da mente, filosofia da psicologia e filosofia da neurociência e da inteligência artificial.

http://www.paulus.com.br/loja/filosofia-do-cerebro_p_2910.html

Lançamento de livro: "O continente e a ilha: duas vias da filosofia contemporânea" 2ª Edição, Revista e Ampliada

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Acaba de ser lançada a Segunda Edição, Revista e Ampliada do livro: "O continente e a ilha: duas vias da filosofia contemporânea", pela Editora Loyola.

Neste livro o leitor percorrerá duas importantes vias da filosofia contemporânea, descobrindo os pontos de aproximação e contato, bem como os de afastamento e embate: a tradição anglo-americana e os experimentos mentais, a tradição franco-alemã e a história da filosofia.

Ivan Domingues é professor titular da UFMG e coordenador do Núcleo de Estudos do Pensamento Contemporâneo (NECP) da FAFICH/UFMG. Além de autor de artigos e capítulos de livros, é organizador e autor de vários livros. Publicou por Edições Loyola: O grau zero do conhecimento (1999) e Epistemologia das ciências humanas (2004). Atualmente desenvolve pesquisas em epistemologia, filosofia da tecnologia e metafilosofia.

Continente e a ilha (O) - Duas vias da filosofia contemporânea
Ivan DOMINGUES
Formato: 12,5cm x 19cm
Peso: 0,165 kg
Código do livro: LIV.12879
Código ISBN: 9788515036899
Data da Publicação: 29/09/2009
nº de páginas: 160

Acesse: http://www.loyola.com.br/produtos_descricao.asp?lang=pt_br&codigo_produto=19971

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