Chamada - Revista Limiar - Dossiê caminhos do pensar em imagens de Proust

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O ato de pensar tem caminhos múltiplos. Não obstante, a tradição filosófica, ao menos na sua vertente dominante, postulou o pensamento racional, ancorado no conceito, como o único apto a conduzir à verdade, a traduzir a natureza do ser, a desvendar o homem. Sob esse registro, outras formas de saber, relegadas à condição de representações e interpretações secundárias, porque de um modo ou de outro conectadas com a percepção e com a fantasia, não poderiam jamais alcançar o estatuto de conhecimento verdadeiro. O instrumental nelas dominante deslegitimaria tal pretensão: a imagem. No entanto, ao ponderar sobre o modo pelo qual conceitos e imagens são engendrados e invadem não apenas o mundo das representações, mas a própria história dos homens, inscrevendo-se em suas ações, unindo o pensamento e a vida, reconhecemos que tanto o exercício da abstração - dominante na filosofia e na ciência, quanto o esforço criador da imaginação – prevalente nos mitos, na arte, na literatura - resultam de uma atividade pensante e de processos mnemônicos. Daí decorre que, sem que se minimizem as diferenças entre essas instâncias, elas se encontram enquanto resultantes de uma elaboração de pensamento que produz sentidos, tece interpretações, desvela faces ocultas do ser, do real, da condição humana. Para além disso, poderíamos ainda postular que determinadas realidades, como aquelas fugidias, múltiplas e mais intensamente vivas deixam-se capturar antes por um pensamento que se nutre da imaginação do que por aquele que não logra transcender as cercanias da lógica. Nesse caso, o pensar que nos aproximaria com mais rigor e eficácia de uma possível verdade seria antes aquele substancialmente imagético, produzido pela arte e pela literatura, por exemplo, do que o pensamento conceitual. Entre os autores que poderíamos mobilizar para fundamentar o poder revelador e critico da imagem encontramos Marcel Proust.

Pensador que optou refletir mais por imagens do que por conceitos, como observara A. Camus, Proust produziu quadros visceralmente representativos da sociedade francesa na transição entre o século XIX e o século XX, que forneciam uma profunda reflexão sobre as nuances de sua época. As imagens proustianas, no entanto, transbordam esse propósito, pois revolvem nossa relação com a realidade ao tensionarem o pensamento para além da lógica da identidade. Proust as evoca, segundo Benjamin, esvaziando o eu, para saciar sua “nostalgia de um mundo deformado pela semelhança, no qual irrompe o verdadeiro semblante da existência”. Ademais, ao adentrarmos a sua narrativa e ao acompanharmos os seus personagens, em sua complexidade multifacetada, bem como as intrincadas relações que se desenham entre eles, o que se nos desvela é a potência de um pensamento que reflete sobre as dimensões infindáveis da existência e da condição humana. As figuras proustianas nos remetem, pois, à oposição vigente no âmago do humano, o jogo entre a fidelidade e a revolta, para ficarmos com Bataille. Logo, em sua obra, de um modo dos mais belos e profícuos, somos colocados no limiar entre literatura e filosofia.

E aqui encontramos o objetivo desse dossiê. Fomentar um debate em torno dos caminhos do pensar figurativo proustiano, tanto em sua relação com os mais diversos temas, como o tempo, a memória, a música, a dor, a morte, as paixões humanas, as multiplicidades do eu (ou seja, a subjetividade), a criação, a arte; quanto no diálogo com a filosofia, em sua recepção, por exemplo, de Bergson, ou na sua influência sobre outros autores no que toca a esses temas, como Freud, Benjamin, Adorno,Camus, Deleuze, e tantos outros. Reflexões a cerca da repercussão das imagens proustianas em pensadores e escritores brasileiros, por exemplo, Carlos Drummond, Manuel Bandeira, serão também bem-vindas. Essas são, em suma, algumas sugestões que apresentamos aos autores interessados em colaborar com o debate aqui proposto, deixando ainda espaço aberto a contribuições que enveredem por outros caminhos.

Orgs. Rita Paiva e Francisco Pinheiro Machado

Prazo para submissão: 30 de março de 2018 
Informação - submissão: 
paiva.rt@terra.com.br | fapmachado@unifesp.br

www.limiar.unifesp.br

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