Carta aberta dos docentes do FIL sobre a ocupação da UnB

Nós, do Departamento de filosofia abaixo-assinados, vimos a público para apoiar a reivindicação dos estudantes, posicionando-nos contra a reforma do ensino médio e a PEC 241 ou PEC 55. 

No trabalho com as licenciaturas, travamos debates acalorados, nos quais tentamos comportar divergências, contemplar pontos de vista, métodos, para, por fim, estruturar em currículos e conteúdos as perspectivas conflitantes que perfazem o pensamento. Engana-se muito quem acredita que haja acordo tácito em torno do ensino médio, da universidade, das perspectivas para o País. Há entre nós divergências fundamentais, mas que são articuladas, confrontadas, e não silenciadas. Uma visita a qualquer instância decisória das universidades mostraria com quantas ponderações, reelaborações, articulações e conflitos se faz um currículo, uma reformulação, uma reestruturação. A isso chamávamos, pelo menos até o início deste ano, de democracia.

Não é possível aceitar que uma medida provisória mal formulada, tão vaga que é difícil mesmo confrontá-la de modo argumentativo, possa vir a se sobrepor, em uma canetada, a toda essa multiplicidade de vozes. Não se levou em conta, por exemplo, o impacto sobre a vida de milhões de jovens trabalhadores que estudam no ensino médio e que teriam dificuldade em se adequar à obrigatoriedade de uma escola em tempo integral. Silencia-se assim todo a potência do pensamento em ebulição, todo nosso trabalho, toda a sociedade. O mínimo que a comunidade deve pedir é explicações claras, argumentativas.

Quanto ao teto dos gastos públicos, não se trata de criticar a austeridade fiscal. De todos os países citados como termo de comparação pelo governo – ressalvando-se o problema de o argumento valer-se de realidades tão distintas –, nenhuma das nações fez ajustes e experimentações por tão longo período, nem mesmo obteve-se resultados positivos claros. Não é justo que um experimento criado às pressas em meses, por um governo inseguro e ineficiente,  possa incidir sobre uma geração. Daqui a 20 anos, muitos de nós estaremos aposentados, muitos estudantes estarão no auge de suas vidas. Decidir, a partir de alguns jantares e coquetéis e de comparações mal formuladas, sobre a vida de toda uma geração é muito grave para não merecer qualquer debate.

Ao repetir-se, como uma máquina quebrada, que os estudantes são doutrinados, esconde-se que a universidade, a escola, a sociedade não são um campo morto, passivo, sem conflitos. Recusa-se de antemão o diálogo, ao desautorizar o interlocutor. Os estudantes, como a maioria de nós, sabem compreender argumentos, sobrepesá-los e criar outras sínteses. Não se convence alguém facilmente, nem privando-o de a água, de luz e de sono. As pessoas formam seus pontos de vista de modo mais complexo. O que esperamos é exatamente escapar ao “doutrinário”, esperamos que as multiplicidades de vozes, de métodos, de ciências, de perspectivas, de prioridades, de partidos sejam ouvidas por esse partido que decreta do alto suas modificações em uníssono.

Por fim, gostaríamos de rechaçar a posição, hoje como sempre, omissa da reitoria. Em vez de se posicionar, seja de que forma for, a partir de algum argumento fundamentado, apela-se mais uma vez ao medo da comunidade, citando, novamente, a preocupação com a “folha de pagamento”. Aliás, uma instância administrativa poderia tentar negociar as urgências antes de se pronunciar desse modo.

Alex Calheiros 

André Luís Muniz Garcia

Claudio Reis

Erick Calheiros de Lima

Gilberto Tedeia

Herivelto Souza

Hilan Bensusan

Loraine Oliveira

Marcio Gimenes de Paula

Marcos Aurélio Fernandes

Maria Cecília Pedreira de Almeida

Philippe Lacour

Priscila Rufinoni

Raquel Imanishi

Rodrigo Dantas

Wilton Barroso

Wanderson Flor do Nascimento

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