Entrevista com a Professora Carolina Araújo

Nível de desigualdade de gênero na Filosofia é semelhante às Ciências Exatas

A professora do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Carolina Araújo apresentou os resultados da pesquisa “Mulheres na Pós-Graduação em Filosofia no Brasil - 2015” na mesa sobre Filosofia no Brasil e Gênero, que ocorreu na manhã da terça-feira, 18, no XVII Encontro Nacional da Anpof (Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia). Na ocasião, Carolina lançou a campanha “Quantas Filósofas?”, que exige da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) a computação e divulgação em tempo real de dados sobre gênero nas funções dos programas de pós-graduação em Filosofia no país.

Carolina Araújo catalogou todos os nomes de pessoas com funções nos programas de pós-graduação em Filosofia do país através da Plataforma Sucupira, que é um site da Capes em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte e que fornece dados sobre a comunidade acadêmica brasileira. Depois de classificar os nomes em masculinos e femininos, ela constatou que a participação de mulheres nos cursos de mestrado de doutorado é pífia.

Entre os discentes, por exemplo, apenas 28% são do sexo feminino. Já os homens somam 72% do total de alunos da pós-graduação. A disparidade entre os professores é ainda maior: 12% são mulheres e 88% são homens. A redução do número de mulheres em posições mais altas pode ser chamada de “efeito tesoura”, termo proposto pela coordenadora do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Márcia Barbosa.

O programa de pós-graduação que possui o melhor índice de equidade de gênero no quesito professores é o da Universidade Federal do ABC. Lá, 54,55% dos docentes são mulheres. A pior colocação ficou com a PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná) e a Universidade Federal do Pernambuco (UFPE), ambas não possuem professoras no quadro de docentes.

O curso que possui a maior participação feminina na sala de aula na pós-graduação é a Universidade Estadual do Ceará (UECE), com 51,69% do total de alunos. A última posição neste quesito é o Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet) do Rio de Janeiro porque, segundo a professora Carolina, o programa não possui alunos cadastrados. O penúltimo lugar ficou com a Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), em Belo Horizonte, onde as mulheres representam 14,29% do total de alunos.

Carolina Araújo faz parte do Grupo de Trabalho (GT) de Filosofia Antiga, mas decidiu contribuir para o debate de gênero na universidade com o relatório que produziu no final de 2015 e foi publicado no site da Anpof no Dia Internacional da Mulher, 8 de março.

Enquanto realizava o projeto de pesquisa do doutorado em 2002, a professora engravidou da primeira filha, mas não teve direito à licença maternidade. A portaria da Capes que garantiu o direito às pesquisadoras só foi criada no ano de 2011.

Por que as mulheres passam por um “efeito tesoura” na pós-graduação em Filosofia?

Eu não sei dizer por quê. E eu estou falando isso porque eu vivo e experimento o que está ao meu redor. O que eu posso dizer é que isso acontece no Brasil inteiro sistematicamente. A gente tem uma diminuição drástica entre as alunas que são graduadas em Filosofia para as alunas que se matriculam na pós-graduação em Filosofia. E, depois, uma diminuição ainda mais drástica das pessoas que se tornam professores. Os números mostram isso muito claramente. Tem todo um aparato de preconceito, eventualmente, da própria visão que as mulheres têm e não se entendem como filósofas. Isso vem dos homens filósofos que não entendem que as mulheres possam ser filósofas. É óbvio que o efeito tesoura acontece. No campo da comunidade da Filosofia, isso é incontestável.

Isso é fruto de um ideal de intelectual que está ligado apenas à figura masculina?

Eu acho que o século XX começou a mudar isso. Historicamente, as mulheres se constituíram para fazer concessões e cuidar dos outros. Cuidar de si, desenvolver o seu próprio pensamento e estabelecer sua posição de ser-humano igual em suas potencialidades intelectuais é algo que foi historicamente foi negado às mulheres. É muito importante que cada vez mais mulheres exerçam esse papel de liderança e se tornem grandes filósofas.

Por que a Filosofia tem números de desigualdade de gênero tão próximos de áreas como Engenharias e Ciências Exatas?

Isso vem da tradição histórica da imagem dessas profissões. Nas Ciências Humanas, de uma maneira geral, a imagem da pesquisadora mulher é muito mais presente. No campo da Filosofia, isso é muito menor, como é também no campo das Engenharias e no campo das Ciências Exatas, com algumas exceções. Eu diria que a autoimagem e a imagem dessas áreas realizam uma profecia que se cumpri. Homens que tomam conta desses espaços tornam esses ambientes mais masculinos. Tem todo um jogo político de construção da imagem desses pesquisadores e intelectuais que precisa ser desconstruído.

A exclusão das mulheres da Filosofia também tem a ver com as múltiplas jornadas de trabalho?

Isso está inserido num contexto maior em que as funções privadas são, em geral, realizadas pelas mulheres. E há limites humanos de tempo. Eu vou dar um exemplo sobre a pós-graduação em Filosofia: a estudante de pós-graduação muitas vezes se encontra numa situação de lidar com a maternidade. São coisas que acontecem quase na mesma faixa etária. Lidar com uma tese de doutorado e um bebê é muito difícil. Eu estou dizendo isso em “primeira pessoa”. Eu tive uma filha que nasceu no meio do meu doutorado.

Você teve problemas com a bolsa?

Eu não parei, eu continuei.

Você não teve licença maternidade?

Não, na minha primeira filha, não. No meu segundo filho, eu tive.

Foi em qual ano?

Minha filha nasceu em 2002.

A mulher que quer ascender na carreira acadêmica, às vezes, precisa abdicar de relações afetivas e amorosas?

Eu realmente quero acreditar que relações afetivas e amorosas são completamente compatíveis com a sua carreira. Elas são melhores na medida em que você é mais feliz.

Como a falta de investimento em políticas públicas para redução da desigualdade de gênero implica retrocesso na área?

A gente teve conquistas significativas que a gente está perdendo. Escorrendo pelas nossas mãos. Eu acho que é preciso ficar atento e forte e tentar resistir para que a gente possa construir uma sociedade mais igual e mais plural.

Quanto mais se discute gênero e pautas progressistas, há mais reações conservadoras?

Claro. Eu acho que as forças políticas agem pela sua interação. Na medida em que você garante direitos de um lado, você elimina privilégios de outro. Tem toda essa tensão política que eu quero entender, pelo menos, que vem de equívocos sobre o que é política. A construção da igualdade é um desafio e é preciso entender que há diferenças que precisam de ações diferenciais para tornar cidadãos iguais. A noção de uma política igualitária e comunitária provoca reações nas pessoas que estão acostumadas com seus privilégios. Felizmente, eu acho que elas estão erradas.




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