Marilena Chauí e João Carlos Salles apontam falhas na democracia do atual governo

As cadeiras do auditório I da Universidade Federal de Sergipe (UFS) não foram suficientes para acomodar todos os que estavam interessados em ouvir as palestras de Marilena Chauí, professora da Universidade de São Paulo (USP) e doutora honoris causa pela UFS, e do presidente da Sociedade Interamericana de Filosofia e reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) João Carlos Salles. As sessões temáticas aconteceram no final da tarde dessa terça-feira, 18, segundo dia do XVII Encontro da Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia (ANPOF). “Sociedade democrática” foi o objeto do discurso de Chauí, enquanto que “Universidade e Democracia” foi o tema tratado por Sales.

“Tanto a redução de verbas para pesquisa na pós-graduação em Filosofia quanto a retirada da obrigatoriedade da disciplina no ensino médio fazem parte da compreensão de um lugar não privilegiado que a Filosofia teria no cenário da organização de ensino. Isso é algo que tem que ser combatido por todos nós”, enfatizou o professor João Carlos Salles.

Para ele, os acadêmicos da área não devem renunciar o direito de estar nas escolas de ensino médio, ainda que não sejam definitivamente os portadores oficiais do pensamento crítico. O reitor lembrou ainda que o descaso com as ciências humanas não é recente e mesmo o governo anterior não contemplava essas disciplinas no programa Ciência sem Fronteiras, por exemplo.

Durante o seu discurso na sessão temática, Salles sugeriu que a universidade desfavorece o pensamento filosófico na medida em que é um local de repetição, com hora marcada para as discussões, o que “negaria o espírito da palavra”, é lugar de reprodução de mérito, de competição e militância seletiva. Mesmo assim, afirmou querer explorar o potencial utópico que torna a universidade um lugar privilegiado do pensamento. “A universidade oferece um vínculo especial entre a energia pessoal e o interesse coletivo. Eu creio nisso contra todos os fatos. Creio que a universidade não é um objeto, mas, sim, um sujeito coletivo, um ‘nós’, um ‘quem’”, confidenciou.

Sessão Temática com Chauí

Marilena Chauí percebe a atual efervescência das universidades com o surgimento de coletivos que, segundo ela, ora trazem formas originais de ocupação do espaço público, ora portam análises da conjuntura político-democrática. Para a professora, os dois objetivos são importantes e devem andar juntos, encontrar temas, direitos, desejos e direções comuns, para somar forças. Ela defende que é preciso encontrar mecanismos novos para fazer frente às novas situações que se apresentam. Sem saudosismo, Chauí disse não acreditar que aquilo que era feito na década de 60 e 70 seja eficaz para o mundo de hoje, onde até a principal forma de disseminação de informações, a internet, não é de domínio nem de monitoramento de todos. “Na revolução inglesa os revolucionários produziam artesanalmente as próprias prensas, os tipos móveis e tintas e imprimiam seus panfletos com as ideias surgidas nos encontros entre eles. Isso é ter domínio sobre a informação”, afirmou.

Em seu discurso, ela apontou a criação dos direitos como o cerne da democracia, na medida em que se passou a ter a percepção de que as necessidades individuais (carência de água ou comida, por exemplo) seriam pressupostos de direitos universais (direito à vida). Segundo ela, essas necessidades individuais, muitas vezes, podem ser conflitantes, porém, “na democracia o conflito é legítimo, não é um obstáculo”. Ela explicou que enquanto o conflito de necessidades pressupõe um direito a ser conquistado, o privilégio de uma classe ou de um determinado indivíduo perante os demais se opõe a um direito.

Os estudantes de filosofia Vanessa Cunha Ungareli e Fernando Arcanjo da Universidade Federal de Goiás aplaudiram com fervor a palestra. “É sempre bom ouvir Chauí. É uma pessoa que tem escritos muito importantes, histórico de luta e essa fala dela nesse momento é com certeza uma escolha política também, dada a atual conjuntura do país”, analisou Fernando.

Por Gustavo Monteiro (Monitor de Comunicação)
Profa. Dra. Michele Amorim Becker (Coordenadora da Monitoria de Comunicação da ANPOF)


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