Filosofia e Gênero no Brasil

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Foto: Lucivânia dos Santos

Professora Carolina Araújo lança campanha “Quantas Filósofas?” na Anpof

Na terça-feira, 18, a professora Carolina Araújo do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) lançou a campanha “Quantas Filósofas?” no XVII Encontro Nacional da Anpof (Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia). O objetivo da campanha é exigir da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) a computação e divulgação em tempo real dos dados sobre gênero nas funções dos programas de pós-graduação em Filosofia no país.


A “Quantas Filósofas?” é resultado do artigo “Mulheres na Pós-Graduação em Filosofia no Brasil - 2015”, publicado pela professora no Dia Internacional da Mulher, 8 de março, no site da Anpof.  A pesquisa é um diagnóstico da presença de mulheres nos programas de pós-graduação em Filosofia do país. Carolina Araújo retirou os dados da Plataforma Sucupira, site da Capes em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte que fornece dados sobre a comunidade acadêmica brasileira.

Carolina Araújo fez um levantamento com base no sexo dos professores e alunos da pós-graduação por meio de cada nome disponível na plataforma, que não oferece dados sobre o sexo ou gênero dos pesquisadores. A professora da UFRJ constatou que apenas 12% dos docentes são do sexo feminino nos cursos de pós-graduação enquanto os homens são 88%. A disparidade entre alunos e alunas também é alta: enquanto 72% é do sexo masculino, as mulheres são 28%.

Carolina faz parte do Grupo de Trabalho (GT) Filosofia Antiga da Anpof e decidiu realizar o artigo em novembro do ano passado para comprovar os níveis de desigualdade de gênero na Filosofia. Ela participou da mesa Filosofia e Gênero no Brasil com outra professora do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, Suzana de Castro. O debate foi mediado pela professora dos cursos de graduação e pós-graduação em Filosofia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Izilda Johanson.

Para a professora Suzana de Castro, a disparidade de gênero na pós-graduação em Filosofia no Brasil tem a ver com a hostilidade com a qual o corpo feminino é tratado na área. O corpo da mulher causa estranhamento no campo filosófico, o que possibilita a subordinação da mulher, diz a professora.

“Simone de Beauvoir mapeou muito bem essa questão da mulher ser o ‘Outro’ do homem. Essa alteridade não é boa. É um outro daquele que se coloca numa posição de maior saber, de maior poder, que se autointitula um saber soberano e universal”. Tal saber é um modelo cultural e patriarcal, segundo Suzana, que repercute tanto na Filosofia quanto na academia. Ainda de acordo com a professora, é preciso repensar os currículos dos programas para abarcar a Filosofia Feminista, a Filosofia da Alteridade, entre outras que contemplem debates sociais.

Já a professora Izilda Johanson acredita que no universo da Filosofia as mulheres não têm chances porque precisam entrar nos ”jogos dos homens”. “Se você entra naquele ambiente que é agressivo e competitivo, você é tachada como uma mulher dura”. Por outro lado, Izilda acredita que, caso a mulher seja dócil no ambiente acadêmico, ela é fraca. “A gente fica muito sem saída”, afirma.

Mulheres compõem a maioria do público

Após a fala da mediadora e participantes da mesa, professoras de outras partes do país contribuíram com propostas para fomentar a participação das mulheres na Filosofia. O espaço foi marcado pela presença massiva de doutoras e mestres, como a professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP Marilena Chauí.

Para a professora Izilda, havia pouca presença de homens porque as mulheres são as primeiras sensibilizadas. “Essa é uma bandeira que a iniciativa tem que ser mesmo das mulheres. A gente precisa lutar juntas”. No entanto, a busca por equidade de gênero na Filosofia não pode ser excludente, para ela. “Espero que aos poucos a gente possa trazer os homens”.

Em meio ao debate, a professora da graduação e pós-graduação em Filosofia da UFABC Marília Pisani levantou cinco propostas e reflexões para discutir nas reuniões do GT de Filosofia e Gênero da Anpof, são elas: criar uma comunidade de apoio entre as filósofas, superar barreiras de grupos de pesquisa, promover a transdisciplinaridade, criar um cronograma de ações e se articular com os movimentos sociais.

Para Marília Pisani, uma das formas de dialogar com a comunidade externa é através de projetos de extensão, apesar de cortes nas verbas das universidades públicas. “São lugares estratégicos para estabelecer essa relação dentro e fora da universidade”, afirma. A inclusão dos movimentos sociais, para Marília, não pode ser feita enquanto objeto de pesquisa, mas colocá-los como atores nas próprias problematizações.

Por Matheus Brito (Monitor de Comunicação)
Profa. Dra. Michele Amorim Becker (Coordenadora da Monitoria de Comunicação da ANPOF)

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