ENTREVISTAS ANPOF

ENTREVISTAS

“Filosofar a partir da perspectiva de mulheres pensadoras desafia senso comum moral”, entrevista com Christine Lopes

Katarina Peixoto*

No mês de junho aconteceu no Rio de Janeiro a I Conferência Internacional Mulheres na Filosofia Moderna, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. Foi a primeira Conferência desse porte, dedicada a essa agenda de pesquisa no Brasil, a qual envolve um entrelaçamento incontornável entre método filosófico e história da filosofia com o olhar para a presença e para a voz da mulher. Dra. Christine Lopes é uma filósofa vinculada a uma das escolas que introduziu no Brasil, durante a redemocratização, uma história conceitual da filosofia que utiliza ferramentas analíticas para compreender os textos do repertório clássico do cânone, enquanto mantém uma leitura bem de perto e cuidadosa desses textos.

Lopes, há alguns anos, vive, leciona, e pesquisa filosofia na Inglaterra e optou por se tornar uma filósofa independente. Em 2011 criou o Later German Philosophy project. Lopes participou neste ano de uma conferência internacional em filosofia kantiana na Rússia que celebrou ainda os 295 anos de nascimento do filósofo alemão Immanuel Kant. Ela acaba de integrar um projeto acadêmico internacional em filosofia com base em Lisboa, e ainda em dezembro fará palestras em Berlim e Bayreuth, na Alemanha, sobre sua atual pesquisa sobre ética, moralidade, e afetividade. A filósofa atua ainda como psicoterapeuta treinada e registrada no sistema de saúde público nacional inglês (NHS) coordenando o cuidado e tratamento de pessoas com doenças mentais severas e crônicas.

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Mulheres na Filosofia: "Nós queremos nos juntar a eles, entrar pela porta da frente" Entrevista com Prof. Yara Frateschi (Unicamp)

por Nádia Junqueira Ribeiro

Um breve olhar sobre os currículos de Filosofia no Brasil – e no mundo – e podemos ver que as mulheres filósofas são poucas ou ausentes nas bibliografias, o que não significa, contudo, que elas não existam ou existiram. É este o pano de fundo da I Conferência Internacional das Mulheres na Filosofia Moderna, que traz não apenas pesquisas de filósofas como Émilie du Châtelet e Anne Conway, mas discute a presença destas pensadoras no cânone filosófico. Um mesmo olhar para a presença das mulheres nas pós-graduações e corpo docente de departamentos de Filosofia no Brasil nos conduz a uma conclusão parecida: são minoria. Esta é a razão que levou a professora livre-docente do departamento de Filosofia da Unicamp, Yara Frateschi, a uma das mesas na conferência que aconteceu na última semana na UERJ, no Rio de Janeiro. Ainda que o trabalho acadêmico de Frateschi esteja voltado para filósofas políticas contemporâneas (como Seyla Benhabib e Hannah Arendt), a professora tem se dedicado a compreender os números que revelam esta baixa presença e se engajado em ações que possam transformá-los.

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Entrevista: “É preciso afirmar a potência de um feminismo agonístico”, Carla Rodrigues (UFRJ)

Dra. Franciele Petry, professora UFSC e diretora de comunicação ANPOF

Em entrevista concedida à ANPOF, Carla Rodrigues, Professora do Departamento de Filosofia da UFRJ, pesquisadora no Programa de Pós-Graduação de Filosofia (IFCS/UFRJ) e bolsista da Faperj, comenta o contexto teórico a partir do qual a crítica de Butler em Problemas de gênero foi desenvolvida, assim como suas implicações no campo da luta política. A professora explica como Butler adotou uma via de conciliação para lidar com “o problema de fazer política feminista supondo uma estabilidade da categoria "mulheres" e nem assim se desfazer do feminismo como forma de luta”. Também esclarece a posição de Butler em relação ao conceito de gênero e comenta as distorções de que se alimentam os críticos ao falarem de uma suposta “ideologia de gênero”.

Refletindo sobre o lugar das mulheres na Filosofia, a professora indica a tarefa que cabe a elas de ir além da denúncia do machismo, alcançando a crítica à misoginia estrutural que autoriza “a violência contra tudo aquilo que carrega a marca do feminino”. Nesse sentido, partindo da contribuição teórica de Butler, propõe que as mulheres pensem em “‘alianças contingentes’ com outros grupos marcados por vulnerabilidade e subalternidade”. A professora destaca, ainda, que considerando as diferenças epistemológicas existentes no campo acadêmico, quando se trata das teorias feministas, há um encontro entre elas na prática política cotidiana, o que não significa que haja uma unidade.

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Entrevista com Silvana Ramos: Uma mulher que entra no curso de filosofia já transgrediu uma série de interditos sociais e culturais da sociedade patriarcal

Professora da USP e Coordenadora do GT de Filosofia e Gênero da Anpof comenta a baixa presença das mulheres na Filosofia e a necessidade de combate ao assédio

*Por Nádia Junqueira Ribeiro

Coordenadora do GT de Filosofia e Gênero da Anpof e professora de Filosofia da USP, Silvana de Souza Ramos fala nessa entrevista sobre assédio moral e sexual nos programas de pós-graduação em Filosofia e sobre a baixa presença das mulheres na área. A professora, que também coordena o Grupo de Estudos de Filosofia Política da USP, comenta sobre o documento publicado pela Anpof e elaborado pelo GT no fim de 2018 que contém diretrizes para combater assédio e sua importância, uma vez que as estudantes que sofreram ou que afirmam sofrer algum constrangimento ou violência, na maioria das vezes, não se sentem seguras para denunciar o fato às instituições a que pertencem, especialmente em casos de assédio sexual. Ainda que o documento preveja a avaliação qualitativa das ações de prevenção e de combate ao assédio como um elemento decisivo na avaliação dos PPGs pela Capes, ela reforça a necessidade de haver engajamento de todos e todas para que a recomendação se efetive. Para ela, isso passa pela necessidade de se estabelecer uma cultura de combate ao assédio em todas as universidades do país, o que exige a desnaturalização de relações opressivas generificadas e racializadas. Silvana, que também é Editora dos Cadernos Espinosanos, discute os números explicitados pela pesquisa da professora Carolina de Araújo que expressam a baixa presença das mulheres na Filosofia. Para a professora, a pesquisa é um marco para o debate a respeito da desigualdade de gênero em nossa área. Ela comenta que a simples descoberta do baixo percentual de mulheres na área já foi em si uma vitória. Ela salienta sua preocupação com o fato de haver um crescimento vertiginoso dos PPGs em Filosofia no país que, contudo, não enfrentou o desafio de desfazer desigualdades específicas, como as de gênero. Além de outras desigualdades, como as regionais, as de raça e as de classe. Para ela, é hora de enfrentar esses desafios. Para a professora, nossa área apresenta empecilhos para a implantação de mudanças nos parâmetros de avaliação de produtividade, os quais desconsideram as desigualdades de gênero. Silvana avalia o ambiente universitário hostil à presença pensante e autônoma de mulheres.

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Entrevista Linda Alcoff

Linda Alcoff: “Algumas mulheres podem ser vistas como grandes acadêmicas na história da filosofia, mas não são vistas como criadoras intelectuais que desenvolvem novas ideias”

Por Nádia Junqueira Ribeiro

Panamenha, Linda Alcoff é filósofa e professora em The City University of New York nos Estados Unidos. Dos 15 aos 32 trabalhou, como imigrante latina, em subempregos, até que o título de doutora chegou e se tornou professora de Filosofia. Ela veio ao Brasil para participar do XVIII Encontro da Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia que aconteceu em outubro de 2019 em Vitória/ES. Sua fala foi sobre epistemologia feminista decolonial. Nesta entrevista, a professora aproxima a situação vivida no Brasil com a eleição de Bolsonaro à vivida em seu país, com Trump. A filósofa indica que aqui, assim como lá, mulheres brancas apoiaram a candidatura porque buscam a proteção de seus interesses materiais. Ela indica, contudo, que a liberdade de mulheres brancas ricas só é possível a partir do trabalho de mulheres pobres. Alcoff insere em sua teoria esta distinção, argumentando contra um discurso universal e essencialista sobre mulher.

A autora também conta como nos Estados Unidos as mulheres filósofas têm buscado combater as desigualdades de gênero nas universidades. Hoje, no Brasil, a presença das mulheres na Filosofia decresce ao longo da carreira: 38% graduadas, 28% nos cursos de pós e 20% no corpo docente. Ela afirma que o cenário nos Estados Unidos é similar, mas ainda pior no que diz respeito ao corpo docente, pois são 17%. Para ela, a razão pela qual é mais difícil para mulheres avançarem na vida acadêmica é que elas não são vistas como criadoras intelectuais que desenvolvem novas ideias.

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“O recado é claro: manter as pessoas com medo”, diz professora Camila Jourdan, condenada à prisão pela participação nas Jornadas de Junho

Nádia Junqueira Ribeiro - Assessora de Comunicação da Anpof

Dos mais de 1,4 milhões de ativistas que foram às ruas nas chamadas Jornadas de Junho, em 2013, 23 caíram nas mãos da polícia e sofrem dura punição. Foram investigados e processados nos últimos quatro anos até serem condenados, no último dia 17 de julho, a até sete anos de prisão. A sentença foi assinada pelo Juiz Flávio Itabaiana, da 27ª vara criminal do Rio de Janeiro. Entre os crimes, o documento lista dano qualificado, resistência, lesões corporais, posse de artefatos explosivos, formação de quadrilha e corrupção de menores.

Os condenados recorrem em liberdade, pois a decisão foi em primeira instância. Entre eles, está a professora do Departamento de Filosofia da UERJ, Camila Jourdan, que deve lançar, ainda este ano, um livro sobre a história que culmina na condenação. Nesta entrevista, ela fala à Anpof sobre o processo, considerado por ela como uma absurdidade jurídica, na medida em que não tem base legítima e foi construído a partir de ilegalidades. Ela indica que o alvo desta condenação é a própria possibilidade de organização e mobilização e que tratar movimento político como formação de quadrilha e participação política como crime de corrupção de menores são condenações que abrem precedentes muito graves. Para ela, é importante questionar o que se pretende condenar e a resposta indicada é interditar a possibilidade de repetição de um levante popular como o de 2013.

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Entrevista com o Prof. Dr. Ivan Domingues

O livro de Ivan Domingues, Filosofia no Brasil – Legados e Perspectivas, publicado em 2017 pela editora da UNESP, já pode ser considerado um clássico do pensamento filosófico brasileiro, ao lado das obras seminais de Cruz Costa (Contribuição à história das ideias no Brasil) e Paulo Arantes (Um departamento francês de ultramar). Entretanto, diferentemente dos professores uspianos, Ivan Domingues não se ocupa diretamente da história da filosofia brasileira (Cruz Costa, especialmente século XIX) ou da filosofia uspiana (Paulo Arantes - anos 1960), mas de uma reflexão metafilosófica da filosofia brasileira.

Para tanto, Ivan Domingues utiliza livremente o método weberiano, construindo 05 (cinco) figuras típicas ideais: o intelectual orgânico da Igreja (período colonial); o diletante estrangeirado (Império e República velha); o scholar uspiano, formado pela missão francesa (1930-1960); o intelectual público contemporâneo e o intelectual cosmopolita globalizado (possibilidade futura). Toda a reflexão concentra-se na dinâmica dessas figuras ideais, sem prescindir, obviamente, da história da filosofia, da história cultural, da história econômica e da história social do Brasil.

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ENTREVISTA GIANNOTTI: MARX, WITTGENSTEIN E O CAPITALISMO HOJE (Parte I)

Versão condensada de entrevista de José Arthur Giannotti a Vinicius de Figueiredo, publicada originalmente em Analytica, v.15, n.2, 2011, sob o título “Caminhos e Percalços de um Trabalho”. Giannotti é talvez o mais destacado “pai fundador” da filosofia acadêmica brasileira que tem a USP como matriz, nosso filósofo n.1, um bastião de sua ortodoxia “goldschmidtiana”, depois um defensor da tese de filosofia como ensaio, e também um estudioso que, a partir de Marx, empenhou-se em desenvolver um pensamento filosófico próprio (Crisóstomo, ed.)

(...)
Vinicius de Figueiredo: As investigações efetuadas por Marx dirigiam-se a uma forma de sociabilidade capitalista que diverge da contemporânea. A seu ver, o que é preciso reter e no que é preciso inovar em relação ao quadro traçado por Marx, quando, a partir dele, procura-se compreender as formas atuais da sociabilidade capitalista?

José A. Giannotti: Uma simples oposição das forças do real não pode explicar o fenômeno da alienação tal como foi formulado pelo velho Marx e tal como ainda comparece nas crises do capitalismo contemporâneo. A contradição aparece quando as forças colocam em questão o que elas vêm a ser. Ora, somente existe contradição no logos, num discurso, nunca numa oposição de forças. E a alienação alucinante do capital financeiro termina por destruir suas condições de existência. Outras formas de alienação vamos encontrar no próprio mercado de trabalho, que perdeu sua inspiração internacional já antes da I Grande Guerra: sua identidade foi estilhaçada pelas diferentes formas profissionais determinadas pelo tipo de conhecimento que as conforma. A crise contemporânea nos joga num mundo contraditório, cujos pontos precisam ser estudados especificamente. Um deles não é a contradição entre um capital que espalha pelo mundo suas cadeias produtivas, mas ainda está emperrado por fronteiras nacionais? É preciso separar níveis, mecanismos internos, suas tentativas de solução, de convivência, antes de lamentar o poder avassalador do deus capital ou da crise do “discurso da modernidade”, esse mantra crítico cujo sentido me escapa. No fundo, é a política que nos apresenta essa teia. Antes que se torne norma e arte, a política ajuda a articular forças sociais existentes, assim como pode encobrir sua novidade, quando as encaixa em trilhos ultrapassados. E estou falando de política democrática que exprime interesses, mesmo quando estes aparecem sob a forma de demanda por reconhecimento e de qualidade de vida. (...)

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Crise da Representatividade: professores discutem a reforma política brasileira

Nádia Junqueira
Assessora de comunicação Anpof

Diante de uma das maiores crises políticas desde o período de redemocratização do Brasil, a Câmara dos Deputados encerrou nesta semana (19/9) a votação da Reforma Política proposta na PEC 77/03, cuja relatoria esteve nas mãos do deputado Vicênte Cândido (PT/SP). A operação Lava-Jato e as dezenas de denúncias que atingem em cheio membros do Executivo e Legislativo aceleraram esta votação. De um lado, havia a profunda descredibilidade da população diante dos representantes destes poderes e a expectativa de resposta a este cenário de corrupção endêmica. De outro, havia parlamentares denunciados preocupados em manter o foro privilegiado.

Não por outra razão, tentavam a aprovação do Distritão, que, na prática favoreceria a reeleição dos parlamentares por se basear nos votos majoritários, o que privilegia o personalismo. No sistema proporcional, adotado hoje em nosso país, para um deputado se eleger, é necessário calcular seu número de votos combinado com a quantidade de votos dados ao partido ou à coligação. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) não foi aprovada porque não atingiu o mínimo de 308 dos 513 votos. A matéria foi derrubada em primeiro turno e não pode mais ser discutida no Congresso neste ano. O fundo partidário, contudo, ainda não foi votado.

Para discutir sobre esta reforma política e o cenário que impulsionou esta votação a Anpof convidou dois professores doutores que pertencem ao GT Ética e Política na Filosofia do Renascimento: Alberto Barros (USP) e José Antônio Martins (UEM). Nesta entrevista eles analisam a crise da representatividade do país e no mundo, o prejuízo que Distritão traria caso aprovado, os prejuízos das campanhas caras e sobre a discussão do parlamentarismo como possível resposta à crise.

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BNCC: para professor Edgar Lyra, formação básica não deve ter o mercado de trabalho como termo

Na quinta-feira da última semana (6/4) o Ministério da Educação apresentou a Base Nacional Comum Curricular. O texto entregue ao Conselho Nacional de Educação trata da educação infantil e do Ensino Fundamental. O texto do Ensino Médio, que interessa especialmente os professores de Filosofia, deve ser entregue até o fim deste ano. O texto esteve aberto a contribuições entre 2015 e março de 2016. O professor Edgar Lyra (PUC/RJ), em entrevista para o portal da Anpof, comenta o texto que foi entregue pelo MEC, como avalia o processo e opina como deveria ser a BNCC.

Nesta entrevista, ele comenta sobre a legitimidade das instituições privadas no debate da construção do texto, mas critica o protagonismo que assumiu o interesse privado com a troca de governo e como gestores privados tornaram-se porta-vozes, na imprensa, do discurso em torno do fracasso do ensino médio brasileiro e o esgotamento do seu atual modelo.
 

Na esteira dessa discussão, ele aborda a MP 746, já aprovada e considera “imprudente” o que chamaram de “coragem” ao colocarem esse debate reduzido à canetada de uma medida provisória. A partir desta aprovação, ele adianta sua reflexão sobre o que deve vir a ser o texto da BNCC que trata do Ensino Médio. A “flexibilização” proposta, segundo Lyra, deve atender muito mais a interesses de formação abreviada para o mercado de trabalho que à chamada “educação integral”. Para ele, a BNCC deveria ser resultado de um processo paciente e participativo. Entenda ainda, nas respostas do professor Edgar, o que é a BNCC e o que ela pretende.

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Bate-papo feminista: Yara Frateschi (Unicamp)

“Por quais razões as mulheres têm a tendência de não permanecer nos ambientes de pesquisa filosófica? Chegou a hora de pensarmos sobre isso”

Sobre a escrivaninha dela estão três filósofas: Seyla Benhabib, Nancy Fraser e Hannah Arendt. A escolha não foi deliberada, segundo a professora da Unicamp. No entanto, todas se perguntam pelas condições do aprofundamento da democracia. Para Yara Frateschi, não é mais possível que as teorias da democracia desconsiderem os obstáculos à emancipação da mulher. Assim como não é mais possível nos furtarmos, no Brasil, a uma investigação das causas da sub-representação feminina nos Departamentos de Filosofia e na pesquisa.

“Por quais razões as mulheres têm a tendência de não permanecer nos ambientes de pesquisa filosófica?”. Para Yara Frateschi, esta é uma pergunta que devemos fazer às próprias mulheres: são elas que têm que dizer. “A escuta nos permitirá compreender os efetivos obstáculos materiais e simbólicos ao desenvolvimento da pesquisa filosófica por mulheres e à ocupação de cargos de docência”. Frateschi, contudo, é otimista: para ela chega na Universidade um movimento organizado de mulheres que reivindicam políticas públicas e ações afirmativas que corrijam a histórica desigualdade de gênero.

“O que acontece hoje na Universidade é muito positivo a esse respeito: uma tendência e uma série de reivindicações que nascem na sociedade, tomam corpo nos movimentos sociais e invadem o ambiente acadêmico”. Ela aposta que o feminismo chegou para ficar na academia, sem acreditar, contudo, num modo “feminino” de fazer filosofia. Veja abaixo entrevista da professora Yara Frateschi, especial para Anpof nesta semana das mulheres. Yara é professora da Universidade Estadual de Campinas, graduada, mestre, doutora e pós-doutora em Filosofia pela Universidade de São Paulo. Também foi pesquisadora visitante na Columbia University (2000), na ENS de Paris (2006), na Yale University (2016).

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Entrevista com Antônio Edmilson Paschoal sobre a criação do PROF-Filosofia

ANPOF - Quais as linhas de pesquisa do Programa e o que você diria que define a sua identidade?

Tendo em vista a oportunidade oferecida pela ANPOF de divulgar o PROF-FILO à comunidade acadêmica, vou proceder de forma o mais oficial possível nas respostas, de tal modo que o material aqui publicado seja útil não somente para os interessados no conjunto da área de filosofia, mas também para aqueles que tem interesse direto pelo PROF, como futuros acadêmicos do curso.

Começo pela identidade própria do Mestrado Profissional em Filosofia (PROF-FILO). Trata-se de um programa de pós-graduação destinado a ofertar um curso de mestrado em Filosofia, na modalidade mestrado profissional, em rede, com abrangência nacional, e que tem como público alvo os professores de Filosofia na Educação Básica, preferencialmente aqueles que atuam nas escolas das redes públicas de ensino.

Sua área de concentração, outro ponto que define a sua identidade, é o “Ensino de Filosofia”. O PROF-FILO tem como objeto de estudos a Filosofia enquanto um componente curricular no Ensino Fundamental e em especial no Ensino Médio. Ou seja, a Filosofia pensada por seu caráter formativo e inserida em processos didático-pedagógicos. Um objetivo que faz coro, assim, com as tarefas de consolidação progressiva da disciplina de Filosofia como um componente curricular, em especial pelo efetivo aporte de instrumentos conceituais de reflexão, escrita e argumentação a serem produzidos.

O PROF-FILO tem duas linhas de pesquisa:

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Entrevista com Rafael Mello Barbosa criação do Programa de Mestrado Profissional em Filosofia e Ensino do CEFET-RJ

Agradeço à diretoria da ANPOF, em especial ao seu atual diretor, Dr. Marcelo Carvalho, que gentilmente realizaram esta entrevista, a qual nos permite apresentar um pouco do nosso trabalho a toda comunidade de professores e pesquisadores de filosofia do país.

Gostaria igualmente de agradecer ao incentivo e apoio do Dr. Carlos Henrique Figueiredo, Diretor Geral do CEFET/RJ, e ao Dr. Pedro Calas Manuel, Diretor de Pesquisa e Pós-Graduação do CEFET/RJ.

Por último, gostaria de agradecer a todos os professores do CEFET-RJ e os das instituições parceiras que vêm colaborando de formas variadas para a criação e para o sucesso do programa[1].

ANPOF: Quais as linhas de pesquisa do Programa e o que você diria que define a sua identidade?

Rafael: A preocupação com a reflexão sobre ser professor de filosofia é o ponto de articulação do qual derivam as linhas de pesquisa, as disciplinas do programa e é o que reúne professores e estudantes. Ser professor de filosofia é uma questão por vezes deixada de lado, como sendo de menor importância, contudo, para os professores que compõem o quadro docente deste programa, esta questão é percebida como constitutiva do que fazemos e acabamos por ser.

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Entrevista com Gabriele Cornelli sobre a criação do novo programa de mestrado da UnB

 fevereiro de 2016

ANPOF - Quais as linhas de pesquisa do Programa e o que você diria que define a sua identidade?

CORNELLI: O Programa de Pós-Graduação em Metafísica se origina do trabalho desenvolvido há anos por diferentes grupos de pesquisa, em vários Departamentos e Programas de Pós-Graduação da Universidade de Brasília, por professores que, embora em sua grande maioria estejam vinculados à área de Filosofia, possuem formação e atuação inter, trans e multidisciplinar. Trata-se de um programa metodologicamente plural, que quer enfrentar o desafio da integração dos saberes para pensar as questões e problemas tradicionais da Metafísica enquanto fio condutor da História da Filosofia. Essa orientação não se faz de modo fortuito, mas na própria estrutura da pesquisa: não se pretende criar, em abstrato, um “lugar entre” as disciplinas, mas, partindo de um determinado campo de estudos, com o propósito de transcendê-lo. A ideia é portanto aquela de tomar o cerne metafísico do pensamento filosófico e abri-lo para a contribuição dos outros campos do saber. Assim, a natureza radicalmente metafísica do Programa se manifesta também na sua dimensão metodológica. Pela verdade, os problemas metafísicos, mesmo que implicitamente, já se encontram latentes nas diversas áreas de saber. A ideia é estudá-los em estreita conexão com estas mesmas áreas, apreendendo suas práticas teóricas e as tentativas de resposta aos problemas metafísicos que estas proporcionaram. Nossa proposta formativa é de permitir aos alunos de abordar as questões metafísicas na interação destas com os problemas humanos, Os projetos a serem desenvolvidos estarão, por isso, situados nas margens das áreas disciplinares tradicionalmente estabelecidas.”

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Entrevista com Arthur Araújo sobre a criação do GT Semiótica e Pragmatismo

ANPOF:  Quais os temas que o GT se propõe a debater?

ARTHUR: O núcleo temático do GT é Semiótica e Pragmatismo. O objetivo é debater e agregar ao GT uma comunidade de pesquisadores com interesses e afinidades teóricos entre diferentes domínios da História da Filosofia (epistemologia, linguagem, mente, política, hermenêutica, arte, etc.). Assim não somente questões fundacionais de Semiótica e Pragmatismo desde Peirce, James e Dewey, mas, também o desenvolvimento e o desdobramento dessa perspectiva, ao longo do longo o Século XX, entre diferentes domínios filosóficos constituem os temas de interesse e debate do GT. É oportuno destacar também que a proposta de debate do GT Semiótica e Pragmatismo é ampla e plural e visa atrair diferentes contribuições teóricas.

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Entrevista com Tárik Prata sobre Mestrado da UFPE

TÁRIK PRATA FALA SOBRE O INÍCIO DAS ATIVIDADES DO MESTRADO EM FILOSOFIA DA UFPE

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A UFPE teve seu Programa de Mestrado em Filosofia recentemente aprovado pela CAPES. O Prof. Tárik Prata, Coordenador do Programa, respondeu a questões da ANPOF sobre as perspectivas e as atividades do Mestrado.


ANPOF - Quais as linhas de pesquisa do Programa e o que você diria que define a sua identidade?

Tárik de Athayde Prata - O novo programa possui três linhas de pesquisa: Ontologia e LinguagemÉtica e Política e Fenomenologia e Hermenêutica.

A linha de pesquisa de Ontologia e Linguagemse organiza em torno de problemas da filosofia teórica, pertencentes ao campo da ontologia (a problemática das categorias, a ontologia da natureza, o problema mente-corpo) e da filosofia da linguagem (teorias do significado, pragmática linguística, pressupostos ontológicos do discurso significativo). As questões específicas que congregam os docentes vinculados a esta linha de pesquisa abrangem desde a problemática cosmológica e a ontologia da natureza; passando por problemas relativos à filosofia da religião (principalmente o problema do mal e o estatuto dos milagres); e o debate contemporâneo a respeito da ontologia da mente.

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Entrevista com Manoel Vasconcellos sobre Doutorado da UFPel

MANOEL VASCONCELLOS FALA SOBRE O INÍCIO DAS ATIVIDADES DO DOUTORADO DA UFPel

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O Prof. Manoel Vasconcellos, Coordenador do PPGF da UFPel, respondeu a questões da ANPOF sobre as atividades do Programa de Doutorado em Filosofia, que terá início em 2015. 


ANPOF - Quais as linhas de pesquisa do Programa e o que vocês diriam que define a sua identidade?

Manoel Vasconcellos - A área de concentração é Filosofia Moral e Política. As linhas de pesquisa são:

a) Concepções de Virtude

b) Fundamentação e Crítica da Moral

c) Direito, Sociedade e Estado

d) Epistemologia Moral (linha que passa a integrar o programa a partir do próximo processo seletivo para Mestrado e Doutorado).

A identidade do programa não está desvinculada da sua origem histórica. Com efeito, o curso de graduação em Filosofia da UFPel começou a funcionar em 1985. Cerca de dez anos após sua criação houve uma grande renovação de professores e profundas alterações curriculares. Desde então, os estudos relacionados à Filosofia Moral e Política começaram a ter especial relevância. Ao menos num primeiro momento não se tratou de algo intencional. Configurou-se, contudo, uma formação de professores que tinha como característica comum a investigação em torno dessa área, razão pela qual a primeira experiência de pós-graduação acabou por ser uma Especialização em Ética e Filosofia Política. A continuidade e aprofundamento das investigações conduziu à escolha da Filosofia Moral e Política como área de concentração do mestrado. O programa foi, desde o início, marcado pela presença de um grupo de jovens professores que, ao lado de outros mais experientes, foram construindo o perfil de um grupo de trabalho voltado para temas de filosofia prática. A partir de agora, com a criação do doutorado, sem perder o foco central, a investigação alarga-se com a inclusão de uma nova linha de pesquisa, a epistemologia moral.

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"As mulheres sempre existiram na Filosofia” Entrevista - Ruth Hagengruber

Ruth Hagengruber, diretora do Centro de História de Mulheres Filósofas e Cientistas de Paderborn, defende o papel determinante de mulheres na História da Filosofia


Nádia Junqueira Ribeiro*

As mulheres influenciaram o desenvolvimento do pensamento filosófico e científico de diversas formas ao longo da história. É esta a convicção da filósofa alemã Ruth Hagengruber. Mostrar esta influência é o propósito do Centro de História de Mulheres Filósofas e Cientistas, do qual é diretora e fundadora, em Paderborn, na Alemanha. Hagengruber esteve no Brasil na última semana durante a I Conferência Internacional de Mulheres na Filosofia Moderna que aconteceu no Rio de Janeiro. A filósofa veio ao evento a convite de Katarina Peixoto, pesquisadora da UERJ, que esteve presencialmente com Hagengruber em Paderborn no ano passado. Naquela ocasião, Ruth disse a ela: vocês devem buscar conhecer as mulheres filósofas da sua história. Não é fato que elas não existiram, vocês apenas não as conhecem.

Hagengruber desenvolve, desde os anos 1990, este trabalho de mostrar como os escritos filosóficos de mulheres, desde a Antiguidade, contribuíram, essencialmente para filosofia. Por esta razão, o centro de Paderborn, além de oferecer aulas, conferências e cursos de verão, reúne entre dois e três mil manuscritos de filósofas digitalizados, disponíveis para estudos e pesquisas. Nesta entrevista ela afirma esta existência das filósofas ao longo da história, se contrapondo ao discurso de que haja um apagamento destas pensadoras. Ela indica como vários filósofos, como Leibniz, Descartes e Locke, sempre se referiram a filósofas e nunca se mostraram desconfortáveis em terem aprendido com mulheres.

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A Filosofia e sua história têm um importante papel a desenvolver na educação

por Katarina Peixoto e Nádia Junqueira Ribeiro

Mundialmente conhecida pelo resgate do trabalho da filósofa Elisabeth de Bohemia, Lisa Shapiro é uma das pesquisadoras que abriu o caminho para pesquisas sobre filósofas invisibilizadas na fixação patriarcal do cânone. Tradutora das Correspondências da Princesa Elisabeth de Bohemia e René Descartes (Chicago, 2007), Shapiro é professora de Filosofia e diretora associada na Universidade Simon Fraser, dos Estados Unidos. Ela, que estará pela primeira vez no Brasil em junho, é uma das referências mundiais na discussão sobre novas narrativas na história da filosofia, métodos de investigação e no estudo do papel das emoções e paixões na filosofia do século XVII.

Shapiro, uma das principais palestrantes da I Conferência Internacional de Mulheres na Filosofia (que aconteceu na Uerj entre os dias 17 e 20 de junho – https://mulheresfilosofiamoderna.wordpress.com/), fala nesta entrevista sobre as dificuldades que enfrentou quando começou este trabalho, há mais de vinte anos. Ela também comenta como hoje em dia há um grande corpo acadêmico constituído e envolvido neste trabalho de reescrever o cânone, incluindo as filósofas. A professora compartilha, nesta entrevista, a experiência que vive hoje nos projetos dos quais faz parte, no Canadá e nos Estados Unidos, e a importância de tradução dos trabalhos destas filósofas para que sejam inseridas em cursos e currículos da filosofia. Atenta às discussões de nossos tempos, Shapiro defende como o ensino sobre as mulheres na história da filosofia pode ajudar a informar discussões contemporâneas. Para ela, a filosofia tem um importante papel no desenvolvimento da educação e do pensamento autônomo.

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Janyne Sattler: a relação entre a filosofia feminista e a militância

Nádia Junqueira Ribeiro*

Vice-coordenadora do GT de Filosofia e Gênero, a professora Dra. Janyne Sattler (UFSC) concedeu entrevista à Anpof neste mês de março e discutiu a relação entre militância e teoria feminista. Sattler apresenta uma perspectiva crítica de como a relação entre militância e filosofia apresenta-se como pejorativa. Segundo a professora, doutora em Filosofia pela Université du Quebéc a Montreal, o que é entendido como militante é compreendido como não filosófico. O que é propriamente “filosófico” é supostamente neutro em termos de postura política, diz Sattler. Para ela, ao se fazer uma filosofia feminista, as filósofas ferem os princípios caros a uma concepção da atividade filosófica.

Nesta conversa, a professora também comenta como a Filosofia, não só no Brasil, está bastante atrasada em relação a outras áreas no que tange à teoria feminista. Ela exemplifica como muito recentemente começamos a ler mulheres negras, como é o caso de Angela Davis que veio a ser traduzida somente em 2017. Além disso, ela explicita como apenas há pouco pesquisadoras como Sueli Carneiro e Lélia Gonzales foram reconhecidas como filósofas.

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Crisóstomo e Ricardo Andrade conversam com Antônio Paim sobre Filosofia no Brasil (1)

Crisóstomo - Você tem um vasto trabalho de história do pensamento filosófico no Brasil, não apenas como historiador das ideias mas também como filósofo. Puxando a brasa para minha sardinha, pois esse é o problema que mais me interessa quando me ocupo de pensamento filosófico brasileiro, entendo que você entra naquela história, trata de encontrar aí verdadeiros desenvolvimentos filosóficos, e sai dela com uma proposta filosófica e uma tarefa para filósofos brasileiros: o Culturalismo. Você e o conjunto de pesquisadores do Instituto Brasileiro de Filosofia. É isso? Existe mesmo essa posição? Começando, então, pelo fim, o que é esse Culturalismo, que creio você compartilha com mais representantes do IBF? Quais são as suas teses? Trata-se de um humanismo da pessoa, de um neokantismo (incluindo contribuições hegelianas), de um anti-positivismo (embora amigável à ciência)? E, em termos de filosofia política, trata-se de um liberalismo moderado?

Antônio Paim – Eu sou kantiano. Quer dizer, na verdade o kantismo é uma forma de discutir, é um esquema que a sociedade ocidental encontrou para discutir a cultura, não é? A cultura, do ponto de vista marxista, estaria ligada a luta de classes, determinada pela condição proprietária, o que, como kantiano, não aceito. Mas houve em torno disso, no próprio marxismo, uma disputa de doutrina (que descrevo no meu livro Marxismo e Descendência), sobre esse determinismo, até na Rússia soviética. A discussão começou porque, primeiro, no próprio desenvolvimento da ciência, os russos esbarraram numa porção de problemas que saiam do esquema de “lutas de classe”. O ponto de partida foi um livro do Stalin em que ele examinava a questão da linguística: O marxismo e a questão da linguística. Ele diz nesse livro que a língua e a técnica não são parte da superestrutura classista. Então não há língua de classe, nem técnica de classe. Eu estudava na Universidade de Lomonosov e lá esse livro do Stalin “legalizou” de certa forma os estudos linguísticos.

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Uma escola não pode deixar de ser política, diz professor português José Meirinhos durante encontro da Anpof

Nádia Junqueira - Assessora de Comunicação da Anpof

Vindo da Universidade do Porto (Faculdade de Letras) e Presidente da Sociedade Portuguesa de Filosofia, o professor José Meirinhos esteve presente no XVIII Encontro Anpof em Vitória e apresentou uma conferência no segundo dia, 23 de outubro, cujo tema era: O fim da sabedoria e a ordenação das ciências, entre a Idade Moderna e a Idade Média, no segundo dia de programação. Aproveitamos sua presença e fizemos uma entrevista na qual ele fala da importância em manter o ensino de Filosofia no Ensino Médio, a importância de os professores se articularem para proporcionar um ensino que realce a natureza inclusiva, abrangente e crítica da filosofia. Professor Meirinhos também se solidariza com a realidade da Filosofia no Brasil e afirma que uma tarefa permanente da própria comunidade filosófica é impedir que a filosofia seja retirada dos currículos escolares, dando a essa disciplina a importância que de facto tem para a formação dos alunos enquanto cidadãos livres e críticos.

A respeito do ensino de Filosofia no Ensino Médio, como o senhor acredita que ele afeta a vida acadêmica dos professores e como eles podem fazer essa transição, entre a academia e o ensino médio? Por que essa é uma barreira que a gente encontra no Brasil? Há uma dificuldade de levar os textos filosóficos para a sala de aula?

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CRISÓSTOMO ENTREVISTA MARGUTTI - (Fazer Filosofia no Brasil, Conhecer Pensamento Brasileiro)

1) Você tem sua titulação filosófica em Lógica e Wittgenstein, e, como professor e pesquisador, um percurso profissional longo e produtivo. O que lhe levou a fazer Filosofia, a escolher dentro dela essa área em particular, e a começar com esse autor? Alguma experiência particular? Você passou por outros interesses?

Fui levado à filosofia pela questão religiosa. Minha formação é católica, mas nunca fui um praticante convicto. Aos quinze anos, comecei a duvidar dos dogmas religiosos e me declarei ateu. Como estudava no Colégio Marista de Poços de Caldas e discutia a respeito do assunto com meus colegas, fui expulso pelo diretor, sob a acusação de fazer proselitismo. Isso aconteceu no início do segundo semestre de 1962 e eu estava correndo o risco de perder o ano por falta de outras opções de matrícula na cidade. Com muito esforço e muita diplomacia, meus pais conseguiram que o colégio me permitisse ficar até o final do ano, quando deveria me transferir. Meu problema existencial, porém, não terminou ali. As pessoas que ficavam sabendo do meu abandono da religião em geral eram católicas e ficavam escandalizadas com o que achavam ser uma temeridade minha. E me garantiam que eu iria para o inferno. Isso me estimulou a dedicar-me ao estudo da filosofia, tanto para ter certeza de minha posição como para não abrir o flanco ao castigo eterno. Antes desses eventos, meus planos eram de fazer engenharia, em virtude de minha facilidade com a matemática. Apesar da oposição de minha família, eles foram abandonados em nome da filosofia e, ao iniciar-me nela, foi natural a minha opção por lógica e filosofia da linguagem. O Wittgenstein entrou na história porque o Tractatus, com sua mescla de lógica e misticismo, constituía um verdadeiro desafio exegético para mim. Mas foi graças ao estudo do seu pensamento que pude reavaliar minha concepção de religião, que considerava uma mera expressão de obscurantismo, percebendo bem melhor o sentido da mesma na vida humana, embora continue ateu.

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ENTREVISTA GIANNOTTI: MARX, WITTGENSTEIN E O CAPITALISMO HOJE (PARTE II)

Parte II da versão condensada de entrevista de José Arthur Giannotti a Vinicius de Figueiredo, publicada originalmente em Analytica, v.15, n.2, 2011, sob o título “Caminhos e Percalços de um Trabalho”. Giannotti é talvez o mais destacado “pai fundador” da filosofia acadêmica brasileira que tem a USP como matriz, nosso filósofo n.1, um bastião de sua ortodoxia “goldschmidtiana”, depois um defensor da tese de filosofia como ensaio, e também um estudioso que, a partir de Marx, empenhou-se em desenvolver um pensamento filosófico próprio (Crisóstomo, ed.)

Pergunta: Em que medida esta ênfase no logos se liga ao estudo da lógica em sentido clássico?

Resposta: Se um jogo de linguagem é um juízo, ele vai muito além da predicação. Por isso, estou metido nesse estudo até hoje. Não é à toa que, de um lado, leio e releio Heidegger para verificar como um pensamento funciona antes da predicação, de outro, procuro Wittgenstein para verificar como um jogo de linguagem, em particular aqueles não verbais, depende de um ajuste da bipolaridade numa base que somente pode ser dita por proposições monopolares. Desde Platão e Aristóteles dizer algo de algo é formalizado segundo a estrutura predicativa que, como tal, apresentava a estrutura do real. Depois do império do cogito houve a necessidade de ligar a representação ao representado, quando o conhecimento deveria operar antes de se enquadrar na estrutura formada por proposições ligadas em silogismos. Os sistemas metafísicos passam então a ser precedidos por estudos sobre o método ou da natureza do entendimento. E aos poucos a predicação passa a ser pensada como determinação, conformação restringente do estado de coisa. O idealismo alemão para ir além da predicação necessita tomá-la como ponto de partida. Por isso não escapa da reflexão, seja do cogito, seja do espírito. Daí ter sempre no horizonte a pergunta pelo que a predicação põe. Essa questão desaparece para a fenomenologia e para Wittgenstein. Por isso me parece um despropósito buscar os fundamentos de uma crítica da modernidade num diálogo entre Kant e Hegel.

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Professor Rogério Corrêa comenta o dia 20 de novembro

Nádia Junqueira
Assessora de Comunicação ANPOF

Hoje, 20 de novembro, é comemorado o Dia nacional da Consciência Negra no Brasil. Esta data foi instituída oficialmente pela lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011. Apesar da crescente discussão sobre a situação dos negros e negras na sociedade brasileira e da constante luta contra o racismo, a presença destes nas universidades e cursos de filosofia ainda é subrepresentada. A filosofia afro-americana também é tímida em nossos currículos. Para discutirmos esse cenário, o professor Rogério Corrêa (UFSM) para este espaço. 

ANPOF: Da perspectiva teórica, como avalia a presença da filosofia afro-americana em nossas instituições? Isso tem mudado com o decorrer dos anos? Quais as dificuldades e desafios neste sentido?

Rogério Corrêa: Trata-se de uma data significativa para os negros e negras brasileiros e um momento importante para avaliação da situação dos mesmos na nossa sociedade. Por isso, é louvável que a atual Diretoria da ANPOF tenha aberto um espaço para a comunidade filosófica lembrar desse dia.

Embora eu não conheça os currículos dos cursos de filosofia das universidades brasileiras, arrisco afirmar que o espaço para a filosofia afro-americana nos nossos cursos se não existe, então é mínimo. Creio que isso não é por causa da inexistência de filósofos negros, pois basta lembrar dos nomes de Charles Mills, Kwame Anthony Appiah e da filósofa afro-americana Angela Davis. Outro aspecto que é significativo e serve de parâmetro para observarmos a inexistência de discussões sobre a filosofia afro-americana é a ausência de artigos nas revistas de filosofia que tratem desse tema. Aqui, não se pode alegar a ausência de temas pertinentes, pois há várias discussões importantes atualmente sobre metafísica da raça e injúrias raciais. Por que isso acontece? É difícil arriscar uma resposta para isso. Tanto pode ser em função da falta de interesse da nossa comunidade acadêmica, como do baixo número de negros nos departamentos de filosofia. Se o problema for falta de interesse, então a inserção de disciplinas nas grades curriculares e a eventual proliferação poderiam melhorar o quadro. Se o problema for o baixo número de negros nos nossos cursos, a situação é mais complicada, pois depende da adoção de políticas sociais. Isso, no entanto, não depende das Coordenações e Chefias dos cursos. 

ANPOF: Da perspectiva da presença dos negros nos próprios cursos de Filosofia, hoje não conseguimos mensurar quantos estão na graduação, na pós-graduação, no corpo docente. Não seria o caso de empreender uma pesquisa análoga à que foi feita sobre a presença feminina na área para que tenhamos este cenário? Qual a importância de termos este mapa? 

Rogério Corrêa: É verdade que nos últimos anos o número de negros nas universidades brasileiras aumentou em função da adoção da política de cotas. Entre 2005 e 2015 o percentual de negros aumento de 5,5% para 12,8%. Essa mudança, no entanto, é pouca se comparada com a situação dos brancos, cujos percentuais passaram de 17,85 para 26,5, no mesmo período. As razões para o quadro desfavorável dos negros estão associadas a questões sociais. Se estas razões são as mesmas para o caso dos estudantes negros de filosofia é difícil saber. Isso por causa da total e completa falta de dados confiáveis sobre a situação dos negros nos cursos de filosofia, uma vez que não possuímos nenhum indicativo oficial ou não oficial que nos permita dizer com segurança quais são as causas para isso. De qualquer forma, penso que isso é algo importante a ser feito e com urgência, pois a posse de dados pode nos dar clareza dos problemas que os negros enfrentam assim como das medidas a serem adotadas.

 

 

ANPOF 2017/2018

 

Estudantes de filosofia de Goiás são processados por ocupação de prédio público contra terceirização da educação

Nádia Junqueira Ribeiro
Assessora de comunicação da Anpof

Nesta quarta-feira (13/9) em Goiânia (GO) será realizada a primeira audiência que julgará 32 pessoas que participaram da ocupação da sede da Secretaria de Educação e Cultura do Estado, contra a entrega da gestão do ensino público estadual a Organizações Sociais. Esta ocupação aconteceu em fevereiro de 2016. Elas sofrem um processo de aliciamento de menores e dano qualificado. Entre eles encontram-se dois estudantes de Filosofia da Universidade Federal de Goiás: Pedro Romário e Liza Moura. Pedro, na época já estudante da graduação do curso de Filosofia da UFG e Liza, então estudante secundarista e hoje estudante do mesmo curso.

Nesta entrevista, eles contam como tem sido este processo de criminalização no qual estão inseridos. Dos temores de uma possível condenação e a implicação disso em suas vidas. Ambos sonham em lecionar no Ensino Médio e podem ver este sonho ser destruído. Mas relatam, também, sobre a grandiosidade política vivida com esta experiência. Eles comentam a relação entre esta experiência política e a filosofia enquanto campo de estudo.

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Bate-papo feminista: Carolina de Araújo (UFRJ)

No ano de 2015, uma pesquisa inédita revelou como a presença das mulheres na Filosofia diminui no percurso entre a graduação até a docência. Este trabalho foi realizado pela professora do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Carolina Araújo. 

Ela comparou a proporção de homens e mulheres no curso em três momentos distintos da carreira: mestrado, doutorado e docência. Sua conclusão foi de que a proporção de mulheres cai durante a pós-graduação e ao longo da carreira docente. Em 2015, as matrículas de alunas no mestrado e doutorado respondiam por 28,45% do total em 2015. O número diminui mais quando se trata das docentes permanentes: 20,94% de mulheres.

Para realizar estre trabalho ela utilizou os dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), segundo os quais, entre os graduados em filosofia no Brasil em 2014, 38,4% eram do sexo feminino. Em seguida, compilou os nomes de 4.437 alunos e docentes dos 44 programas de pós-graduação em filosofia do país registrados na Plataforma Sucupira, banco de dados mantido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) que fornece dados sobre a comunidade acadêmica brasileira.

Esta pesquisa inspirou as mulheres da área e, em 2016, foi discutida no GT de Filosofia e Gênero do Encontro da Anpof. Nesta semana das mulheres, damos mais uma vez destaque a este inédito trabalho de Carolina. Abaixo, veja o bate-papo com ela sobre esse trabalho e como ela compreende a presença da mulher na Filosofia.

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Entrevista com Samuel Simon sobre a criação do doutorado da UnB

ANPOF - Quais as linhas de pesquisa do Programa e o que você diria que define a sua identidade?

O Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade de Brasília (PPG-FIL/UnB) foi criado em 1999 e iniciou suas atividades em 2000. Após anos de intenso trabalho coletivo na busca de consolidação, o PPG-FIL/UnB obteve a nota quatro na avaliação trienal da CAPES publicada em 2013. Com esse resultado, o programa entendeu que era hora de propor a criação de um Doutorado em Filosofia na UnB, aproveitando-se a experiência acumulada em todos esses anos, o apoio institucional e a infraestrutura da UnB, a produção intelectual crescente e a experiência do corpo docente. A proposta encaminhada à CAPES em 2014 mantinha a mesma estrutura do curso que já estava consolidada havia dez anos: área de concentração em Filosofia, dividida em cinco linhas de pesquisa (“Teoria do Conhecimento e Filosofia da Ciência”, “Lógica, Linguagem e Filosofia da Mente”, “Ética e Filosofia Política”, “Filosofia Antiga e Medieval” e “Filosofia da Religião”), com um mínimo de disciplinas a serem cursadas pelos estudantes, dando-se uma ênfase no trabalho de pesquisa na formação do pós-graduando. No entanto, seguindo uma recomendação posterior da CAPES, foi mantida a área de concentração em Filosofia, mas as linhas do Programa foram redefinidas em três: Epistemologia, Lógica e Metafísica; Ética, Filosofia Política e Filosofia da Religião; História da Filosofia. Essa reformulação tornou as linhas mais fiéis à pesquisa que vem sendo desenvolvida pelo corpo docente do PPG-FIL/UnB. Nesse sentido, penso que a identidade do Programa, agora também com o Doutorado, aprovado este ano, pode ser definida por uma proposta institucional e um projeto de pesquisa filosófica de excelência, evidentemente aliada a um ensino de qualidade.

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Entrevista com Edgar Lyra sobre a Base Nacional Comum Curricular (BNCC)

O Prof. Edgar Lyra é docente da PUC-Rio e Assessor assessor da SEB-MEC na elaboração do documento de Ciências Humanas da Base Nacional Curricular Comum.

Essa entrevista foi feita pelos professores Érico Andrade (UFPE) e Adriano Naves de Brito (Unisinos)
 
1. O período entre a promulgação, em 1996, da lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e a atual redação de uma Base Nacional Comum Curricular (BNCC) está entremeado pela publicação de outros importantes documentos para a educação brasileira, como, por exemplo, o Plano Nacional de Educação e diretrizes para a redação de currículos. Gostaríamos de saber qual é o principal propósito da BNCC e qual é a sua relação com os demais documentos produzidos nestas últimas décadas?
 
R: O Plano Nacional de Educação é recente (Lei 13005 de 2014). Contempla entre suas metas prioritárias a necessidade de elaboração de uma Base Nacional Curricular Comum, na verdade reiterando a própria LDB, que, em seu Artigo 26, incumbia a União dessa tarefa, já determinando a observação de espaço para uma “parte diversificada”. A prescrição foi várias vezes reiterada, nos PCNEM (2000), no parecer do CNE ao programa Currículo em Movimento (2008), no documento final do CONAE de 2010, enfim, nas novas Diretrizes Curriculares para o Ensino Básico, homologadas entre 2010 e 2013.

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Entrevista com Daniel Durante sobre a criação do doutorado da UFRN

ANPOF - Quais as linhas de pesquisa do Programa e o que você diria que define a sua identidade?

As linhas de pesquisa são duas: Metafísica e Lógica; Ética e Filosofia Política. A linha de pesquisa de Metafísica e Lógica tem como foco principal as pesquisas em Metafísica e Lógica, esta linha pode abrigar também pesquisas cujos temas se desdobram e interconectam com as outras especialidades do que se convencionou chamar de Filosofia Teórica, que inclui Epistemologia, Filosofia da Linguagem, Filosofia da Mente, Filosofia da Ciência. Compreende abordagens tanto históricas quanto analíticas de questões relacionadas com o pensamento e a teorização em geral, tais como o problema e a natureza do ser; os primeiros princípios; o ente supremo; verdade, validade e demonstração; razão e inferência; substância e modalidade; existência e significado; metalógica, metametafísica e metaontologia; conhecimento e informação; o físico e o mental; tempo e espaço; o livre arbítrio; etc. Centrada nestas questões da Metafísica e da Lógica, a linha as extrapola e abrange também suas conexões com as demais especialidades da Filosofia Teórica.

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Entrevista com Jairo Dias Carvalho sobre a criação do GT Filosofia da Tecnologia e da Técnica

ANPOF: Quais os temas que o GT se propõe a debater?

JAIRO: O GT se propõe a debater o tema da tecnologia e da técnica do ponto de vista ético, político, estético, ontológico e epistemológico em interface interdisciplinar. As reflexões se articularão em dois níveis: 1) considerações sobre o sentido da atividade humana da técnica e da tecnologia; 2) considerações sobre o que a tecnologia faz enquanto atividade e enquanto produto. Os temas se referem às abordagens da história da filosofia sobre a técnica e a tecnologia; às análises dos objetos técnicos dos mais variados tipos como os organismos geneticamente modificados, a inteligência artificial, os dispositivos nano tecnológicos, os organismos cibernéticos e outros, além das implicações multidimensionais das tecnociências. Outros temas são: a diferença entre técnica e tecnologia, o estatuto de realidade dos objetos técnicos e suas relações com os processos de subjetivação, além dos temas acerca do conjunto de objetos, atividades e procedimentos envolvidos na atividade tecnológica, do ser dos artefatos, sobre a sua naturalidade e artificialidade, sobre sua dinâmica utópica, seu potencial político, sua presença na literatura, suas promessas, seus êxitos, seus riscos, seu controle e sua autonomia, sua neutralidade e seu destino determinista; além de temas relacionados à análise de objetos técnicos determinados, ao problema do design, da tecnoestética e da regulação, bem como às suas relações com a economia, a política e a cultura.

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Entrevista com Vinicius Figueiredo

EXPANSÃO E AVALIAÇÃO DA PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA

Vinicius Berlendis de Figueiredo, Coordenador Adjunto da Área de Filosofia-Teologia da CAPES e docente do Departamento de FIlosofia da UFPR, responde à ANPOF sobre novos Programas de Pós-Graduação, revisão do processo de avaliação e a agenda da área na CAPES para o próximo ano. As questões foram enviadas por e-mail e respondidas em 28 de março de 2015.

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1. Qual a agenda proposta pela Área para o próximo período, em particular para 2015?

A ideia geral é refletir, no plano das políticas da CAPES, a dimensão que a Filosofia assumiu recentemente no Brasil. Creio que o crescimento e a diversificação por que passou a Filosofia no Brasil são fenômenos que ainda não foram compreendidos em toda sua extensão, nem suas implicações foram completamente acomodadas pelas agências de fomento e avaliação. É preciso trazer essa diversidade para o cotidiano da CAPES no que diz respeito à avaliação. Isso significa elaborar instrumentos que possam aferir vocações diferentes, introduzindo unidade na diversidade sem, por isso, deixar de instituir parâmetros do que entendemos por excelência na área.

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Entrevista com Fernando Mattos sobre Mestrado da UFABC

FERNANDO MATTOS FALA SOBRE O INÍCIO DAS ATIVIDADES DO MESTRADO EM FILOSOFIA DA UFABC

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A UFABC teve seu Programa de Mestrado em Filosofia recentemente aprovado pela CAPES. O Prof. Fernando Mattos, Coordenador do Programa, respondeu a questões da ANPOF sobre as perspectivas e as atividades do Mestrado.


ANPOF - Quais as linhas de pesquisa do Programa e o que você diria que define a sua identidade?

Fernando Costa Mattos - O programa tem a Filosofia como área de concentração, e se divide em duas linhas: Teoria do Conhecimento; Ética e Filosofia Política. Tendo em vista o caráter interdisciplinar do Projeto Pedagógico da UFABC, cujos cursos de graduação são estruturados a partir de Bacharelados Interdisciplinares, entendemos que um dos diferenciais do nosso programa poderá ser o diálogo da Filosofia com outras áreas do saber. A linha de Teoria do Conhecimento poderá conversar com as ciências naturais, por exemplo, e a linha de Ética e Filosofia Política com as ciências sociais aplicadas. Outro diferencial almejado pelo programa diz respeito à valorização de uma reflexão que, apoiada no estudo sistemático da História da Filosofia (procurando seguir a boa tradição da filosofia acadêmica no Brasil), tenha seus olhos voltados para o presente e os problemas suscitados pela contemporaneidade. Assim, a ideia é conjugar a tradição do rigor na exegese dos textos clássicos com a capacidade de inovação no diálogo com outras áreas do saber e na perspectiva contemporânea.

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Entrevista com César Battisti e José Luiz Ames sobre Doutorado da UNIOESTE

ENTREVISTA COM CÉSAR BATTISTI E JOSÉ LUIZ AMES SOBRE O INÍCIO DO DOUTORADO DA UNIOESTE

novo logo unioeste 

 

Os Professores César Battisti e José L. Ames conversaram com a ANPOF sobre a identidade e as perspectivas do novo programa de Doutorado em Filosofia da UNIOESTE, que inicia suas atividades em 2015


ANPOF - Quais as linhas de pesquisa do Programa e o que vocês diriam que define a sua identidade?

BATTISTI/AMES - O Programa, com área de concentração em Filosofia Moderna e Contemporânea, tem duas Linhas de Pesquisa, Ética e Filosofia Política, Metafísica e Conhecimento. A identidade delas é determinada primeiramente por parâmetros históricos estabelecidos pela área de concentração (embora as pesquisas, na medida de sua necessidade, dialoguem com autores e temas dos outros períodos históricos), dentro dos quais se procura estabelecer, em cada linha ou entre as linhas, determinações conceituais que atravessem o período e que integrem diferentes pesquisadores. Segue uma apresentação de cada uma delas:

a) Linha de Pesquisa Ética e Filosofia Política

A linha de pesquisa Ética e Filosofia Política visa investigar os problemas teóricos modernos e contemporâneos da origem, finalidade, legitimação e pressupostos do Estado, do poder e da política, as relações do indivíduo e da sociedade civil com o Estado, os princípios éticos orientadores da ação humana, assim como o problema contemporâneo da constituição de subjetividades, do biopoder, da técnica e da perspectiva prática da ética, da justiça e da ação estatal. A partir deste horizonte são abordados problemas tanto do Estado e do Direito quanto da Ética e da Subjetividade.

b) Linha de Pesquisa Metafísica e Conhecimento

A linha de pesquisa Metafísica e Conhecimento pretende investigar temas e problemas concernentes à articulação entre os âmbitos metafísico e epistemológico construída/desconstruída ao longo da modernidade e da contemporaneidade. Destacam-se os do fundamento, do sujeito, da causalidade, da racionalidade e da constituição do saber científico, mas também outros (tratados por distintas perspectivas: fenomenológica, hermenêutica, da filosofia da linguagem, da filosofia da ciência, etc.) instaurados seja como reconsideração da herança moderna seja como contribuição ou novidade conceitual particular do período contemporâneo.

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