Estudantes de filosofia de Goiás são processados por ocupação de prédio público contra terceirização da educação

Nádia Junqueira Ribeiro
Assessora de comunicação da Anpof

Nesta quarta-feira (13/9) em Goiânia (GO) será realizada a primeira audiência que julgará 32 pessoas que participaram da ocupação da sede da Secretaria de Educação e Cultura do Estado, contra a entrega da gestão do ensino público estadual a Organizações Sociais. Esta ocupação aconteceu em fevereiro de 2016. Elas sofrem um processo de aliciamento de menores e dano qualificado. Entre eles encontram-se dois estudantes de Filosofia da Universidade Federal de Goiás: Pedro Romário e Liza Moura. Pedro, na época já estudante da graduação do curso de Filosofia da UFG e Liza, então estudante secundarista e hoje estudante do mesmo curso.

Nesta entrevista, eles contam como tem sido este processo de criminalização no qual estão inseridos. Dos temores de uma possível condenação e a implicação disso em suas vidas. Ambos sonham em lecionar no Ensino Médio e podem ver este sonho ser destruído. Mas relatam, também, sobre a grandiosidade política vivida com esta experiência. Eles comentam a relação entre esta experiência política e a filosofia enquanto campo de estudo.

Eles eram parte do movimento de estudantes que ocupou por três meses escolas estaduais em Goiás contra a entrega do ensino à terceirização. A ocupação foi apoiada pela sociedade civil e profissionais da educação, que ofereceram recursos materiais para a ocupação, além de contribuírem com as atividades promovidas. No dia 15 de fevereiro de 2016 houve uma grande ocupação da Secretaria de Estado de Educação do movimento Secundaristas em luta que contou com a participação do MST, CUT, SINTEGO, UEE, UNE e alguns partidos políticos. Neste mesmo dia seriam abertos, ali, os envelopes com as propostas das empresas para assumirem a gestão das escolas estaduais.

Contudo, desrespeitando o próprio edital de chamamento das empresas qualificadas, a SEDUCE alterou o local de abertura dos envelopes, sem realizar a devida divulgação, para o Centro Cultural Oscar Niemeyer. No local, havia um grande aparato policial concentrado para impedir manifestações. Este mesmo aparato chegou à sede da SEDUCE e mobilizou uma grandiosa operação policial (dois helicópteros do Grupo de Radiopatrulha Aérea – GRAER, a Tropa de Choque da Polícia Militar, a Rondas Ostensivas Táticas Metropolitanas – ROTAM e a Polícia Militar de Goiás – PM/GO) para deter em torno de 32 pessoas que estavam na ocupação.

Nesta entrevista, os estudantes de filosofia também comentam a situação degradante pela qual passaram durante a detenção.

*Esta entrevista foi publicada na última segunda-feira. Na quarta a audiência foi realizada e a justiça decidiu pela suspensão do processo. Isto significa dizer que nenhum dos 18 processados são mais réus. Contudo, a condição de suspensão foi pagar pelos danos materiais ao prédio da Seduce. O valor para cada um é de R$130,00. Além disso, cada um deles pagará à justiça um valor total de R$1200,00.

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(Estudantes detidas por ocasião da desocupação)

Como ocorreu essa desocupação? Quais foram as circunstâncias?

Pedro Romário: Para a saída, o comandante da operação havia dito que faríamos um acordo e que ninguém sairia dali preso. Entretanto, quando estávamos do lado de fora do prédio, fomos surpreendidos com a chegada do corpo policial que realizou a detenção. Após a identificação de todos e a separação entre maiores e menores, fomos levados à Delegacia de Repressão às Ações Organizadas – DRACO/GO num ônibus do transporte coletivo da Rede Metropolitana de Transporte Coletivo – RMTC.

Ficamos detidos dentro deste ônibus por aproximadamente 14 horas. A ocupação aconteceu no fim da tarde e início da noite. Após sermos levados à delegacia, permanecemos dentro do ônibus enquanto prestávamos depoimento ao delegado, pois não haveria estrutura física para comportar a quantidade de pessoas envolvidas. Com água regrada e direito a ir ao banheiro limitado, realizamos o exame de corpo de delito no IML e contamos com acompanhamento de advogados. Alimentamo-nos porque os apoiadores que estavam do lado de fora do prédio da pasta acompanharam nosso trajeto, e com colaborações espontâneas que nos serviram algo para comer. Dormimos no assoalho do ônibus até o dia amanhecer. A delegacia situa-se no setor Campinas, em Goiânia, um bairro com forte atividade comercial. Quando na manhã do dia seguinte as pessoas transitavam indo para os seus postos de trabalho, havia no meio do caminho um museu para “exibição” desses corpos, corpos marginais e apreendidos pelo poder estatal. Fotografias eram retiradas, nossas identidades não foram preservadas, assim como o local do “crime” (a ocupação de um espaço público, segundo o próprio laudo da Polícia Técnico-Científica).

Da DRACO, fomos levados (os homens e maiores de idade) para a Delegacia Estadual de Investigações Criminais – DEIC/GO, mais precisamente, para o pátio do banho de sol dos detentos. Sem direito a banho, água e banheiro, permanecemos dois dias nesse pátio. Passávamos o dia no sol e a noite no relento. As necessidades fisiológicas eram feitas no mesmo solo em que nos deitávamos (exceto para fezes, uma vez que após conversarmos com os presos conseguimos utilizar o banheiro dos mesmos). Tentaram impedir até a entrada de colchonetes e cobertores. Éramos 15 pessoas dividindo cinco colchonetes e três lençóis. Uma mangueira foi prometida para banharmos, mas o banho só veio a ocorrer horas antes de sairmos para a Audiência de Custódia no Fórum.

2. Quais eram as demandas pelas quais ocupavam as escolas?

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(Pátio da Secretaria da Educação do Estado de Goiás, ocupado por estudantes e professores)

 

Pedro R.: O movimento de ocupações foi deflagrado aqui em Goiás contra a Terceirização ou Gestão Compartilhada das Escolas Estaduais (expressão majoritariamente utilizada pelos governantes). Naquele período, lutávamos estudantes secundaristas, estudantes universitários – principalmente de cursos de licenciatura –, professores da rede estadual e municipal de ensino, assim como alguns professores universitários, contra a entrega das escolas públicas para a gestão de Organizações (que se dizem) Sociais em Educação, por meio de um chamamento público de empresas que atuavam no ramo da educação, para assumirem a gestão dos recursos e funcionamento escolar.

O que impulsionou o movimento foi o fato de que até meses antes desse chamamento público, não existiam algumas dessas empresas e as que existiam sequer tinham comprovação de atuação no ramo em que queriam ser qualificadas para poderem assumir as escolas, a saber, a atuação na área da educação. Além desse fator, outros impulsionaram a explosão do movimento. Havia já, aqui no estado, uma investigação sobre desvios de verbas públicas realizado por meio de Organizações Sociais que atuam no ramo da Saúde em Goiás. Algumas das pessoas que estavam envolvidas nesse escândalo faziam parte do corpo administrativo de empresas qualificadas para participarem do chamamento público da SEDUCE.

Além dessa questão inerente à gestão, outros fatores também impulsionaram a atuação do movimento de ocupações das escolas estaduais em Goiás, por exemplo: 

- fim do concurso público, e com isso, o desrespeito à Constituição Brasileira e à legislação que rege a educação nacional, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, a qual, no Artigo 67, descreve claramente as atribuições dos profissionais em educação e estabelece o ingresso do profissional no quadro de funcionários da educação “exclusivamente por concurso público de provas e títulos” (LDB, Artigo 67); 

- A desvalorização salarial do professor, já que não era certo se as empresas deveriam cumprir o Piso Nacional Salarial para a carreira do Magistério (que inclusive sequer é pago aos professores concursados e menos ainda aos contratados, da Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esportes de Goiás (1); 

- A não primazia da Gestão Democrática na escola, como é descrito também na LDB, no Artigo 3º, como a eleição para Diretor, já que haveria acima do atual Diretor das escolas (que cuidam da parte pedagógica e financeira) um diretor que responderia pela gestão de recursos financeiros e pessoais, que seria escolhido pela empresa, e outro do quadro pedagógico, eleito pela comunidade escolar;

- A gestão por Organizações Sociais dos recursos públicos advindos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação – FNDE e do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação – FUNDEB;

- A pouca expressividade, liberdade e participação dos estudantes secundaristas dentro dessas escolas sendo geridas por OS’s. Isso também já era algo que eles questionavam dentro desse modelo atual de gestão e funcionamento das escolas estaduais, pois eles gostariam de poder agir mais dentro de suas escolas: propor discussões, não sentar enfileirado, melhorar a merenda, melhorar a estrutura física das escolas, quadras cobertas (o que não existe em uma grande maioria de escolas estaduais), laboratórios de informática (que não atende todas as escolas mais afastadas do centro), bibliotecas e uma maior autonomia e protagonismo juvenil dentro das escolas onde eles estudam;

Sempre me questionei sobre empresários resolverem, do dia para a noite, assumir uma postura de filantropia e responsabilizar-se pelo papel de melhorar a educação sem nenhum fim lucrativo; isso sempre me soou algo contraditório.

3. Que implicações esse processo tem hoje para sua vida?

Liza Moura: O processo tem uma implicação muito negativa na minha vida, aliás no meu futuro. Hoje, como estudante de filosofia e futura professora (ou pelo menos almejo isso) me deparo com o medo de uma condenação. Estamos sendo acusados de aliciamento de menores e danos qualificados, e se houver uma condenação, mesmo que a pena seja serviços comunitários, o fato da condenação já destruiria o futuro de dois estudantes de filosofia, estudantes autônomos de outras faculdades e também de professores. Ou seja, caso a condenação aconteça, sei que estarei literalmente destruída economicamente e terei de me vender ao sistema capitalista de formas que não queria, provavelmente.

Pedro R.: Hoje sinto um misto de satisfação em ter participado desse movimento político de grande envergadura em nosso país. Quando imaginaríamos que justamente aqueles, que segundo Hannah Arendt, deveriam ser protegidos do ambiente público – as crianças e os jovens – pelos adultos e responsáveis, não só pela educação, mas também pela política, fossem protagonizar tamanha revolução em nossas estruturas políticas e educacionais?

Foi um movimento político dentro de um âmbito pré-político para a autora em questão. Explicações? Ainda precisamos entender melhor o que esses jovens estão clamando para essa instituição outrora ocupada. Será que o conhecimento só está concentrado mesmo no polo que detém o saber? Ou estes jovens sabem de coisas que nem seus professores conseguem imaginar? O que o movimento pôde proporcionar foi uma constante aprendizagem, tanto política quanto de formação humana. Desconhecia, até participar deste movimento, do que poderia ser conviver com os estudantes que aprendem com você e vice-versa, de gerir uma escola (como no caso do José Carlos de Almeida) com participação ativa e plural dos próprios estudantes desta mesma instituição, gerindo recursos financeiros, alimentação, atividades culturais, oficinas – com temas por eles propostos e alguns até ministrados por eles mesmos; preparação para o Enem com apoio dos estudantes de licenciatura para a comunidade poder participar mais; construir um Projeto Político Pedagógico entre estudantes secundaristas, universitários e professores de todos os níveis, etc.

Uma formação que nenhuma universidade conseguiria proporcionar - ao menos não nas experiências vivenciadas em companhia e organização dos estudantes de suas próprias escolas. No entanto, retirando essa parte positiva, vem junto com ela o medo e angústia. Esses dois sentimentos acompanham, de um modo geral, todos os que estão envolvidos com esse processo. Angústia de ser criminalizado por ter participado de um movimento político de tamanha grandeza e medo por não poder realizar a atividade que mais tenho dedicado tempo na minha vida, a atividade docente. Venho me preparando, me formando, me transformando para poder assumir uma sala da aula da rede básica de ensino. Ao pensar que a luta travada – que já barrou três editais de chamamento das Organizações Sociais em Educação no estado de Goiás – pode acarretar na perda da oportunidade de assumir essa tarefa tão importante para uma sociedade mais esclarecida e participativa - dar aulas - é no mínimo amedrontador.

Tempos sombrios estes em que se pretende calar professor, mercantilizar a educação, desvalorizar a carreira docente, deslegitimar quem participa de movimentos sociais que lutam por uma educação pública, gratuita, com gestão pública e democrática, com uma maior participação dos estudantes no funcionamento da instituição, pluralidade, diversidade e liberdade. Para onde estamos caminhando?

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(Estudante pintando o colégio José Carlos de Almeida (JCA),  localizado no centro de Goânia.)

4. Há uma relação entre sua experiência e o seu curso de Filosofia?

Liza M.: A filosofia começou a ser presente na minha vida no primeiro ano do Ensino Médio, desde então tinha me encontrado com esta área. Porém não conhecia pessoas que estudavam filosofia, por exemplo. Estar nas ocupações foi muito importante para minha formação como humana.. Conhecer outras pessoas com ideias mais apuradas sobre assuntos geralmente não comentados foi uma sensação de pertencimento ao espaço. Esse sentimento de pertencimento era talvez o que eu não conhecia até o momento. Enfim, foi importante ter conhecido estudantes e professores de filosofia nesta oportunidade. Eles me encantaram e me reconfortaram no mundo.

Pedro R.: Eu diria que a relação possível foi justamente entrar no curso de Filosofia – Licenciatura na UFG. Foi após inserir-me dentro desta unidade de ensino superior, conhecer o corpo docente e discente, que pude me envolver mais no que diz respeito à política. Foi dentro dessa faculdade que pude conhecer de um modo mais profundo o que é a política, a educação, o ensino e a escola, principalmente por meio da participação nesse movimento.

Como um estudante, em uma trajetória de estudos predominantemente oriundo de instituições públicas de ensino, pude desconstruir a imagem sobre a escola, o ensino e a formação dentro dessa faculdade. Após essa desconstrução, pude reconstruir sobre outros pilares e princípios o que deveria ser e como fazer. A minha participação no movimento só foi possível porque eu fazia parte do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência – PIBID Filosofia/UFG. Meu primeiro contato com a escola, e dessa vez não como um aluno, mas como um professor em formação foi no Colégio Estadual José Carlos de Almeida (centro de Goiânia), que, coincidentemente, foi a primeira escola a ser ocupada pelos secundaristas e a última a ser desocupada.

Foi dentro desta unidade de ensino básico que eu pude sentir e experimentar o que era ser professor: o primeiro frio na barriga de minha vida ao entrar em uma sala de aula. Foi nesta escola que desenvolvemos uma relação muito amistosa e profícua entre os bolsistas, os supervisores, as coordenadoras e é claro, com os estudantes. No ano de 2014, trabalhávamos em uma atividade de preparação dos estudantes para que participassem do II Concurso de Textos Filosóficos, promovido pelo PIBID Filosofia/UFG. Mas, a passarela da escola desmoronou e aliado a esse empecilho veio a desculpa da SEDUCE de que a escola estava com baixa demanda e seria fechada (o que era uma das pautas do movimento, a reabertura do JCA) no fim do primeiro semestre. Transferidos para outra escola, desta vez, o CEPI Professor Pedro Gomes (em Campinas), demos continuidade à atividade proposta. Cabe ressaltar que essa escola também foi ocupada pelos estudantes secundaristas.

Após um longo período nessa escola, pedi transferência para outra unidade, o Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação – CEPAE/UFG, desenvolvendo, oficinas, aulas, cine debate, entre outras atividades. Esta escola foi ocupada também, mas não no mesmo período do movimento secundarista em Goiás. O CEPAE foi a primeira unidade acadêmica da UFG a ser ocupada no ano de 2016, na luta contra a PEC 241. Atualmente, realizo o meu último Estágio Curricular Obrigatório nesta unidade.

Depois de mais um período de novas experiências e realidades escolares diferentes, peço a transferência para outra unidade de ensino, desta vez, o Colégio Estadual Villa Lobos, situado no setor Garavelo em Aparecida de Goiânia. Trata-se de uma escola que também foi ocupada durante o movimento dos secundaristas em luta de Goiás. Atualmente é onde exerço as atividades do PIBID Filosofia/UFG.

É com esse histórico de relações profundas e impactantes que o meu engajamento na luta pela educação e pela consolidação do ensino de Filosofia no nível médio brasileiro tem se desenrolado. A minha atuação no movimento é intrínseca à transformação que venho trilhando dentro desta faculdade. Foi com os estudos e um aprofundamento de minha compreensão sobre a Filosofia, o ensino de filosofia, a tarefa da educação e a “responsabilidade do professor”, que me lanço em meus estudos acadêmicos e de formação para à docência. Não consigo compreender a dissociação que ainda é visível em nossos dias entre teoria e prática. Eu não quero fazer filosofia dissociada da vida, das experiências singulares e “espantadoras”, eu quero partir dessas experiências para pensar e significar nossa existência em um mundo comum.

Vivenciado essa experiência, e uma experiência que não estava completamente dentro do nosso controle, pois assim já não seria uma de fato, tal como nos mostra Jorge Larrosa Bondía, em Notas sobre a experiência e o saber de experiência: “a experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca” (2). E o “tocar”, “acontecer”, não está tão controlável assim, ainda mais num movimento como este. Foi após um bom tempo da minha atuação dentro deste movimento, que consegui deter o meu olhar investigativo para poder compreender, ou buscar uma compreensão deste fenômeno novo e intrigante, que pude lançar-me com a filosofia em sua análise.

Tentando apoiar-me na teoria de Hannah Arendt, pude erigir como objeto de investigação em meu Trabalho de Conclusão de Curso de Licenciatura em Filosofia na UFG, “A resistência como uma potência refundadora do mundo comum”, delimitando meu olhar no movimento de ocupação e resistência nas escolas estaduais de Goiás. Sei que quando Arendt escreveu alguns de seus ensaios em que se abordava a questão da educação se tratava de outra época e de outro contexto. Contudo, se analisarmos a relevância dessa teórica da política, encontraremos em algum momento uma imbricação ou correlação com o tempo ao qual vivemos, com uma perda do sentido da política e o esvaziamento de sentido das esferas pública e privada.

Foi com essa frase que pude lançar mão de meus estudos para este trabalho: “o próprio pensamento emerge de incidentes da experiência viva e a eles deve permanecer ligado” (Arendt) (3). Parti da minha “experiência viva” para realizar a atividade do pensamento.

Partindo dos fundamentos da desobediência civil como o instituto da resistência, mais precisamente no movimento ora em questão, tento aproximar minha experiência da filosofia. O que foi vivenciado dentro deste movimento é que se trata do atributo da política, a atuação entre os homens, a liberdade conquistada, o respeito pela diversidade e pela pluralidade. Como nos diz Aguiar, “é o engajamento, a participação e a coragem de abandonar os próprios afazeres para cuidar de algo que não pertence privadamente ao cidadão, o que é específico da política” (4). Ora, foi justamente esse “engajamento” e “coragem” que arriscaria dizer que foram os pilares desse movimento ocorrido em nosso estado. Engajar com aquilo que não diz respeito apenas às necessidades individuais e ter coragem de assumir o espaço público. Pode soar complicado quando se pensa a partir de Arendt, mas se os jovens não o tivessem feito, os adultos teriam? Se essa responsabilidade pelo que é do âmbito público diz respeito apenas aos adultos, me parece mais claro dizer que os adultos concordariam com as atitudes políticas do Estado, já que não conseguiriam se desprender de suas necessidades individuais para poderem ocupar o espaço público de fato.

A política é esse campo apropriado para que os homens possam “ser” e “aparecer” em conjunto; onde sua capacidade de ação possa ser potencializada quando realizada entre os homens, e assim, atribuir significado tanto ao mundo comum quanto a sua existência na condição de homens que vivem em conjunto, que agem e que dão sentido as suas ações por meio do discurso, da promessa e da presença dos outros. O ato de prometer só se realiza quando os homens conseguem contatar uns com os outros, em palavras, gestos e em ações.

A promessa feita por essa juventude que ocupou suas escolas, que lutou bravamente contra a polícia, a mídia e o governo do estado, se efetivava e mostrava-se mais forte, sempre que ao fazerem uso da fala, ao explicar os motivos que levaram o movimento até essa ação, se finalizava com a palavra de ordem: “Não tem arrego!”. A promessa foi defender a escola pública, sem gestão compartilhada, sem autoritarismo, com liberdade e que formassem os jovens não apenas para adquirirem habilidades e inserir-se no mercado de trabalho, mas sim, que eles pudessem se apropriar daquilo que é intrínseco à vida humana, a ação política.

Prometeram também que eles não iriam “arregar” nem abrir mão de seu direito de participação do corpo político, de sua capacidade de refundar a política com o seu sentido original, o de uma instância de legitimação e aparição da diferença, do outro em sua pluralidade e de não deixar escapar ou ser apreendido, suas capacidades de agir e estarem entre os homens constantemente ocupados com a reconstrução e/ou refundação do espaço público.

 

5. Como enxerga a supressão da Filosofia do Ensino Médio na nova Reforma?

Pedro R.: Não consigo pensar nessa Reforma do Ensino Médio sem associá-la a uma questão iminentemente política. Realizar uma reforma como esta, por meio de Medida Provisória, expressa muito bem o modus operandi do atual governo. Demonstra também o seu interesse em realizar diálogos a portas fechadas e entre os membros que formam sua base – quase insustentável – sem levar uma discussão, tão essencial como essa, a toda a população brasileira.

Não há como esperar que medidas desse governo – um governo que subiu ao poder por meio de “um grande acordo nacional” que inclui até membros do STF – fossem democráticas, já que a forma como ele conseguiu assumir o poder não foi tão democrática assim. Parecia mais uma manipulação da democracia em seu interesse próprio, o interesse dos empresários e da economia.

E inegável que o EM precisa de uma reforma, e isso pôde ser observado com esse levante estudantil em nível nacional. Os estudantes estavam discutindo sobre o Ensino Médio, sobre as estruturas de organização curricular, as divisões de conteúdos em disciplinas de maneira encaixotada e sem estabelecer relação entre ambas. No entanto, tendo a pensar que com a supressão da filosofia como uma disciplina curricular obrigatória, este saber ficará onerado e restrito a algumas unidades educacionais.

É um cenário muito obscuro e amedrontador, pois não se tem clareza sobre qual será o espaço destinado à filosofia e as outras áreas do conhecimento, como, por exemplo, sociologia, educação física e arte. Consta que será trabalhada como “estudos e práticas”, mas o que se define por “estudos e práticas” não é claro. Serão seminários? Atividades à distância? Trataremos a filosofia como temas transversais, apenas citando os filósofos e fazendo uma relação entre eles e o saber que é ensinado em sala? Quem trabalhará esses conteúdos serão profissionais formados em filosofia? Não há definição.

No semestre anterior, na disciplina de Estágio Curricular Obrigatório em Filosofia, ministrada pela Profª. Mª. Carmelita Brito de Freitas Felício, aprofundamos na discussão em torno da Reforma do Ensino Médio, partindo dos textos dos estudantes da Profª. Drª. Gisele Secco. Expandiu-se a possibilidade de lançar outros olhares para a reforma, alguns favoráveis outros contrários. Mas o que me afeta é que com a baixa demanda e carga-horária da disciplina de filosofia, como ficarão os profissionais formados e em formação?

Compreendo também que a proposta de flexibilização é uma demanda dos estudantes; no entanto, essa flexibilização, do modo como está proposta, acarretará em escolas que não terão todos os temas disponíveis para escolha. Não seria essa reforma uma proposta para entregar aos estudantes oriundos de escolas públicas mais uma formação técnica e preparatória para o mercado de trabalho do que para entrarem nas universidades? O Exame Nacional do Ensino Médio será personalizado para cada “itinerário formativo” optado pelos estudantes? Creio que não. Então, resta-nos crer que aqueles que não tiverem acesso a todos os conteúdos que compõem o rol dos saberes que caem na prova serão os mais prejudicados com essa reforma que busca “melhorar” o ensino médio. Outra demanda é que as escolas terão que se adequar para oferecerem a modalidade de ensino em período integral. Os estudantes que precisam conciliar trabalho e estudo terão outras oportunidades para poder continuar nos estudos ou serão excluídos das escolas?

Enfim, infinitas questões pululam em minha mente enquanto tento escrever sobre essa Reforma nefasta e sem participação democrática. Creio que expus mais dúvidas e inquietações do que apontei para possíveis saídas, mas algo que me motiva foi erigir em minha formação, como professor de filosofia, a filosofia como uma saída para a resistência. É partindo dessa concepção de ensino que pretendo assumir, um dia, as salas de aula de nível médio da educação básica em nosso país.

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(Pedro Romário, licenciando em Filosofia pela Universidase Federal de Goiás)

 

(1) Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esporte do Estado de Goiás, sob o comando da Profª. Drª.: Raquel Teixeira, aposentada pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás.

(2) BONDIA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Rev. Bras. Educ. [online]. 2002, n.19, pp.20-28. ISSN 1413-2478. http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782002000100003.

(3) ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. Tradução Mauro W. Barbosa. 7ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2013. p.41.(

(4) AGUIAR, Odílio Alves. Filosofia, política e ética em Hannah Arendt. Ijuí: Ed. Unijuí, 2009. p.174.

 
 
 
 
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