Entrevista com o Prof. Dr. Ivan Domingues

O livro de Ivan Domingues, Filosofia no Brasil – Legados e Perspectivas, publicado em 2017 pela editora da UNESP, já pode ser considerado um clássico do pensamento filosófico brasileiro, ao lado das obras seminais de Cruz Costa (Contribuição à história das ideias no Brasil) e Paulo Arantes (Um departamento francês de ultramar). Entretanto, diferentemente dos professores uspianos, Ivan Domingues não se ocupa diretamente da história da filosofia brasileira (Cruz Costa, especialmente século XIX) ou da filosofia uspiana (Paulo Arantes - anos 1960), mas de uma reflexão metafilosófica da filosofia brasileira.

Para tanto, Ivan Domingues utiliza livremente o método weberiano, construindo 05 (cinco) figuras típicas ideais: o intelectual orgânico da Igreja (período colonial); o diletante estrangeirado (Império e República velha); o scholar uspiano, formado pela missão francesa (1930-1960); o intelectual público contemporâneo e o intelectual cosmopolita globalizado (possibilidade futura). Toda a reflexão concentra-se na dinâmica dessas figuras ideais, sem prescindir, obviamente, da história da filosofia, da história cultural, da história econômica e da história social do Brasil.

Perguntas:
1 - Prof. Ivan Domingues, por que uma metafilosofia da filosofia brasileira, se o Brasil, estritamente falando, não possui ainda uma filosofia própria? Seria a metafilosofia um pré-requisito para uma autêntica filosofia brasileira, emancipada de todo historicismo e de todo psicologismo?

Como dizem os anglofônicos, “it’s a great question”, que vem acompanhando meus passos, neste território ainda pouco povoado, desde os tempos de O continente e a ilha e com o potencial – se eu não achar a resposta convincente – de desestabilizar tudo o que eu fiz em A Filosofia no Brasil: Legados e perspectivas.

Com efeito, se o pré-requisito para fazer metafilosofia é a existência da filosofia, o que dizer de uma metafilosofia da filosofia brasileira que muitos entendem nunca existiu nem como objeto nem como experiência nesta parte do globo? 

Agora, mais uma vez, estou às voltas com a questão, argutamente colocada, e justamente no momento em que estou cuidando da segunda edição do livro, uma nova edição revista e ampliada, que a Ed. da UNESP está prevendo lançar ainda neste ano e levando-me no processo de revisão ainda em curso a cogitar uma nota sobre as relações entre a metafilosofia e a história intelectual. Não que eu não tivesse tratado da relação, mas por ter abordado a matéria – em razão de coerções editoriais de um livro já bastante longo, devendo compactar um conjunto de informações e argumentos – meio elipticamente, deixando na penumbra pontos não de somenos importância no tocante à minha entrada pessoal.

Assim, respeitante à história intelectual, que eu não fiz n’O continente e a ilha e acabei por deixar de lado no livro consagrado ao Brasil o nome de Fritz Ringer sobre O declínio dos mandarins alemães, em contraste com os nossos – os scholars –, não em declínio, mas em ascensão, para ressaltar apenas o nome de Sirinelli e a figura do intelectual republicano francês, na esteira do affaire Dreyfus. Assim, também, com respeito à metafilosofia, tendo eu abstraído os dois autores e as duas obras essenciaisque eu tinha em mente ao propor a metafilosofia da filosofia brasileira: [1] o francês Henri Lefebvre e o seu livro menos conhecido Métaphilosophie – Prolégomènes, que veio a lume em 1965 e com o qual eu travei contato ainda estudante de graduação nos anos 70; [2] o neozelandês radicado em Oxford, Timothy Williamson, que publicou The Philosophy of Philosophy em 2007 e a qual eu tomei conhecimento em meu estágio pós-doutoral na Universidade famosa, tendo-me servindo como um dos motes de O continente e a ilha e me motivado depois a perguntar pelo Brasil.

Sobre o significado de metafilosofia e o emprego em Filosofia no Brasil, digo que não é muito diferente do de Williamson, ao dar-lhe a acepção mais elástica de filosofia da filosofia, estampado no título da obra, evidenciando não ter ele tomado a sério as invectivas de Wittigenstein em Investigações filosóficas, quando, ao comparar a filosofia com a ortografia, dirá que não há uma filosofia de segunda ordem que se daria a tarefa de fornecer uma metateoria da filosofia: este não é o caso de Williamson que toma a metafilosofia ou filosofia da filosofia como parte interna ou imanente da filosofia, “automaticamente” ele dirá – e não muito diferente, digo eu, da cultura, da religião, da política, da arte ou da ciência, nas inúmeras filosofias de..., as quais não nos causam nenhum espanto. E, como aliás, se encarregará de mostrar Williamson, ao se ocupar da metafilosofia da filosofia anglo-saxã – que por certo existe e tem uma tradição – com as armas e as bagagens da filosofia analítica: ao tomar como objeto o Gettier problem em epistemologia e a questão do ser ou do real em metafísica com a ajuda de experimentos mentais e as ferramentas da lógica modal apoiando-se num conjunto de hipóteses conjecturais, sem a necessidade de pressupor a existência do objeto, e se refugiando numa ordem ficcional do mundo do “como se” – a tudo isso adicionando o desafio intelectual de cerrar fileiras não com a filosofia analítica, que era e é uma positividade, mas está esgotada, segundo ele, porém com a filosofia pós- analítica em curso de gestação nos países de língua inglesa, na esteira do que ele chama de “Post-conceptual turn” e tendo ele mesmo como um dos protagonistas naquelas paragens.

Ora, em contraste, bem diferente será a perspectiva de Lefebvre no livro citado, ao longo do qual, na esteira da XI tese sobre Feuerbach e do legado mais amplo de Marx – e, portanto, no interior das fileiras marxistas, mas a contrapelo do marxismo ortodoxo –, irá contornar a história e o historicismo propugnados pelo materialismo histórico e propor um caminho diferente: o de uma metafilosofia visada como consciência crítica de uma sociedade alienada e “déchirante”, em que se pode ver ao mesmo tempo a essência da filosofia – a função crítica – e o seu ultrapassamento. Precisamente, o “dépassement” da filosofia tradicional, como a de Kant e Hegel, e tal que a tarefa que se abre ao filósofo não é a de “pensar o ser, mas criá-lo”, ao dar azo a uma perspectiva filosófica que não será mais “reflexão e mimesis, mas novamente ato e poiesis” (p. 76).

No meu caso específico, ao propor uma metafilosofia da filosofia da filosofia brasileira, e como Williamson tomando como assente a natureza reflexiva da filosofia, eu me vi diante da tarefa adicional de acrescentar e pensar o “nacional” em épocas diferentes de nossa história, ao contrastar épocas em que as ideias de nação e de país não faziam sentido, como nos tempos da colônia, ou em que havia país mas não ainda nação, como no período pós-independência ou pós-colonial, e aquelas em se adquire a nação, depois de ter adquirido o país, já independente há mais de um século. Então, com um escopo mais amplo do que Williamson, que se restringe à filosofia anglo-saxã depois do Analytic turn, e ao mesmo tempo bem menos amplo do que o de Lefebvre que tem em mente todo o Ocidente e desde os gregos, logo de saída eu me vi forçado a pensar a metafilosofia da filosofia brasileira com as armas e as bagagens da história – história da filosofia e história intelectual –, ao dar ensejo a uma metafilosofia historicizada.

Três foram as preocupações:
[i] não comprar a questão da filosofia nacional pelo valor de face, mediante a distinção entre filosofia no e filosofia do, introduzida no início do livro: no Brasil ou feita no Brasil; do Brasil ou do filósofo brasileiro – ou seja, em nenhum momento eu pressuponho a existência de uma filosofia brasileira, mas o tempo todo eu falo de filosofia feita no Brasil, culminando com a constituição do scholar brasileiro, fusão do Homo Lattes do CNPq e do Homo Qualis da CAPES (bem entendido, em alguma extensão, mesmo que na acepção de “filosofia feita no Brasil”, estaríamos autorizados a falar de filosofia brasileira, não menos do que de física brasileira, matemática brasileira e biologia, relativas aos indivíduos e as corporações, dando ensejo à criação de sociedades científicas nacionais, e, na mesma linha, a falar de filosofia canadense, holandesa ou japonesa);

[ii] distinguir a perspectiva da filosofia autoral da exegese filosófica e da história da filosofia: precisamente, deixando à parte a história intelectual, levada a cabo com a ajuda de tipos ideais da intelligentsia filosófica, com os tipos ideais funcionando como antídoto ao historicismo, tratava-se de uma metafilosofia historicizada, tendo como fonte as exegeses e as histórias da filosofia; porém, a história da filosofia era visada como fonte e meio, nunca como tema ou objeto, limitando eu a tomar emprestado história feita por outros, introduzindo-lhe no entanto o filtro metafilosófico, como dito, e perguntando pela ratio, pela techne e pela littera (gêneros literários) da filosofia feita no Brasil;

[iii] afastar a possibilidade de contaminar as análises pelos diferentes riscos do psicologismo que acompanham as exegeses e as histórias da filosofia ao darem vazão a estereótipos da psicologia social, como a ideia da preguiça mental do brasileiro, a falta de cabeça metafísica do brasileiro, o complexo de vira-lata e os eflúvios da terra que terminarão por constituir a têmpera e o humor do brasileiro médio, inclusive aquele que irá consagrar-se à filosofia com sua alma inconstante: contra esses pseudo-conceitos e parti-pris vazios de pensamento, para pensar a formação da intelligentsia filosófica brasileira, eu fui buscar a tutela na velha categoria moral de ethos, ethos das corporações em suma, com seu enviesamento weberiano, e modelado não por individualidades psicológicas, mas por tipos ideais, reservando aos indivíduos selecionados o papel de instâncias e protótipos (exemplos emblemáticos = paradigmas).

2- Nota-se que essas figuras ideais não são evidentemente estanques, cristalizadas, mas dinâmicas. Diante disso, seria possível estabelecer uma lógica imanente à metafilosofia dos tipos-ideais? O jesuíta pe. Vieira, por exemplo, um típico intelectual orgânico da Igreja no período colonial, não poderia igualmente ser compreendido como um intelectual público e cosmopolita? Ademais, haveria espaço para alguma manifestação filosófica no Brasil ainda não tipificada, por exemplo, os diplomatas-filósofos ou os literatos-filósofos, salientados por Paulo Margutti em seu livro?

Creio que a resposta à esta questão será largamente facilitada pelas considerações da primeira. Sobre o método dos tipos ideais acrescento que eu já tinha trabalhado uma variante dele em outras obras, como p. ex. em Epistemologia das ciências humanas: Weber e Durkheim e em O trabalho e a técnica. Trata-se de uma modalidade do método da construção de modelos, válida para aquelas situações e objetos em que não está em jogo ou não é pertinente o emprego de modelos matemáticos ou estatísticos, mas matérias históricas contingentes, onde o qualis prevalece sobre o quantum e onde a matemática cede o passo à lógica mediante a ajuda de conjecturas históricas: à lógica modal, frouxamente inspirada no uso que lhe fez Weber, ao “ensandwichar” as possibilidades lógicas e as pesadas restrições do real empírico, fundando as causalidades históricas sobre as chamadas (por ele) possibilidades objetivas, não sobre as conexões necessárias, que não têm o que fazer em história, e que trazem de volta a fertilidade do tema dos futuros contingentes e da solução que lhes deu Aristóteles: da mesma forma Weber, ao contrapor o que é e o que pode ser, deixando ao fundo a distinção cara à ética aristotélica entre as esferas do real que dependem de nós, como a ação moral, e aquelas que não dependem de nós, como os fenômenos da natureza, um eclipse p. ex.

Tendo reconhecido isso, ao passar para o Brasil e a filosofia desde a Colônia, colocando o foco na formação da nossa intelectualidade e mais especificamente na intelligentsia filosófica brasileira, eu cheguei a cinco tipos ideais: [i] o intelectual orgânico da Igreja, como foi apontado, com Vieira na linha de frente; [ii] o diletante estrangeirado egresso do direito, cujo melhor exemplo é Tobias Barreto; [iii] o scholar especializado, bifurcado, numa vertente, no virtuose francês historicamente associado à fundação da USP – o normalien da Missão Francesa –, tendo como exemplo emblemático Jean Maugüé e dado lastro mais tarde ao uspiano, e noutra vertente, no expert americanizado saído das ciências duras e que chegará mais tarde à filosofia, resultando na fusão do Homo Lattes e do Homo Qualis: hoje uma legião, ocupando a cena nos quatro cantos do país; [iv] o intelectual público, aquele que além de expert, podendo ter mais de uma especialidade, vaza os muros da academia e inscreve suas ações e ideias no espaço público da polis ou do país, resultando na figura do intelectual engajado: assim, Sartre na França, Chomsky nos EUA e Marilena, Giannottti e Henrique Vaz no Brasil, tendo esta modalidade chegado relativamente tarde no Brasil com respeito à filosofia; [v] por último o intelectual cosmopolita globalizado, tido como o máximo da experiência intelectual ou o maior de todos, ocupado com a agenda do pensamento, mais do que a da política, e com audiência nos quatro cantos do globo, e portanto mais do que um país, uma cidade ou uma região: assim, Kant em filosofia e Machado de Assis em literatura, no Brasil, e até hoje inexistente no campo da filosofia brasileira, por isso neste aspecto específico consistindo numa construção lógica sem lastreamento histórico, mas visado como possibilidade lógica e sondagem do futuro, nada mais.

Feito o inventário dos tipos e dos nomes, eu mostrei no livro que esses tipos podem dar lugar a variantes e a combinações, bem como a hiatos, gaps, afastamentos e incongruências ao fazermos o enquadramento das individualidades históricas nos tipos puros. Demais, sempre serão possíveis as recorrências, um traço dominante ou constante num tipo voltar ou reaparecer em outro. Este foi o caso de Vieira em que eu reconheci – além do espécime que melhor no Brasil colônia encarna ou materializa o intelectual orgânico da Igreja como apostolado – a eminente figura do intelectual público: um misto de político e diplomata, em suma, a um só tempo assessor do rei, o Paiaçu dos tupis e o protegido do Papa, que o salvou das mãos políticas da Inquisição portuguesa.

Já a construção de outras figuras, como a dos literatos-filósofos ou a as dos diplomatas-filósofos, reconheço sua pertinência e possibilidade, como mostrou Paulo Margutti, sem traçar-lhes todavia o tipo ideal. Se eu fosse construir-lhes o tipo num outro momento de minhas investidas na filosofia do ou no Brasil, penso que um caminho possível seria pela via ou segundo o viés do intelectual diletante, referido supra, que no período pós-independência esteve sociológica e historicamente ligado ao bacharel proveniente do direito, mas que no curso do século XX passou a ter outras componentes sociais: a corporação da diplomacia, tendo como viveiro o Itamaraty, como nos casos de Mário Vieira de Mello e José Guilherme Merquior; ou um conjunto de indivíduos oriundos das Ciências Sociais (Doutorado), como Gilda de Mello e Sousa; da Medicina, como Guimarães Rosa; de Escolas de Farmácia, como Carlos Drummond de Andrade; e ainda do Direito, como Clarice Lispector e Benedito Nunes; e rigorosamente autodidatas, como Machado de Assis. E que fique claro: ao enquadrá-los como diletantes, não tenho e não tive a intenção de diminuir ninguém. Afinal, como se sabe, diletante vem do italiano dilettare, que significa deleitar, e leva a dilettante, com a acepção de alguém que se dedica por amor a uma arte, como a música ou a literatura, e, portanto, que dela ou delas se ocupa por amor e com prazer, não por obrigação ou para tirar alguma vantagem.

Da mesma forma a filosofia, que sempre teve os seus, como ao longo dos séculos XIX e XX, cuja estirpe eu reconstruí ao seguir a via do goliardo medieval e que entre nós esteve por muito tempo ligado ao direito, abrindo caminho para a filosofia laica e para o scholar cujo surgimento se consumou mais tarde, ao proporcionar-lhe a techne e transformá-lo em profissional: vem a ser, profissional da filosofia e adepto da filosofia técnica. Trata-se de um exemplo claro da natureza dinâmica, nada estática dos tipos ideais, e só não tratei dos tipos dos diplomatas-filósofos e dos literatos-filósofos, na falta de uma maior robustez sociológica e um maior peso e densidade histórica, estando eles em boa parte contemplados na figura do goliardo diletante. Agora que eles existem como indivíduos e são importantes, não há dúvida que eles existem e o são; contudo, eles não podem ser capturados como tipos ideais e esse ponto eu mantenho ainda. Assim como eu mantenho que não é preciso ser scholar para ser intelectual ou filósofo, como aliás eu mostro no livro ao me referir a Benedito Nunes: quem se considerava diletante (como dito acima, ele veio do direito) e eu mostro que Benedito foi um filósofo de boa cepa – em Belém, no meio da floresta, longe do sul e a quem todo mundo reverenciava.

3 - A filosofia se profissionalizou no Brasil a partir de 1930, com a criação das Universidades e os Cursos de Filosofia, em especial, com a missão francesa na USP e a criação do SNPG pela Capes em 1970, responsáveis pela formação do scholar ou do especialista em filosofia. Isso confirmou a tese do pe. Lima Vaz, a saber, de que a institucionalização seria a conditio sine qua non para uma autêntica filosofia brasileira. Entretanto, a profissionalização e a especialização da filosofia trouxeram igualmente alguns problemas, tais como: o produtivismo taylorista, o autismo filosófico, o tecnicismo exagerado etc. Ao mesmo tempo em que forma o filósofo profissional, a academia parece igualmente impedir um pensamento filosófico autêntico, particular e universal, isto é, cosmopolita. Teríamos, com isso, chegado ao fim da formação filosófica tradicional? Como conjugar essa situação com as exigências tayloristas das Universidades e das Agências Nacionais ainda vigentes?

De fato, trata-se de um tópico importante e ele atravessou todo o livro, considerado à luz do que eu batizei de hipótese de Lima Vaz / Leonel Franca, ou seja, a hipótese da deficiência ou do déficit: déficit de tudo no tocante ao mundo das letras e à intelectualidade nacional. Assim: déficit de instituições, déficit de indivíduos, déficit de corporações e estamentos, déficit de livro e de leitores, déficit de escala; déficit de superestruturas e de nação; e junto com os déficits e as deficiências, a necessidade de suplantá-los, preencher as lacunas, vencer os gaps, e antes de tudo pelas transplantações ou importações – desde instituições inteiras como o sistema de ensino dos jesuítas na Colônia, até a transplantação do sistema de ensino francês quando a USP foi fundada em pleno século XX, passando pela importação dos livros e das ideias, associados de uma maneira ou de outra aos modismos e às influências que por aqui deitaram suas raízes em todos os planos da vida nacional, com sua corte de bovarismo, de estrangeirismo e de filoneísmo. Por fim, na esteira do nacional desenvolvimento instalado no país depois da revolução de 30, precedida do surto das ideias novas por aqui desembarcadas desde o fim da Colônia e iniciada com o surto das criações das primeiras instituições da educação, da ciência e da cultura que se seguiu à transferência da corte até o fim do segundo reinado, quando a escola de Minas de Ouro Preto foi fundada por Pedro II, foi a vez do surto das grandes universidades ao longo do século XX: numa vertente, a USP nos anos trinta por obra das oligarquias bandeirantes que abriram o caminho para as estaduais paulistas; noutra vertente, a criação do sistema das federais, ao longo dos anos trinta e quarenta, paralelamente às PUCs, com destaque para a de São Paulo e a do Rio de Janeiro. Desde então o déficit institucional foi neutralizado e aos poucos, sucessivamente, o déficit de escala e de obra, obra filosófica em suma, ao longo do livro examinadas escala e obra mediante o argumento dos grandes números e do tripé semiótico de Antonio Candido, e associados o argumento e o tripé à hipótese de Vaz / Franca. Porém, faltava ainda um capítulo, para que o início da neutralização fosse concluído e tivesse seu remate: tal se deu, como eu mostrei nos Passos 5 e 6, através da implantação do SNPG [Sistema Nacional de Pós-Graduação] da CAPES, iniciado nos anos 70 com a implantação dos cursos de Mestrado e concluído nos anos 90 e 2000 com os Doutorados, lido tal episódio derradeiro como o fim do processo de formação da intelligentsia nacional e dando lugar a um novo paradigma, o da pós-formação.

Tudo isso é verdade e o resultado era vistoso: ao término desse processo longo e custoso finalmente o espaço sociológico da filosofia nacional e brasileiro estava não só constituído, mas consolidado. Havia as instituições, havia os filósofos profissionais, havia estudantes, havia o livro e a indústria do livro, havia o sistema de obras junto com os autores e os leitores: enfim, havia tudo e havíamos conseguido nos emparelhar com a Europa e a América do Norte, fazendo aqui como lá uma filosofia com padrãointernacional, e como tal uma filosofia profissional, não mais improvisada e coisa de diletante, mas uma filosofia técnica e coisa de scholar.

Neste cenário, ao avaliar o quadro completo, foi que eu mostrei o grande risco que este sistema enfim constituído acarretava depois de sua consumação e arremate: é que, com a vitória da filosofia técnica nestas paragens, assim como em outros lugares do mundo, o risco era a vitória acarretar a derrota e consumar a morte do pensamento, um pouco como tinha antevisto Heidegger ao se referir à filosofia técnica. Assim, depois de introduzir o quinto tipo ideal, o verdadeiro paradigma e o apex da experiência intelectual e que não é senão o intelectual-pensador ou o intelectual cosmopolita globalizado, tendo reconhecido que ele bem poderia surgir entre nós, na esteira de Kant na Alemanha e como Machado em literatura, ao dizer em tom de provocação, desafio edúvida: por que não? E, ao mesmo tempo, ao admitir tacitamente que já estamos prontos, cuja base sociológica, no tocante à intelligentsia, é justamente a corporação dos scholars – hoje, uma legião entre nós, como comentado – que eu junto com a possibilidade vi antepor a barreira: a hipótese contrafatual de, em vez do intelectual cosmopolita globalizado, instaurar-se em nossos meios um novo mandarinato, o mandarinato do scholar, e como tal adepto do filosofia técnica bem como do paper, levando à “paperização” da filosofia e à morte do pensamento, em meio ao mais devastador dos taylorismos acadêmicos e já em livre curso entre nós.

Penso que é do desenlace dessas duas possibilidades que vai se decidir o futuro da filosofia no Brasil e em outros cantos do globo. O nome que eu dei para esse estado de coisas no Brasil, junto com a possibilidade somando-se a barreira, ao cabo de um processo longo e custoso que terminou por vencer os déficits seculares e instaurar uma filosofia sociologicamente robusta e internacionalizada, na esteira de Weber, foi paradoxo das consequências: algo que ninguém intencionava, mas que no fim acabou se consumando na realidade.

Todavia, nem por isso estamos totalmente perdidos e condenados ao desalento: como o Fênix depois de morta, a filosofia poderá renascer mais de uma vez, esta é a esperança, ou então, melhor ainda, como a rosa dos Alpes, conforme viu Schopenhauer, ela brotará sozinha no meio das montanhas, por obra do pensador, de costas para as corporações e sem data marcada para nascer – não só no Brasil, mas por toda a parte.

 

* As perguntas foram elaboradas pelo Prof. Dr. Evanildo Costeski da UFC.
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