CRISÓSTOMO ENTREVISTA MARGUTTI - (Fazer Filosofia no Brasil, Conhecer Pensamento Brasileiro)

1) Você tem sua titulação filosófica em Lógica e Wittgenstein, e, como professor e pesquisador, um percurso profissional longo e produtivo. O que lhe levou a fazer Filosofia, a escolher dentro dela essa área em particular, e a começar com esse autor? Alguma experiência particular? Você passou por outros interesses?

Fui levado à filosofia pela questão religiosa. Minha formação é católica, mas nunca fui um praticante convicto. Aos quinze anos, comecei a duvidar dos dogmas religiosos e me declarei ateu. Como estudava no Colégio Marista de Poços de Caldas e discutia a respeito do assunto com meus colegas, fui expulso pelo diretor, sob a acusação de fazer proselitismo. Isso aconteceu no início do segundo semestre de 1962 e eu estava correndo o risco de perder o ano por falta de outras opções de matrícula na cidade. Com muito esforço e muita diplomacia, meus pais conseguiram que o colégio me permitisse ficar até o final do ano, quando deveria me transferir. Meu problema existencial, porém, não terminou ali. As pessoas que ficavam sabendo do meu abandono da religião em geral eram católicas e ficavam escandalizadas com o que achavam ser uma temeridade minha. E me garantiam que eu iria para o inferno. Isso me estimulou a dedicar-me ao estudo da filosofia, tanto para ter certeza de minha posição como para não abrir o flanco ao castigo eterno. Antes desses eventos, meus planos eram de fazer engenharia, em virtude de minha facilidade com a matemática. Apesar da oposição de minha família, eles foram abandonados em nome da filosofia e, ao iniciar-me nela, foi natural a minha opção por lógica e filosofia da linguagem. O Wittgenstein entrou na história porque o Tractatus, com sua mescla de lógica e misticismo, constituía um verdadeiro desafio exegético para mim. Mas foi graças ao estudo do seu pensamento que pude reavaliar minha concepção de religião, que considerava uma mera expressão de obscurantismo, percebendo bem melhor o sentido da mesma na vida humana, embora continue ateu.

2) Já dentro da filosofia, como professor, pesquisador e filósofo, você considera que passou por algo como um desenvolvimento, por diferentes etapas? Como evoluíram seus interesses, sua produção e seu pensamento, antes de seu encontro como o estudo da história do pensamento filosófico brasileiro?

Se houve algum desenvolvimento em minhas ideias, ele envolveu nada mais do que variações em torno de um mesmo tema. Talvez em virtude de minhas dúvidas em relação à religião, antes mencionadas, ou talvez em virtude de alguma característica preponderante em nossa tradição luso-brasileira, posso dizer que, desde que comecei a pensar filosoficamente, mantive uma postura cética em relação à metafísica e uma postura pragmática em relação ao mundo. No início, fui influenciado por Wittgenstein, principalmente no que diz respeito ao misticismo do Tractatus e às noções de "jogo de linguagem" e "semelhanças de famílias"; das Investigações. Por esse motivo, passei por uma fase em que o misticismo me atraiu, mas não tive uma experiência nesse campo e acabei mantendo as posturas anteriores. De qualquer modo, como já disse, isso ao menos me permitiu entender melhor a dimensão religiosa da existência humana. Quanto ao segundo Wittgenstein, embora ainda veja muita utilidade nos conceitos mencionados, pude perceber que sua posição era relativista em excesso e precisava ser substituída por algo mais consistente. Com isso, as minhas duas posturas, antes referidas, permaneceram com algumas alterações. Na sua fase de maior elaboração, elas convergiram na noção de que estamos em relações causais e não representacionais com o mundo, de tal modo que nossas explicações da realidade não passam de conjeturas que testamos em nossas interações com os outros e com as coisas. Essa posição não é relativista, mas envolve um princípio de relatividade. Com efeito, ela se baseia num princípio universal - estamos em relações causais com o mundo - e, a partir daí, explica a grande diversidade de práticas sociais e concepções filosóficas que podem surgir com base nessas mesmas relações causais. Esse é um resumo muito rápido e superficial do que penso, mas espero que, dentro dos limites de uma entrevista, possa dar a você uma ideia geral da minha perspectiva.

3) Por que, ao final de tal percurso, esse extraordinário investimento em história da filosofia brasileira? Haveria aí um motivo em algum sentido wittgensteiniano ou cético- pragmático? Me parece que não seria qualquer ideia de filosofia ou do que é fazer filosofia que lhe daria razões para esse empenho todo.

Essa pergunta é excelente, pois toca no cerne do problema. Para responder, em primeiro lugar, gostaria de dizer que o investimento a que você se refere só pode ser considerado extraordinário se estiver nas mãos de poucas pessoas. Ele seria normal se mais gente se dispusesse a trabalhar nesse projeto. Quanto a mim, não tenho certeza de chegar ao fim, em virtude de minha idade. Mas avançarei até o ponto em que ainda tiver forças. É verdade que outras pessoas já se dedicaram com afinco ao estudo da filosofia brasileira. Acontece que muitas vezes essas pessoas se equivocaram nos resultados positivos ou negativos que apresentaram, principalmente porque não tiveram acesso à bibliografia relevante. Nossas bibliotecas nunca foram suficientemente completas para sustentar pesquisas nessa área. Além disso, muitas das obras sobre o tema da filosofia brasileira foram contaminadas por perspectivas ideológicas, alimentadas seja pelo nacionalismo, seja pelo etnocentrismo europeu. Como resultado, alguns pensadores brasileiros foram valorizados em excesso enquanto outros permanecem invisíveis diante da nossa comunidade filosófica até os dias de hoje. Isso significa que a história da filosofia brasileira precisa urgentemente de uma revisão. E os recursos atuais fornecidos pela internet suprem em grande parte a insuficiência de nossas bibliotecas. Mas para que estudar esse assunto? Aqui entra o restante da minha resposta à sua importante pergunta.

Vejo a filosofia como uma atividade que não parece admitir uma definição capaz de delimitá-la com rigor. Em épocas históricas diferentes, ela assume formas diferentes que se articulam com a prática social vigente de maneiras diferentes. Essa caracterização da filosofia é muito genérica e, mesmo assim, tenho certeza de que alguém será capaz de encontrar um contraexemplo para ela. A causa disso está em que se trata de uma atividade polimórfica que só será adequadamente compreendida se percebermos as semelhanças de família que ela envolve. Uma importante consequência disso tudo é que nada nos obriga a escolher um tipo de filosofia em detrimento de outro. O máximo que podemos fazer é justificar a opção por um tipo de filosofia com base em considerações pragmáticas de custo e benefício. Certamente isso não significa que estejamos num campo em que tudo é permitido. Com efeito, dificilmente encontraremos nos dias de hoje um partidário da filosofia platônica ou da aristotélica em sentido estrito. Afinal de contas, trata-se de filosofias historicamente localizadas, com muitas teses superadas, exigindo um grande esforço de adaptação para torná-las viáveis nos dias de hoje. E a adaptação pode ser tal que o sistema original se torne irreconhecível, dando origem a uma nova filosofia. Coisa semelhante pode ser dita de filosofias mais próximas de nós, como a kantiana, muito baseada na mecânica newtoniana e na geometria euclidiana para poder ser assumida ao pé da letra nos dias atuais. No caso específico do Brasil, embora haja honrosas exceções, a prática filosófica que acabo de caracterizar como polimórfica tem-se concentrado predominantemente no comentário de textos de pensadores estrangeiros. Os motivos para isso são vários, como, p. ex., a influência da tradição exegética ibérica, nossa autoimagem negativa em relação à capacidade de filosofar com autonomia, a influência do método estrutural de análise de textos, etc. Não há dúvidas de que essa prática exegética produziu uma ou outra consequência positiva entre nós, como, p. ex., o desenvolvimento de habilidades acadêmicas na produção de textos especializados. Mas as consequências negativas foram muito maiores, como podemos ver pela lista que segue: i) esquecendo-nos de que toda filosofia é historicamente localizada, ficamos na ilusão de que os pensadores estrangeiros estão estudando problemas universais, sem verificar se de fato se aplicam à nossa realidade, permitindo assim a colonização do nosso pensamento; ii) estamos nos especializando em fazer paráfrases cada vez mais sofisticadas do que os pensadores estrangeiros já disseram, sem nos preocuparmos em produzir propostas filosóficas pessoais mais voltadas para a nossa realidade; iii) estamos tão preocupados em interpretar os estrangeiros que passamos a ver nossos colegas brasileiros como interlocutores menores, desestimulando ao máximo o debate filosófico entre nós e contribuindo cada vez mais para o fortalecimento de uma comunidade de desconversação; iv) nossas interpretações de autores estrangeiros não têm muito a ver com a realidade que vivemos, produzindo uma forma de alienação em que as ideias filosóficas giram em falso, sem contato com os problemas que nos afetam. Essa situação gera inevitavelmente um desinteresse pelo que já foi feito em filosofia no país, deixando-nos desmotivados e sem rumo para refletir sobre nós mesmos. Sem saber de onde viemos, não saberemos quem somos. Sem saber quem somos, não saberemos para onde vamos. No campo da filosofia, estamos vivendo uma forma de alienação colonizada, que parece muito pouco promissora.

4) O que você diria a um colega de modo a cobrar dele um interesse por ou um compromisso com esse assunto? Afinal de contas, serão ainda mais leituras do que já fazemos, mais autores, mais erudição…

Como afirmei antes, não posso cobrar dos meus colegas que passem a se interessar pela filosofia brasileira. Mas ao menos posso apresentar as razões pelas quais a prática filosófica predominante no país, voltada para fora, deveria ser substituída por uma prática mais voltada para dentro, para o conhecimento de nós mesmos e de nossas possibilidades. Isso me parece uma forma mais interessante, mais realista e mais eficiente de fazer filosofia no país. Não posso fazer mais do que isso, mas acredito que as razões apresentadas são fortes o suficiente para motivarem alguma reflexão sobre o tema e, quem sabe, uma troca de rumo. Ao final da sua pergunta, você fala que a preocupação com a filosofia brasileira poderia envolver mais leituras, mais autores, mais trabalho, mais erudição. A resposta aqui é bem simples: nosso investimento em filosofia europeia e norteamericana é exagerado e supervalorizado. O ideal seria redirecionar esse investimento, aumentando as preocupações com o pensamento filosófico brasileiro e diminuindo as preocupações com o pensamento estrangeiro. Não estou dizendo que devemos abandonar o estudo desse último, mas sim que ele só deveria ser levado em consideração quando efetivamente tivesse algo de aproveitável a oferecer na solução dos nossos próprios problemas. A proposta pedagógica para o ensino da filosofia no país, instaurada entre nós desde o aparecimento dos primeiros departamentos de filosofia, estabelecia a necessidade de, numa fase inicial, disciplinar a nossa mente inculta e bela com as ferramentas acadêmicas adequadas. Ora, já se passou mais de meio século desde então. A fase inicial terminou. Já adquirimos a disciplina exigida para nos aventurarmos em elaborações pessoais. Está na hora de repensar nossa situação, aplicando nossas habilidades filosóficas ao estudo de nossa realidade e dos pensadores brasileiros que tiveram a coragem de tentar compreendê-la de maneira autônoma. Essa é a opção que se coloca diante de nós: ou continuar praticando uma filosofia alienada e colonizada, sem valor para nós e para os estrangeiros que tentamos imitar, ou vencer a inércia ibérica que ainda perturba nossas mentes e mudar de rumo, em direção a uma filosofia independente, mais voltada para a nossa realidade e para os nossos problemas.

5) Nos países metropolitanos, que fazem filosofia para si e para os outros, as contribuições filosóficas nacionais também não dialogam com outras? O que nos falta não seria apropriação e uso do que é deles (em vez de apenas repetição/reprodução passiva), junto com o diálogo com nossas próprias expressões de espírito, como eles também têm com as suas? Mesmo com relação a suas próprias tradições nacionais de pensamento, eles tratam de adotar uma atitude de apropriação e uso, de alcance temático e contemporâneo.

Penso que os europeus e os norteamericanos usam a receita adequada para produzir uma filosofia autônoma e original: os pensadores do mesmo país dialogam entre si e também com os estrangeiros, apropriando-se, sem timidez, daquilo que consideram adequado para suas elaborações pessoais. Isso nada mais é do que a velha e conhecida antropofagia, tão bem caracterizada por Oswald de Andrade. Alguns de nós, como Gonçalves de Magalhães, Vicente Ferreira da Silva e Mario Vieira de Mello fizeram isso, mas infelizmente permanecem invisíveis perante a maior parte da comunidade filosófica brasileira, mais interessada em comentar os textos de estrangeiros do que refletir filosoficamente de maneira autônoma. O que falta, então, para essa parte significativa da nossa comunidade filosófica, é o diálogo tanto com os conterrâneos como com os estrangeiros, visando a uma apropriação antropofágica das ideias consideradas adequadas para as respectivas elaborações pessoais. Não sou estruturalista, mas penso que a construção de uma filosofia pode ser vista como uma espécie de bricolage que cada pensador constrói a partir do bric-à-brac da tradição filosófica. Veja o caso de Platão, p. ex., que construiu uma doutrina original, é verdade, mas que no fundo é uma bricolage das doutrinas de Heráclito, Parmênides, Sócrates, etc. Penso que é isso que nos falta no momento. Temos de evitar o comentário passivo pelo puro comentário passivo, como se tal coisa fosse nos levar a algum lugar interessante. Mas isso não quer dizer que devamos abandonar completamente a exegese de textos, sejam eles nacionais ou estrangeiros. Sem essa exegese, não conseguiremos avançar, pois nos faltará o conhecimento tanto de nosso passado como de nosso presente, dificultando nossas projeções para o futuro. Não podemos é ficar marcando passo só com ela, alimentando a passividade a que você se referiu. No meu caso, p. ex., tenho feito um trabalho de historiador da filosofia brasileira que exige muita exegese, mas o meu objetivo não é permanecer nisso. Pretendo, a partir dela: i) descobrir a seriação de ideias que tem sido tão dogmaticamente negada por muitos dos historiadores da nossa filosofia; ii) compreender melhor o nosso passado filosófico, seja qual for o seu valor, para localizar os reais problemas que estamos interessados em resolver, sem a tradicional submissão aos problemas supostamente universais que os europeus estipularam para a filosofia; iii) abrir um caminho para meus conterrâneos e para mim mesmo, no sentido de propiciar a elaboração de perspectivas pessoais a partir da revelação de um contexto filosófico mais autenticamente brasileiro. Em que pese à minha ênfase no momento no estudo da historia de nossa filosofia, eu mesmo já dialoguei bastante com outros colegas e tenho trabalhado na construção de uma perspectiva pessoal, aspectos da qual têm surgido em um ou outro de meus textos. Mas tenho sentido muita falta do conhecimento mais adequado do nosso contexto filosófico brasileiro para poder levar adiante esse outro projeto. Por esse motivo, estou aguardando mais um pouco, embora já tenha pressentido que em breve poderei me dedicar a ele com mais conhecimento de causa.

6) Você ainda não concluiu sua História da Filosofia do Brasil, tendo publicado até agora o valioso e alentado volume que vai de 1500 a 1822. Mas já tem dois novos volumes para serem levados ao prelo, e certamente terá também elementos sobre como as coisas marcharam daí em diante. O que você poderia nos oferecer, muito resumidamente, com um panorama do desenvolvimento da filosofia no Brasil? Você tem uma narrativa para ela?

Como observei antes, precisamos saber de onde viemos para compreender o que somos no presente. Infelizmente, estou no momento às voltas com o s. XIX, de modo que ainda não me sinto capaz de oferecer um panorama geral do desenvolvimento da nossa filosofia. Minha narrativa para a filosofia brasileira ainda está incompleta. De qualquer modo, sei que nos dias de hoje estamos enfrentando a já mencionada alternativa de optar ou pela continuidade de uma filosofia exageradamente exegética e colonizada ou pela adoção de uma postura mais independente e pessoal em relação às tradições filosóficas europeia e norteamericana. Sei também que os nossos pensadores do s. XIX adotaram essa postura mais independente e pessoal, e que no s. XX ela foi cortada pela raiz em nome de uma prática filosófica considerada mais condizente com a atividade acadêmica. Isso, por um lado, foi um ganho, pois temos hoje em dia filósofos disciplinados e capazes de produzir em moldes acadêmicos. Mas foi também uma grande perda, pois a coragem e a disposição para produzir elaborações autônomas e originais ficou bastante enfraquecida entre nós. Assim, embora tenha uma noção geral da nossa situação presente, não sei exatamente como foi que chegamos até ela. E não podemos nos esquecer que esse quadro que acabo de descrever é apenas parcial, deixando de lado outros aspectos importantes da nossa complexa situação atual, que envolve, p. ex., uma divisão esquizofrênica da comunidade filosófica, marcada pela separação entre o grupo da Anpof e o grupo da Academia Brasileira de Filosofia; as contribuições dos nossos diplomatas-filósofos, formados pelo Instituto Rio Branco e herdeiros dos antigos estrangeirados portugueses; a existência entre nós de pensadores independentes, desligados dos grupos mencionados, porém invisíveis principalmente ao grupo da Anpof; a presença de autores estrangeiros, como Flusser, que refletiramfilosoficamente sobre o Brasil; a existência de pensadores brasileiros originais que escreveram em inglês, mas cujas ideias têm aplicação à nossa realidade, como é o caso de Mangabeira Unger. E convém lembrar também que, entre nossa situação atual e o s. XIX já temos mais um século que ainda não foi adequadamente estudado. Penso que o contexto geral só será desvelado depois que tivermos um conhecimento mais completo e adequado da evolução da filosofia brasileira desde 1500 até os dias de hoje. O quadro é extremamente complexo para que eu possa construir uma narrativa consistente com base apenas nos dados de que disponho.


7) O que seriam alguns resultados inovadores de sua pesquisa histórica até aqui? 

São os seguintes alguns dos resultados que obtive no estudo da filosofia brasileira do Período Colonial e do s. XIX, os quais certamente irão contribuir para o desvelamento desse desejado contexto geral que mencionei na resposta anterior: i) reformulação da divisão da filosofia brasileira em períodos, agora com uma fase inicial que vai de 1500 a 1808, depois com uma fase que vai de 1808 a 1843 e mais uma outra fase que vai de 1844 a 1870; ii) constatação, por um lado, do predomínio das ideias políticas liberais entre 1808 e 1843, graças ao movimento de independência em relação a Portugal, e, por outro, do predomínio de ideias tradicionais nos manuais de filosofia desse mesmo período; iii) revisão geral dos manuais de filosofia do s. XIX, tentando identificar suas principais teses e as efetivas influências recebidas, no sentido de corrigir o excesso de desinformação que predomina na área; iv) reabilitação de autores que influenciaram na elaboração desses manuais, como Genovese e Storchenau, injustamente acusados de serem pensadores desconhecidos ou pouco significativos na Europa da época; v) eliminação da invisibilidade de autores como o marquês de Maricá, Miranda Rego e, principalmente, Nísia Floresta, cujas ideias e importância atualmente são mais conhecidas na Europa do que no Brasil; vi) constatação das injustiças praticadas contra Eduardo Ferreira França e Gonçalves de Magalhães, autores de obras sistemáticas e pessoais, que foram crucificados só por terem tido a coragem de produzir elaborações próprias, procedimento que se tornou coisa rara nos dias de hoje e que precisamos retomar com urgência; vi) desqualificação da tese dogmática segundo a qual inexiste seriação de ideias na história da filosofia brasileira, utilizando, para tanto, não só a leitura atenta dos textos relevantes e suas possíveis ligações, mas também a busca de uma visão de mundo comum aos autores estudados; vii) desmascaramento dos argumentos retóricos usados indevidamente para criticar os nossos pensadores do s. XIX, como o "diletantismo", o "artificialismo", o "autodidatismo", o "filoneísmo", etc. No momento, foi mais ou menos até aí que cheguei. Para poder dizer mais, teremos de aguardar o avanço da pesquisa e as eventuais informações esclarecedoras da evolução da filosofia brasileira até os dias de hoje.

8) Em conclusão, permita-me fazer uma pergunta que envolve um condensado/comentário do que tomo como o que você disse, para que você eventualmente me corrija. Me parece que você faz história da filosofia do Brasil a partir de uma disposição filosófica contextualista, historicista, crítica e apropriadora, “hegeliana” eu diria, avessa à ideia da filosofia como atemporal, sempiterna (enquanto, no fundo, inassumidamente eurocêntrica). O que de outro lado combina com sua rejeição do nosso modelo atual de trabalho filosófico como simples comentário - passivo, não apropriador - daquela filosofia metropolitana enquanto canônica e absolutizada. Do mesmo modo que combina com sua posição filosófica, in nuce, cética com relação à metafísica, pragmática quanto ao resto (em linha, assim, com que Silvio Romero e Cruz Costa disseram ser nossa vocação de espirito). Uma posição filosófica que deveria ela própria então articular-se, como um desenvolvimento seu, com nossa formação e contexto histórico-sociais, de pensamento, em torno de temas e problemas nossos, e mesmo eventualmente também apontar, por que não, para alguma contribuição nossa ao debate filosófico contemporâneo para além país. Um articular-se de algum modo com nosso desenvolvimento que possivelmente se daria por uma pegada filosófica, como entendo, inevitavelmente crítica, seletiva, não só atualizadora como também transformadora, com relação à nossa história de pensamento filosofante. Pois creio que essa mesma formação histórica que você tão laboriosamente investiga (embora talvez não propriamente como formação) nos terá legado, no plano do pensamento, junto com coisas positivas, um viés retardatário, escolástico, bacharelesco, dogmático, intelectualista, conservador, colonizado. Que justamente se prolongaria da Ratio Studiorum colonial ao goldschmidtismo exegético da filosofia de comentário, uspiana, dos nossos dias, por um atavismo que possivelmente ainda marca, em maior ou menor medida, o conjunto de nossa educação, cultura e mesmo sociedade. Contra o qual caberia então colocarmo-nos, não como simplesmente neutros e descritivos (o que ainda seria uma evasão do fazer filosofia), mas, ao contrário, caberia colocarmo-nos, engajadamente, do lado de ou em prolongamento com, p. ex., entre outras possibilidades, nossos sanchismo e socratismo originários, bem como da superação do nosso limitado iluminismo e dogmático empirismo, escolástica e clericalmente “mitigados” à portuguesa, etc. Ademais de colocarmo-nos em prolongamento e diálogo, também crítico, com nossos esforços de pensamento anti-escolásticos, ensaístas, apropriadores, nacionais, modernistas, culturalistas, historicistas, criadores, como no caso de nossas reflexões sobre o caráter da sociedade brasileira e sobre os dilemas e desafios – filosóficos – do nosso desenvolvimento no interior da Modernidade (v.g. Oswald, Freyre, Iseb, Mangabeira). Não poderia ser esse um nosso – e o seu – fazer filosofia, útil, contextualizado, historicamente informado, transformadoramente comprometido? Não poderia ser essa uma tarefa – filosófica - para a nossa comunidade de filosofia, agora mais tecnicamente sofisticada e mais madura por historicamente auto-reflexiva? 

Essa sua pergunta resume muito bem os principais pontos que discutimos até agora. Tenho, porém, duas qualificações a fazer. Em primeiro lugar, concordo que minha posição filosófica possa ser caracterizada como contextualista, historicista, crítica, apropriadora e avessa à filosofia eurocêntrica como atemporal e sempiterna. Mas dificilmente eu a consideraria “hegeliana”. Com efeito, para que minha posição fosse entendida como tal, eu teria de ser idealista e acreditar na evolução do Espírito através de uma dialética triádica, teses que rejeito enfaticamente. A única semelhança que minhas colocações possam ter com as de Hegel está na valorização da história, mas isto é antes uma coincidência do que um compartilhamento de ideias. Por esse motivo, eu evitaria o adjetivo hegeliano para caracterizar minha posição. Em segundo lugar, também concordo com o fato de que essa mesma posição deve articular-se com nossa formação e contexto histórico-sociais, apresentando contribuições não apenas para nossos problemas, mas também para o debate filosófico contemporâneo em nível internacional. Na verdade, parece-me que quanto mais voltados estivermos para nossos próprios problemas, mais próximos estaremos de oferecer contribuições capazes de avançar para além do país. Costumo chamar isso de paradoxo do caminho contrário. E certamente, com essa atitude, teremos melhores condições de compreender e combater os excessos exegéticos da prática filosófica de boa parte da comunidade acadêmica brasileira. Nossa formação histórica nos legou, em parte, o viés retardatário a que você se refere. Mas gostaria de frisar um pouco mais as “coisas positivas” a que você se referiu e que ela também nos legou. A evolução da filosofia brasileira também possui um viés mais autêntico e crítico, característico de algumas obras do s. XIX, que infelizmente foi desqualificado como puro bacharelismo e se perdeu quando a filosofia passou a ser uma disciplina universitária ministrada nos nossos departamentos. Nossa tarefa no momento é denunciar o viés retardatário e recuperar com todas as forças o viés mais autêntico. Com isso, boa parte de nossa comunidade filosófica estará voltando a praticar uma filosofia contextualizada, historicamente informada e transformadoramente comprometida, como você mesmo diz, ao final da sua pergunta. Nada me parece mais adequado para o estágio em que se encontra a prática filosófica no país.

 

* Paulo Roberto Margutti Pinto, ex-UFMG, agora na FAJE, é autor da História da Filosofia do Brasil. José Crisóstomo de Souza, UFBA, é autor de A Filosofia entre Nós (com Tugendhat, Porchat e Renato Janine).

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