Janyne Sattler: a relação entre a filosofia feminista e a militância

Nádia Junqueira Ribeiro*

Vice-coordenadora do GT de Filosofia e Gênero, a professora Dra. Janyne Sattler (UFSC) concedeu entrevista à Anpof neste mês de março e discutiu a relação entre militância e teoria feminista. Sattler apresenta uma perspectiva crítica de como a relação entre militância e filosofia apresenta-se como pejorativa. Segundo a professora, doutora em Filosofia pela Université du Quebéc a Montreal, o que é entendido como militante é compreendido como não filosófico. O que é propriamente “filosófico” é supostamente neutro em termos de postura política, diz Sattler. Para ela, ao se fazer uma filosofia feminista, as filósofas ferem os princípios caros a uma concepção da atividade filosófica.

Nesta conversa, a professora também comenta como a Filosofia, não só no Brasil, está bastante atrasada em relação a outras áreas no que tange à teoria feminista. Ela exemplifica como muito recentemente começamos a ler mulheres negras, como é o caso de Angela Davis que veio a ser traduzida somente em 2017. Além disso, ela explicita como apenas há pouco pesquisadoras como Sueli Carneiro e Lélia Gonzales foram reconhecidas como filósofas.

Ela também comenta a paridade na Filosofia e argumenta que com maior ocupação das mulheres nas cadeiras das universidades e nos currículos acadêmicos a teoria feminista traz a problematização ao universo filosófico. Para ela, as mulheres apresentam reflexões que não cabem nas caixinhas conceituais limitadas pela tradição filosófica.

Sattler, que acompanha a organização dos atos do 8M em Florianópolis, comenta o protagonismo das mulheres nas últimas manifestações políticas e o contexto político atual. Ela acredita que uma das principais razões que levou Bolsonaro à presidência do país foi as entranhas machistas de nossa sociedade reproduzidas por todas as instituições públicas e políticas. Para a professora, vivemos uma declarada e desavergonhada misoginia. O lado “positivo” disto, de acordo com Sattler, é que finalmente sabemos com quem estamos lidando no Brasil e o que pensam de nós.

A Teoria Feminista e de Gênero é um tipo de teoria muito iluminada pelas experiências vividas e também pela militância. O que destoa, em certa medida, da tradição de nosso campo (filosófico). Como você vê essa relação? As proximidades e distanciamentos?

Esta parece ser de fato uma relação bastante problemática e complicada para a tradição filosófica. Quase tudo o que aprendemos como sendo propriamente “filosófico” é supostamente neutro em termos de postura política, militância e até mesmo de subjetividade. Aprendemos a não mostrar nossa experiência vivida – chegando à supressão do pronome pessoal “eu” – em nossos artigos, em nossos argumentos e em nossas salas de aula, sob pena de nossas reflexões já não consistirem mais em “filosofia” – mas em outra coisa qualquer. Aprendemos que nossa argumentação deve ser desengajada das influências afetivas do mundo, as quais aparentemente distorcem nosso olhar e maculam o ideal de um ponto de vista imaterial e incorpóreo. Mas note-se que uma posição contrária a esta soa problemática apenas para uma determinada concepção de ‘filosofia’ que prioriza alguns valores que hoje sabemos, graças justamente à teoria feminista, não são o que pretendem ser: universalidade, imparcialidade e objetividade, por exemplo. Estes são conceitos hoje esmiuçados pela crítica epistemológica feminista – e decolonial, aqui, no Sul global – de forma não apenas diagnóstica, mas propositiva também, principalmente se pensarmos nas empreitadas de ressignificação conceitual de autoras tais como Sandra Harding, Linda Alcoff e Donna Haraway (cujas posturas teóricas são, claro, diferentes entre si). Embora date já de algumas décadas nos países de língua inglesa, sobretudo, isso tudo é muito novo para as filósofas brasileiras e mal começamos de fato a falar sobre as implicações de uma epistemologia feminista por nós mesmas construída. Aqui, acho significativo constatar que enquanto a teoria feminista informava os campos da ética e da filosofia política – onde sempre teve uma inserção mais aberta – não parecia haver grandes embates entre concepções tomadas como “feministas” por um lado e “filosóficas”, por outro. Afinal, ética e política lidam de uma forma ou de outra com a prática e com sujeitos realmente existentes no mundo social (mas mesmo nestas áreas temos alguns engessamentos se pensarmos na frustração de sua (in)aplicabilidade e na idealidade de muitas de nossas teorias, e aqui até mesmo algumas filósofas de afiliação não necessariamente feminista têm algo a dizer criticamente – penso em Iris Murdoch e Cora Diamond, por exemplo). No entanto, quando o feminismo pretende fazer a crítica de áreas tais como a epistemologia ou a filosofia da ciência, temos a recorrente afirmação de que o que estamos fazendo não é mais filosofia – daí a audácia de algo que se chama “epistemologia feminista”. O que na verdade se diz também do título genérico de “filosofia feminista”. Ou seja, enquanto tínhamos apenas uma “ética feminista” o conceito de ‘filosofia’ em si não parecia estar realmente em questão e as feministas podiam fazer o seu trabalho sem serem importunadas demais – já que também pareciam não importunar demais o coração da filosofia. Mas com uma filosofia feminista, nós ferimos os princípios caros a uma concepção insular da atividade filosófica. Neste sentido, creio que o que a denúncia das epistemologias feministas nos fazem ver de mais saliente, é que toda e qualquer postura – dentro e fora da filosofia – é política e é localizada e marcada pela subjetividade e pelo corpo. O corpo é político. E o corpo do filósofo homem, branco, heterossexual e cisgênero é político. E ele está falando a partir de sua própria experiência vivida – mesmo que ele assim não o queira – que é aquela de uma perspectiva privilegiada de poder. Que é também o que o outorga a estabelecê-la como a única perspectiva filosófica legítima.

Em 2016, antes de deixar o Departamento de Filosofia da UFSM, eu trabalhei com minhas alunas e alunos num dossiê sobre nossas filósofas esquecidas (?) pela história da filosofia e uma das lições mais importantes daí advindas foi justamente o questionamento sobre o conceito de ‘filosofia’. Em sua grande maioria, da Antiguidade à Contemporaneidade, os escritos das filósofas [Safo de Lesbos, Hildegarda de Bingen, Christine de Pizan, Margaret Cavendish, Angela Davis, só pra citar algumas] são sobretudo interdisciplinares, possuindo margens fluidas entre filosofia, medicina, música, literatura, teologia, política. Claro, pode-se aventar a objeção de que muitos dos filósofos homens de nossa tradição também assim escreviam e que, portanto, isto não é nenhuma novidade (pensemos nos filósofos da Idade Média, por exemplo); mas esta objeção só nos leva, então, à pergunta óbvia pelos motivos da exclusão das mulheres do cânone filosófico. Um segunda objeção, que reforça a armadilha da primeira, é que o método de escrita e o conteúdo vivencial e militante – e muitas e muitas vezes dedicado à educação filosófica das mulheres pelas mulheres – é precisamente o que não faz dessas mulheres filósofas – o que explicaria, mais uma vez, porquê estão ausentes do cânone. Em oposição a isso, eu gosto de pensar que elas já estão adiantando, em ato, as críticas da epistemologia feminista contemporânea relativamente ao fato inescapável da localidade política do saber. Claro que isto não está dito nestes termos. Sem anacronismos, porém, esta me parece uma lição fundamental a ser aprendida com a inserção das filósofas em nossa vida acadêmica: prestar a devida atenção ao significado da ‘filosofia’ e à sua pretensão de soberania cognoscitiva absoluta.

É por esta via metodológica – ou meta-filosófica, se quisermos – que tenho tentado pensar na relação da teoria feminista como teoria filosófica, ao compreender questões de escrita, questões de método e de escolha conceitual, como questões eminentemente políticas também. Isto me parece constituir, igualmente, um tipo de militância – no sentido, inclusive, de uma responsabilidade e de um engajamento que deveria ser próprio da universidade pública em sua função para com a sociedade. Uma sociedade não excludente, claro. Isto significa também refletir sobre o conceito de ‘militância’, como se ele só pudesse ser legitimado por movimentos não- acadêmicos e como se a academia não pudesse (não devesse) engajar-se social e politicamente por uma sociedade mais inclusiva. É esta compreensão que está pressuposta nos tons pejorativos que qualificam trabalhos acadêmicos como “militantes” – subentendendo-se aí, em nosso caso, “não-filosóficos”.

Tudo isso para dizer que a relação entre teoria feminista e filosofia só é problemática para uma concepção de ‘filosofia’ que não enxerga seu próprio enviesamento e não se responsabiliza pela perenidade das exclusões e das opressões que se desdobram dos conceitos (dicotômicos e hierarquizantes) à realidade e aos corpos vívidos no mundo.

Como você vê a introdução/presença da Teoria Feminista e de Gênero no Brasil em nossa área, especificamente, e de forma geral, pensando também os movimentos militantes?

De modo geral, e não apenas no Brasil, a Filosofia está bastante atrasada em relação a outras áreas tais como a História, a Antropologia e a Psicologia, por exemplo. Mas é claro que o caso do Brasil é gritante. Veja-se a longa história (estou sendo positiva aqui, porque trata-se apenas do século XX, claro) do Instituto de Estudos de Gênero, da Revista de Estudos Feministas e dos Cadernos Pagu. São instituições imprescindíveis para qualquer pessoa estudiosa de gênero e feminismo no Brasil. No entanto, a filosofia tem aí uma inserção ínfima e apenas agora começa a integrar suas publicações e quadros de pesquisadoras. É claro que isso tem a ver com a também ínfima inserção das mulheres nos Departamentos e Programas de Pós- Graduação em Filosofia, algo que está começando a mudar, felizmente, e com nossa formação acadêmica de modo mais pungente. Porque, de novo, nossa concepção de ‘filosofia’ nos restringiu muito até agora não apenas ao estudo dos filósofos homens como também ao estudo das temáticas a eles pertinentes. Se a filosofia se fez eminentemente masculina ao longo de sua história, é claro que as preocupações “filosóficas” aparecem como preocupações “masculinas” – mesmo quando se pretendem “universais”. Eu não quero com isso dizer que há temáticas “masculinas” e “femininas” por excelência, porque não quero de forma alguma incorrer nos riscos de essencialização dessas “categorias”, já que tudo isso faz parte de uma socialização e de uma cultura de longa data, mas não deixa de ser verdade – como também fica manifesto pelas questões metodológicas aventadas acima – que as mulheres trazem consigo reflexões que não cabem nas caixinhas conceituais limitadas pela tradição filosófica. Apenas à guisa de exemplificação: a crítica à dicotomia público/privado é uma crítica da teoria política feminista que adentra o universo da filosofia para o desmonte de uma distinção tomada até então como inquestionável, sobretudo porque construída pelos teóricos políticos homens; ora, a perspectiva das mulheres é privilegiada para este questionamento porque é o seu confinamento ao “privado” que as oprime e não o espaço “público” de poder ocupado pelos homens. A teoria feminista vem trazer esta problematização ao universo filosófico com as mulheres filósofas que começam a ocupar as cadeiras da universidade e os currículos acadêmicos. De modo ainda incipiente, é verdade, mas sempre crescente. Eu creio que seja necessário perceber o caráter embrionário disso tudo como parte do diagnóstico para cujo mal a teoria feminista pode contribuir em direção a uma atividade filosófica mais salutar – no sentido de, novamente, “mais inclusiva” e menos hierárquica. Isto é próprio do contexto de um país colonizado como o nosso e de nossa mente reprodutora da colonialidade. Porque, vejamos, também os nossos filósofos homens (aqueles do cânone) são, em sua quase totalidade, do Norte global, e uma parte considerável da teoria feminista e de gênero pela qual tentamos reverter e ressignificar conceitualmente a ‘filosofia’ é construída por mulheres brancas anglo-saxãs. Apenas muito recentemente começamos a ler as mulheres negras – mesmo as filósofas estadunidenses: Angela Davis só começou a ser traduzida aqui em 2017; bell hooks começa a aparecer somente agora em nossas livrarias – e apenas muito recentemente temos outorgado (como se precisássemos) o título de “filósofas” às nossas pesquisadoras brasileiras tais como Sueli Carneiro e Lélia Gonzales (a qual eu sei que ainda causa muito mal estar nos currículos filosóficos). Da mesma forma, embora estejamos nos inserindo cada vez mais nos debates decoloniais de nossos países vizinhos, continuamos a nos pensar refratariamente como um país cuja violência, simbólica e de fato, não tem passado. Por isso, talvez, eu arriscaria dizer, não temos uma produção teórica significativa de âmbito decolonial propriamente brasileira.

Na filosofia, este estado de coisas é espalhafatoso. Se sequer somos capazes de superar Rousseau ao ler Mary Wollstonecraft – que não lemos, aliás, – se sequer somos capazes de cotejar Thomas Hobbes com Catharine Macaulay – que não sabemos quem é – como podemos querer, já e imediatamente, uma teoria feminista e de gênero próprias, de nós como filósofas brasileiras? Não quero dizer que tenhamos que passar longos anos de aprendizado com a teoria feminista já produzida para que possamos construir alguma coisa, mas creio que seja necessário fazer várias reformas concomitantes que nos permitam ler filósofas, fazer uma revisão feminista da história da filosofia, enegrecer as nossas reflexões (para usar um termo da Sueli Carneiro), e contextualizar as nossas filosofias feministas brasileiras. Também porque é urgentemente necessário que estas leituras sejam feitas igualmente por nossos alunos homens e nossos colegas professores homens. Nos interessa a teoria feminista, mas nos interessa também a não-reprodução da estrutura patriarcal por nossos Departamentos e Programas, não é mesmo?

Mas é claro que também em outras áreas a teoria feminista e de gênero se coloca muitas vezes como uma conversa de acadêmicas entre si e também apenas recentemente ela tem começado a se abrir para os movimentos sociais – a ouvi-los e integrá-los nas discussões. Novamente, isto me parece fazer parte de uma concepção hierarquizada do saber – que, no Brasil, intersecciona raça e classe. A construção teórica feminista como um todo (ou, de modo mais amplo, os estudos feministas e de gênero) ainda é privilegiadamente branca e de classe média, até porque o locus deste debate é a universidade pública, majoritariamente acessada por brancos com poder econômico e político razoavelmente garantidos.

Na última sexta-feira tivemos os primeiros grandes atos políticos desde a eleição de Bolsonaro. As marchas pelo dia das mulheres. Os motes, em todo o país, giraram em torno do aumento do feminicídio, da reforma da previdência - que prejudica, em especial, as mulheres - e de um posicionamento contra esse governo, que já se manifestou misógino em diversos aspectos. Como vê o protagonismo das mulheres nesse cenário?

Tenho acompanhado e participado da organização do 8M (em SC) desde 2017 e minha percepção é a de que o movimento só cresce (fomos 8 mil pessoas marchando nas ruas de Florianópolis nesta sexta-feira). Na medida, inclusive, em que cresce a reação violenta, conservadora e misógina ao movimento feminista e às feministas em particular – reações algumas vezes reproduzidas por mulheres integrantes do partido de Bolsonaro, e não estou pensando apenas em Damares Alves – e às mulheres como um todo, já que o feminicídio no Brasil dos dois primeiros meses deste ano beira a uma crise epidêmica. Me parece claro que o protagonismo das mulheres nos movimentos sociais e nas manifestações do 8M tanto quanto naquelas do “Ele Não” e de outras manifestações pró-democracia desde o Golpe de 2016 – com o processo de Impeachment sofrido por Dilma Rousseff – é uma extensão das conquistas alcançadas ao longo das duas ou três últimas décadas, mas principalmente ao longo dos últimos anos do governo petista; conquistas que, se não foram tantas quantas poderíamos desejar, foram suficientes para que sofrêssemos uma reação conservadora – uma ação reflexa de medo e ódio – que coloca em risco a vida das mulheres, da comunidade lgbtqi, do povo negro e indígena e campesino. No fundo, o protagonismo destas manifestações e movimentos é o protagonismo daquelas classes sempre subalternas ao poder e dominação masculina, branca. É assim agora e sempre foi assim nos movimentos coletivistas – hereges e revolucionários – e em todas as formas de resistência encontradas pelas mulheres no enfrentamento à sua opressão. Talvez o que mais nos surpreenda agora seja a declarada e desavergonhada misoginia e preconceito da resposta conservadora – e como eles não podem mais montar fogueiras em praça pública, nos matam “privadamente” e nas tribunas sem leis das redes sociais. O lado “positivo” disto me parece ser a transparência dos conservadores: parece que finalmente sabemos com quem estamos lidando no Brasil e exatamente o que pensam de nós. É com isto, portanto, que o movimento feminista tem de se haver agora, o que exige de nós um esforço de coletividade e horizontalidade talvez nunca antes tão manifesto; mais do que nunca, é de sororidade que precisamos. Também em relação às nossas vizinhas da América Latina, que têm enfrentado crises políticas e morais muito semelhantes às nossas – e que têm servido de inspiração para os movimentos pela descriminalização e legalização do aborto, por exemplo. E, principalmente, em relação às nossas irmãs da terra para as quais a reforma da previdência significa morrer semeando a comida que comemos de modo tão ingrato.

Mas eu gostaria de estender a consideração deste protagonismo para além dos movimentos sociais e das manifestações pontuais e do movimento feminista assim intitulado, e pensar que ele se dá também estruturalmente – até porque, agora sabemos que apenas mudanças estruturais e institucionais nos tornarão avessas às repetições nauseantes do poder patriarcal e seu autoritarismo misógino. Eu arriscaria dizer que Bolsonaro chegou à presidência do país – para além de todas as questões da política imperialista estadunidense se imiscuindo nos processos de golpe e de eleição – porque se valeu das entranhas machistas de nossa sociedade como um todo reproduzidas por nossas instituições públicas e políticas e por nós mesmas. Considero importante, por isso, o protagonismo das mulheres em cada uma das ações de reestruturação de nossas instituições – pensando aqui, para o nosso caso, especialmente nas universidades. Uma reestruturação da linguagem, dos currículos, das bibliografias, das bancas, dos eventos, em direção não apenas à representatividade (das filósofas), mas em direção também a uma ocupação feminista e militante destes espaços políticos.

De um lado, a Filosofia tem uma das mais baixas presenças de mulheres na docência e pesquisa no país. De outro, temos teorias e pensadoras potentes sobre feminismo e gênero. Como avalia esse cenário no qual nos encontramos, na Filosofia no Brasil?

Creio que a denúncia acerca da baixa presença das mulheres em nossos Departamentos e Programas de Pós-Graduação – tal como feita por Carolina Araújo em 2014 e desde então replicada e pensada em vários eventos e artigos no país – é um passo importante em direção à conscientização de que a filosofia é uma área masculinizada (e muitas vezes misógina) e predominantemente ocupada por homens (brancos). Algo que, evidentemente, funciona também como um espelho para o currículo filosófico privilegiado por nossos cursos. E que, por fim, acaba por legitimar a ausência, simbólica e de fato, novamente, das filósofas e da filosofia feminista, pesando de maneira nefasta sobre as nossas alunas sob a forma de exclusão, de assédio e de inferiorização.

Eu mesma só tomei consciência deste estado de coisas ao ingressar como primeira mulher (e única num quadro de 20 professores, durante quatro anos) no Departamento de Filosofia da UFSM em 2012, quando o curso já contava cinquenta anos – as coisas já mudaram bastante por lá desde aquele ano. E foi isto o que me fez olhar para a filosofia feminista, que até então não tinha ocupado lugar algum em minha vida acadêmica. Esta percepção diagnóstica não resolve as coisas, obviamente, mas favorece uma empreitada rumo ao entendimento e a uma compreensão crítica do porquê elas são assim. Este me parece o caso de muitas de nós que hoje compomos o GT Filosofia e Gênero da ANPOF, sintomaticamente nascido tardiamente na história da filosofia brasileira. As ações do GT, assim como a crescente articulação entre professoras e pesquisadoras de filosofia Brasil afora – em eventos devotados às mulheres na filosofia, mas também em publicações e colaborações de outros tipos –me parecem tornar incontornáveis as mudanças estruturais e institucionais de que eu falava antes. Se é verdade que temos questões de representatividade para resolver e muitos números para reverter, – e descobrir os motivos do permanente efeito tesoura sobre as estudantes de filosofia – e se é verdade que, apesar disso e paradoxalmente, contamos com pensadoras feministas poderosas, creio que apenas modificações conceituais e metodológicas e curriculares no edifício mesmo da filosofia e da vida filosófica acadêmica serão capazes de tornar duradoura a inclusão das mulheres na história da filosofia e nas salas de aula. E como estamos no caminho por fazê-lo, – sou bastante otimista, neste sentido – creio que o faremos com a plena consciência do nosso contexto e interseccionalmente.

Não apenas a teoria feminista, mas a filosofia feminista, – porque os nomes importam como selos de inserção na realidade – é irrevogável para as novas gerações de estudantes, e tenho constatado isso a cada nova turma que ingressa no curso de filosofia. Trata-se ainda do mesmo protagonismo feminista mencionado antes no levante contra as opressões. Temos vivido tempos muito difíceis em que certas vozes precisam ser exiladas para continuarem audíveis; temos uma violência escancarada contra o gênero, e contra a própria menção ao gênero, e temos um governo cujo serviço é nos envergonhar publicamente como mulheres; apesar disso tudo, a filosofia no Brasil, felizmente, tem se tornado teórica e praticamente, mais inclusiva, graças ao trabalho coletivo das filósofas feministas. Felizmente, estamos também começando a ocupar nossas grades curriculares, nossas bibliografias e o espaço político da literatura filosófica.

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