Entrevista com Eduardo David de Oliveira sobre Filosofia Africana: “Não estamos disputando um puxadinho dentro do edifício Filosofia, mas a Filosofia em si”

Por Nádia Junqueira Ribeiro*

A produção de conhecimento é milenar, os filósofos estão entre os canônicos e há mais de 100 anos há produção de filosofia profissional contínua, mas ainda é extremamente tímida nos currículos de graduação e pós-graduação. Assim é hoje a situação da Filosofia Africana no Brasil que, contudo, reivindica seu lugar e aos poucos ocupa maior espaço nos departamentos de nossa área. O minicurso durante o último encontro da Anpof (em Vitória, em 2018) sobre o tema foi um dos mais procurados, por exemplo. Aprimeira tese de doutorado sobre Filosofia Africana defendida dentro de um Programa de Pós-Graduação em Filosofia recebeu menção honrosa no prêmio Anpof em 2018 e no prêmio Capes de Teses de Filosofia em 2019. Oautor foi Luís Thiago Freire Dantas, da Universidade Federal do Paraná.

Quase dez anos antes, se formava ali o professor doutor Eduardo David de Oliveira (UFBA). Uma das maiores referências hoje sobre o tema no país, Oliveira afirma que defender um trabalho sobre Filosofia Africana, naquela época, era praticamente impossível. Ele ministrou o minicurso durante o encontro em Vitória no ano passado e nos fala nessa entrevista sobre as razões que explicam uma procura cada vez maior sobre o tema e sobre as especificidades da Filosofia Africana. Entre elas, o professor indica a característica de pensar problemas de nosso próprio tempo e horizonte cultural, de trabalhar diferentes linguagens, como oralidade, corporeidade e artes, além de questionar o modo de fazer Filosofia, em si.

Eduardo David de Oliveira também é sócio-fundador do IPAD-Insituto de pesquisa da afrodescendência e sócio-fundador do IFIL - Insituto de Filosofia da Libertação e atualmente é coordenador da Linha de Pesquisa Conhecimento e Cultura do Doutorado Multi-institucional, Multidisciplinar em Difusão do Conhecimento na Rede Formada pela UFBA, UNEB, UEFS, SENAI-CIMATEC, LNCC e IF-BA. Ele apresenta, nesse texto, alguns autores africanos e diaspóricos e apresenta sugestões para quem quer começar a pesquisar na área. Por fim, indica quais os caminhos necessários a serem percorridos para que a Filosofia Africana ocupe maior espaço nos Cursos de Filosofia. 

Eduardo é autor de três livros sobre Filosofia Africana no Brasil: “Cosmovisão Africana no Brasil: elementos para uma filosofia afrodescendente”, “Ancestralidade na Encruzilhada” e “Filosofia da Ancestralidade: mito, rito e corpo na filosofia da educação brasileira”, e sua trajetória acadêmica na área relaciona-se à sua atuação militante no movimento social negro e também à sua vivência nas religiões de matriz africana, onde é iniciado no Ifá. Sua graduação foi em Filosofia na UFPR, especialista em Culturas Africanas e relações inter-étnicas da educação brasileira pela Unibem. Cursou mestrado na UFPR em Antropologia Social e doutorado em Educação pela UFC. No movimento negro, sempre reclamou para a formação interna um aporte filosófico e foi assim que começou a trabalhar a cosmovisão africana no Brasil. Hoje, dedica-se a formular conceitos de ancestralidade, corpo, encantamento, mito e rito. Recentemente, pesquisou os conceitos de ginga, deriva e estética da libertação revisitando outras áreas de saber como a ética e a epistemologia, dando a elas coloração africana.

 

1. O minicurso que você deuno ano passado durante o encontro da Anpof foi um dos mais procurados. Como hoje você avalia a presença de Filosofia Africana nos currículos de Filosofia: ela tem aumentado nos últimos anos? Quais as barreiras enfrentadas para que haja maior presença, mas, ao mesmo tempo, o que tem proporcionado essa busca por esse tipo de Filosofia?

Acredito que haja uma larga demanda reprimida durante muito tempo, mas tenho a segurança de que isso se tornará uma tradição. Lamentavelmente ainda são poucos os cursos de Filosofia no Brasil que oferecem no currículo a disciplina de Filosofia Africana. Segundo levantamento de nosso GT (GT de Filosofias da Libertação Latinoamericas e Africanas), durante o último encontro da Anpof, constatamos que apenas cinco cursos oferecem essa disciplina na graduação, entre elas os da UFRB, UnB, UFABC, UEFS e Unilab.

Uma presença muito pequena diante da demanda que é muito grande. As barreiras enfrentadas são de diversas ordens. Em geral, não se reconhece a Filosofia Africana como Filosofia. Quando propomos cursos, disciplinas, grupos de pesquisa, eventos de extensão ou pesquisa e até mesmo disciplinas, a Filosofia Africana é desqualificada como não Filosofia. Enfrentamos a pergunta: “existe Filosofia Africana?”, ignorando que ela é uma realidade no mundo há muitos séculos. Vários filósofos canônicos da Filosofia Antiga e Medieval eram africanos, como por exemplo, Tertuliano, Plotino, Santo Agostinho. É uma imprecisão dizer filosofia ocidental tentando nomear os países do continente europeu, deixando de lado filósofos e filósofas do continente Africano. Temos uma Filosofia Contemporânea Africana com pelo menos 100 anos de produção sistemática e profissional, contínua, crítica, cumulativa e criativa, que não podem passar em branco no cenário da filosofia.

O que também tem atraído um público cada vez maior para a Filosofia Africana é ela propor-se ao diálogo com a realidade brasileira, com seus problemas e aportes culturais, perfazendo um diálogo criativo e crítico com a produção filosófica que encontramos no continente africano em franca reciprocidade entre os dois lados do Atlântico. Pensar essa relação de continuidade e ruptura entre Brasil e África, não só no plano simbólico, mas no plano material, e aqui, no caso da Filosofia, inaugurando um diálogo estreito entre epistemologia, estética, ética e política, perfaz um conjunto de áreas de conhecimento e temas que dialogam com problemas de nossa realidade hoje, o que atrai a atenção de quem se propõe a fazer Filosofia e não apenas reproduzi-la. Temos essa demanda reprimida há muito tempo, de alguma forma, é o retorno do recalcado que volta ao seu lugar, pede voz e visibilidade.

Há também um esforço organizado de se criar redes de pesquisa e de difusão do conhecimento produzido em Filosofia Africana. Faço parte de algumas delas juntamente com outros colegas, docentes e discentes, bem como pesquisadores/as ligados ao movimento social popular sem vínculo com a universidade, o que cria um espectro amplo de nossas relações de pesquisa, produção e intervenção social. Na medida em que temos professores e professoras nos programas de pós-graduação tencionando uma certa concepção de Filosofia concentrada na Europa e abrindo as portas do fazer filosófico para outras latitudes, como latino-americana e africana, conseguimos ter mais espaços institucionais articulados.

A própria Anpof é um exemplo disso: depois de 20 anos conseguimos um GT em que pudéssemos discutir esse tema e ter um minicurso sobre ele. Na Associação Brasileira de Pesquisadores Negros criamos a área de Filosofia Africana onde estou coordenador junto com a professora Aline Moraes. Nos organizamos em espaços de representação política e acadêmica para que a Filosofia Africana tenha trânsito. Assim constituímos um corpo docente capaz de propor cursos de extensão, projetos de pesquisa, ensino, bem como orientar alunas e alunos interessados no tema, tanto na graduação quanto na pós-graduação, abrangendo, ainda, espaços de formação junto aos movimentos sociais populares. A ideia é produzir uma teia de relações e produção que intensifiquem a criação e difusão da Filosofia Africana.

 

2. O que a Filosofia Africana traz para nosso campo de conhecimento que os currículos tradicionais, focados nos cânones, não proporcionam?

Um primeiro aspecto fundamental é a própria concepção de filosofia. Estamos disputando não um gueto discursivo, um puxadinho dentro do edifício da filosofia, mas o próprio conceito de filosofia, é uma disputa pela concepção do fazer filosófico. É uma discussão absolutamente larga, mas diria que algo que é solo comum para as filosofias africanas e diaspóricas é o fato de pensar contemporaneamente. Ainda que pesquisemos clássicos deste e outros séculos, sempre partimos do horizonte contemporâneo para o diagnóstico e perspectivas de enfrentamento aos problemas locais e globais que nos afetam. É um diálogo criativo e crítico com os problemas que nos afligem hoje, aos quais a filosofia africano-brasileira busca dar respostas variadas e múltiplas. Ela se coloca em risco para pensar em movimento o que está acontecendo na atualidade. Não há uma única concepção de filosofia no interior da filosofia africana, há uma pluralidade de concepções, mas todas se assentam nessa atitude filosófica comum de pensar de maneira crítica e criativa o próprio tempo na própria cultura em diálogo com outras culturas.

Segundo ponto: é uma filosofia articulada de maneira reticular, em redes, alianças, de modo que quando falamos em filosofia africana, que já é uma generalização, estamos falando de diversas filosofias, marcadores, dispositivos de compreensão dessa filosofia, mas que se articulam numa grande malha. É assim que temos filósofos do Camarões, Benin, Congo, África do Sul, Tanzânia, Gabão, Costa do Marfim dialogando internamente, em cada um desses países, mas numa filosofia que é transnacional, porque articula entre eles, e é transcontinental, na medida em que atravessa o Atlântico e conversa com a África que se instaurou na diáspora.

Aqui é um outro mosaico cultural, compreendendo países da América Latina e do Norte aqui, com ênfase no Brasil. Isso dá uma pluralidade imensa e uma intensidade do fazer filosófico singular. Pensamento que efetivamente se constrói num diálogo rigoroso, crítico e tem se tornado um exercício prazeroso. Fazer filosofia africana é signo de produção de sentidos. Há uma dimensão estética que de alguma maneira nos reúne para o exercício rigoroso, mas também prazeroso, de exercitar a filosofia.

Outro ponto: essa Filosofia se alimenta não apenas do que se chamou de filosofia profissional, feita nos cursos de Filosofia Acadêmica, mas considera também como lócus do filosofar os espaços não-acadêmicos. Enfim, a aliança entre comunidades acadêmicas, de prática e tradicionais, fazem um triângulo de espaços multirreferenciais de aprendizagem que produzem, praticam e disseminam a filosofia africana. É um movimento, se não exclusivo, enfático do modo que temos feito filosofia africana.

Existe, ainda, a questão das linguagens e metodologias. Usamos vários tipos de linguagem, passando pelas modelações estéticas, literárias, antropológicas, que extrapolam a área restrita da filosofia e se coadunam ao que entendemos serem os saberes filosóficos – para além da tradição interna da filosofia. Utilizamos da corporalidade, da oralidade, da espiritualidade (não aquela convertida em religião, mas uma experiência de espiritualidade convertida em filosofia), entre outras.

Metodologicamente, temos um variado leque de opções que transcendem a reduzida perspectiva de comentário das obras filosóficas, buscando efetivamente, além da hermenêutica, produzir conceitos e redes filosóficas que façam a mediação entre o pensamento e o enfrentamento de problemas de nossa realidade, como, por exemplo, o racismo, o sexismo e a xenofobia. Esses elementos não são exclusivos da Filosofia Africana, mas lhe dão certa identidade negociada.

 

3. Àqueles interessados no tema: por onde começar?

Para quem quer iniciar a pesquisa em Filosofia Africana, há muitos começos. Para usar uma imagem de Eduard Glissant, filósofo africano da Diáspora, diria o seguinte: comece a partir de seu próprio interesse. Muitas são as portas de entrada, não há hierarquia entre elas. Para quem se interessa pela Antiguidade, temos filósofos como Plotino, Tertuliano, Origenes, Hipácia, entre outros. Temos personagens interessantes, como Antoine-Guillaume Amo, guineense que no século XVIII era professor de Filosofia na Alemanha. Temos, ainda, uma produção mais intensa no século XX, a partir da produção de Placide Tempels, um missionário belga que escreveu uma obra fulcral, “A Filosofia Banto”, publicada em 1945, o que se convencionou chamar do momento inaugural da filosofia profissional africana no campo da comunidade acadêmica. Em resumo, temos cerca de 200 autores que dialogam com essa tradição da produção acadêmica de Filosofia na África hoje em dia, tanto no Continente quanto na Diáspora.

Há várias vertentes da filosofia afriacana: a filosofia profissional, hermenêutica, crítica, da linguagem, etc., bem como a da Filosofia da Sagacidade, que dialoga com sábios da cultura popular e fazem desses diálogos seu mote filosófico, como o fazem os filósofos Odera Oruka e José Castiano, entre muitos. Ademais, temos sujeitos coletivos da produção do conhecimento na Filosofia Africana, como a capoeira angola, as religiões de matriz africana, maracatu, cavalo marinho, samba de roda, congadas, dentre outros. Há, na verdade, uma vasta produção sobre isso num universo da Antropologia e alguns de nós já está fazendo tratamento filosófico desses atores culturais.

Eu, particularmente, sugiro que se comece pelo próprio país. Que se investigue as primeiras obras publicadas sobre Filosofia Africana no Brasil. Já contamos com alguns historiadores de Filosofia Africana no Brasil, já temos uma tradição incipiente se fortalecendo, já temos variações de abordagem conceitual e metodológica que alimentam o debate interno e a interlocução internacional.

 

4. Qual o lugar que a Filosofia Africana deveria ter, em sua opinião, em nossos currículos e como isso poderia ser feito?

Eu reclamo que a Filosofia Africana deveria ser transversal nos currículos de Filosofia, atendendo a lei 10.639, que obriga o ensino de História e Cultura Africana e Afro-brasielira em todas as etapas do ensino brasileiro, inclusive no ensino superior. Baseado nessa lei, reivindico que ela seja trabalhada tanto na Antiguidade, no Medievo, na Modernidade e, sobretudo, na Contemporaneidade. Reivindico também disciplinas optativas que possam aprofundar aspectos específicos da Filosofia Africana ou por temas ou por atores, bem como atividades extracurriculares par a passu da cultura afro-brasileira para fomentar a reflexão filosófica entre nós.

Acredito que ela deveria se configurar numa disciplina obrigatória no currículo em pelo menos dois níveis: desde o continente africano e a Filosofia Africana diaspórica, com ênfase no Brasil, de modo que pudéssemos ter uma formação em filosofia africana que partisse de nossa realidade, no caso, o horizonte cultural brasileiro, mas que fosse capaz de dialogar com o mundo inteiro, dando ênfase às relações Sul-Sul, ampliando o espectro do filosofar em rede, aliança, de maneira intercultural e decolonial, também pensando vários hipertextos.

Termino acrescentando que a Filosofia Africana entrando nos currículos deve impactar a metodologia do ensino de Filosofia. Não é possível ensinar Filosofia Africana do mesmo modo que se ensina os canônicos. É preciso lançar mão de diversas linguagens: que passam pela oralidade, corporeidade, arte, música, literatura, escultura, artes plásticas, dança, movimento social popular e etc. Valeria a pena estreitar a relação entre Filosofia Africana e da Educação, campos minorados nos currículos de Filosofia que merecem espaços muito maiores.

Ao pensar as especificidades, daria para trabalhar a partir de países, autores, temas, perspectivas metodológicas, redes que foram criadas a partir desses filósofos africanos. Boa parte dos filósofos africanos atuam na Europa e nos EUA, de modo que mantêm diálogo que ultrapassa o Sul, tem diálogo Sul-Norte, e penso que uma das maneiras de fazer isso é fortalecendo o GT de Filosofia na América Latina, Filosofia da libertação e pensamento decolonial, bem como fortalecer a Anpof como representante institucional e ser propositivo, sair da retórica do lamento e denúncia e ter uma narrativa propositiva, criativa que possa, de maneira paulatina e contínua, acrescentar estratégias de ensino de filosofia africana nos currículos da graduação e pós-graduação. Por que não dizer, extrapolar a alçada da Anpof, mas também contemplar a educação básica.

*Nádia Junqueira Ribeiro é doutoranda em Filosofia Política na Unicamp e jornalista da Anpof

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