Entrevista com Yara Frateschi - Feminismo Negro

“As nossas bibliografias de curso ainda são muito conservadoras, é tempo de democratizá-las”
Entrevista com Yara Frateschi sobre disciplina lecionada sobre “Feminismo Negro” no departamento de Filosofia da Unicamp

Por Nádia Junqueira Ribeiro*

 

Professora da Unicamp há 15 anos, a livre-docente Yara Frateschi lecionou, pela primeira vez no departamento de Filosofia da universidade, uma disciplina com bibliografias compostas exclusivamente por autoras negras, filósofas e sociólogas. “Feminismo Negro” foi lecionada no primeiro semestre deste ano para pós-graduação e, no segundo, para graduação. Segundo Yara, foi um genuíno exercício de alargamento da mentalidade: “a melhor experiência que eu tive até hoje em sala de aula”, confessa a professora. No ano passado, a professora Monique Houlshof abriu caminho ao ministrar uma disciplina na graduação do mesmo departamento sobre perspectivas feministas sobre a democracia e incorporado em sua bibliografia textos de Angela Davis e Lélia Gonzales. Frateschi compartilha nesta entrevista a experiência de ter levado exclusivamente autoras negras para uma disciplina na Filosofia.

Yara Frateschi percorreu um caminho de formação e de pesquisa canônico, por assim dizer. Nos últimos anos, contudo, o encontro com Hannah Arendt, Seyla Benhabib, Judith Butler e Angela Davis fez com que ela questionasse o modo pelo qual contamos a história da Filosofia. “Esse modo precisa ser submetido a uma séria avaliação crítica, afinal o nosso cânone é majoritariamente masculino, branco e europeu”, indica a professora. Contudo, ela enfatiza que não se trata de recusar o cânone, mas lê-lo de forma crítica trazendo para a história da Filosofia quem sempre ficou às margens, por exemplo Angela Davis.

A professora livre-docente acessou o pensamento feminista negro a partir de Davis que a levou a compreender que o isolamento do marcador “gênero” dos marcadores “raça”, “classe”, “sexualidade”, por exemplo, segue reproduzindo silenciamentos e apagando perspectivas e experiências. “O pensamento feminista negro, justamente pela sua análise intersecional, é mais produtivo, na minha interpretação, para uma análise da questão de gênero que abarque efetivamente todas as mulheres e não apenas as brancas de classe média. Nós temos muito a aprender sobre democracia com as filósofas e sociólogas negras”, diz Fratreschi nessa entrevista. A professora comenta que queria ter lido Angela Davis aos 20 anos. “Isso teria enriquecido muito mais a minha formação intelectual e filosófica. Eu espero fazer isso pelas minhas alunas e pelos meus alunos, ao menos evitar que eles demorem tanto para descobrir a potência teórica do feminismo negro e as suas possíveis contribuições para a ética e para a filosofia política”, .

Ela também fala sobre a experiência com as turmas. Na graduação, foi a turma mais diversa em termos de identidade que ela já teve em sua história na Unicamp. A Unicamp adotou política de cotas raciais e vestibular indígena recentemente o que, para Yara, é motivo de se comemorar, mas é insuficiente: “não basta mudarmos a forma de ingresso. Nós precisamos democratizar também as nossas bibliografias de curso e o ambiente da sala de aula”. Confira a entrevista abaixo.



1. Há 15 anos você é professora do departamento de Filosofia da Unicamp e oferece disciplinas sobre ética e filosofia política a partir das obras de autores clássicos e contemporâneos: Aristóteles, Maquiavel, Hobbes, Locke, Rousseau, Arendt, Benhabib, Habermas, Rawls, por exemplo. Como Angela Davis surgiu para você?

Eu passei os vinte primeiros da minha formação estudando autores canonizados, os chamados “clássicos” da história do pensamento ético e político ocidental. Da iniciação científica até cerca de dez anos depois de ter terminado o doutorado, eu percorri uma longa jornada que me permitiu compreender alguns dos desdobramentos teóricos mais importantes na filosofia prática ao longo da história, desde Platão e Aristóteles até os nossos dias, com Marx, Habermas e Foucault. Eu tenho muita alegria por ter percorrido este caminho (que nunca acaba, evidentemente) e me confesso apaixonada pela história da filosofia. Faço um tipo de filosofia que não prescinde da sua história e me interesso, sobretudo, pelas torções conceituais ao longo do tempo e pelas disputas filosóficas do passado e do presente e do presente com o passado. Em maio deste ano tornei-me professora livre docente do Departamento de Filosofia da Unicamp com uma tese intitulada “Liberdade, Cidadania e Cultura Democrática. Estudos Anti-hobbesianos”, que reúne textos de diversos autores e autoras, do século XVII ao XX, que dialogam criticamente com a filosofia de Hobbes, o inaugurador da filosofia política moderna. O livro será lançado no começo de 2020 e eu já estou ansiosa para começar a escrever o segundo volume. Mas o que foi ficando claro para mim nos últimos tempos é que o modo pelo qual nós contamos essa história da filosofia precisa  ser submetido a uma séria avaliação crítica, afinal o nosso cânone é majoritariamente masculino, branco e europeu, basta abrir qualquer enciclopédia ou livro de história da filosofia disponível em português, espanhol, francês, inglês e alemão. Eu tomei consciência deste problema depois de começar a estudar e a escrever sobre Hannah Arendt, que abriu caminho para outras filósofas, dentre elas Seyla Benhabib Judith Butler e Angela Davis, para citar três exemplos, os mais importantes para o meu trabalho hoje em dia. É interessante notar que uma autora mulher costuma puxar outra. O que há de comum entre elas? Muitas coisas, mas negativamente é o fato de não serem consideradas propriamente filósofas e respeitadas como tais. Contudo, se Arendt já conquistou um lugar ao sol em espaços acadêmicos, meio sombreado, mas conquistou, Davis ainda está excluída dessa conversa de homens (brancos) que é a filosofia. Isso é muito sintomático. O cânone, o que nós consagramos, fala de machismo e também de racismo: é o momento de enfrentar isso no Brasil. As nossas bibliografias de curso ainda são muito conservadoras, é tempo democratizá-las.

 

2. Como e por que você começou a se interessar especificamente por Angela Davis? Como se apresentou o desejo de oferecer uma disciplina sobre feminismo negro com Sueli Carneiro, Lélia Gonzalez, bell hooks e Patrícia Hill Colins entre outras?

Angela Davis surgiu no meu percurso da seguinte maneira. Eu estava – estou ainda, claro – interessada em avaliar as contribuições do feminismo (dos feminismos, no plural) para a ética e filosofia política. A história do pensamento ocidental na modernidade é uma história que se constrói pela exclusão das experiências e perspectivas das mulheres e, portanto, as visões de sujeito, sociedade e Estado que se desenham desde o século XVII espelham experiências e valores tradicionalmente vinculados ao ego masculino. Os ideais de soberania, autodeterminação, autonomia e razão legisladora, se estabelecem às custas da nossa incontornável dependência mútua, do fato de sermos seres sociais e relacionais, dotados de afetos, etc. Uma das maiores contribuições do feminismo para a filosofia prática é o desvelamento crítico das suas ilusões masculinas. Esta crítica tem aberto o caminho para outras visões de self ecomunidade, para outros modelos de vida política, como de fato está acontecendo com cada vez mais intensidade pelas mãos das filósofas contemporâneas. No entanto, eis o terceiro ato dessa história, eu descobri lendo Mulheres, raça e classe, de Angela Davis, que embora o foco na exclusão de gênero seja importantíssimo, necessário e com
enorme potencial crítico, ainda assim é insuficiente. Não basta detectar o silenciamento “das mulheres” ao longo da construção daquilo que chamamos “legado da modernidade”, é preciso dar um passo a mais, decisivo, para enfrentar o silenciamento das mulheres negras. A partir de Davis eu fiz uma incursão no pensamento feminista negro para compreender, enfim, que se nós isolarmos o marcador “gênero” dos marcadores “raça”, “classe”, “sexualidade”, entre outros, continuaremos a reproduzir silenciamento e apagamento de experiências e perspectivas. O pensamento feminista negro, justamente pela sua análise intersecional, é mais produtivo, na minha interpretação, para uma análise da questão de gênero que abarque efetivamente todas as mulheres e não apenas as brancas de classe média. Nós temos muito a aprender sobre democracia com as filósofas e sociólogas negras.

Agora, eu gostaria de dizer também que quando eu parei para estudar Angela Davis como ela merece, eu descobri uma autora extremamente complexa e irreverente, que faz crítica social de matriz marxiana, combinando, de maneira inteiramente inédita e criativa, teoria critica com pensamento negro para dar conta dos seus temas mais urgentes, dentro eles o velho, porém não resolvido, problema filosófico da liberdade. Como disse certa vez Marcuse, para ela a liberdade não é apenas uma questão especulativa. Ela tem muito a contribuir para quem almeja fazer, como eu, uma análise filosófica deste antigo tema e que faça sentido no presente, no Brasil em 2019. Eu queria ter lido Angela Davis aos 20 anos! Isso teria enriquecido muito mais a minha formação intelectual e filosófica. Eu espero fazer isso pelas minhas alunas e pelos meus alunos, ao menos evitar que eles demorem tanto para descobrir a potência teórica do feminismo negro e as suas possíveis contribuições para a ética e para a filosofia política. Por isso eu ministrei duas disciplinas este ano sobre pensamento feminista negro. Além de Angela Davis, nós também lemos Kimberlé Crenshaw, Patrícia Hill Collins, bell hooks, Lélia Gonzales, Sueli Carneiro, Carla Akotirene e Djamila Ribeiro. Eu posso te dizer que foi um genuíno exercício de alargamento da mentalidade. Foi a melhor experiência que eu tive até hoje em sala de aula.

 

3. O que você pode dizer da experiência? Por exemplo, o perfil das alunas e alunos que participaram da disciplina e o que você notou de diferente em sala de aula, pensando em outras turmas de Filosofia?

A experiência em sala de aula foi inédita para mim e acho que também foi para muitos dos alunos e das alunas presentes. Primeiro porque foi a sala mais diversa em termos de identidade que eu já tive e eu estou convencida de que o melhor modo de estudar teorias interseccionais da sujeição e da ação – ou seja, que levam em consideração a combinação de distintos marcadores sociais, tais como gênero, raça, classe, sexualidade – é interseccionalmente, isto é, em ambientes acadêmicos plurais e diversos, com pessoas brancas, negras e indígenas, homens e mulheres, cis e trans, gays, lésbicas, de classes sociais distintas, etc. O encontro de grupos sociais e indivíduos diversos, com diferentes experiências e histórias de vida torna a sala de aula um ambiente mais democrático e muito mais desafiador para nós, professores. Mas de nada adianta que essas pessoas estejam lá, se elas permanecerem caladas, desimportantes, apenas receptoras de um conhecimento que já vem pronto para elas. O nosso desafio na universidade pública é criar um ambiente favorável para que elas vocalizem e compartilhem as suas experiências, perspectivas e histórias de vida e, assim, a sala de aula pode ser tornar também um lugar de aprendizado moral e político, afinal, as capacidades de articular discursivamente a própria narrativa e de ouvir as narrativas dos outros são imprescindíveis para a vida em comum em sociedades pluriculturais (mas também machistas, racistas, cheias de fobias sexuais, como é a nossa sociedade). Certamente, foi a bibliografia do curso que me permitiu não apenas estudar com a sala os temas centrais dessas teorias interseccionais, mas também a exercitar uma das contribuições mais significativas do feminismo negro: que todos temos lugar de fala e que o silenciamento das experiências e perspectivas das pessoas negras dos espaços acadêmicos, em especial das mulheres negras, além de rigorosamente injusto leva ao empobrecimento das humanidades e dos nossos paradigmas filosóficos e sociológicos. O fato de a Unicamp ter finalmente uma política de cotas raciais e um vestibular indígena é algo a se comemorar, mas não basta mudarmos a forma de ingresso. Nós precisamos democratizar também as nossas bibliografias de curso e o ambiente da sala de aula. Ai sim, teremos dado um passo importante. É verdade que existe um sentimento compartilhado entre as alunas, o de que a academia não é para elas e sim para os homens. Mas de uma aluna negra eu ouvi o seguinte: como ficar bem aqui se eu não tinha nenhuma colega negra, nenhuma professora negra? Para ela, o sentimento de inadequação tem evidentemente outra dimensão e uma dimensão que eu, enquanto mulher branca, só posso conhecer se estiver disposta a ouvi-la. De uma aluna indígena eu ouvi: professora, as suas pautas de gênero não são as minhas, nós somos mulheres diferentes, simples assim. Essas diferenças precisam aparecem e todos nós teremos a ganhar.

 

4. Por que, você acredita, não é comum que estas autoras sejam estudadas nos departamentos de Filosofia?

A área de filosofia ainda é muito fechada dentro dos padrões que construiu para si mesma. Quem construiu o cânone e contou a história da filosofia foram os homens: de homem para homem sobre homem. Deixe-me deixar bem claro que eu não estou propondo jogar esse legado no lixo, bem pelo contrário, eu quero dialogar criticamente com ele e atualizá-lo. Eu não vou parar de estudar Aristóteles porque eu considero a sua ética não apenas importante para uma abordagem histórica da filosofia, mas também ainda muito inspiradora. Aristóteles é um clássico e isso quer dizer que ele ainda diz coisas para nós no presente, caso contrário teria caído no esquecimento. Mas não caiu e, por exemplo, ainda há feministas que se apropriam de elementos do seu pensamento moral e político. Isso não apaga o fato de que ele era um machista e tinha outros defeitos antidemocráticos que não podem ser escondidos. É assim que devemos ler os clássicos: criticamente. Além do mais, quando a gente começar a fazer uma história mais crítica da filosofia, seremos capazes de recontá-la, trazendo para o centro quem ficou às margens. Patricia Hill Collins é uma grande inspiração para mim nesse sentido, embora a sua preocupação fosse com a sociologia, podemos incorporar na filosofia a sua discussão sobre a construção de paradigmas. Mas a gente tem um obstáculo importante, pois a área de filosofia no Brasil é muito desequilibrada quanto ao gênero: as mulheres não são nem 30% da comunidade filosófica brasileira e nós sequer temos o mapa racial, o que é muito grave. Precisamos de mais mulheres, mais mulheres negras e mais mulheres indígenas para levar essa discussão à ordem do dia. E dos homens aliados, claro. Há alguns, sem dúvida, embora por enquanto parece que muitos ainda estão
bastante assustados com a possibilidade de perder a hegemonia.

 

5. Qual importância de se estudar o feminismo negro dentro do departamento de Filosofia? O que ele agrega na produção de conhecimento que vem sendo construída hoje no Brasil? 

O pensamento feminista negro tem uma longa história, envolve muitas disciplinas, tem uma relação muito forte com o ativismo e abarca uma enorme variedade de temas, dos quais eu não posso dar conta aqui, claro. Eu quero mencionar apenas alguns desses temas que, na minha interpretação, têm muito valor para a filosofia prática contemporânea e para o ensino de filosofia. A sua relação tensa com o legado da modernidade e com uma epistemologia de perspectiva única; a crítica das teorias universalistas excludentes e não comprometidas com a realização da emancipação para todos; a abordagem interseccional da sujeição e também da ação, estes são alguns dos aspectos do feminismo negro que devem ser levados muito a sério por quem faz filosofia prática em um país como o Brasil, que não apenas está entre os países que mais cometem violência contra negros, mulheres e população LGBT+, mas também vê crescer um discurso explícito e autorizado de ódio contra essas mesmas populações. Como ensinar e fazer filosofia no Brasil sem levar à sério essa realidade? As teóricas feministas negras, pelas próprias experiências, formularam teorias mais críticas da sujeição e análises mais estruturais da opressão do que as teóricas brancas, em geral. E a gente não precisa ir muito longe para testemunhar isso, pois nós temos Lélia Gonzales e Sueli Carneiro, na nova geração: Djamila Ribeiro, Karla Akotirene, Joice Berth, para citar alguns exemplos. Eu me pergunto: o que as filósofas no Brasil estão fazendo que ainda não leram a tese de doutorado de Sueli Carneiro? Eu recomendo, muito fortemente. Farei isso com o meu grupo de estudos em 2020.

O que me interessa particularmente é queelas têm um olho na opressão e outro na ação, na resistência, na liberdade e, por isso, são capazes de teorizar sobre uma coisa sem perder a outra de vista. Da minha perspectiva, essa atitude teórica é muito mais interessante do que aquelas que, de um lado, focam na sujeição e se tornam mais lamentosas para as “trevas do presente”, para o “colapso da democracia”, etc.; e outras que, por no extremo oposto , focam na autonomia, na liberdade, nas questões normativas, mas se esquecem de avaliar com seriedade os obstáculos que se interpõem à realização dos modelos que idealizam. As feministas negras, sobretudo as filósofas e as sociólogas, estão além disso, elas fazem as duas coisas. Por isso estão mais afinadas com os desafios e as questões das sociedades contemporâneas.

Nádia Junqueira Ribeiro é doutoranda em Filosofia na Unicamp

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