A eudemonologia entre o pessimismo e o otimismo Show all records where Título is equal to A eudemonologia entre o pessimismo e o otimismo
Gilmara Coutinho Pereira Show all records where Autor is equal to Gilmara Coutinho Pereira
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Os Aforismos para a sabedoria de vida, chamados por Schopenhauer de ensaio eudemonológico, já na primeira página mostra o paradoxo de uma eudemonologia numa obra conhecida por sua carga pessimista: “instrução para uma existência feliz”. No entanto, o filósofo não fala de felicidade de forma plena, como comumente se fala sobre este sentimento. Ele explica que seu ensaio trata da “arte de conduzir a vida do modo mais agradável e feliz possível”. Ou seja, o que nos é permitido fazer para tornar a vida mais agradável e feliz dentro dos campos de possibilidade que nos restam diante do sofrimento inerente ao mundo. Schopenhauer retoma nos Aforismos a ideia de razão prática, apresentada em O mundo, associando-a à sabedoria estoica. A ética estoica exerce forte influência na “filosofia prática” de Schopenhauer, pois ela enfatiza a importância da razão para o domínio de si, não para o domínio da natureza ou de outros homens. Ao longo da história vê-se o contrário: o homem se arroga como senhor do mundo por dispor da capacidade reflexiva que o diferencia dos demais seres. O intelecto reflexivo, ao contrário, possibilita ao homem uma carga maior de sofrimento. Segundo Schopenhauer, o princípio fundamental do Estoicismo é uma “espécie de eudemonismo”. Schopenhauer chama de eudemonismo o que envolve a sabedoria de vida, com a ressalva de que, para ele, eudemonologia seria um eufemismo para “viver o menos infeliz possível”. O conhecimento pode então atuar como um “quietivo” diante do mundo que é dor e sofrimento. A conduta estóica se pauta no desapego como modo de evitar as dores oriundas da tentativa incessante de saciar os desejos bem como do enfrentamento do sofrimento – melhor que enfrenta-lo é abster-se dele. Ou seja, a razão prática diz respeito ao bom uso da razão a fim de evitar as dores da existência, não no exercício para uma vida feliz cujo objeto se encontra fora de cada um. A busca é justificada através de uma “sabedoria de vida” que toma por base também a escola epicurista, com o ideal de ataraxia: não se deixar perturbar por nada é um caminho para a sabedoria de vida. Assim, a ataraxia se torna uma finalidade para o homem sábio, que nada mais quer do que evitar as dores ocasionadas pelos desprazeres ou prazeres excessivos, para assim poder desfrutar melhor da existência. O exercício da razão pode tirar o homem da situação de escravo e torná-lo senhor de si, de modo que as intempéries do destino não venham a atingi-lo. O levará também ao despojamento do corpo, pois este passa a ser visto como apenas um instrumento para participar do grande espetáculo do mundo. Na visão estóica, o sábio é um homem livre, pois nem o próprio corpo, muito embora seja condição de participação no mundo, lhe é uma prisão: caso o personagem que lhe for destinado se torne um fardo muito grande, há ainda a opção do suicídio como retirada do espetáculo, abandono do personagem. Quando o indivíduo se descentraliza, não se vê mais como personagem principal e percebe que pode haver outra possibilidade que não interpretá-lo, caso não queira verdadeiramente interpretar seu papel, passa a encarar o espetáculo de forma mais amena. Semelhante à visão do mundo como um espetáculo em que os homens devem atuar como espectadores e, mais ainda, como atores, Schopenhauer apresenta nos Aforismos uma moral do “como se” – ages como se a vida tivesse sentido. A moral do “como se” não ignora a subordinação do homem ao mundo como vontade, seu papel de vítima diante de um espetáculo cujo enredo é dramático, cheio de desgraças e sofrimentos de diversas ordens, mas instiga o homem a agir da melhor forma possível a partir dessa realidade horrível a que está fadado, do mundo sombrio em que se encontra. Assim reiteramos: o homem não deve se restringir a postura de “espectador” do mundo, ele deve também ser ator desse grande espetáculo. Os Aforismos compõem assim uma “ética da melhoria”, voltada mais diretamente para as ações e preocupada em possibilitar uma existência menos infeliz. Essa “ética da melhoria” pode ser ensinada, diferentemente da ética da compaixão, exposta no Livro IV de O Mundo e em Sobre o Fundamento da Moral. É mais voltada às questões de ordem prática, como, por exemplo, o cuidado com o corpo e a atenção à cada idade da vida a partir do que as caracteriza. Essa “ética da melhoria” corresponde a uma “eudemonologia empírica”, “moral do como se” ou “sabedoria teatral”; há ainda outra expressão para se referir a ela: o otimismo prático. Se de pronto a expressão pode parecer um contrassenso, considerando-se a filosofia schopenhaueriana genuinamente pessimista, nós, entretanto, não vemos nenhum contrassenso na ideia de um otimismo prático, ele corresponde à sabedoria de vida, à ética da melhoria. Não se trata de uma cegueira quanto às desgraças do mundo e todo o sofrimento que o permeia, mas de um olhar que reflete sobre o que é possível fazer disso tudo, sobre como viver o menos infeliz possível. Eis o limite de uma eudemonologia em Schopenhauer: ela não pode considerar uma existência propriamente feliz, menos ainda acabar com o sofrimento no mundo. Suas possibilidades consistem na instrução do homem ao cuidado de si, ao autoconhecimento e ao exercício para uma vida melhor.

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