Carta de professores da graduação e pós-graduação em Filosofia da UERJ

Não é possível permanecer silente diante do projeto de desmonte da educação pública no país!

Há anos a UERJ vem sofrendo crescente sucateamento pelo desinvestimento do Governo do Estado. Não é a primeira vez que essa Universidade é alvo de ataques que tentam sufocá-la. Com certeza isso tem um motivo: seu caráter de nítido posicionamento político inclusivo que sofre a represália dos que pretendem anular os efeitos sociais proporcionados por tal política. Na atualidade, a situação de precarização começa a se agravar em 2015 quando os terceirizados – equipes de limpeza, segurança e ascensoristas ­– passa a ter um “regime de trabalho” praticamente escravo, inicialmente com atraso, até chegar à ausência do pagamento de salários. Hoje professores e funcionários concursados vêm passando pela mesma situação insustentável. Os alunos tiveram frequentemente suas bolsas suspensas por vários meses, o que os inviabiliza, sobretudo os cotistas, de frequentar a Universidade, tanto por causa do deslocamento, quanto porque não há como custearem sua alimentação. Esta conjuntura leva as três categorias – docentes, técnicos e estudantes – à greve, por entenderem a inviabilidade de funcionamento da UERJ.

É preciso compreendermos, porém, que não se trata de um ataque isolado, mas sim da execução de um projeto de desmantelamento das instituições públicas, o que na UERJ, vemos acontecendo nitidamente em dois níveis muito claros: no âmbito da educação, incluindo o ensino, a pesquisa e a extensão de alta qualidade que tradicionalmente atende a uma população carente do Estado; e no âmbito da saúde, com a asfixia tanto do Hospital Pedro Ernesto, um hospital de referência no Estado e na América Latina, quanto da Clínica Piquet Carneiro.

Paralelamente a esses acontecimentos, várias notícias, difundidas pela grande mídia, têm evidenciado um intenso, veloz e agressivo crescimento de investimentos no ensino privado em nosso país.

Esse movimento não se limita às Universidades. Grandes grupos empresariais também têm crescido no âmbito do Ensino Fundamental e Médio com a compra de escolas particulares.

Do mesmo modo, chama também atenção a forma como foi concluída, no atual governo, a reforma do Ensino Médio. A reforma, que vinha sendo realizada a partir de um grande debate nacional, envolvendo inúmeras esferas da sociedade, foi concluída sem que os resultados tivessem sido finalizados pela base. O que a custosa propaganda do governo insiste em ignorar.

Como não relacionar esses dois movimentos – os da expansão dos investimentos privados no setor do Ensino fundamental e superior e os de uma crítica severa à Universidade Pública e o modo de conclusão da Reforma do Ensino Médio?

É diante desse quadro, cuja extensão ultrapassa em muito os limites dos problemas na UERJ, que somos hoje forçados a ler o que nos acontece.  É justamente essa extensão que joga luz e redimensiona o questionamento do que estamos atravessando. Hoje, não se trata mais de uma simples paralisação ou greve. É necessário reconhecer o conjunto dessa situação como o que justifica a decisão tomada pelos docentes do Programa de Pós-graduação em Filosofia, que adiou em duas semanas o início das atividades de ensino. Entendemos que a pós-graduação de filosofia da UERJ não pode funcionar como se nada estivesse ocorrendo na Universidade, enquanto nossa graduação é abandonada e não temos condições mínimas para nos manter. Além disso, não podemos deixar de nos manifestar politicamente em relação ao que vem ocorrendo em nosso país, não apenas no que se refere à educação pública em geral, como também no que se refere aos sucessivos cortes à Pesquisa e à Tecnologia.

Trata-se agora do reconhecimento de que precisamos enfrentar de forma mais transparente um projeto de Educação em nosso país. E esse projeto tem de pertencer ao debate público de todos nós: Universidade – graduação e pós-graduação, Ensino básico, sociedade. Não podemos nos silenciar diante disso. Que nós da comunidade acadêmica estejamos todos nesse enfrentamento, pensando estratégias de ampliarmos esse debate junto à população.

Antônio Augusto Videira

Camila Jourdan

Edgar Marques

Fabiano Lemos

Ivair Coelho

Izabela Bocayuva

James Arêas

Karla Chediak

Marcelo Araújo

Marcia Amaral

Marcia Gonçalves

Marco Antônio Casanova

Marcos Gleizer

Maria Helena Lisboa

Maria Inês Anachoreta

Marly Bulcão

Noéli Ramme

Paulo Gil

Regina Schoepke

Ricardo Barbosa

Rosa Dias

Tito Marques

Vera Portocarrero

 

Disponível em: UERJRESISTE

 

ANPOF 2017-2018

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