Carta aberta dos professores abaixo-assinados do Departamento de Filosofia da UnB em apoio ao professor Luís Felipe Miguel – IPOL UnB

Nós, filósofos, docentes e pesquisadores da Universidade de Brasília viemos a público manifestar constrangimento e indignação pela atitude autoritária e abusiva do atual Ministro da Educação, ao procurar intimidar judicialmente um professor universitário apenas por oferecer um curso sobre um dos temas mais relevantes do país no momento. A qualquer um que abra a janela de sua casa, fica patente a estranha situação que vive o Brasil: enquanto a constituição é preservada à letra, o estado de direito se desmilingue a olhos vistos desde 2016, por meio de uma espiral de perdas de direitos e de violações às liberdades e garantias que julgávamos asseguradas pela constituição de 1988. O tema do golpe de 2016 procura precisamente analisar como é possível este descompasso entre o estado de direito e a letra da lei. Nada mais propício e conveniente ao momento do que procurar pensar como é possível que ditaduras constitucionais se estabeleçam; pensá-lo do ponto de vista da história do país, da natureza das instituições e das atitudes tomadas por agentes parlamentares, judiciais e da mídia nos últimos anos.

Assim, expressamos nossa completa e irrestrita solidariedade ao Professor Luís Felipe Miguel, docente do Instituto de Ciência Política desta Universidade, que está sendo atacado pelo Ministério da Educação e pela mídia pelo simples motivo de procurar pensar aquilo que é urgente. O ataque não é apenas ao professor Luís Felipe, mas à liberdade de pensamento, de investigação e de exame dos temas que são cruciais no delicado momento que vive o Brasil.

Lamentamos profundamente que a UnB esteja sendo vítima mais uma vez de autoritarismo e precisamente em sua liberdade de cátedra. Um impedimento ao curso de Luis Felipe Miguel, de qualquer natureza que seja, mostrará ainda mais claramente que vivemos sob um regime de força e constrangimento, sob um governo autoritário que não zela por garantir os espaços de pensamento – que são espaços de liberdade – ainda tão escassos neste país. 

Da violência coercitiva ao espaço universitário, cujos excessos e violações de direitos flagrantes já foram noticiados, passamos agora à coerção da própria ciência, quando um Ministro vem a público questionar a legitimidade de uma investigação científica. Nós, do Departamento de filosofia, queremos propor não só o irrestrito apoio ao docente, mas também dar continuidade a sua perplexidade investigativa, com uma pauta de debates continuados e mesmo com a criação, no âmbito da filosofia política, de uma disciplina para investigar, de outro ponto de vista e por outros métodos, o golpe de 2016.


Subescrevem esta carta:

Alex Calheiros de Moura

Alexandre Costa-Leite

Alexandre Hahn

Ana Miriam Wuensch

André Leclerc

André Luiz Muniz Garcia

Cláudio Reis

Erick Calheiros de Lima

Ericka Itokazu

Gilberto Tedéia

Herivelto Pereira de Sousa

Hilan Nissior Bensusan

Marcos Aurélio Fernandes

Maria Cecília Pedreira de Almeida

Pedro Ergnaldo Gontijo

Priscila Rossinetti Rufinoni

Raquel Imanishi Rodrigues

Rocco Lacorte

Rogério Basali

Wanderson Flor do Nascimento

Tags: NOTAS

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