Nota sobre entrevista concedida por António Coutinho à Folha de São Paulo

Em recente entrevista à Folha de São Paulo (2 de junho de 2018), António Coutinho, médico imunologista português, diretor do Instituto Gulbenkian de Ciência afirmou que a filosofia estava fadada a desaparecer, pois não progredia (como as ciências naturais , por exemplo). Espantamo-nos com essa comparação e mais ainda com a desnecessária confrontação, como se para que uma pudesse crescer, a outra tivesse de diminuir. Comparar ciência com filosofia e usar o progresso como critério para avaliar a sobrevivência ou não de uma disciplina é, no mínimo, uma enorme simplificação. Filosofia não é ciência nem tem a pretensão de ser. Ela reflete e problematiza o conhecimento, as relações políticas, a própria ciência, os limites éticos e morais, o sentido da beleza. Enquanto tivermos disposição crítica e dialógica, haverá filosofia. A filosofia só está ameaçada quando se instala um regime autoritário que impede o livre pensamento.  Parece -nos bastante sintomático que a filosofia seja alvo de ataques nesse exato momento em que assistimos a um recrudescimento do conservadorismo político, num momento de crise econômica, política e institucional . A filosofia não é ciência, nem pretende ser, não está preocupada com o “progresso“ em sentido linear, mas sim com o avanço da capacidade de crítica, de compreensão da complexidade e contradição das relações sociais e políticas, dentre outros assuntos fundamentais.

ANPOF 2017/2018




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