Nota de esclarecimento à comunidade filosófica

Paulo Margutti

Graças à indicação de Ricardo Vélez-Rodríguez para ocupar o cargo de Ministro de Educação no governo de Jair Bolsonaro, foi ressuscitado um antigo texto dele de 2009, intitulado Quem tem medo da filosofia brasileira? Nesse texto, ele defende uma teoria conspiratória segundo a qual os antigos ativistas da Ação Popular Marxista-Leninista, sob a proteção do Pe. Vaz, teriam recebido das mãos do general Rubem Ludwig a diretoria dos conselhos da Capes e do CNPq na área de filosofia em troca do abandono da luta armada. Com isso, a direita teria sido excluída dos favores oficiais desde o período militar até os dias de hoje, principalmente em virtude do patrulhamento ideológico exercido pelos ativistas de esquerda, que passaram a dominar a Capes e o CNPq. Isso tudo teria contribuído para um estranho fenômeno de colonialismo cultural, em que todo interesse pelo estudo do pensamento brasileiro ou pela consolidação de uma filosofia nacional teria sido progressivamente extinto.

Mas, segundo Vélez-Rodríguez, a retaliação dos burocratas de esquerda contra os estudiosos da filosofia brasileira não teria conseguido desestimular as novas gerações, que continuaram firmes em seu propósito. Para ilustrar essa afirmação, ele cita cinco iniciativas que teriam sobrevivido a essa retaliação. Entre elas, consta o que ele denominou “Núcleo de Estudos de Filosofia Brasileira da UFMG”, também ligado à Faculdade Jesuíta de Filosofia. Na verdade, trata-se do Grupo de Estudos de Filosofia do Brasil (Grupo Fibra), que começou a atuar na UFMG sob minha coordenação em 2001 e, depois de minha aposentadoria nessa instituição, passou a atuar na FAJE, também sob minha coordenação até os dias de hoje.

Ora, no contexto da exposição de Vélez-Rodríguez, pode ficar parecendo não apenas que eu concordo com a teoria conspiratória por ele apresentada, mas também que organizei o Grupo Fibra em resposta à tentativa de retaliação dos burocratas de esquerda contra os estudiosos da filosofia brasileira. Isso definitivamente não é verdade, em virtude dos motivos que seguem abaixo.

Primeiramente, não encontro em lugar algum evidência que possa comprovar a teoria proposta. Não consigo sequer imaginar que o general Rubem Ludwig, ocupando o cargo de Ministro da Educação entre 1980 e 1982, num regime militar autoritário todo poderoso, estivesse tão temeroso do poder de resistência de um suposto perigoso grupo de discípulos do Pe. Vaz a ponto de oferecer-lhes a Capes e o CNPq em troca do abandono da luta armada, principalmente porque a guerrilha já tinha sido derrotada no país desde 1975. Não consigo também imaginar que o Pe. Vaz, de quem fui aluno e de quem guardo saudosa e respeitosa memória, pudesse prestar-se a patrocinar uma manobra política desse naipe. Além disso, ele foi apenas o mentor da Ação Popular, nunca o líder da facção Marxista Leninista, surgida posteriormente em virtude de divergências ideológicas internas. Parece-me que a teoria conspiratória acima é obra de um pensamento desejoso, que procura explicar ideologicamente um fenômeno que tem causa bem mais simples: o comando da Capes e do CNPq na área de filosofia foi conquistado com base em excelência acadêmica e não em acordos políticos escusos.

Em segundo lugar, o Grupo Fibra e eu mesmo constituímos um contraexemplo à teoria conspiratória de Vélez-Rodríguez. Afinal de contas, durante muitos anos o meu projeto de pesquisa sobre filosofia brasileira foi apoiado pelo CNPq, sem qualquer restrição quanto ao assunto tratado. Esse apoio só terminou quando eu mesmo decidi não reapresentar meu projeto de pesquisa, abrindo vaga para algum pesquisador mais jovem e merecedor do mesmo tipo de estímulo que recebi por tantos anos. Se a filosofia brasileira estivesse sob a mira dos esquerdistas, como afirma Vélez-Rodríguez, isso não teria acontecido. Tal não é a situação nos dias de hoje, em que o futuro da CAPES e do CNPq se afigura sombrio, com os critérios de excelência acadêmica agora de fato ameaçados de substituição por uma visada ideológica.

Espero ter deixado claro que não compactuo nem com a teoria conspiratória de Vélez- Rodríguez nem com a ideia de que minha pesquisa em filosofia brasileira seja uma reação contra a retaliação dos militantes de esquerda às pesquisas nessa área. A única coisa que provavelmente temos em comum é o interesse pela filosofia brasileira e talvez esse seja o motivo por que fui incluído em sua lista. Mas a aproximação termina exatamente aí, pois sem dúvida nossos caminhos avançam em direções opostas. Como um dos 45 milhões de brasileiros que votaram contra o retrocesso que ameaça o país, sinto-me na obrigação de oferecer essa nota de esclarecimento à comunidade filosófica brasileira, para evitar qualquer mal entendido em relação a como vejo essa questão.

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