A Campanha pela Reinvenção da Filosofia Comunicado #1

Dr. Hilan Bensusan
Department of Philosophy
University of Brasilia

A filosofia é apresentada como a dignidade do pensamento.

Esta dignidade não se aprende lendo e comentando os mestres do pensamento – por mais dignos que seus pensamentos tenham sido – mas se aprende pensando. E requer a experiência de que pensar pede por vezes transgressões que nunca sabemos se são apenas deslizes ou desencaminhamentos monumentais. É que esta dignidade requer ousadia, coragem, aventura. Sim, a filosofia, antes de ser uma empreitada crítica, uma reverberação das boas ideias do passado ou uma criação de conceitos, é uma aventura. E uma aventura não é a narração de uma aventura distante, é antes uma jornada que começa onde se está. E para pensar conta com o que se têm, não pela falta de melhores começos, mas pela imanência dos pontos de partida – a filosofia começa de qualquer parte. Em particular, ela começa nos tempos, nos corpos e nas línguas que temos – já que começa com qualquer língua, com qualquer corpo, em qualquer tempo mas começa onde o pensamento está. Por mais que o ponto de partida pareça precário, mambembe ou ilegítimo. Quando o ponto de partida parece assim, olhamos para o lado (ou para cima) e procuramos copiar o ponto de partida de outras partes fingindo que é nestas outras partes que nos encontramos. E assim perdemos a ousadia da partida.

A filosofia no mundo tem se mostrado apenas em lampejos à altura de seu vínculo com a aventura. Ela tem se enfurnado em tradições escolares, nas convenções da academia, nos corredores dos contratos sociais que tornam a agora mais rarefeita que as instituições constituídas. Ainda mais grave, ela orbita em torno de um cânone de homens brancos mortos. Por estarem mortos, eles muitas vezes estão fora do nosso tempo – ainda que é certo que muitos mortos são mais contemporâneos que muitos vivos. Por serem brancos, eles fazem com que os cursos de filosofia se pareçam a cursos de estudos europeus (e da diáspora européia). Como dizem os textos do movimento Why Is My Curriculum White?, a ideia pouco discutida de que a filosofia, discutivelmente tida como nascida na Grécia, só admite sotaques europeus é infame, sobretudo quando apresentada fora dos espaços majoritariamente brancos – e é certo que além de infame, é parte de um dispositivo colonial.  Por serem homens, eles tornam a filosofia hostil à recalcitrância das mulheres e dos não-homens e, ao mesmo tempo, elegem um cânone que exclui da aventura de pensar a maioria dos humanos que não tem a anatomia ou o destino esperado. A vitória do cânone masculino é a derrota de vivas e mortas, brancas e não-brancas. E além disso é a vitória de uma agenda patriarcal tácita.

A filosofia, ainda admitindo exceções, insiste: homens, brancos, mortos. Mas algumas de nós somos corajosas.  E, no entanto, vale a pena lutar nos departamentos de filosofia, pelas escolas de filosofia, no cânone da filosofia, pela insígnia ´filosofia´? Não seria melhor começar outra coisa – um departamento de aventura contemporânea por exemplo?

Difícil questão. Antes ainda de tentar encará-la, ainda vale a pena olhar para a filosofia tal como ela é feita aqui. Além da distância que ela toma em toda parte de seu compromisso com a aventura e com a dignidade do pensamento, em lugares periféricos como o Brasil, ela ainda é refém de umideário (e uma prática) de busca da subalternidade privilegiada. (No Brasil, podemos chamar este ideário e esta prática de Tucanismo Filosófico uma vez que o PSDB tem como programa dar ao Brasil o estatuto de privilégio na subalternidade.) Assim,  a filosofia se torna uma dança de livros e teses ao redor de um panteão de homens brancos mortos da metrópole – uma espécie de lambida de bota permanente e incontestada. Sem levar a sério a urgência da decolonização do pensamento, os esforços filosóficos em terras ciclicamente recolonizadas parecem propositadamente menores. E no entanto, esta minoridade se impõe com a força das autoridades constituídas. A subserviência tem lugar com a força do hábito e se apoia na imagem de que se trata de um fato da vida: como diagnostica Julio Cabrera de forma concisa, “eles vêm aqui e falam do problema deles na língua deles, nós vamos lá e falamos do problema deles na língua deles”. Ou então, subalternidade menos privilegiada, ficamos por aqui traduzindo o problema e a solução deles para a nossa língua.

É certo que a filosofia tem história – mais certo ainda é que tem muitas histórias. É certo que o passado é protagonista de muitos de seus movimentos e também é certo que o passado é vítima de muitos dos seus apagamentos. Dizia Walter Benjamin que nem os mortos ficam em segurança se o inimigo vencer. A vitória colonial na filosofia neste país é uma vitória de terra arrasada. E aprendemos que a filosofia não apenas tem uma relação com os arquivos, mas é pouco mais do que a manutenção de certos arquivos em detrimento dos outros. Uma espécie de curadoria colonial dos arquivos do mestre. (E, como se surpreendem os europeus que se assustam eles mesmos com a intensidade da colonização no Brasil se nem sequer há ali excelentes bibliotecas!)

Sem ousadia, sem dignidade, sem viço e colonizada, a filosofia se torna por aqui um arremedo de si mesma. Este estado de coisas, contudo, nem sequer é reconhecido mas é sistematicamente dissimulado pela maioria dos departamentos e das histórias canónicas. Ao invés de olhar para a filosofia como em estado embrionário – e parece que para ser o que é ela sempre tem que ser um tanto embrião e pertencer à categoria do Noch-Nicht-Sein de Ernest Bloch – as instituições a tratam como se seu destino arquivológico estivesse já alcançado. O projeto da filosofia no Brasil está completamente realizado – é a execução de um domínio de subalternidade privilegiada. Mas algumas de nós somos corajosas.

Para agir com coragem, talvez valha a sugestão de Georges Bataille: estar à altura do universo e não nos limitar ao conhecimento estabelecido. Não faltam intentos de estar à altura do universo e à margem do que foi consolidado pela história epistêmica dos vencedores.

De Brasília, podemos pensar no Manifesto de sua Escola que entende que a filosofia “tem esse ar de desbravamento, o ar daquilo que ainda não tem contornos porque não foi ainda pensado com todas as letras. A filosofia é um amontoado de problemas, causas, aporias, perplexidades, desequilíbrios, atritos, situações-limites, especulações, tormentas e espantos que ainda não têm endereço certo”. Porém a Escola de Brasília declara que não existe. Talvez tenha se recolhido à única sombra diante do sol escaldante do apagamento: a sombra do que já nunca existiu. 1 Talvez não possa existir uma escola que se pretende situada, autoral, inspirada pela petulância em um ambiente não apenas academicamente estéril e existencialmente colonizado. Algumas de nós somos corajosas. (Da coragem de preferir a não-existência.)

A filosofia em sua era recente se esforçou por ser adequada aos regimes do que já foi pensado pelas instituições do momento – e a filosofia nas periferias do mundo é mantida para ser um posto avançado e um altar ao que se faz como filosofia alhures nos centros do mundo. Uma situação tacanha para a dignidade do pensamento.

O que fazer? Abandonar o projeto e criar um departamento de aventura paralela? Talvez esta aventura paralela seja um departamento ativista da arte contemporânea. Talvez ela seja uma grandepensão onde fragmentos de pensamento em diferentes formas, com diferentes sotaques, em diferentes contextos, com diferentes agendas podem se abrigar apenas porque ousam. Há no genuíno senso de aventura uma distinção entre a ousadia por ela mesma e aquela que carrega uma ruptura do estabelecido, uma abertura de picada – ainda que seja um começo avesso a prosseguimento. Há a intrepidez que apenas se testa e aquela que se distancia do estabelecido e procura pensar o impensável. É que o próprio pensamento está em jogo quando a sua dignidade é invocada. O próprio pensamento está em jogo quando adiciona-se a ele uma aventura. O pensamento ronda o incompleto; quando persegue totalidade faz porque o ponto final sempre está à sua frente, jamais a suas costas. A aventura paralela que é preciso inventar é uma aventura que abra o terreno para outras aventuras, que espere o intrépido e fique curiosa para conviver com ele. A aventura paralela que é preciso inventar é a dignidade que não é aquela da autoridade.

A Campanha pela Reinvenção da Filosofia é uma birra pelo termo “filosofia”. Uma birra para arrancá-la das mãos dos guardiões do panteão dos homens brancos mortos e da tropa de choque da subalternidade. É preciso manter a palavra? A Campanha defende que sim, ela tenta lutar para que a filosofia possa ser a dignidade do pensamento e não um sinónimo do pensamento que prevalesce ou das diatribes de um seleto e canónico grupo de ideólogos da colonialidade com estratégicas exceções. Tampouco quer a Campanha uma filosofia reinventada que precise ser temperada pelos Estudos Africanos, pelos Estudos Kaiowá, pelos Estudos Não-Binários, pelos Estudos Pobres, pelos Estudos Não-Humanos. A filosofia que a Campanha reinventa não é alheia a nada disso, ela habita no bojo destes Estudos. Se ela não for mais uma virtude branca herdada das línguas europeias, patriarcal e cisgênera, ela vai assombrar os grotões, vai buscar seus hóspedes nas quebradas da ordem subjetiva. A aposta é que ela possa ser uma arte contemporânea do desencaminhamento. E uma arte sem destino certo.

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1- O Manifesto da escola foi lido em público pela primeira vez na Fundação Darcy Ribeiro em maio de 2013; o texto se encontra na rede, basta um google. Para uma análise do programa institucional da filosofia no Brasil em contraste com o manifesto da Escola ver Cabrera, J. “O projeto institucional da filosofia no Brasil e a inexistente Escola de Brasília”, Revista Sísifo, número 8, 2018, pp. 1-36.

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