ESTÉTICAS INDÍGENAS - Livro do III Colóquio de Estética da FAFIL UFG

ESTETICA

Poderíamos iniciar esta apresentação evocando o título do livro de Didi-Huberman que remete ao paradoxo “o que nós vemos, o que nos olha”, para discorrer sobre a escolha do nome do evento do qual resulta a presente publicação. O paradoxo é exemplar para explicar o sentido de estética – e seus desdobramentos – que buscamos na concepção inicial do evento e que discutiremos nesse pequeno introito.

Em agosto de 2018, a organização do III Colóquio de Estética da Faculdade de Filosofia (FAFIL) da Universidade Federal de Goiás (UFG) elegeu por tema as estéticas indígenas, criando uma parceria com o Núcleo Intercultural de Educação Indígena Takinahaky da Universidade Federal de Goiás, com o Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS), com a Galeria da Faculdade de Artes Visuais (FAV) da UFG e com o Cine-UFG. Inicialmente, o III Colóquio foi intitulado Estética Indígena, no singular. Entretanto, durante o percurso, do projeto à realização, ele ganhou uma pluralidade de sentidos e os devidos “esses” foram acrescentados, tornando-se: Estéticas Indígenas.

A palavra “estética” que, como sabemos, vem do grego aisthesis, e que inicialmente era entendida como “sensação” ou “percepção pelos sentidos”, possui uma gama maior de significados e um, particularmente, mais utilizado: aquele que na ordem do dia-a-dia entende-se por “forma”, “aparência”, acrescida por determinada ideia de beleza, que diz respeito à ordenação, simetria, proporção e composição organizada de modo a causar um bem estar a quem a vê: a “bela aparência”. Embora este seja um entendimento bastante trivial da palavra, ele está como que inscrito na mente das pessoas de maneira imediata. Ouvimos e lemos certas junções da palavra: “estética visual”, “estética do texto”, “estética do corpo, da face, dos dentes, do cabelo”, entre outras. Algumas vezes, “estética” serve para expressar “estilo”, como se soasse mais erudito dizer a “estética renascentista” do que o “estilo renascentista” ou qualquer outro estilo, como se estilo fosse pouco para nomear tal grandeza e engenho. Entre a pompa e o trivial, a palavra é escolhida e dita com um ar de propriedade intelectual que resume uma série de funções a muitas léguas de distância do seu significado original.

No século XVIII, em plena onda empirista, e no momento de fortalecimento do common sense, o sentido antigo da palavra reaparece envolto em questões epistemológicas, no cerne da disputa pela indicação das fontes do conhecimento. A aisthesis retoma o rumo via um sentido físico que se desdobra: do paladar físico ao gosto “mental”. Ganha o estatuto de “ciência do belo”, forçosamente assim nomeada, pois não se acredita muito nela como uma ciência, pois esta sempre foi necessariamente definida pelo caráter de sua universalidade e objetividade. À Estética cabe o particular e a subjetividade, mas é-lhe permitido sublimar esses limites quando – via a expressão do juízo que passa a acompanhar o que é estético – pode tornar-se um “senso comum estético”. A grandeza que lhe é aferida torna-a cada vez mais significativa na Filosofia dos séculos XVIII ao XIX, elevada à função de reunir, em determinado grau, “matéria e espírito”, “sujeito e objeto”, “conteúdo e forma”, sem nunca deixar de ser a expressão da subjetividade que almeja ser universal. Essa magnitude e potência de sentido da palavra repercutiram até a ela oporem-lhe a subjetividade criativa ou criadora do gênio, essa brotação espontânea da natureza. A ênfase é ora dada à “criatividade” em contrapartida às inúmeras páginas de debate sobre a “recepção” da obra de arte que teria embasbacado os ditos filósofos iluministas ao refletirem sobre a capacidade de julgar da  nova classe, formada pelos espectadores da burguesia em ascensão. Em outros termos: o refinamento do gosto, a educação dos sentidos, os sentidos além dos sentidos físicos, a sensibilidade, o prazer regrado, sem esquecermos a doce melancolia.

Como associar tal palavra que historicamente e cotidianamente nada mais ecoa do que uma multidão de significados, implementada por um código de uso pseudo erudito ou erudito, em sentido teoricamente aprimorado, aos povos indígenas no Brasil?

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