Por um Ponto de Vista Prático-Poiético, Produtivo, Nosso, em Filosofia (aqui em diálogo crítico-reconstrutivo com Marx)

José Crisóstomo de Souza

 

Apresentação

Na Coluna Anpof, em dezembro de 2016, nos começos da gestão da atual diretoria, encabeçada por Adriano Correia, iniciou-se uma rodada de discussões sobre o reconhecimento e a formulação do desafio de fazer filosofia no Brasil, desafio que talvez para alguns nem se ponha, instada por uma provocadora declaração da diretoria anterior, encabeçada por Marcelo Carvalho, sobre uma nova fase para a comunidade filosófica brasileira, de amadurecimento e autonomia. (1) Foram vários os colegas que se agregaram à discussão proposta, como Julio Cabrera e Vladimir Safatle, Carla Rodrigues e Renato Noguera, Hadock-Lobo e Renato Janine, Ivan Domingues e Paulo Margutti (em entrevista), à qual somou-se – ora, viva! - a apresentação de algumas expressões realizadas de “filosofia autoral” brasileira, como em particular Giannotti (entrevista), Oswaldo Porchat e Mangabeira Unger. O que se segue é uma formulação minha, nessa última linha, tendo em vista que o que seria mesmo isso, fazer filosofia no Brasil, nas variadas feições que pode assumir, permanece tanto mais nebuloso e inatingível quanto menos for tentativamente levado à prática. Trata-se, portanto, de um ensaio e um convite aos colegas, para que sobre esse tipo de contribuição também se desenvolva uma discussão – agora de filosofia mesmo, não apenas sobre ela. Hic Rhodus, hic salta!

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Proposta de Trabalho da Coordenação de Área da Filosofia: Avaliação CAPES Quadriênio 2018-22

Nythamar de Oliveira (PUCRS), Coordenador de Área
Marcia Zebina (UFG), Coordenadora Adjunta
Evanildo Costeski (UFC), Coordenador de Programas Profissionais

 

Antes de mais nada, gostaríamos de manifestar o nosso agradecimento às colegas e aos colegas que apoiaram as nossas candidaturas e à toda comunidade filosófica que será agora por nós representada nesses processos avaliativos junto à CAPES. Em particular, gostaríamos de agradecer aos Professores Vinicius Figueiredo, Edgar Marques e Telma Birchal pelo excelente trabalho realizado durante o último quadriênio, ressaltando a sua interlocução pública com os Coordenadores de PPGs e membros da comunidade filosófica, particularmente pelos debates em parceria com a ANPOF visando o aprimoramento da avaliação em nossa área, como atestam as inúmeras e instigantes discussões publicizadas nesse Portal e nas mídias sociais. Agradecemos igualmente o Professor Adriano Correia e a Diretoria da ANPOF pelo espírito republicano de transparência, de publicidade e de reconhecimento mútuo que tem fomentado as interativas interlocuções entre os mais variados grupos, áreas e estilos filosóficos da nossa dinâmica comunidade, sempre promovendo o diálogo, a diversidade e a representatividade em nosso meio. Este será, de resto, o espírito de corpo que esperamos fomentar entre a Coordenação de Área e os coordenadores e representantes de nossos Programas de Pós-Graduação.

Cabe-nos relembrar aqui que a Avaliação do Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG) tem sido desenvolvida pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) desde 1998 de forma a assegurar o envolvimento e a participação cada vez mais inclusiva e representativa da nossa comunidade acadêmico-científica por meio de consultores ad hoc e dos representantes da Coordenação de Área da Filosofia. Sabemos todos que a Coordenação de Área deve fazer um trabalho de mediação entre uma agência do governo federal como a CAPES e instituições de ensinos superior públicas e não-públicas, particularmente com os seus respectivos PPGs em Filosofia. Portanto, colocamo-nos à disposição dos colegas para implementarmos, da melhor forma deliberativa, consultiva e participativa, as medidas e os dispositvos que melhor atendam aos interesses e demandas da nossa área.

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10 (Anti-) Teses sobre a filosofia brasileira

 
Prof. Dr. Henry Martin Burnett Junior (UNIFESP)
 
Com quantos quilos de medo se faz uma tradição?
(Tom Zé, “Senhor cidadão”)

1

“Há infinitas carreiras diante de ti”, diz o providencial pai ao filho em vias de entrar na maioridade. (1) O ano é 1881, em pleno Brasil Império, mas já respirando os ares da transição para o que viria a se chamar um dia República Federativa do Brasil. A se acreditar no romancista ou em sua refinada ironia, ainda não havia àquela altura nada parecido com um pensamento original brasileiro, pois, como diz Machado de Assis, “não há por ora a força necessária à invenção de doutrinas novas”; (2) ao que John Gledson acrescenta: “A consequência lógica é a cópia – em certo sentido, quanto mais descarada melhor, pelo menos para o nosso satirista. O imitador, ou até mesmo o plagiário, vira símbolo nacional: paradoxalmente, o medalhão torna-se um ‘original’”. (3) Mais de cem anos depois, releio este conto à luz de um tema dos mais incômodos, que vira e mexe retorna ao nosso debate acadêmico: a assim chamada “filosofia brasileira”. Por trás de ricas discussões, antigas ou recentes, sóbrias ou exaltadas, uma questão central dá o tom: existe, pode vir a existir ou já existiu um pensamento filosófico brasileiro? A tensão positiva entre os pares guarda a resposta nas entrelinhas da discussão – já que o debate é uma necessidade desde sempre –: não, não existe uma filosofia brasileira, caso contrário não se perguntaria tanto por ela. Então, copistas são o que de mais original conseguimos produzir nessa área?

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Porchat e Abraham Lincoln

Harvey Brown 
Wolfson College, Universidade de Oxford
Membro de Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência, e do Departamento de
Filosofia da UNICAMP de 1978 a 1984.
 

Porchat deve ter se perguntado no que ele próprio tinha se metido. Ele me encontrou pela primeira vez no final de 1978 no dia em que me levou de Campinas para a UNICAMP para me apresentar o campus e meu novo escritório. Ele viu um homem alto, magricela e recém doutorado em Londres, o qual antes de pisar no Brasil tinha somente a mais vaga noção da diferença entre Brasil e Argentina e, dentro do Brasil, entre Campinas e Manaus, e que mal falava umas poucas palavras em português. Esse homem de olhos grandes, 28 anos de idade, de cabelos ruivos indomáveis e que se revelou mais jovem do que alguns de seus alunos, deveria dar um curso de pós-graduação em português em cinco meses. Se tinha alguma ansiedade sobre o novo recruta da UNICAMP, Porchat não o demonstrou.

Eu me perguntei no que eu mesmo tinha me metido. Fiquei impressionado com a aparência inusitada de um homem de boa constituição, perdendo os cabelos, com um amplo sorriso, alguma coisa parecida com uma barba no estilo do Abraham Lincoln e de óculos grandes e grossos como o fundo de uma garrafa de Coca-Cola. A gentileza e a bonomia de Porchat eram óbvias desde o princípio. Mas, depois de ter me levado ao banco no campus e de termos voltado a seu carro, ele parecia perplexo. Era esse o seu carro, ele se perguntava, ou ele tinha entrado sem querer no carro de outra pessoa? Demorou alguns minutos para decidir que esse era o seu carro. Fui acometido por uma sensação tênue de ansiedade. Esse homem atrapalhado seria o meu chefe!

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Porchat, a lógica e a verdade: Homenagem ao professor Oswaldo Porchat

Eduardo Barrio (UBA, Argentina)

 

Não me lembro exatamente da data em que conheci o querido Oswaldo Porchat. Eu sei que o privilégio de tê-lo conhecido e de ter trocado ideias filosóficas com ele deveu-se ao nosso amigo comum Plínio. Naquela época, e hoje pode parecer difícil de entender, os laços entre as comunidades filosóficas do Brasil e da Argentina não eram muito fortes. Como é habitual em nossos países, voltamos os olhares e a atenção filosófica quase que exclusivamente para a Europa ou para os EUA. Talvez também a barreira linguística tenha colaborado. Em qualquer caso, Porchat é uma figura fundamental nessa integração. Sem ele, a estrada percorrida teria sido completamente diferente.

Para aqueles de nós que conhecemos Porchat, é fácil lembrar sua paixão pela discussão filosófica e pela formação de comunidades de discussão como uma das suas principais características. O projeto de lançar as bases para construir uma grande comunidade filosófica brasileiro-argentina foi algo que o impactou desde o início. Juntamente com Ezequiel de Olaso e pensando sobretudo nos jovens e no futuro, ele trabalhou incansavelmente no projeto de criar algo que não existia. Há pessoas que têm a capacidade de antecipar o que está por vir e Porchat foi uma delas. Ele viu o que agora faz parte do nosso cotidiano: inúmeros colóquios, encontros, congressos, projetos, convites, discussões e trocas entre nós. E, claro, ele não ficou nessa visão: ele contribuiu decisivamente para fazer tudo isso acontecer.

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Os Programas Profissionais e a Formação dos Professores de Filosofia

Evanildo Costeski (1)

Os Programas Profissionais constituem uma das principais mudanças da Capes neste início do século XXI. Quando se fala em programas profissionais, surge a inevitável pergunta: qual seria a diferença em relação aos programas acadêmicos? Uma resposta foi dada por Renato Janine Ribeiro ainda em 2005, quando Diretor de Avaliação da Capes:

A principal diferença entre o mestrado acadêmico (MA) e o mestrado profissional (MP) é o produto, isto é, o resultado almejado. No MA, pretende-se pela imersão na pesquisa formar, a longo prazo, um pesquisador. No MP, também deve ocorrer a imersão na pesquisa, mas o objetivo é formar alguém que, no mundo profissional externo à academia, saiba localizar, reconhecer, identificar e, sobretudo, utilizar a pesquisa de modo a agregar valor a suas atividades, sejam essas de interesse mais pessoal ou mais social. Com tais características, o MP aponta para uma clara diferença no perfil do candidato a esse mestrado e do candidato ao mestrado acadêmico. (2)

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Filosofia, ciência e método na revolução teórica de Marx

João Quartim de Moraes (Unicamp)

“[...] minhas ideias, qualquer que seja o juízo que mereçam, e por muito que se choquem com os preconceitos interesseiros das classes dominantes, são o fruto de longos anos de conscienciosa investigação. E à porta da ciência, como à porta do inferno, deveria estampar-se esta divisa:
Qui si convien lasciare ogni sospetto;
Ogni viltà convien che qui sia morta »

Não há grande questão de nosso tempo que não encontre no tesouro de ideias legado por Karl Marx recursos e subsídios teóricos para ser pensada em profundidade. Sua concepção de ciência, como a de Hegel, não efetua no saber teórico o recorte consagrado pela divisão institucionalizada do trabalho acadêmico, que cristaliza em domínios estanques e fragmentários as disciplinas integrantes da hoje chamada área das humanas (filosofia, ciências sociais, história) e relega a economia ao âmbito das técnicas mercadológicas. Marx recusa também a falsa objetividade dos empiristas: a ciência em geral e a economia política em particular não brotam diretamente da experiência imediata. Esta remete a objetos reais, mas parafraseando uma de suas fórmulas célebres, se a percepção de um objeto coincidisse com o conhecimento de sua natureza, não precisaríamos de ciência. Por isso ele escreveu, no final do prefácio de Para a crítica da economia política: “À porta da ciência, como à porta do inferno”... Retomou a ideia, em tom mais sóbrio, no prefácio à primeira edição alemã de o Capital: “Todo começo é difícil, em qualquer ciência”.

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Um cético em busca da verdade

Michel Ghins
Professor Emérito da Universidade Católica de Louvain
Professor no Departamento de Filosofia da UNICAMP de 1983 a 1991
Membro do CLE desde 1993

Pegadas sobre a praia se apagam pouco a pouco à medida que se aproximam da linha branca e longínqua das ondas. O céu é rutilante, vermelho e claro ao mesmo tempo. Desse crepúsculo incandescente – ou seria da aurora? –, destaca-se, nítido, um nome: Oswaldo Porchat.

A capa de Rumo ao ceticismo oferece-nos uma viva evocação do itinerário filosófico de Porchat, partindo do “homem comum” ao qual ele se identifica inicialmente para progredir na via do conhecimento. Reside aí um paradoxo, pois ele era manifestamente dotado de qualidades humanas e intelectuais fora do comum? Sem dúvida, mas esse paradoxo é apenas aparente, pois o philósophos deve, em primeiro lugar, ter a sabedoria de reconhecer que ele é um homem semelhante aos demais, com suas crenças que lhe permitem orientar-se e agir na vida ordinária.

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O Sagitário da Filosofia Brasileira (sobre Oswaldo Porchat)

Prof. Dr. Marcelo Carvalho (UNIFESP)

 

A filosofia brasileira, sobretudo a paulista, por muito tempo pensou a si própria a partir do mito de que o trabalho rigoroso de leitura de texto, a leitura estrutural ensinada pelos franceses, era incompatível com a construção viva e atual da filosofia. Não é raro que se encontre a afirmação de que esse trabalho rigoroso sobre o texto estaria na origem de uma certa inapetência da filosofia (paulista!) para a polêmica aberta e para a elaboração sobre questões contemporâneas.

Os dois lados dessa suposta dicotomia foram apresentados a mim simultaneamente em 1989, no segundo ano de minha graduação. Ambos compunham a figura insólita de Oswaldo Porchat, ao mesmo tempo arauto do rigor na leitura dos textos (tradutor, com Ieda, do ensaio metodológico de V. Goldschmidt), e argumentador incansável sobre os mais diversos temas contemporâneos, autor de um projeto filosófico próprio, firmemente voltado a pensar a filosofia a partir de sua própria experiência. Tive a oportunidade de falar a Porchat sobre o impacto que teve sobre mim aquela dupla provocação, apresentada sem contradição, como dois lados de uma mesma moeda, duas partes da mesma aula. Porchat foi a maior influência em meus anos de formação. Suas aulas da graduação sobre ceticismo grego redirecionaram meus interesses e definiram minha maneira de trabalhar com filosofia. Aprendi, a partir daquele encontro, a me dedicar à estruturação minuciosa do que lia, a procurar o vento e o relevo interno ao texto, que determinava seu curso. Mas aprendi sobretudo a entrar de imediato em debate com esse mesmo texto, a apropriar-me dele e combatê-lo, a atualizá-lo e questioná-lo.

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Homenagem a Porchat - Uma amizade filosófica

Prof. Dr. Bento Prado Neto - UFSCar

 

Em primeiro lugar, eu gostaria de agradecer o convite para contribuir para essa homenagem a Oswaldo Porchat – é um enorme prazer, e uma honra. Tenho, creio eu, uma dupla qualificação para tanto: de um lado, sou aluno e orientando de Porchat, de outro, sou filho do Bento, que foi um interlocutor privilegiado de Porchat. Como aluno e orientando, eu poderia testemunhar a enorme lista de qualidades de Porchat: o professor incomparável (um tanto severo, mas sempre extremamente cordial), o professor que, sem abrir mão da mais aguçada fineza historiográfica, abre espaço para – ou antes exige – a reflexão pessoal (cobrando, além disso, dos alunos o máximo de coerência e clareza argumentativas); o orientador exemplar, o orientador que não dá trégua ao orientando, ao mesmo tempo em que o estimula a pensar por conta própria... A lista de qualidades seria longa e, como lista, como mera lista, seria fastidiosa - e, por ser longa, eu acabaria me esquecendo de algumas no entanto importantes. Meus colegas desta homenagem percorreram esses temas, ao mesmo tempo em que enfocaram as várias facetas de Oswaldo Porchat, facetas que vão muito além do trabalho de ensino e orientação (sua produção como historiador da filosofia, como filósofo, seu papel crucial na organização institucional do trabalho filosófico no Brasil, etc, etc). Vou me ater a um aspecto em que Porchat foi particularmente fundamental para a minha formação, mas que creio ser igualmente relevante para todos.

Refiro-me à amizade entre Porchat e Bento – enquanto “amizade filosófica”, como uma vez caracterizou o Plínio – amizade que acabou definindo um pouco para mim as feições que se deveria atribuir à atividade filosófica. Por me faltar engenho e arte, não vou procurar oferecer um retrato bem acabado dessa amizade (seria um prato cheio para um bom retratista, dada a sua riqueza, interesse e também seus lados divertidos); vou apenas evocar um traço, que me marcou especialmente.

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