Coluna ANPOF

COLUNA ANPOF

REDE DE SENTIDOS E CAMELOS DO ALCORÃO

Laurenio Sombra 1

Quando João Gilberto mostrou seu novo e sofisticado jeito de
tocar violão a Tom Jobim, pela primeira vez, Tom perguntou:
“o que é isso, João?”. “Tirei dos requebros das lavadeiras de
Juazeiro”, respondeu João Gilberto.

Já foi muito comentada a citação de Jorge Luís Borges, que reverberou Gibbon, segundo o qual não havia menção a camelos no Alcorão, dado aparentemente surpreendente pois camelos faziam parte ativa da paisagem descrita pelo livro sagrado dos islâmicos. Exatamente por isso, dizia Borges. Não precisamos mencionar aspectos de uma paisagem que já nos pertence, que não exige de nós que voltemos a falar dela. Quando se escreve sobre algo que se quer destacar, mas que não se vive, esta descrição vem recheada de exotismos desnecessários a um habitante local. Alguém que quer forjar um mundo árabe que não habita provavelmente o salpicaria de camelos, beduínos e oásis a cada página. Borges, com isso, rejeitava discussões fáceis sobre uma “identidade argentina” e tentativas forçadas de adotá-la. Gostaria de usar esta metáfora como base para descrever um pouco do conceito que desenvolvi e batizei de rede de sentidos. Fiquemos, por enquanto com esta contraposição entre “camelos implícitos”, como no Alcorão, e “camelos salpicados”, aqueles que são inseridos exoticamente.

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Notas sobre “A filosofia como coisa civil”

Ivan Domingues (UFMG)

Estas notas estão sendo publicadas por insistência amiga de José Crisóstomo de Souza. O contexto são missivas pessoais, donde o tom coloquial, o qual decidi manter nos trabalhos de revisão para dar à correspondência particular o formato de algo impessoal a ser publicado, visando atingir uma ampla audiência, como o da Homepage da Anpof. O título se reporta a um capítulo do colega da UFBA intitulado “A filosofia como coisa civil (numa perspectiva histórica ad hoc)”, vindo a lume antes como livro e republicado numa obra maior, com outras contribuições e tendo ele próprio como organizador, A filosofia entre nós. Ijuí: UNIJUÍ, 2005.
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Gostei muito do livro A filosofia entre nós, cuja leitura terminei na última semana.

Conforme disse ao autor, em mensagem pessoal, depois de ter vencido as primeiras páginas, eu muito lamentava o fato de só ter tomado conhecimento do livro 13 anos depois da publicação: foi em 2005 e estamos em 2018! Eu fiquei chocado, sobretudo depois de constatar que ele e eu temos uma entrada parecida em filosofia, o mesmo gosto pelas questões histórico-culturais e políticas, um feeling semelhante ao tratar as questões existenciais e sua relação com a filosofia, e a mesma preocupação com a agenda da filosofia no e do Brasil.

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POR UM KANTISMO PRAGMATISTA (EM CONTRAPONTO À PROPOSTA DE CRISÓSTOMO)

André Berten (1)

Gostaria de explicar, em contraponto à proposta de Crisóstomo, (2) por que eu sou um “kantiano pragmatista”. Não apenas por interesse acadêmico, nem para tomar partido teoricamente num debate metafísico ou epistemológico. Vou, antes, tentar explicitar por que minha posição filosófica é um engajamento a favor de uma democracia radical.

1. Como Jürgen Habermas — com quem compartilho várias teses —, eu defenderia um “quase-transcendentalismo”. Que significa isso? A Crítica da razão pura de Kant elabora as condições de possibilidade de todo conhecimento objetivo. Mas a epistemologia das ciências colocou em questão a ideia de objetividade como era pensada por Kant. No entanto, a démarche kantiana fica, grosso modo, válida. As intuições da sensibilidade e as categorias do entendimento são condições gerais não de um conhecimento objetivo, mas de nossa capacidade de lidar com o mundo. Portanto, vamos trocar a ideia teórica de conhecimento objetivo pela ideia prática de agir no mundo. Não posso agir sobre o mundo e me relacionar com os outros se não possuo as intuições do tempo e do espaço, e as categorias principalmente de identidade e de causalidade. Essas intuições e categorias são estruturas da mente humana, são as maneiras da mente humana relacionar-se com o mundo (e aliás provavelmente da mente dos animais, pelo menos dos animais superiores).

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Os Programas Profissionais e a Formação dos Professores de Filosofia

Evanildo Costeski (1)

Os Programas Profissionais constituem uma das principais mudanças da Capes neste início do século XXI. Quando se fala em programas profissionais, surge a inevitável pergunta: qual seria a diferença em relação aos programas acadêmicos? Uma resposta foi dada por Renato Janine Ribeiro ainda em 2005, quando Diretor de Avaliação da Capes:

A principal diferença entre o mestrado acadêmico (MA) e o mestrado profissional (MP) é o produto, isto é, o resultado almejado. No MA, pretende-se pela imersão na pesquisa formar, a longo prazo, um pesquisador. No MP, também deve ocorrer a imersão na pesquisa, mas o objetivo é formar alguém que, no mundo profissional externo à academia, saiba localizar, reconhecer, identificar e, sobretudo, utilizar a pesquisa de modo a agregar valor a suas atividades, sejam essas de interesse mais pessoal ou mais social. Com tais características, o MP aponta para uma clara diferença no perfil do candidato a esse mestrado e do candidato ao mestrado acadêmico. (2)

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Filosofia, ciência e método na revolução teórica de Marx

João Quartim de Moraes (Unicamp)

“[...] minhas ideias, qualquer que seja o juízo que mereçam, e por muito que se choquem com os preconceitos interesseiros das classes dominantes, são o fruto de longos anos de conscienciosa investigação. E à porta da ciência, como à porta do inferno, deveria estampar-se esta divisa:
Qui si convien lasciare ogni sospetto;
Ogni viltà convien che qui sia morta »

Não há grande questão de nosso tempo que não encontre no tesouro de ideias legado por Karl Marx recursos e subsídios teóricos para ser pensada em profundidade. Sua concepção de ciência, como a de Hegel, não efetua no saber teórico o recorte consagrado pela divisão institucionalizada do trabalho acadêmico, que cristaliza em domínios estanques e fragmentários as disciplinas integrantes da hoje chamada área das humanas (filosofia, ciências sociais, história) e relega a economia ao âmbito das técnicas mercadológicas. Marx recusa também a falsa objetividade dos empiristas: a ciência em geral e a economia política em particular não brotam diretamente da experiência imediata. Esta remete a objetos reais, mas parafraseando uma de suas fórmulas célebres, se a percepção de um objeto coincidisse com o conhecimento de sua natureza, não precisaríamos de ciência. Por isso ele escreveu, no final do prefácio de Para a crítica da economia política: “À porta da ciência, como à porta do inferno”... Retomou a ideia, em tom mais sóbrio, no prefácio à primeira edição alemã de o Capital: “Todo começo é difícil, em qualquer ciência”.

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BRUMADINHO E A URGÊNCIA DA RESPONSABILIDADE

Jelson Oliveira - 1

O acidente de Brumadinho é mais uma página trágica do modelo de desenvolvimento que vem sendo implantado no Brasil, sob as bravatas daqueles que consideram a parca e frágil legislação ambiental um obstáculo para o progresso. Esse modelo, que transformou a própria ideia de crescimento econômico em um conceito inquestionável, uma espécie de epíteto recomendatório, cresce amparado na exploração do trabalho humano (mal pago, indigno, escravo) e da natureza. Ao longo da história, tal desenvolvimento (no geral confundido apenas com o crescimento econômico) deixou de ser uma opção dos povos e passou ao plano de uma obrigação elementar e principal, uma espécie de direito a ser conquistado, embora nem sempre seus benefícios alcancem a todos – na verdade não seria exagero afirmar o contrário: ele vem dizimando a vida de espécies, promovendo a pauperização da biodiversidade e extinguindo inúmeras comunidades humanas tradicionais, principalmente indígenas e quilombolas.

Com tal processo, a modernidade fez do desenvolvimento um móvel ideológico poderoso e, principalmente, um instrumento de poder - o que significa também de dominação. Alargado ideologicamente, surgiu e se fortaleceu a crença paradoxal de que só o desenvolvimento poderia conduzir os diferentes povos e indivíduos à igualdade plena, ou seja, à completa realização de todas as suas potencialidades, à vida boa ou à felicidade. Nessa lógica, o crescimento da produção por meio da exploração exacerbada da natureza cujo instrumento é uma técnica cada vez mais intensa e mais agressiva se tornou a palavra de ordem nos projetos de governo.

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A Filosofia é Mais um Exercício do que um Conteúdo (1)

Ernst Tugendhat (2)

Participei de uma tentativa de discutir o problema de como ensinar filosofia, no encontro nacional da Anpof, em Caxambu, Minas Gerais, anos atrás. Eu havia tido uma experiência relativamente ruim com o ensino da filosofia na Universidade Federal de Goiás, em Goiânia, onde estive trabalhando por algum tempo. Meu amigo Prof. Adriano Naves (da UFG) achou que poderíamos falar sobre o assunto naquela Anpof, e meu amigo Prof. José Crisóstomo de Souza (da UFBA), que esteve presente participando da discussão, pensou que seria bom falar agora outra vez sobre isso, aqui na Bahia. Ele tem razão, porque é verdadeiramente um tema muito importante e que merece mesmo ser retomado. Não creio, porém, que eu seja tão sábio nessas coisas, nem tenho idéias, sobre esse assunto, que me satisfaçam inteiramente a mim mesmo. Estou aposentado faz nove anos, e antes disso me ocupei muito da reforma universitária da Alemanha - com pouco êxito, mas me ocupei. Bom, eu não devo falar muito; quero então começar com algumas coisas gerais, alguns princípios, e depois talvez dizer duas ou três coisas sobre a minha experiência.

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Por um Ponto de Vista Prático-Poiético, Produtivo, Nosso, em Filosofia (aqui em diálogo crítico-reconstrutivo com Marx)

José Crisóstomo de Souza

 

Apresentação

Na Coluna Anpof, em dezembro de 2016, nos começos da gestão da atual diretoria, encabeçada por Adriano Correia, iniciou-se uma rodada de discussões sobre o reconhecimento e a formulação do desafio de fazer filosofia no Brasil, desafio que talvez para alguns nem se ponha, instada por uma provocadora declaração da diretoria anterior, encabeçada por Marcelo Carvalho, sobre uma nova fase para a comunidade filosófica brasileira, de amadurecimento e autonomia. (1) Foram vários os colegas que se agregaram à discussão proposta, como Julio Cabrera e Vladimir Safatle, Carla Rodrigues e Renato Noguera, Hadock-Lobo e Renato Janine, Ivan Domingues e Paulo Margutti (em entrevista), à qual somou-se – ora, viva! - a apresentação de algumas expressões realizadas de “filosofia autoral” brasileira, como em particular Giannotti (entrevista), Oswaldo Porchat e Mangabeira Unger. O que se segue é uma formulação minha, nessa última linha, tendo em vista que o que seria mesmo isso, fazer filosofia no Brasil, nas variadas feições que pode assumir, permanece tanto mais nebuloso e inatingível quanto menos for tentativamente levado à prática. Trata-se, portanto, de um ensaio e um convite aos colegas, para que sobre esse tipo de contribuição também se desenvolva uma discussão – agora de filosofia mesmo, não apenas sobre ela. Hic Rhodus, hic salta!

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Proposta de Trabalho da Coordenação de Área da Filosofia: Avaliação CAPES Quadriênio 2018-22

Nythamar de Oliveira (PUCRS), Coordenador de Área
Marcia Zebina (UFG), Coordenadora Adjunta
Evanildo Costeski (UFC), Coordenador de Programas Profissionais

 

Antes de mais nada, gostaríamos de manifestar o nosso agradecimento às colegas e aos colegas que apoiaram as nossas candidaturas e à toda comunidade filosófica que será agora por nós representada nesses processos avaliativos junto à CAPES. Em particular, gostaríamos de agradecer aos Professores Vinicius Figueiredo, Edgar Marques e Telma Birchal pelo excelente trabalho realizado durante o último quadriênio, ressaltando a sua interlocução pública com os Coordenadores de PPGs e membros da comunidade filosófica, particularmente pelos debates em parceria com a ANPOF visando o aprimoramento da avaliação em nossa área, como atestam as inúmeras e instigantes discussões publicizadas nesse Portal e nas mídias sociais. Agradecemos igualmente o Professor Adriano Correia e a Diretoria da ANPOF pelo espírito republicano de transparência, de publicidade e de reconhecimento mútuo que tem fomentado as interativas interlocuções entre os mais variados grupos, áreas e estilos filosóficos da nossa dinâmica comunidade, sempre promovendo o diálogo, a diversidade e a representatividade em nosso meio. Este será, de resto, o espírito de corpo que esperamos fomentar entre a Coordenação de Área e os coordenadores e representantes de nossos Programas de Pós-Graduação.

Cabe-nos relembrar aqui que a Avaliação do Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG) tem sido desenvolvida pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) desde 1998 de forma a assegurar o envolvimento e a participação cada vez mais inclusiva e representativa da nossa comunidade acadêmico-científica por meio de consultores ad hoc e dos representantes da Coordenação de Área da Filosofia. Sabemos todos que a Coordenação de Área deve fazer um trabalho de mediação entre uma agência do governo federal como a CAPES e instituições de ensinos superior públicas e não-públicas, particularmente com os seus respectivos PPGs em Filosofia. Portanto, colocamo-nos à disposição dos colegas para implementarmos, da melhor forma deliberativa, consultiva e participativa, as medidas e os dispositvos que melhor atendam aos interesses e demandas da nossa área.

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10 (Anti-) Teses sobre a filosofia brasileira

 
Prof. Dr. Henry Martin Burnett Junior (UNIFESP)
 
Com quantos quilos de medo se faz uma tradição?
(Tom Zé, “Senhor cidadão”)

1

“Há infinitas carreiras diante de ti”, diz o providencial pai ao filho em vias de entrar na maioridade. (1) O ano é 1881, em pleno Brasil Império, mas já respirando os ares da transição para o que viria a se chamar um dia República Federativa do Brasil. A se acreditar no romancista ou em sua refinada ironia, ainda não havia àquela altura nada parecido com um pensamento original brasileiro, pois, como diz Machado de Assis, “não há por ora a força necessária à invenção de doutrinas novas”; (2) ao que John Gledson acrescenta: “A consequência lógica é a cópia – em certo sentido, quanto mais descarada melhor, pelo menos para o nosso satirista. O imitador, ou até mesmo o plagiário, vira símbolo nacional: paradoxalmente, o medalhão torna-se um ‘original’”. (3) Mais de cem anos depois, releio este conto à luz de um tema dos mais incômodos, que vira e mexe retorna ao nosso debate acadêmico: a assim chamada “filosofia brasileira”. Por trás de ricas discussões, antigas ou recentes, sóbrias ou exaltadas, uma questão central dá o tom: existe, pode vir a existir ou já existiu um pensamento filosófico brasileiro? A tensão positiva entre os pares guarda a resposta nas entrelinhas da discussão – já que o debate é uma necessidade desde sempre –: não, não existe uma filosofia brasileira, caso contrário não se perguntaria tanto por ela. Então, copistas são o que de mais original conseguimos produzir nessa área?

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