Coluna ANPOF

COLUNA ANPOF

O antifilósofo

Prof. Dr. Filipe Campello (1)

Certas ideias em destaque no Brasil de hoje deveriam provocar indignação não só naqueles com posições políticas de esquerda, mas em quaisquer simpatizantes da tradição liberal. Pois embora divirjam sobre vários assuntos, esses dois lados do espectro político possuem visões semelhantes sobre a defesa da dignidade humana, da liberdade de expressão ou da igualdade de gênero, por exemplo.

De modo similar, em assuntos como o aquecimento global, o efeito das vacinas na saúde humana e a forma do planeta Terra, ambos os lados preferem apoiar-se antes no consenso científico do que em exóticas teorias da conspiração. Isso acontece porque tais posições compartilhadas estão associadas ao próprio progresso moral e científico das sociedades modernas. Nada tem a ver com “marxismo cultural”.

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O ensino de Filosofia e a reforma educacional: o que fazer?

Prof. Dr. Christian Lindberg - UFS

A reforma do ensino médio compreende uma série de alterações no escopo legal do país que ocorreu nos últimos três anos. Pode-se considerar, além da lei nº 13.415/2017, a Base Nacional Comum Curricular para o Ensino Médio (BNCC/EM), as Diretrizes Curriculares Nacional para o Ensino Médio e a Educação Profissional (DCNEM), a emenda constitucional nº 95 (EC/95), a nova política para a avaliação do ensino médio e a proposta de Base Nacional Comum da Formação para o Professor da Educação Básica (BNC/Professor). Todas essas mudanças têm provocado uma série de dúvidas e apreensões na comunidade filosófica brasileira. Assim, apresento algumas ideias com o objetivo de auxiliar o debate que ocorrerá no decorrer de 2019.

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Columbine já se anuncia aqui. Evitemos Columbine enquanto há tempo

Valéria Cristina L. Wilke - Departamento de Filosofia

Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO

Columbine é certamente um dos paradigmáticos eventos violentos que marcaram a recente cultura norte-americana, uma vez que o massacre teve um planejamento cuidadoso durante meses, do qual fizeram parte a aquisição de armas de fogo e a de material para a produção de bombas caseiras e de propano; e os atiradores tornaram-se marca a ser copiada. Em 1999, dois estudantes transformaram a Columbine High Scholl, no Colorado, num palco de horrores e mataram doze colegas e um professor, além de ferirem outras pessoas, antes de se suicidarem. Filmes eternizaram a tragédia, dentre eles os premiados Tiros em Columbine, o documentário de Michael Moore/Michael Donovan, e Elephant, de Gus Van Sant.

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REDE DE SENTIDOS E CAMELOS DO ALCORÃO

Laurenio Sombra 1

Quando João Gilberto mostrou seu novo e sofisticado jeito de
tocar violão a Tom Jobim, pela primeira vez, Tom perguntou:
“o que é isso, João?”. “Tirei dos requebros das lavadeiras de
Juazeiro”, respondeu João Gilberto.

Já foi muito comentada a citação de Jorge Luís Borges, que reverberou Gibbon, segundo o qual não havia menção a camelos no Alcorão, dado aparentemente surpreendente pois camelos faziam parte ativa da paisagem descrita pelo livro sagrado dos islâmicos. Exatamente por isso, dizia Borges. Não precisamos mencionar aspectos de uma paisagem que já nos pertence, que não exige de nós que voltemos a falar dela. Quando se escreve sobre algo que se quer destacar, mas que não se vive, esta descrição vem recheada de exotismos desnecessários a um habitante local. Alguém que quer forjar um mundo árabe que não habita provavelmente o salpicaria de camelos, beduínos e oásis a cada página. Borges, com isso, rejeitava discussões fáceis sobre uma “identidade argentina” e tentativas forçadas de adotá-la. Gostaria de usar esta metáfora como base para descrever um pouco do conceito que desenvolvi e batizei de rede de sentidos. Fiquemos, por enquanto com esta contraposição entre “camelos implícitos”, como no Alcorão, e “camelos salpicados”, aqueles que são inseridos exoticamente.

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Notas sobre “A filosofia como coisa civil”

Ivan Domingues (UFMG)

Estas notas estão sendo publicadas por insistência amiga de José Crisóstomo de Souza. O contexto são missivas pessoais, donde o tom coloquial, o qual decidi manter nos trabalhos de revisão para dar à correspondência particular o formato de algo impessoal a ser publicado, visando atingir uma ampla audiência, como o da Homepage da Anpof. O título se reporta a um capítulo do colega da UFBA intitulado “A filosofia como coisa civil (numa perspectiva histórica ad hoc)”, vindo a lume antes como livro e republicado numa obra maior, com outras contribuições e tendo ele próprio como organizador, A filosofia entre nós. Ijuí: UNIJUÍ, 2005.
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Gostei muito do livro A filosofia entre nós, cuja leitura terminei na última semana.

Conforme disse ao autor, em mensagem pessoal, depois de ter vencido as primeiras páginas, eu muito lamentava o fato de só ter tomado conhecimento do livro 13 anos depois da publicação: foi em 2005 e estamos em 2018! Eu fiquei chocado, sobretudo depois de constatar que ele e eu temos uma entrada parecida em filosofia, o mesmo gosto pelas questões histórico-culturais e políticas, um feeling semelhante ao tratar as questões existenciais e sua relação com a filosofia, e a mesma preocupação com a agenda da filosofia no e do Brasil.

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O recrudescimento da obliteração da Filosofia diante de uma conjuntura reacionária (ou) sobre o papel constitucional de um governo que se supõe republicano num Estado democrático de direito

Prof. Dr. Jozivan Guedes
PPG/Filosofia-UFPI
Doutor Filosofia-PUCRS

Ouço, agora, porém exclamar de todos os lados: não raciocineis! O oficial diz: não raciocineis, mas exercitai- vos! O financista exclama: não raciocineis, mas pagai! O sacerdote proclama: não raciocineis, mas crede! [...]. Eis aqui por toda a parte a restrição da liberdade (KANT. Was ist Aufklärung).

Nada mais relevante para diagnóstico de época do que a oposição de Kant às restrições de seu tempo (e aqui é um dos fatores que me levam a pensar que Kant é mais interessante para Teoria Crítica do que o próprio Hegel) – sendo que ele próprio sofreu duras repressões do Estado prussiano quando tencionou publicar “A religião nos limites da simples razão”. Kant, no contexto do século XVIII de efervescência do Iluminismo, com seus conceitos de autonomia e publicidade, opôs-se radicalmente à restrição do pensar; considerava um regresso, uma pauperização, práticas que colapsam o lugar do filósofo na sociedade. Defendia que não era necessário que os filósofos entrassem na política, pois o poder poderia corromper o livre juízo da razão, mas, concomitantemente, reivindicava que os mesmos pudessem expressar livremente suas opiniões acerca do justo no que concerne aos direitos humanos, aos direitos de cidadania, à questão da paz, etc. Subscrevendo a isso, o Estado de direito estaria cumprindo o seu papel republicano, e, como ele afirma em Antropologia de um ponto de vista pragmático, apenas no republicanismo seria possível um equilíbrio entre liberdade, poder e lei.

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O que estamos fazendo com os nossos meninos?

Érico Andrade
ericoandrade@gmail.com
Psicanalista, filósofo e professor de filosofia da UFPE

Qualquer tentativa de oferecer uma explicação exaustiva para o massacre de Suzano está fada a figurar no hall das pretensões narcísicas de dar a um evento imponderável à medida daquilo que mais nos importa. A maior segurança na escola depende das pessoas se sentirem pertencidas naquele espaço e não de qualquer controle rígido de circulação de pessoas. As armas, diversos estudos apontam, quanto mais circulam mais matam e só pessoas engajadas com a indústria das armas podem reconhecer em qualquer cidadão (qualquer professor ou professora) uma espécie de Rambo capaz de reagir ao perigo de forma tão rápida quanto precisa. O bullying é tão difundido quanto praticado e se para cada estudante que sofreu bullyins houvesse uma reação violenta, já não teríamos mais escolas.

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A história da filosofia e as obras escritas por mulheres: uma nota metodológica

Nastassja Pugliese
FE/UFRJ - PPGLM/UFRJ

Hipátia de Alexandria, Marie de Gournay, Christine de Pizan, Margaret Cavendish, Kristina Wasa, Anne Conway, Damaris Cudworth, Mary Astell, Émile du Châtelet, Mary Wollstonecraft. Mesmo com a ampliação dos debates na comunidade filosófica brasileira sobre a ausência de autoras mulheres nas obras canônicas da história da filosofia, ainda é muito provável que um aluno de graduação termine seu curso sem ter ouvido falar sobre nenhuma delas. É possível, ainda, que um aluno pós-graduação não tenha participado ou ouvido falar bem de pesquisa alguma sobre elas. Também não é impossível que professores universitários que trabalham com história da filosofia não tenham lido obras produzidas por mulheres filósofas. E, sejamos realistas, há um grande desinteresse por parte destes últimos em investigar sobre obras não-canônicas escritas por “autores menores”. É comum que os professores pesquisadores descartem de antemão a relevância destas obras por não terem eles mesmos sido expostos a elas ao longo da carreira (afinal, se não estão no cânone, é porque suas obras não são tão importantes assim). (1)

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BRUMADINHO E A URGÊNCIA DA RESPONSABILIDADE

Jelson Oliveira - 1

O acidente de Brumadinho é mais uma página trágica do modelo de desenvolvimento que vem sendo implantado no Brasil, sob as bravatas daqueles que consideram a parca e frágil legislação ambiental um obstáculo para o progresso. Esse modelo, que transformou a própria ideia de crescimento econômico em um conceito inquestionável, uma espécie de epíteto recomendatório, cresce amparado na exploração do trabalho humano (mal pago, indigno, escravo) e da natureza. Ao longo da história, tal desenvolvimento (no geral confundido apenas com o crescimento econômico) deixou de ser uma opção dos povos e passou ao plano de uma obrigação elementar e principal, uma espécie de direito a ser conquistado, embora nem sempre seus benefícios alcancem a todos – na verdade não seria exagero afirmar o contrário: ele vem dizimando a vida de espécies, promovendo a pauperização da biodiversidade e extinguindo inúmeras comunidades humanas tradicionais, principalmente indígenas e quilombolas.

Com tal processo, a modernidade fez do desenvolvimento um móvel ideológico poderoso e, principalmente, um instrumento de poder - o que significa também de dominação. Alargado ideologicamente, surgiu e se fortaleceu a crença paradoxal de que só o desenvolvimento poderia conduzir os diferentes povos e indivíduos à igualdade plena, ou seja, à completa realização de todas as suas potencialidades, à vida boa ou à felicidade. Nessa lógica, o crescimento da produção por meio da exploração exacerbada da natureza cujo instrumento é uma técnica cada vez mais intensa e mais agressiva se tornou a palavra de ordem nos projetos de governo.

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A Filosofia é Mais um Exercício do que um Conteúdo (1)

Ernst Tugendhat (2)

Participei de uma tentativa de discutir o problema de como ensinar filosofia, no encontro nacional da Anpof, em Caxambu, Minas Gerais, anos atrás. Eu havia tido uma experiência relativamente ruim com o ensino da filosofia na Universidade Federal de Goiás, em Goiânia, onde estive trabalhando por algum tempo. Meu amigo Prof. Adriano Naves (da UFG) achou que poderíamos falar sobre o assunto naquela Anpof, e meu amigo Prof. José Crisóstomo de Souza (da UFBA), que esteve presente participando da discussão, pensou que seria bom falar agora outra vez sobre isso, aqui na Bahia. Ele tem razão, porque é verdadeiramente um tema muito importante e que merece mesmo ser retomado. Não creio, porém, que eu seja tão sábio nessas coisas, nem tenho idéias, sobre esse assunto, que me satisfaçam inteiramente a mim mesmo. Estou aposentado faz nove anos, e antes disso me ocupei muito da reforma universitária da Alemanha - com pouco êxito, mas me ocupei. Bom, eu não devo falar muito; quero então começar com algumas coisas gerais, alguns princípios, e depois talvez dizer duas ou três coisas sobre a minha experiência.

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