Agamben e “o que é a filosofia?” Ajuda italiana para o feminismo e toda a filosofia social

Prof. Dr. Paulo Ghiraldelli

Se Judith Butler ler o último livro de Agamben, O que é filosofia? (1) ela pode encontrar resposta para as questões que fez no início dos anos noventa, e que acreditou serem impossíveis de responder. 

Na época, levando em conta a literatura feminista já existente, e defendendo a ideia de que a nossa linguagem constrói o gênero, o sexo e, enfim, até mesmo o corpo, não sabia dizer se havia ou não alguma coisa prévia à linguagem, sobre a qual esta atuaria para fazer aquilo que nos aparece feito. Haveria ou não uma “materialidade”, uma espécie de pré-corpo, que iria se transformar, pelos “discursos” (Foucault) ou pela “ressignificação” (Derrida) ou pela “interpelação” (Althusser) no corpo? Apesar de não negar a “materialidade” prévia do corpo (algo que se espetado flui sangue, algo que é machucado etc), ela preferiu assumir que uma tal questão, no limite, não poderia ser de fato respondida.

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Para ler Butler como alvo e pensadora dos discursos de ódio

Carla Rodrigues (UFRJ), Susana de Castro (UFRJ), Marília Pisani (UFABC), Fabio
A. G. Oliveira (UFF), Príscila Teixeira (UFRJ), Valéria Wilke (UNIRIO), Izilda
Johanson (UNIFESP) integrantes do GT Filosofia e Gênero

 

Quando, em 1997, a filósofa Judith Butler publicou Excitable speach, ainda estava desdobrando algumas ideias centrais discutidas em Gender Trouble, livro de 1990, aqui traduzido por Problemas de gênero apenas em 2003. Nesse espaço temporal que separam a primeira edição norte-americana – há uma segunda edição de 1999 com nova introdução em que a autora revisita a própria obra –, a produção intelectual de Butler se deu em função de críticas e debates surgidos a partir de propostas apresentadas no seu primeiro livro. Foi assim com Bodies that’s matter (1993), com The Psychic Life of Power: Theories in Subjection (1997) – cuja tradução brasileira chega em breve às livrarias como A vida psíquica do poder: teorias da sujeição, mais um título da coleção filosófica da Autêntica –, e com Excitable Speech: A Politics of the Performative, infelizmente ainda sem edição brasileira. Suas ideias nesse livro são de grande ajuda, inclusive para a compreensão do que consiste os discursos de ódio usados contra ela neste momento no Brasil.

Desde Gender Trouble, a filósofa estava se valendo da noção de performatividade da linguagem, tal qual proposta pelo linguista John Austin, para pensar a subversão da identidade, aqui entendida como uma dada construção social fundada num substrato natural, o sexo anatômico. Em outras palavras, ela apontava a insuficiência de pensar a diferença sexual apenas na chave do par sexo/gênero. Além de manter uma dualidade entre masculino e feminino, havia uma limitação política em pensar a diferença sexual numa abordagem binária, que constrangia o debate numa chave teórica de reprodução da heteronormatividade. É nesse sentido que Butler propõe pluralizar as dimensões narrativas – conjunto de práticas e discursos – que se impõem sobre os corpos. Desta pluralização, a possibilidade de reinvenção contínua torna possível visualizar as dimensões em que a heterossexualidade compulsória atuam. Trata-se, então, de abrir a possibilidade de produzir novos corpos, não apenas novos discursos.

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A FILOSOFIA DE PORCHAT: TECHNÉ, NEO-PIRRONISMO, PRAGMATISMO

Prof. Dr. José Crisóstomo de Souza

Durante seu percurso intelectual, Oswaldo Porchat Pereira veio a desenvolver, aos poucos, uma concepção filosófica própria, que chamou de neo-pirronismo, de ceticismo e – para neutralizar preconceitos – de “empirismo cético”. Antes de chegar a ela, porém, teve de se livrar, segundo ele nos conta, da “ideologia” da receita goldschmidtiana de filosofia que tão fervorosamente abraçara e pregara ao lado dos colegas de departamento. Pois, junto com o método, e embutido nele, o estruturalismo de Victor Goldschmidt passaria “uma filosofia sobre a história da filosofia”, e mesmo “uma filosofia sobre a filosofia” (2) – que permanece até hoje pouco tematizada entre nós e que bloquearia toda possibilidade de efetivamente fazermos filosofia. Gradualmente, Porchat passou a desencantar-se das perspectivas abertas – ou melhor, fechadas - ao trabalho propriamente filosófico, pelo goldschmitismo exclusivo, enquanto entrava em contato com o ceticismo grego, desafiador das pretensões da grande filosofia, de sistema.

Foi naquela conjuntura que, um tanto desencantado da filosofia, Porchat resolveu dedicar-se ao estudo da lógica formal. Foi então que saiu novamente do país (depois de sua formação goldschmidtiana na França), dessa vez para fazer na área de lógica um pós-doutorado de dois anos, de 1969 a 1970, na Universidade da Califórnia, Berkeley, com o professor Benson Mates. Bem mais adiante, em 1983, faria um outro pós-doutorado, dessa vez em Oxford, na Inglaterra, onde teve a experiência, marcante, de um modo vivo e discutido de fazer filosofia, baseado na argumentação própria sobre temas e problemas, em vez de voltado para a história da filosofia, muito menos para a exegese e o comentário estruturalista da obra dos filósofos canônicos, históricos. Esse contato com o modo anglo-saxônico de fazer filosofia, em universidades da Inglaterra e dos Estados Unidos, certamente contribuiu para mudar sua forma de encarar o trabalho na área, tanto no que diz respeito à pesquisa como ao ensino. Isso ainda que a forma que Porchat desenvolveu para essas coisas seja sua, resultado de um desenvolvimento próprio, no qual mantém-se ainda fiel ao modelo de leitura goldschmidtiana da obra filosófica, embora agora apenas como um “momento” do trabalho em filosofia.

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OPÇÕES REJEITADAS*

Roberto Mangabeira Unger
(Universidade de Harvard)

 

Despertamos num mundo particular: não apenas o mundo natural que habitamos, mas o mundo das instituições e práticas, incluindo as práticas discursivas, que avultam ao redor de nós. Para bem ou mal, estas práticas se situam entre nós e o quadro absoluto de referência, a visão do alto, o ponto de vista das estrelas.

No entanto, sempre nos experimentamos, enquanto indivíduos e em contato com os outros, como fontes de iniciativas capazes de resistir às estruturas estabelecidas de organização e crença. Qual deveria ser nossa atitude em relação a tais estruturas de organização e crença comum? Deveríamos nos render a elas e tentar tirar o melhor partindo delas, explorando, por todos os modos possíveis e pela luz que elas projetam, suas possibilidades ocultas de transformação? Ou deveríamos procurar estabelecer uma posição a partir da qual submetê-las a julgamento?

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ABOLICIONISMO: ÉTICA E FUNDAMENTAÇÃO DOS DIREITOS ANIMAIS

Sônia T. Felipe - professora aposentada do Depto de Filosofia UFSC

 

Originado do latim abolere, abolição refere uma ação de largar ou deixar de usar, extinguir, eliminar, suprimir ou fazer desaparecer instituições, leis e tradições. A proposta abolicionista trata de pôr fim a alguma prática institucionalizada, incluindo as leis que asseguraram sua legitimidade e os costumes que a forjaram como tradição. 

Adotado pelos defensores dos animais, o termo refere o movimento filosófico iniciado por Tom Regan, com ações que visam pôr fim aos  usos, à exploração e à matança de animais para propósitos humanos. 

A abolição não negocia em parcelas a restituição do bem extorquido dos animais, nem adota a ideia de reduzir os maus-tratos ou diminuir o âmbito no qual eles são infligidos aos animais (bem-estarismo). Abolir é pôr fim à prática completa, desconstruir seus andaimes e retirar os sustentáculos morais que a amparam há milênios. Abolir é extinguir pela raiz a crença na legitimidade moral da exploração e matança de animais pelos humanos para comilança, tração, embelezamento, diversão, tratamento, higiene e atendimento a quaisquer outros propósitos. 

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(O ESTADO DA ARTE DA TEORIA CRÍTICA DA ESCOLA DE FRANKFURT) A CRÍTICA DAS FORMAS DE VIDA, DE RAHEL JAEGGI

Andreas Niederberger e Tobias Weihrauch
Universidade de Duisburg-Essen

 

Jürgen Habermas introduziu o conceito de ação comunicativa em sua teoria como uma tentativa de superar as aporias da primeira geração da Teoria Crítica. Os escritos de Adorno e Horkheimer mostram – segundo Habermas – que qualquer ponto de referência utilizado para criticar a situação atual da sociedade se torna parte do problema. O proletariado votou pelos nazistas, a cultura moderna, mesmo nas suas formas de vanguarda, serviu para reconciliar as pessoas com sua condição de vida no capitalismo, e se poderiam ler as teorias filosóficas, mesmo as aparentemente mais abstratas e menos práticas, como preparando e mantendo uma forma de subjetividade que domina a natureza, a si e aos outros. Assim, na visão de Habermas, a tarefa das próximas gerações da teoria crítica é detectar padrões que possibilitem identificar as contradições e crises das sociedades atuais, enquanto, ao mesmo tempo, ofereçam orientações para possíveis transformações.

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COMO FAZER TEORIA POLÍTICA COM FOUCAULT? – O debate sobre a liberdade nas obras de Foucault

Karsten Schubert
University of Duisburg-Essen

Um dos problemas mais duradouros na discussão sobre Foucault tem sido o problema da liberdade. Mais precisamente, a questão é a seguinte: como a liberdade e a resistência podem ser pensadas e explicadas em uma teoria do poder e da subjetivação?

Abordarei esse problema não falando sobre o próprio Foucault, oferecendo uma nova interpretação dos seus escritos, por exemplo. Em vez disso, sustento que o problema pode ser abordado apenas nos detendo sobre o debate sócio-filosófico desencadeado por suas obras. O problema da liberdade não tem origem em Foucault, mas foi antes articulado nas discussões de sua obra por teóricos da política. Essas interpretações, mediante a construção do problema, vão além da mera exegese. São obras filosóficas elas mesmas complexas e enquanto tais são o principal objeto da minha análise.

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Pode o Brasil Renunciar a Filosofar?

Pode o Brasil Renunciar a Filosofar? (1) (PARTE I)
Renato Janine Ribeiro

A filosofia, no Brasil, tem sido sobretudo história da filosofia. Por que isso? Há razões que remontam ao período em que eu mesmo estudei na graduação da Usp, isto é, na passagem dos anos 60 para os 70. Tais razões podem referir-se ao prestígio de que então desfrutava o estudo estruturalista do texto, que parecia oferecer a possibilidade de uma leitura definitiva e inconteste da obra. Curiosamente, uma leitura que negava o caráter histórico – precário, sempre passível de mudanças e alterações – de toda leitura terminava por propor o coroamento da história da filosofia, sua possibilidade de proporcionar um fim da história da filosofia ao mesmo tempo que uma história final, terminal, da filosofia. Parece ser esse prestígio do estruturalismo a razão aduzida por Oswaldo Porchat para nosso pouco debate filosófico; elegantemente, ele tem assumido a responsabilidade por haver defendido com tanto vigor, nos anos 60, uma leitura que assim punha fim à escrita – ou à fala, se quisermos ser mais socráticos – da filosofia.

Mas tal causa não me parece, de todo modo, suficiente – e isso por uma simples razão: a renúncia à filosofia era compartilhada, então, até mesmo por marxistas. Ora, eles não deveriam nem poderiam, logicamente, acreditar que uma leitura fosse definitiva ou escapasse às necessidades (não diria as contingências) da História. É provável, porém, que se somassem duas ordens de razões. Uma, instrumental, seria a valorização da leitura estruturalista, como capaz de efetuar uma interpretação rigorosa e segura dos textos clássicos. Outra, mais de conteúdo, seria a dos marxistas: provavelmente eles acreditavam que a filosofia seria superada por algo mais intenso no impacto social; ela teria passado, não mais futuro; estaria reduzida a um patrimônio importante, inspirador, da humanidade, mas cuja capacidade de mudar o mundo seria pequena. Pode ser que levassem tão a sério a XIª Tese sobre Feuerbach que esperassem o fim da filosofia, assim como Nietzsche esperava o fim do homem, Hegel o fim da arte e Heidegger o fim da metafísica.

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As mulheres na ocupação e a finitude radical das subjetividades políticas

era o hotel cambridge filme fot divulgacao

(Imagem de divulgação do filme: Era o hotel Cambridge, de Eliane Caffé)

Edson Teles
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

Um edifício que até pouco tempo atrás estava abandonado. Agora, dentro se encontram mais de 100 famílias. Passam os dias refazendo as ligações de água, luz e esgoto, se organizando para ocuparem de maneira o mais equânime possível os apartamentos. Experimentam a produção de um comum em meio a tamanha heterogeneidade existencial. São migrantes do nordeste brasileiro, imigrantes da África, mundo árabe, América Latina, paulistanos, cariocas, mineiros. São várias as línguas faladas, mas nada que impeça a comunicação, ao contrário, funcionam como um convite ao encontro do diferente. Estas são cenas do filme “Era o Hotel Cambridge”, de Eliane Caffé. Mas podem ser vistas em várias ocupações de movimentos populares por moradia.

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As mulheres ou os 'silêncios' da história da filosofia

 

Susana de Castro (PPGF/UFRJ)

Carla Rodrigues (PPGF/UFRJ)

Nosso título é uma apropriação, para o campo filosófico, do título de um dos livros da historiadora francesa Michelle Perrot – As mulheres ou os silêncios da história –, com o qual pretendemos discutir, neste 8 de março marcado por uma série de manifestações feministas principalmente no mundo ocidental, mas não apenas, alguns dos motivos que nos levam a uma crítica da sobreposição da história da filosofia à história da filosofia feita por homens, como se não tivesse havido, desde a Grécia e da  participação de Diotima nos diálogos socráticos, a presença feminina na história do pensamento. Perrot é uma das responsáveis pela abertura do campo da historiografia feminista, esta que nos permite fazer hoje a crítica da história universal como uma narrativa exclusivamente protagonizada e escrita por homens. Ainda está por ser feito um trabalho como o seu na história da filosofia.

Identificar essa lacuna é possível hoje na medida em que, ao longo do século XX, inúmeros filósofos e filósofas se dedicaram a interrogar o lugar da filosofia como um lugar de neutralidade, no qual os discursos de poder – sobre o humano, sobre a verdade, sobre o mundo – foram naturalizados como universais, mas, de fato, escritos e protagonizados por homens. Como já nos ensinou Michel Foucault, não há discurso sem força, não há saber sem poder. Há, no entanto, uma história da filosofia feita por mulheres que não nos foi contada. Na França do século XVIII, quando Olympes de Gouges enfrentou os argumentos misóginos de J.J. Rousseau, na Inglaterra do mesmo período, quando Mary Woolstonecraft reivindicou direitos para as mulheres, na Alemanha de Lou Salomé no século XIX e de Hannah Arendt no século XX, ao longo de todo esse período as mulheres produziram filosofia assim como realizaram outras tantas obras -- porém, invisíveis.

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Preconceito e política

Prof. Dr. Eduardo Jardim de Moraes (PUC-RJ)

 

Li, com constrangimento, a matéria escrita por Vladimir Safatle, intitulada “O preconceito é um exercício da liberdade?”, de 13 de outubro de 2017, na Folha de São Paulo, que defende a intervenção “em todos os níveis, sobre práticas sociais que minam a adesão a princípios igualitários, sob pena” de ocorrer uma expansão incontrolável de todo tipo de preconceito. Em sua argumentação, o colunista faz uma crítica do artigo de Hannah Arendt, “Reflexões sobre Little Rock”, de 1959, com incorreções que dizem respeito ao seu conteúdo, as quais motivaram esses comentários de um velho leitor de A condição humana.

Inicialmente, o colunista retoma a caracterização errônea de Hannah Arendt como pensadora liberal, tendo por objetivo desqualifica-la. Ao longo detoda a sua obra, desde os anos cinquenta até a morte em 1975, Hannah Arendtcse propôs a definir o que é liberdade, tomando distância tanto do liberalismo quanto da tradição hegeliano-marxista. No primeiro caso, o liberalismo defendia uma concepção “negativa” da liberdade, isto é, afirmava que o homem é livre quando não sofre nenhum tipo de constrangimento, especialmente do Estado. No segundo caso, na tradição historicista, a que pertencem teóricos tanto de direita quanto de esquerda, a liberdade era vista como o resultado bem sucedido do desenvolvimento histórico. Em oposição às duas orientações, Hannah Arendt defendeu que a liberdade, em sentido próprio, tem um estatuto positivo, não depende do curso da história, mas se realiza no plano político da existência humana, isto é, em um contexto público e plural, e apenas nele.

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O Avesso do Direito: Do terror à banalidade do mal

Maria Borges - Professora de Filosofia da UFSC
 
A Universidade brasileira vive hoje sobre uma ferida aberta: a morte de um Reitor. Por quase dois anos, sob a liderança do Reitor Prof. Luiz Carlos Cancellier de Olivo, a Universidade Federal de Santa Catarina floresceu na arte, na ciência e na tecnologia, apesar das dificuldades econômicas. A convivência tornou-se mais pacífica, pois os adversários não eram considerados inimigos e todos eram convidados a sentar na mesa e na sala do Reitor. Essa harmonia desaparece numa operação denominada Ouvidos Moucos, que prende o Reitor, sob a alegação de obstrução de justiça relativa a uma suposta irregularidade de bolsas do programa de Ensino à Distância. Não havia julgamento, nem processo, apenas um inquérito inicial, onde só um lado fora ouvido. Uma operação de 100 homens é montada para invadir a universidade, apreender documentos e prender 5 professores e o Reitor. Sem julgamento prévio, nem direito a defesa. Na prisão, Cancellier é despido, sujeito à revista íntima, algemado e acorrentado. Depois de solto, é impedido de entrar na Universidade, da qual era um Reitor eleito e aclamado, elogiado até mesmo pelos seus adversários, por seu espírito conciliador. Devido ao terrível sofrimento acarretado pela injustiça e humilhação moral, suicida-se em 2 de outubro de 2017, trazendo consigo um bilhete: “minha morte foi decretada no momento em que fui banido da Universidade”.

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BRASIL 2018: verso a um novo acordo Katechontico

Evanildo Costeski/UFC

Como foi possível o golpe de 2016? São várias as explicações e os motivos. Não é minha intenção discorrer sobre todos os caminhos e as trilhas que levaram ao Impedimento parlamentar da Dilma. Todavia, em minha opinião, uma explicação sobrepõe-se: o golpe não foi exógeno, não veio de fora, mas foi gerado pelo próprio sistema político que governou o Brasil nos últimos anos. Foram os acordos políticos dos últimos catorze anos, comandados pela esquerda, que geraram o golpe, como uma célula cancerígena não tratada que, invariavelmente, leva a uma metástase. 

Isso significa que os acordos foram maus em si? Que deveriam ter sido evitados? De maneira nenhuma! Foram necessários e, em sua maioria, corretos do ponto de vista da governabilidade. No Brasil, o Presidente é eleito, mas não governa ou, pelo menos, não governa sozinho. Os acordos devem ser vistos como naturais, próprios do sistema político e da tradição cultural brasileira. O Presidencialismo de coalização não é ruim em si. A sua forma degradada, denominada recentemente de “presidencialismo de cooptação”, deve sim ser execrada, entretanto, deve-se cuidar para não jogar fora a água suja com o bebê.

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Filosofia no Brasil - Ensaios Metafilosóficos

Ivan Domingues (UFMG)


Notícia sobre o Lançamento e Comentários

Acabo de lançar pela Editora UNESP o livro de minha autoria Filosofia no Brasil: Legados e Perspectivas – Ensaios Metafilosóficos, culminando um momento importante em minha carreira, ao fazer um acerto de contas comigo mesmo, como filósofo, como intelectual e como brasileiro.

Não podendo sumariar-lhe o conjunto, com suas 560 páginas, organizado em seis passos argumentativos, recobrindo quinhentos anos de nossa história, e adiada a apresentação do seu making of para uma outra ocasião, vou na sequência apresentar brevemente aos leitores da Página da ANPOF o seu escopo, junto com o tema central ou seu hardcore e as hipóteses de trabalho.

Começo pelo escopo: como bem mostra o título completo, colocando em evidência em uma de suas metades legados e perspectivas, que o leitor interessado nestas matérias não espere que vai ter às mãos um livro de história da filosofia ou da história da filosofia brasileira, nem, menos ainda, de um livro de exegese de um autor ou de mais autores. Trata-se, antes, de um livro de ensaios, tendo por eixo o cruzamento entre a metafilosofia e a história intelectual. A consideração e aceitação desses pontos são fundamentais para a compreensão e a avaliação da proposta levada a cabo com intenções e metodologias diferentes, como veremos na sequência, entrando a história da filosofia e a exegese filosófica como fonte, meio e ferramenta, não como tema, problema ou objeto.

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UM DESAFIO PARA O PENSAMENTO: A CRISE BRASILEIRA E SUA SUPERAÇÃO

Carlos Sávio G. Teixeira
Professor Adjunto e Chefe do Departamento de Ciência Política da UFF. Doutor em Ciência Política
pela USP.

O Brasil experimenta atualmente uma crise cuja principal consequência é a desorientação do país. A tese que sustento é a de que o fundamento mais importante e menos reconhecido desta crise é moral: um antigo e persistente problema de desidentificação nacional, a ausência de um forte sentimento de pertencimento coletivo. A maior parte da elite brasileira - composta pelos ricaços, a classe dirigente e a classe média - sempre se perguntou por que o Brasil não conseguiu se tornar parecido com os EUA, a Grã Bretanha ou a França. Essa pergunta contém uma resposta implícita negativa, cuja influência no desenvolvimento do sentimento de falta de tarefa para com o Brasil é enorme. As classes populares, por sua vez, guardam uma relação de ambiguidade em termos de identificação com o país.

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O Brasil não pode renunciar a filosofar, mas precisa refundar seu discurso-práxis desde sua condição e a partir de seus sujeitos epistemológico-políticos

Leno F. Danner
Universidade Federal de Rondônia
G.P. Teoria Política Contemporânea

Vitor Cei
Universidade Federal de Rondônia
G.P. Ética, Estética e Filosofia da Literatura
 

Historicamente, a Filosofia no Brasil costuma seguir padrões e métodos ditados pelos centros intelectuais que possuem tradições filosóficas próprias, como Alemanha, França, Inglaterra e Estados Unidos. No entanto, há vários anos assistimos no país à discussão sobre a necessidade de uma língua filosófica própria, que permita um amplo e consistente debate de ideias. Apesar dos esforços contínuos para consolidar uma tradição de pensamento (e esta Coluna da ANPOF é apenas um dos exemplos), ainda falta à Filosofia Brasileira uma maior atenção aos grandes temas nacionais e regionais, assim como falta a essa mesma Filosofia Brasileira uma séria atenção e tematização relativamente à nossa condição –social, política, cultural e epistêmica – frente à própria noção de cultura, de sociedade e, nesse caso, de episteme desenvolvida desde a filosofia europeia e norte-americana.

Uma das autocríticas mais recorrentes na tradição do pensamento filosófico brasileiro é a da ausência de um debate público sobre as grandes questões que afetam o país e o mundo contemporâneo. Os nossos filósofos teriam se limitado a estudar a História da Filosofia, a fazer exegese dos textos da tradição ocidental. Autores como Machado de Assis, Roberto Schwarz e Sérgio Buarque de Holanda argumentam que, enquanto na Europa as diferentes correntes filosóficas apresentam conexões internas com as realidades histórico-sociais nas quais se inserem, no Brasil as condições materiais, históricas e políticas pouco influenciaram as ideias e raras vezes foram transformadas pelas mesmas. Reveladora é a machadiana Teoria do Medalhão, que alveja o vício das palavras grandiloquentes com riso zombeteiro, mostrando de que modo as ideias eram transformadas em signo material de distinção, anulando qualquer potencial reflexivo.

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Pode o Brasil Renunciar a Filosofar? (PARTE II)

Pode o Brasil Renunciar a Filosofar? (1) (PARTE I)
Renato Janine Ribeiro

Já apontei aqui três pontos a meu ver falhos no que se faz, no Brasil, de filosofia: primeiro, a redução sistemática do que não é teoria do conhecimento ou do ser a teoria do conhecimento ou do ser, isto é, a subordinação da ação a uma visão, por sinal superada, do que seriam conhecer ou ser, uma visão que entende o ser como res a conhecer e não como virtus a desenvolver, a criar, a inventar; segundo, a pressuposição de que haja coerência onde ela pode inexistir – ou melhor, onde pode residir o conflito, seja este interno à obra, seja entre dois autores; terceiro, a desconsideração do que o autor ou sua fortuna crítica elegeu como prioridade (estivessem, eles, certos ou errados – não é esse o problema).

As conseqüências desses procedimentos são várias. Não retomarei o primeiro ponto, do qual acabo de tratar, mas desenvolverei os dois outros.

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Crise da República

Rodrigo Ribeiro Alves Neto
(Professor Associado do Departamento de Filosofia da UNIRIO e Professor Colaborador do PPGFIL da UFRN)
 
 

Em um ensaio sobre o fim da tradição do pensamento político ocidental, Arendt indica que as questões mais elementares da vida política se evidenciam, em sua urgência e concretude, quando formuladas pela primeira vez e quando recebem o seu desafio final. Creio que o ataque à democracia, a erosão institucional e a perda de legitimidade no exercício do poder político que enfrentamos atualmente no Brasil podem ser diagnosticados a partir de tal indicação, pois os princípios de proteção social definidos pelo Estado fundado com a Nova República enfrentam hoje o seu desafio final.

A promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil, em 1988, foi um marco decisivo não apenas da retomada democrática e do encerramento de um longo período ditatorial, mas, sobretudo, do estabelecimento de instituições republicanas com legitimidade capaz de suportar a volatilidade inerente ao jogo político e garantir ao povo o direito a ter direitos. O pacto social materializado no texto constitucional se baseia na exigência de jamais conceber o povo na pessoa de cada indivíduo enquanto meio, mas sempre como fim em si mesmo, fundamento e fonte do poder do Estado, comprometendo-se com o combate às desigualdades sociais, políticas e econômicas em uma das sociedades mais injustas e desiguais do mundo.

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LATTES

Prof. Dr. Érico Andrade
Universidade Federal de Pernambuco
 
Dizer que o Lattes é um crime é confundir os objetos, que possuem, em geral, fins diversos com um dos seus usos possíveis. É reificar num objeto certas relações de opressão como se fosse possível oferecer ao público a possibilidade de eliminar essas relações quando se eliminasse certos objetos. É destruir máquinas para garantir empregos. É fácil. O problema é que o Lattes é também um instrumento de publicização do trabalho acadêmico e, por isso, uma forma bastante democrática de prestação de contas do dinheiro público, investido nas atividades de ensino, pesquisa, extensão e gestão que compõem a vida universitária. Qualquer pessoa pode ter acesso ao Lattes e saber das atividades dos (as) docentes do Brasil. Então, claro, o problema não pode ser o Lattes. Seria o que ele representa, simboliza?

Sem dúvida, o que está em jogo com a crítica ao Lattes é a crítica ao chamado produtivismo, à produção científica em série, ao homo lattes, como verbalizam os seus críticos mais ferozes. "Menos Lattes, mais poesia” não é raro ver frases como essa nas paredes das universidades. Pode-se ver também nas mesmas paredes a célebre frase: “A vida não cabe no currículo Lattes”. No entanto, é importante notar que triste seria da vida que coubesse em algo. Acredito que é hora de oferecer novos contornos ao debate. O ponto que quero abordar no presente texto tenta se desviar de um fetichismo do Lattes para tocar numa questão por um lado, acadêmica, relativa, portanto, ao modo como avaliamos a nossa produção e, por outro, política, concernente ao modo como distribuímos os nossos recursos, nem sempre abundantes e, nesses tempos de crise, poderíamos dizer escassos.

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O BRASIL E A FILOSOFIA AFRICANA

Marcos Carvalho Lopes
Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira
marcosclopes@unilab.edu.br

O filósofo norte-americano Cornel West definiu a filosofia afro-americana como “a interpretação da história afro-americana, sob as luzes de sua herança cultural e lutas políticas, como fonte de normas desejáveis que possam regular respostas para os desafios que hoje os afro-americanos enfrentam”. Podemos nos apropriar dessa definição narrativa e pragmática de West substituindo “afro-americana” por “brasileira”, “africana”, “afro-diaspórica”, “indígena” etc. Isso nos dá um ponto de partida interessante para afirmar que a possibilidade de uma filosofia brasileira depende de um questionamento profundo do processo de colonização, do massacre contínuo da população indígena, da herança escravagista e do racismo estruturante, da desigualdade extrema, do patrimonialismo, patriarcalismo, clientelismo, academicismo etc. numa genealogia de nós mesmos que propicie enfrentar os desafios de nosso tempo. Os termos dessa afirmação são sabidamente reducionistas (não abriga e nem pretende abarcar todas as formas de fazer filosofia), o que os fazem suficientemente polêmicos para inviabilizar qualquer debate amplo, já que traria como consequência uma grande modificação dos currículos de graduação em filosofia, com a inclusão de disciplinas sobre filosofia indígena, africana, decolonial, feminista etc. assim como, a promoção da reflexão sobre a cultura brasileira (popular e erudita). Vou me concentrar na defesa de uma disciplina sobre filosofia africana, seguindo numa direção diferente e complementar àquela proposta por Renato Noguera em recente coluna deste espaço.

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