HEIDEGGER PROFESSOR DE HANS JONAS: NO DIA DOS PROFESSORES/AS, UMA LIÇÃO DE FILOSOFIA

JELSON OLIVEIRA
Professor do Programa de Pos-Graduação em Filosofia da PUCPR

Entre as páginas das Memórias de Hans Jonas, estão linhas de profundo e emocionado reconhecimento a respeito da importância de seus mestres na sua formação intelectual, em especial de Martin Heidegger.

Jonas, então com 18 anos, tinha decidido estudar filosofia e, para isso, fora atrás dos grandes nomes de sua época, entre os quais estava Edmund Husserl, professor em Friburgo. Mas foi aí também que ele se encontraria com aquele que marcaria de forma tão fecunda e tão dramática o seu pensamento: um jovem e ainda desconhecido professor, que logo lhe cativaria por completo - como a tantos outros jovens que lhe cercavam: Martin Heidegger, desde então, era considerado “muito mais difícil que Husserl mas também um brilhante pedadogo”. A partir de um encontro fortuito no primeiro semestre de 1921, Jonas passa a frequentar as aulas do futuro autor de Ser e Tempo, sobre Augostinho e o neoplatonismo.

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O FUTURO DA UNIVERSIDADE

João Carlos Salles
(Filósofo, reitor da UFBA e presidente da ANDIFES)

Para Georgina Gonçalves,
minha amiga Gina,
Reitora da UFRB

1. A universidade tem sido alvo de múltiplos ataques e incompreensões, como se não mais fosse um projeto da sociedade e tivesse se tornado um problema. De desejo cívico, passou a estorvo público. E, pior, a solução dos embaraços que julgam diagnosticar não estaria na própria universidade, nem em seu atores, como se nosso espírito democrático e crítico fosse uma prova a mais de nossa inanição. Com isso, sonhos urdidos em décadas são agora apresentados como pesadelos, cuja saída estaria antes no mercado ou na indústria.

Nesse cenário, o professor/pesquisador aparece como figura trôpega e inadequada, ora vista como miserável, ora como excessivamente remunerada, de sorte que deveria transmutar-se, de personagem crítico e engajado, em indivíduo empreendedor e negociante, para merecer enfim as riquezas todas da terra. Por outro lado, seus gestores públicos, talvez por pecados atávicos, são convidados a permanecer em cena, mas apenas como fantasmas ou encostos, que alguma reza ou exorcismo, cedo ou tarde, afastaria. Do ócio produtivo ao negócio. Será esse o deslocamento proposto?

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Mulheres que pensam e fazem pensar

Carla Rodrigues - professora do Departamento de Filosofia da UFRJ e pesquisadora Faperj

 

Durante todo o século XX, houve um amplo exercício teórico de retirar das sombras a grande contribuição das mulheres para a vida social. Somaram-se nesses esforços o aporte teórico de historiadoras feministas que questionaram a construção de uma historiografia supostamente neutra em termos de gênero, os movimentos feministas nas ruas, nas praças e na conquista do espaço de trabalho. Tudo isso convergiu e continua convergindo para aproximar as mulheres e qualificar a fixação de cânones na história, não somente da filosofia. No rastro de iniciativas de historiadoras como Michelle Perrot, na França, ou Joana Maria Pedro, no Brasil, em alguma medida fundamentadas ainda no trabalho de Joan Scott no seu célebre O gênero como categoria sutil de análise histórica, literatura, ciência e linhas de pesquisa descobriram as mulheres, tomando o verbo descobrir em sua literalidade: tirar a cobertura daquilo que existia, mas estava encoberto.

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Epistemologia em tempos de crise

Breno Ricardo Guimarães Santos
Professor Adjunto no Departamento de Filosofia da Universidade Federal 
de Mato Grosso (UFMT) e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em 
Filosofia da mesma Universidade

 

Pensemos na brincadeira “telefone sem fio”. Para quem não se lembra ou não conhece a brincadeira, aqui vai um guia rápido. Forma-se uma fila de pessoas; a primeira pessoa da fila inventa uma frase e transmite para a segunda; a segunda transmite para a terceira, e assim por diante. A graça da brincadeira era ver de que modo a frase chegaria ao seu receptor final. E, normalmente, ela chegava com algum grau de desfiguração.

O “telefone sem fio” é uma ilustração anedótica, e informativa, dos riscos da nossa vida epistêmica em comunidade. Dependemos uns dos outros para obter informações, mas essa dependência tem seus riscos e suas armadilhas. Quando atirado às garras de um mundo social e político complexo, esse telefone sem fio passa a ser, ao mesmo tempo, fundamental para conhecermos partes significativas do mundo e fonte de inúmeros problemas – alguns dos quais epistemólogas e epistemólogos contemporâneos tentam caracterizar e resolver.

Para entender a natureza do nosso telefone sem fio cotidiano, precisamos pensar no que faz esse jogo ser tão eficaz. Dependemos uns dos outros para conhecer muito do que conhecemos no mundo. Dependemos da palavra escrita, falada ou gestual de outras pessoas para que partes consideráveis do mundo se revelem para nós. Quando perguntamos a alguém, por exemplo, onde fica o prédio da reitoria, no campus de alguma universidade, estamos explorando essa relação de dependência mútua. Confiamos que, em geral, as pessoas nos dirão a verdade ou, pelo menos, que elas não nos dirão falsidades intencionalmente.

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O nome da confusão

Amaro Fleck (Professor de Filosofia da Universidade Federal de Lavras)

Há momentos em que moinhos de vento são vistos como inimigos, e contra eles travam-se batalhas épicas. Assim como o kitgay e a onipresente doutrinação nas escolas, o marxismo cultural não é mais do que a designação para uma grande confusão, um delírio, uma alucinação. O nome de algo que nunca existiu, ou melhor, que passou a existir pela série de efeitos que encadeia, embora em sua origem não exista mais do que a ausência de uma leitura. Ainda assim, os danos causados por tais batalhas não são menos reais.

O assim chamado marxismo cultural é uma teoria da conspiração. De acordo com ela haveria um plano bem articulado por parte dos comunistas (quais? O partido comunista soviético? A internacional dos trabalhadores? Um grupinho de intelectuais em um gabinete universitário? Um intelectual, solitário e preso, que nunca teve contato com os anteriores?) para dominar – e destruir, o que seria o mesmo – a cultura ocidental. O suposto objetivo seria “comer pelas beiradas”: em um primeiro momento controlar a formação da opinião pública para depois tomar e coletivizar os meios de produção; ou, o que por algum misterioso motivo aparece junto, para incentivar a promiscuidade em todas as suas formas não reprodutivas (afinal o objetivo último dos comunistas gayzistas é a eliminação da civilização, e não a coletivização dos meios de produção).

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As instituições justas e a nomeação do novo reitor da UFFS

Prof. Dr. Elsio José Corá (UFFS) - 1

Na madrugada do dia 30 de agosto, a comunidade universitária da Universidade Federal da Fronteira do Sul (UFFS), que nasceu a partir das demandas e da mobilização dos movimentos sociais da região, recebeu com perplexidade a comunicação da nomeação do terceiro colocado da lista tríplice, encaminhada ao MEC, para assumir a reitoria da Instituição nos próximos quatro anos. Perplexidade e não surpresa, pois as nomeações para direção de outras IES que ocorreram neste novo governo já denunciavam o novo modelo de gestão pretendido para as universidades federais.

É importante termos presente que o modelo que está sendo imposto possui raízes e capilaridades profundas e não deve ser tomado somente como uma ação impensada, ingênua e leviana. É isso e muito mais. O que se observa, no que se refere à política pública educacional, tanto no nível básico quanto no superior, é uma mudança de eixo, um direcionamento que afetará não somente o currículo e a formação dos nossos estudantes, mas, principalmente, as suas possibilidades e escolhas futuras, como preconiza o texto da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do Ensino Médio. Além disso, o acesso e a permanência no ensino superior, sobretudo dos estudantes com vulnerabilidade social, correm um iminente risco. Assistimos ao desmonte de políticas públicas, comprometidas na sua concretização pelos cortes do orçamento a nível ministerial e pelo repasse de recursos para as universidades. A decisão desvincula a intencionalidade que se espera nas políticas educacionais, tendo em vista uma educação ampla, que ajude a equilibrar as diferenças sociais, históricas, econômicas, entre outras.

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Deus & Darwin: Breve Relato sobre o Argumento do Desígnio, a Memética e os Magistérios Não Interferentes

Maxwell Morais de Lima Filho – Universidade Federal de Alagoas (UFAL)

 

De acordo com o teólogo inglês William Paley, a bondade divina se reflete no modo pelo qual Ele projetou os organismos biológicos, dotados de múltiplos órgãos bem-arranjados e inter-relacionados que visam à preservação e à reprodução da vida. Nesse sentido, o propósito da Criação seria dedutível da contemplação do domínio biológico porque o intricado ajuste entre as partes do sistema – seja o corpo como um todo, seja uma de suas partes (articulação esquelética, coração, olho etc.) – apontaria para uma inteligência sobrenatural, mais especificamente para o Deus revelado na Bíblia.

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A Filosofia entre juízes, bispos e capitães: sobre pobreza, resistência e formas de vida (1)

Prof. Dr. Hélio Alexandre da Silva (2)

De Rousseau a Marx, de Kant a Rancière, a pobreza tem sido tema da filosofia, ainda que um tanto marginal. Sempre tida, ao menos na aparência, como filha bastarda do processo civilizatório, a experiência da falta e da privação não deixa de ser compreendida como um problema de real grandeza, em boa medida graças às consequências sociais que ela traz. Uma das formas de pensar filosoficamente o social é compreender que ele qualifica as relações humanas nas quais os mecanismos de reprodução e as experiências normativas estão estreitamente imbricados.

Essas experiências normativas podem ser positivas (quando contribuem para algum nível de cooperação social) ou negativas (quando aparecem como fonte de sofrimento). Na medida em que alinham-se às formas de sofrimento, fenômenos como a pobreza ganham particular interesse filosófico.

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Filosofia, modo de usar.

Alexandre de Oliveira Torres Carrasco  (Professor do Departamento de Filosofia UNIFESP)

Não faz muito tempo que a filosofia entre nós tinha algo de excêntrico. Faltava-lhe não sei o que de ordinário, de cotidiano, de prosaico. Tudo também se resume a entender quem seria esse “nós”, também um dos “nós” da questão, mas sigamos. O fato é que, repentinamente, pelo menos para efeito retórico, parece que não só, deixo aqui o palpite, a filosofia ou a “Filosofia” foi alçada à condição de inimiga, de vilã ou de notório instrumento do mal. Há nisso um inesperado reconhecimento que, de um jeito ou de outro, pega todos nós de surpresa, e até mesmo lisonjeia, reconheçamos. Acostumados como estávamos a certa irrelevância, agora temos que lidar com as injúrias dessa fama ou má fama. Claro que a surpresa decorre se colocarmos o juízo em perspectiva, não seria o caso, por óbvio, se considerarmos o emissor de tal juízo. O que mudou desde então, digamos, desde vinte anos – uso as medidas de minha própria formação, entre graduação, mestrado e doutorado –, o que nos fez passar do anonimato inofensivo ao primeiro plano das preocupações dos atuais donos do governo, e até anteontem pelo menos, donos também de muitas opiniões?

A resposta mais óbvia, a que seguiria pela mão o senso comum, seria a mesma que foi dada de viés pelos próceres do atual governo: multiplicamo-nos demais, e essa infestação de filosofia, esse excesso de filosofia vem corroendo as contas públicas. Verdade e mentira somados, em geral, dá em nova mentira. Não surpreende, portanto, a estratégia. Deixando de lado o peso irrisório que temos no orçamento do Ministério da Educação, nós e todas as ciências humanas, há um grão de verdade no sofisma: realmente nos multiplicamos e isso, com custo real ou irrisório, seria o verdadeiro incômodo.

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Por que não a Filosofia?

Franciele Bete Petry - UFSC (1)
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Uma sociedade que decide condenar a Filosofia precisa explicar por que o faz. Ela é inútil? Supérflua? Desnecessária? Seja qual for o adjetivo usado para (des)qualificá-la, será necessário argumentar para defender uma posição. E argumentar, com honestidade intelectual, requer apresentar boas razões para que uma determinada conclusão possa ser sustentada. Para isso, é preciso utilizar as ferramentas da própria Filosofia. Quem não reconhece tal exigência, pode aparentemente criticar, mas no fundo, apenas faz acusações. A crítica requer argumentos e quem não está disposto a apresentá-los, apenas usa o discurso como retórica para mascarar o caráter autoritário das suas afirmações.

A discussão poderia começar, em primeiro lugar, pelo esclarecimento daquilo que chamamos de “Filosofia”. Podemos ter a impressão de estarmos falando da mesma coisa, mas a própria história dessa disciplina nos presenteia com uma lista ampla de definições, sem falar das controvérsias. Ao buscarmos respostas, perceberemos que definir a filosofia já é um problema filosófico que exige considerar também a pluralidade de formas em que ela se expressa, as diferentes subáreas em que se divide, as diferentes tradições de pensamento que a constituem, a sua constante renovação frente aos problemas contemporâneos: estamos falando de qual Filosofia?

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