A filosofia (brasileira) não é feita só por homens

Carla Rodrigues (PPGF/IFCS/UFRJ)

Nos últimos meses, três professores – respectivamente, Rafael Haddock-Lobo (http://anpof.org/portal/index.php/pt-BR/comunidade/coluna-anpof/848-filosofia-brasileira-uma-questao), Vladimir Safatle (http://anpof.org/portal/index.php/pt-BR/comunidade/coluna-anpof/921-seria-necessario-algo-como-uma-filosofia-brasileira) e Julio Cabrera (http://anpof.org/portal/index.php/pt-BR/comunidade/coluna-anpof/1032-filosofar-desde-brasil-alem-de-uma-mera-questao-nacional-acerca-de-um-texto-de-haddock-lobo-e-uma-replica-de-vladimir-safatle) – se valeram desse espaço da ANPOF para discutir aspectos cruciais do que seria uma filosofia no Brasil, do Brasil, brasileira. Recupero brevemente os argumentos em jogo antes de levar o debate adiante. Não sem primeiro expor uma decisão metodológica: vou me referir aos três autores pelo prenome, repetindo com eles uma forma de discriminação de gênero muito comum em relação às mulheres, em geral denominadas apenas pelo prenome, já que, como bem lembra a filósofa Gaiatry Spivak, o patronímico é histórico privilégio masculino. A recusa ao sobrenome será parte do meu argumento.

No seu texto, Rafael propõe pensar uma “‘filosofia’ não seja a marca de uma exclusão, colonialista e epistemicida, mas que, pelo contrário, seja a possibilidade de pensarmos de modo mais amplo e radical a experiência de nossa cultura, de nossa sociedade, de nosso tempo.” Nesse sentido, posso dizer que Julio concorda com ele quando defende a inclusão de clássicos latino-americanos entre aqueles que as bancas universitárias consideram filósofos dignos desse nome. A lista de Julio elenca os seguintes autores, todos homens: José Martí, José Enrique Rodó, Domingo Sarmiento, Juan B. Alberdi, Andrés Bello, Juan Carlos Mariátegui, Tobias Barreto, Carlos Vaz Ferreira, José Vasconcelos, Salazar Bondy, Leopoldo Zea, León Portilla, Vicente Ferreira Da Silva, Leopoldo Zea, Frantz Fanon e Enrique Dussel.

Vladimir chama a atenção para o problema da exigência da filiação acadêmica, impeditiva de um exercício de pensamento que se abra a distanciamentos, críticas, retornos, para usar alguns dos seus termos. Diz ele: “Dentro de relações de filiação, os não pertencentes ao grupo simplesmente não existem, não são levados em conta, falam línguas estranhas, fazem “tudo errado” e (este é um clássico) não leem direito.”

Quando se refere a “grupos que simplesmente não existem”, Vladimir não apenas dá importante contribuição ao tema, como me abre espaço para argumentar que até aqui, tudo se passou como se nós, mulheres filósofas brasileiras, não existíssemos. Fomos identificadas como minoria na pesquisa da professora Carolina Araújo, cujos resultados impressionantes foram divulgados pela ANPOF (das 4.437 pessoas, entre docentes e discentes, que compõem a comunidade filosófica, 27% são mulheres e 73% são homens). http://anpof.org/portal/images/Documentos/ARAUJOCarolina_Artigo_2016.pdf

Não apenas nós não existimos, mas também não existem as autoras que, quando lemos, precisamos primeiro afirmá-las como parte da história “universal” da filosofia, e não meras pensadoras de “problemas de gênero”.

Assim, ignora-se que é possível fazer a crítica à violência de Estado lendo a filósofa norte-americana Judith Butler; discutir a sobreposição entre colonialismo e gênero debatendo com a indiana Gaiatri Spivak; rever os pressupostos da dialética do senhor e do escravo a partir das críticas de Simone de Beauvoir; pensar os modos de governo totalitários com Hannah Arendt; avaliar as formas democráticas como Chantal Mouffe e sua proposição de democracia agonística; ou voltar à Inglaterra do século XVIII e, com Mary Woolstonecraft, discutir a tensão aparentemente insolúvel – e performativamente presente na discussão sobre filosofia no Brasil – entre incluir as mulheres na categoria universal, subsumir suas especificidades e com isso mantê-las invisíveis; ou reconhecer as mulheres por suas singularidades e diferenças, o que lhes marca como secundárias em relação aos homens.

Antes de ser acusada de colonialista, passo ao campo brasileiro e latino-americano, onde podemos ler os textos de Heleieth Saffioti e Lélia Gonzalez e suas críticas à teoria marxista nos anos 1970; recuperar o trabalho pioneiro de Bertha Lutz não apenas no que diz respeito ao sufragismo, mas em toda a amplitude de sua obra; voltar ao século XIX para ler Nísia da Floresta e, com ela, pensar sobre a influência do positivismo no campo de pensamento brasileiro. Para não me incluir como referência de leitura, cito mestras cujo trabalho admiro, como Marilena Chauí, Olgária Mattos, Jeanne Marie Gagnebin, Maria Cristina Ferraz, Heloísa Buarque de Hollanda; e colegas como Magda Guadalupe dos Santos, Geórgia Amitrano, Marília Pisano, Carla Damião, Maria de Lourdes Borges e Susana de Castro Amaral Vieira, responsável pela bem-sucedida criação do GT Filosofia e Gênero na ANPOF. No âmbito do continente latino-americano, cito apenas algumas referências, as que considero obrigatórias em qualquer lista de filosofia digna desse nome: Gloria Anzaldua, Maria Luiza Femenías e Monica Cragnolini.

Fazendo uma dobra sobre o argumento de Rafael, penso que fazer filosofia pode ser “um modo mais amplo e radical da experiência de nossa cultura, de nossa sociedade, de nosso tempo”, o que significa dizer que nós, mulheres de hoje e de ontem, temos que estar presentes em qualquer elenco de autores; presentes como autoras de uma filosofia que se abre e não mais estabelece como premissa quem está dentro ou quem está fora do campo.

Nesse sentido, acredito poder me valer do significante filiação, trazido ao debate por Vladimir como fator que empobrece o modo de fazer filosofia no Brasil. Na cultura, a filiação só se dá pelo patronímico. É aqui que posso também fazer uma dobra no seu argumento e afirmar que a filiação empobrece duplamente a forma de fazer filosofia no Brasil, o que se deixa perceber pela lista exclusivamente masculina elaborada por Julio. Filiação é um dos modos de interditar entrada de mulheres na filosofia por mal conseguir esconder o quanto está marcada pela velha distinção natureza/cultura, segundo a qual mulheres teriam apenas a função natural de parir crianças, que só se tornam filhos quando homens atribuem seus patronímicos a essas crianças. Uma filosofia que não é feita só por homens é uma filosofia que pode abrir mão da relação entre patronímico e falo-logocentrismo.

Por fim, me parece significativo dizer que o Programa de Pós-Graduação de Filosofia da UFRJ acaba de tomar duas providências fundamentais no desdobramento do debate sobre uma filosofia do Brasil, no Brasil, brasileira. Sob coordenação de Rafael, criamos uma nova linha de pesquisa, “Gêneros, raças e culturas”, na qual pretendemos acolher outros temas, autores e autoras e, sobretudo, outros modos de fazer filosofia, numa compreensão de que o pensamento não se dá separado da forma de pensar. Ao mesmo tempo, também aprovamos uma resolução que prevê proporcionalidade de ingresso entre homens e mulheres e cotas para negros/as, indígenas e pessoas trans. Outro modo de contribuir para desmontar o método em vigor, qual seja, o de afirmar quem pode fazer filosofia pela implícita negação dos “não pertencentes ao grupo”.

23 de Dezembro de 2016.

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