Ocupação: quando a diversidade pode oprimir

Érico Andrade (UFPE)

No seu artigo O violento silêncio de um novo começo Zizek alerta para o perigo dos manifestantes dos occupys se apaixonarem por si mesmos e perderem de vista a dura luta que têm pela frente. No entanto, é muito difícil não se apaixonar por si mesmo quando a estratégia de luta, o ocupe, realiza a sociedade horizontal, livre sexualmente e, sobretudo, vigilante contra todos os nossos preconceitos, pautando-se na experiência, almejada, da democracia direta. A decisão sobre o espaço, a sua organização, a própria compreensão da cidade, traduzida de modo minimalista, no microcosmo da ocupação, sem dúvida con-densa ideais hippies de “amor livre”, drogas e de uma sociedade política igualitária; capaz de comungar desde a alimentação a regras de convívio social, decididas de modo paritário. Quando borra a distinção entre meios e fins os movimentos occupys implementam e reivindicam novas formas de atuação política o que pode ser visto em parte importante dos diferentes occupys e, mais recentemente, no ocupe escolas e universidades sobre o qual se concentra o meu texto.

Embora o MST tenha sido, no Brasil, protagonista no uso do termo ocupar, os occupys não se apoiam na política da hierarquia, representação e liderança, nem muito menos pretendem garantir uma distribuição de propriedades, seguindo, de algum modo, a lógica do sistema capitalista. Trata-se de um movimento que tenta romper com a política tradicional desde seu interior; na micropolítica produzida dentro das fronteiras da ocupação, mas que tem a pretensão de colocar em que xeque a macropolítica e a burocracia procedimental que lhe acompanha. As assembleias substituem os procedimentos institu-cionais e promovem a radicalização da democracia direta em que cada rodada de assembleia tem o poder e a soberania para alinhavar novos rumos para a ocupação. Sem deixar de reconhecer grupos com inter-esses conflitantes e lideranças inevitáveis, os movimentos insistem por meio de suas práticas na deslegit-imação de parte importante dos procedimentos democráticos tradicionais, especialmente, os que se traduzem na legitimação representativa de lideranças. Ainda que algumas pessoas ou grupos possam lid-erar em alguns contextos certos occupys, elas não têm direito político de se apresentarem como líderes. A tese é clara e tem origem, de algum modo, em Rousseau contra Locke: a vontade política não pode ser delegada e absolutamente ninguém pode alienar a sua vontade política para uma espécie de liderança, ainda que delegada por meio do voto.

As ocupações se convertem em laboratórios de experiências sociais em que se tenta diminuir a extensão dos tentáculos do patriarcado e da sociedade de consumo por meio da tomada do corpo como território político. O valor inestimável desses movimentos, que oferecem oxigênio para a paralisia política da esquerda não pode, contudo, eximi-los de uma abordagem crítica para que eles não fiquem petrificados como uma experiência de subjetividades reduzidas a uma bolha de bons companheiros e boas compan-heiras.

Uma dificuldade importante repousa na relação dos que estão dentro com os que estão fora. Essa relação é instituída a partir do momento em que se interdita o acesso aos locais públicos sob a alegação de que a própria noção de público está em perigo. A desobediência civil se configura como uma geografia política que determina limites no interior dos quais estão de fato os interlocutores políticos. A ocupação é um fim em si mesmo porque só os que estão no seu interior são agentes políticos para o diálogo. Nesse sentido, as ocupações se auto legitimam politicamente. Mas elas legislam a partir de si mesmas sobre um espaço público, portanto, comum e sobre uma causa igualmente pública sem que todos os concernidos por aquele espaço possam ter compactuado sobre a ocupação. De modo mais grave; ela interdita a pos-sibilidade da dissidência, da escolha dos que não comungam do seu ideal. Desse modo, determinar quem pode estar dentro e estar fora elimina a possiblidade de uma divergência política estrutural, porque quando apenas quem está na ocupação é ator político com poder de deliberação, tem-se uma redução da esfera pública aos atores políticos que participam da ocupação. Quando elimina os direitos políticos dos que estão em desacordo, os que ocupam condensam a autoridade política, de modo unilateral, a um único grupo.

O risco é claro: a diversidade vivida na ocupação pode, paradoxalmente, se transforma em uni-dade hegemônica de opressão. O imperativo da diversidade não deixa de ser um imperativo e, portanto, guarda certo grau de imposição. O problema talvez esteja justamente não propriamente na paixão que podemos ter por nós mesmos, mas na dificuldade crônica em reconhecer o problema da diferença radical ou no fato de que os outros podem também se apaixonarem por si mesmos e não estarem dispostos a se demoverem de suas paixões. No fundo, parece que a diversidade, presente nas ocupações, passa a se colocar na posição de um bem em si mesmo e ao seu exercício está reduzida toda atividade política legítima. A questão é lidar com quem deseja viver nas regras do capitalismo e na forma de atuação política calcada na representação. Como lidar com esse tipo de diferença parece algo que está distante do hori-zonte das ocupações, mas se trata de um problema político incontornável para a esquerda. Portanto, o problema que as ocupações enfrentam não é tanto achar feio o que não é espelho, mas não aceitar que o espelho só nos mostra uma imagem: a nossa.

23 de Dezembro de 2016.

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