SAFATLE, O NACIONAL IMPOPULAR E NOSSO DESEJO DE FAZER FILOSOFIA

J. Crisóstomo de Souza/UFBA
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Escrevo na continuidade do debate entre Haddock-Lobo, Carla Rodrigues, Vladimir Safatle e Julio Cabrera, sobre a filosofia que se poderia fazer no Brasil e as limitações do que ainda predominantemente se faz. Debate que creio deva ser posto em relação com intervenções de longa data, de colegas como Giannotti ou Paulo Arantes, a propósito de nossa conservadora filosofia de ‘comentários’ e ‘leitura interna’(vide o nosso “De como não fazemos filosofia mas podemos muito bem fazer”), como também as opiniões de Porchat, Tugendhat, Janine e minha, que compõem o livrinho A Filosofia entre Nós, incluído por Cabrera nas suas referências.

Haddock propõe que façamos filosofia com assinatura brasileira, referida à experiência e a raízes nacionais, ainda que para isso se modifique radicalmente o que se entende por filosofia (para mim não tanto). Cabrera prefere propor uma comum referência latino-americana, que deveria marcar um filosofar a partir de nossa própria circunstância, para ele a de conquista e sujeição coloniais. Carla Rodrigues chama a atenção para uma questão de gênero e de silenciamento, de brasileiras ignoradas quando se fala em filosofia no Brasil. O que também sugere trazer a filosofia, dos píncaros da filosofia sempiterna, para algo mais próximo de nós e ecumênico. Por fim, e em parte na contramão, Safatle trata de desconstruir o nacional - para concluir, entretanto, que precisamos de um campo filosófico de debate, nacional, sem o que não chegaremos a fazer filosofia.

Vou tomar o texto de Safatle como referência central para meu contraponto, porque entre os citados representa a posição mais mainstream na filosofia acadêmica brasileira - ‘uspiana’, digamos. Pois creio que é principalmente desde essa experiência contraditória que melhor daremos um passo à frente. Acho que a desconstrução que Safatle faz do nacional não ajuda, mas, de outro lado, ele se esforça por sugerir o que seria o elemento válido, prático, por trás do desejo generalizado de uma filosofia mais nossa. De minha parte, quero traduzir tal desejo como simplesmente o de  fazer filosofia, de usar a própria cabeça, de fazê-lo como algo relevante para o país. Isto é, de não fazer aqui simplesmente o que já se faz fora daqui (que tampouco fazemos), e de fazer aqui o que fora daqui não se faria. Certamente em relação também com o que lá se faz, claro. E já me explico.


1 - O nacional, impopular entre nossos filósofos acadêmicos não apropriadores.

Para descartar a ideia de filosofia nacional, Safatle começa apontando, de cada uma das alegadas tradições filosóficas nacionais (metropolitanas, e vai ver que só metrópoles podem tê-las), dois autores antípodas, o que evidenciaria o descabido da suposição de uma ‘assinatura nacional’ compartilhada, ou de uma determinação por circunstâncias nacionais próprias. Safatle parece entender que, enquanto nacionais, essas filosofias teriam que excluir uma diversidade maior de posições e correntes, talvez mesmo escapar à ‘inorgânica’ condição moderna, de sociedades complexas (o que seria um pressuposto involuntário de Haddock e Cabrera). E na hora de perguntar por algo como sua unidade e identidade nacionais, Safatle exclui disso relações de oposição, o eventual pertencimento a diferentes conjuntos, a possibilidade uma wittgensteiniana semelhança de família, etc. Aparentemente, para ele, tampouco filosofia grega, europeia, oriental etc. são expressões que fazem muito sentido, dada a heterogeneidade e falta de parentesco que cobririam.

Depois disso, Safatle dá outro passo refutador do nacional, no qual, entretanto, creio que os exemplos invocados dizem o inverso do que ele pretende. Se, como ele diz, o `pós-estruturalismo francês` - como recepção e usos norte-americanos de gente como Foucault, Deleuze e Derrida – é “uma invenção tipicamente norte-americana”, de resposta a circunstâncias bem norte-americanas, isso para mim não sugere que tais filósofos se tornaram agora filósofos americanos, nem faz deles pensadores menos tipicamente franceses. Antes, pelo contrário, significa que norte-americanos, na recepção dos mesmos, impõem-lhes ativa e desinibidamente uma marca nacional. Do mesmo modo, se o pensamento de Heidegger encontra na França um uso mais vistoso do que na Alemanha, isso para Safatle poderia fazer dele um filósofo mais francês do que alemão, quando apenas faz desse heideggerismo um produto tipicamente francês. E se Deleuze, no desenvolvimento de sua filosofia, apropria-se do pensamento de Espinosa e Nietzsche, isso tampouco faria dele um filósofo menos francês. Pensar isso só sugeriria que no Brasil estamos fracos mesmo em história da filosofia (contemporânea). Mas principalmente seria deixar de ver em Deleuze um exemplo do que também no Brasil poderíamos fazer de útil e interessante com filósofos dos outros (inclusive Deleuze): apropriá-los - em lugar de empenharmo-nos apenas em passivos e redundantes, comentários internos das suas obras.

2. “Monstruosidade” do Estado nacional e de mais realidades moderno-burguesas, ou ‘monstruosa’ falta de espírito do Esclarecimento?

Safatle está convencido de que a cadeia que vai de Eckhart a Hegel representa apenas uma reles “ilusão de continuidade”, o que creio diria também da que vai de Maine de Biran a Bergson, bem reconhecida - ou construída, não importa -  pela inglesa Susan Stebbing sob o rótulo de voluntarismo francês. Entrementes, no arraial da filosofia real, Vincent Descombes queixa-se de que Habermas, no Discurso Filosófico da Modernidade, “ignora que está privilegiando uma tradição nacional particular”, a própria, enquanto que “a consciência filosófica da situação moderna tem sido expressa de modo diferente em culturas nacionais diversas”. Novamente, aqui, um bom lembrete, para nós filósofos brasileiros, de que poderíamos dar reconhecimento e expressão à nossa própria situação moderna. De seu lado, nosso cosmopolita Habermas, ao mencionar um “grande impulso” trazido à filosofia alemã “pela apropriação do pragmatismo”, acha necessário acrescentar: “sem que isso tenha causado prejuízo à substância da tradição alemã.” Claro, trata-se de apropriação (termo com ressonância oswaldiana), como, p. ex., a de Hegel por Sellars, ou a de Espinosa pelo idealismo alemão, de desenvolvimento incompreensível sem ela. O que faz pensar que, se nem a robusta filosofia alemã passa sem suas apropriações, por que deveríamos nós? Devemos apenas, como mais cosmopolitas (sic) do que eles, acrescentar outras referências às suas, as de nossa preferência – com as quais eles pouco se importam, embora às vezes importem-se mais do que nossos extra-territorializados.

O problema é que, para Safatle, ‘filosofia nacional’ e outras realidades nacionais têm “naverdade” uma base ilusória e espúria. Pois, ele explica, trata-se de “construções culturais” (qual o problema?), “heteróclitas” e sem “organicidade” (e daí?), de “burguesias locais” (não creio que seja o caso de Haddock, Cabrera, Habermas ou Descombes), que com elas visariam apenas consolidar seu domínio sobre uma população e um território determinados: o Estado-Nação. Isso embora logo adiante ele substitua esse sujeito da história por outro, agora o país (tampouco popular entre muitos dos nossos):  A Alemanha p. ex. é “o país da Siemens” que fez “o esforço desesperado de transformar a impotência de sua burguesia em culto à boa vontade” e isso seria Kant. O que ainda é dizer pouco: tradições nacionais “servem apenas para dar alguma organicidade à monstruosidade institucionalchamada Estado-Nação,” o que pode exigir até inventar uma música “profunda” e “made in Germany”. Pena, então, que a impotência da burguesia brasileira não nos tenha trazido nada parecido, sequer um ‘campo filosófico’ debatedor, que à Alemanha não faltou. E pena que Safatle deixe de anotar desenvolvimentos “burgueses” associados àquele, como – já que deu destaque a Kant - o Esclarecimento alemão, as ideias kantianas de autonomia, maioridade e sapere aude, que aparentemente mais nos têm faltado. E faltado, segundo ele mesmo, em função de uma marca bem nacional nossa (aparentemente pouco moderno-burguesa): a da “filiação”. Pode justamente ser que, também por causa dessa, reconhecer nacionalidade (alheia) à filosofia que `fazemos` resulte em desvalorizar o patrimônio arrebanhado, e em cobrar de nós mais iniciativa e maioridade do que a estamos dispostos a ter, sem falar no trabalho adicional de conhecer coisas nossas.

3- Atraso, ‘comentarismo exegético’ e ‘filiação’ na nossa filosofia sem debates, sem questões – e sem filosofia.

Nem tudo, porém, está perdido, pois afinal Safatle admite que há sim filosofias nacionais, como “fato empírico sabido de todos”. O que, bem entendido, compreenderia essencialmente, como o que tem de válido pelo menos, um “campo filosófico”:  conjunto de coisas que “levam os mais novos a repetirem as práticas dos mais antigos,” que necessariamente incluiria o que mais importa: debates. Mas isso por si não deveria envolver qualquer marca nacional, mormente “num momento em que” – ele garante - “as nacionalidades são apenas formações reativas”.

Por que, entretanto, “aqueles que fazem filosofia no Brasil” não se conseguem “organizar como campo?” Teríamos tudo para um campo, menos, o que faz toda a diferença, os tais debates (que curiosamente, em Safatle, aparecem em primeiro lugar como “inter-geracionis” e não como procedimento usual de elaboração). E isso porque as relações imperantes na nossa comunidade filosófica são essencialmente “relações de filiação”, que importam decisivamente até “na definição de postos de trabalho” e “na sobrevivência material”. (Finalmente, então, uma peculiaridade nacional para a filosofia brasileira, negativa é verdade, uma que me parece mais de matriz ibero-católica do que ‘burguesa’). Daí que o que ele pinta como “sistema de traição, crítica, distorção... nunca poderá constituir-se entre nós”. “Em um espaço de filiados nunca poderá existir debate” – “apenas aplauso e silêncio”. E, nesse quadro, a filosofia no Brasil “jamais poderá se firmar.” Um diagnóstico duro, corajoso e desafiador (que afasta o improvável pressuposto de Haddock de que fazemos aqui excelente “filosofia europeia”).

Safatle, porém, enfraquece a própria tese propondo que debates já os tivemos mas perdemos. E não está se referindo ao nosso hegelianismo-sartrismo-marxismo, dos anos 60, em torno do Iseb, nem ao culturalismo do IBF, nem tampouco a uma agitação radical de pensamento como o Modernismo de 22. Mas a alguma coisa que teria vigorado nos anos oitenta e noventa (o beletrismo da ‘filosofia da Funarte’?), e que depois se extinguiu em meio a uma mundial (!) “retração de horizontes”. Isso apesar da filosofia ter como especificidade um largo “horizonte crítico genérico” - que a levaria a intervir em discussões “não apenas sobre história da filosofia, mas sobre estética, política, teoria social, clínica e ética”.

Aqui Safatle deixa talvez entrever nossas velhas confusões de sempre, entre filosofia e história da filosofia (‘leitura interna’), e, por consequência, também entre debate acadêmico e debate na esfera pública. Pois aquelas são praticamente áreas temáticas de que a filosofia sempre se ocupou e se ocupará em toda parte, e de modo debatedor, tanto dentro quanto fora da academia, onde por igual nos tem faltado. Não tanto assim a “história da filosofia”, que só aqui no Brasil viria em primeiro lugar numa lista dessas, e acompanhada de um “não apenas” – lista que também só aqui deixaria de incluir a ciência. Isso tudo em lugar de associar nossa privação de um campo de debate e elaboração, eu sugeriria, ao nosso modelo comentador de – evitar – fazer filosofia, do nosso dominante engessamento na ‘escolástica’ de leitura interna do Magister (dixit), que nos foi imposto pela civilizadora missão francesa estruturalista-goldschmidtiana. E até de eventualmente perguntar – se é essa sua inclinação - pelo ‘caráter de classe’ do mesmo.

 4- Campo, Debate, Pauta, Referências. Fazer filosofia é fazer filosofia nacional (de gênero, ‘étnica’, temática, etc.).

Frente a toda esse emaranhado, eu proporia simplesmente a fórmula de que fazer filosofia seria o suficiente para resultar em fazer filosofia brasileira - com marca nacional, referências contextuais e de pensamento nossas, etc. Fazê-lo principalmente como investigação e elaboração de temas e problemas, e não como ociosos estudos internos monoautorais, segundo a fórmula batida ‘o conceito de x no autor y’ (nos quais, curiosamente, mesmo seus apologistas querem vez por outra encontrar alguma assinatura nossa). Fazê-lo certamente com apoio na ‘conversação histórica’ que já vem rolando antes, a chamada ‘tradição filosófica’ (agora crítica e apropriadoramente tomada), e junto com outras expressões de pensamento que eventualmente interessem. Certamente também em diálogo, como sugeriu a proposta da Anpof, com nossas circunstâncias e nossa experiência contemporânea, desde o qual podemos esperar desenvolver alguma marca de autonomia. Em relação a isso, imagino que Carla Rodrigues não espere que gênero e filosofia possam vir efetivamente a se encontrar no interior desse modelo monoautoral, `canônico`, conservador, de (não) fazer filosofia.

Em todo caso, em não havendo apenas filosofia fechada na leitura interna de grandes Autores canônicos (ou convertidos a tais), haverá campo e debate, pois haverá finalmente assunto para debater. E, em havendo assunto e debate, as chances são de que dele poderá desenvolver-se uma pauta nossa. E, em isso ocorrendo, ela não deixará de cedo ou tarde tomar, além de assuntos nossos, como se nos apresentam, mas também referências nossas, tanto de nossa própria experiência histórica, como da riqueza do que tivermos em termos de ‘espírito’: filosofia (no que trabalhos como os de Antônio Paim e Paulo Margutti nos ajudariam), literatura, poesia, ensaios, pensamento não-ocidental, etc. O que por certo resultará mais cosmopolita, não menos, pois isso tudo nos adviria melhor de uma maior comunicação com o que se faz de filosofia fora do país, como uma via de exorcizar o modelo acanhado, verdadeira jabuticaba, em que fomos, como disse Giannotti, engessados. Pois filosofia, viva, voltada para temas e problemas, v. g. para gênero, para contexto e demandas da sociedade, bem como para outras tradições de pensamento, filosofia determinada pelas circunstâncias e referências próprias, é o que mais se faz lá fora. E para tal filosofia viva, contemporânea, questões ‘heideggerianas’ de origem remota - múltipla ou única - não têm muito interesse.

Quem sabe então o próximo congresso da Anpof poderia seria e voltado para o diálogo com a nossa experiência e contexto contemporâneos? Até nossos colegas de fora se interessariam mais, e, “descentralizados” (Cabrera), se perceberiam afinal, eles sim e sua filosofia, como Habermas para Descombes, um tanto primariamente ‘nacionalistas’. 

 

ANPOF (biênio 2017-2018)
01 de Fevereiro de 2017. 

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