OPÇÕES REJEITADAS*

Roberto Mangabeira Unger
(Universidade de Harvard)

 

Despertamos num mundo particular: não apenas o mundo natural que habitamos, mas o mundo das instituições e práticas, incluindo as práticas discursivas, que avultam ao redor de nós. Para bem ou mal, estas práticas se situam entre nós e o quadro absoluto de referência, a visão do alto, o ponto de vista das estrelas.

No entanto, sempre nos experimentamos, enquanto indivíduos e em contato com os outros, como fontes de iniciativas capazes de resistir às estruturas estabelecidas de organização e crença. Qual deveria ser nossa atitude em relação a tais estruturas de organização e crença comum? Deveríamos nos render a elas e tentar tirar o melhor partindo delas, explorando, por todos os modos possíveis e pela luz que elas projetam, suas possibilidades ocultas de transformação? Ou deveríamos procurar estabelecer uma posição a partir da qual submetê-las a julgamento?

Nenhuma questão se apresenta mais naturalmente quando pensamos libertos (ainda que por pouquíssimo tempo) da busca de metas imediatas num contexto imediato. Nenhuma questão surge mais naturalmente porque pensar com algum distanciamento das pressões da ação urgente já significa agir como se nossa relação com as estruturas que nos envolvem estivesse aberta a toda forma de resistência, como se pudéssemos distinguir entre elas e nós e perguntar o que fazer em relação a elas. As respostas dadas a esta questão ao longo da história da filosofia caem num pequeno número de alternativas. Existem quatro opções principais.

A primeira opção é a crença no acesso à ordem mais verdadeira e mais profunda, oculta bem além das estruturas estabelecidas da sociedade e da cultura, além até da crença e da percepção comuns. Esta ordem mais elevada é tanto fato como valor: ao mesmo tempo o cerne recôndito da realidade e a única fonte da qual pode resultar um imperativo de vivermos nossa vida de uma maneira particular. Tudo mais é ilusão ou convenção obscura.  

O acesso a esta realidade mais elevada requer uma ruptura. Esta ruptura deve ser comumente precipitada por algum sofrimento, minando nosso apego ao mundo das sombras e abrindo caminho para nosso alcance à visão da situação real.

Assim que ganhamos acesso a esta realidade mais elevada através do caminho de auto-subversão e reorientação, ficamos em posse de um padrão segundo o qual julgar as estruturas estabelecidas, colocando-as em conformidade com o padrão mais elevado. O produto característico desta reforma é um ordenamento paralelo e recíproco da sociedade e do eu: cada força dentro da sociedade e dentro do eu assume seu lugar apropriado.

Na história da filosofia ocidental, associamos esta orientação mais fortemente com Platão. Na verdade, ela foi a forma dominante de ambição filosófica ao longo de grande parte da história mundial. Muitos daqueles que anunciaram o final da busca da realidade oculta e criadora de padrões, apenas a continuaram sob outros nomes. Não admira que habitualmente tenham se baseado na mesma estrutura de desapontamento e conversão que destinou um papel tão central às visões que professam repudiar.

As reivindicações características feitas por esta primeira tendência na história universal da filosofia esbarram numa dupla objeção. Exigem que desvalorizemos a realidade e a autoridade das práticas e crenças estabelecidas com base nas ideias especulativas de algum professor de filosofia. Demandam que mudemos nossas vidas e nossas sociedades a partir de uma convicção especulativa sem terem diante de nós qualquer compreensão detalhada dos constrangimentos e oportunidades transformadoras.

Uma segunda opção consiste em abandonar a busca da realidade canônica mais profunda em favor de um retiro dentro do universo humano: nossas experiências centrais de compreensão do mundo, satisfazendo-nos uns aos outros e esperando alcançar a felicidade. Tais experiências repousam sobre certas pressuposições, sem as quais não poderíamos fazer sentido da compreensão, da obrigação ou da esperança de felicidade. Tendo deduzido estas pressuposições de nossa humanidade a partir de nossa experiência, podemos então usá-las para julgar e para remodelar esta experiência. O sistema das pressuposições permanece invariável e proporciona a perspectiva a partir da qual confrontaremos as instituições, práticas e crenças estabelecidas para reformá-las.

Identificamos este caminho de pensamento filosófico com Kant. Ainda assim, ele teve muitas outras expressões na história da filosofia ocidental e não-ocidental. Seu movimento preliminar decisivo — que ele compartilha com o pragmatismo — é o abandono da perspectiva das estrelas: o homem é a medida; não temos outra. Ele não conseguiu, no entanto, obter sucesso em sua tentativa de separar as pressuposições imutáveis do material histórico variável que elas informam: a matéria das sociedades e culturas reais em que vivemos. Ou estas pressuposições possuem conteúdo demais para serem imutáveis, ou possuem conteúdo insuficiente para guiar nossas ações individuais e coletivas. Não podemos separar nossas visões sobre as fontes de obrigação moral e social do conteúdo de nossos ideais pessoais e sociais, assim como não podemos desenredar as categorias modais de possibilidade e necessidade da substância de nossas crenças cosmológicas.

A ideia da estrutura imutável formadora de padrões acaba se revelando outra versão da tentativa de enxergar com os olhos de Deus, ainda que sejamos nós mesmos a enxergar com estes olhos. Paradoxalmente, ela nega precisamente o que existe de mais divino em nossa capacidade gradual de repensar e de refazer cada aspecto de nossa situação, incluindo aqueles aspectos que fomos tentados a contabilizar entre nossas pressuposições imutáveis. Somos seres mais históricos do que esta doutrina quer admitir.

A partir desta constatação, surge a terceira das principais opções intelectuais que nos é proporcionada pela história de nossas ideias e atitudes sobre as estruturas institucionais e conceituais que encontramos estabelecidas ao nosso redor. De acordo com esta abordagem, tais estruturas representam incidentes numa história: a história de nossa autoconstrução individual e coletiva. Eles exemplificam tipos de consciência ou de organização social e econômica. Forças de aparência jurídica impulsionam para frente o sucesso destes sistemas de organização ou consciência. A história da sucessão, culminando numa resolução final de contradições ou num preenchimento final da humanidade, proporciona a única referência a partir da qual podemos julgar nossas instituições e nossas culturas. Somente a imaginação da sucessão por inteiro e o pressentimento de sua conclusão nos oferecem o conhecimento mais elevado por meio do qual podemos enxergar através de nossas circunstâncias imediatas, colocando-as neste contexto maior e definitivo.

Esta é a opção que encontramos cristalizada na filosofia de Hegel, bem como em muitas das ambiciosas teorias sociais dos séculos dezenove e vinte. É uma empreitada paradoxal. Despertamos a imaginação e a vontade transformadora colocando a história do seu lado. Depois as colocamos de novo para dormir sugerindo que uma história predeterminada faz o trabalho por elas. A teoria reivindica uma percepção privilegiada olhando para trás do ponto de vista do fim antecipado e distancia-se da perspectiva tumultuada e perigosa do agente.

Uma quarta opção — um pragmatismo encolhido — é simplesmente abandonar a tentativa de encontrar acima ou além das sociedades e culturas com as quais estamos envolvidos um lugar a partir do qual julgar suas instituições, práticas e discursos. Tudo o que temos é o mundo tal como o experimentamos, com aquela ampliação da nossa experiência que a memória e a imaginação são capazes de prover. Decidimos quais partes da nossa experiência possuem o maior valor e quais delas merecem ser descartadas. E na persistência de forças conflitantes e tendências contrastantes encontramos oportunidades de transformação no meio dos constrangimentos.

Uma implicação deste ponto de vista consiste em nos negar orientação sobre o rumo que devemos tomar para nossos projetos de desafio e mudança. Tudo o que podemos fazer é seguir as sugestões daquilo que consideramos a melhor parte do nosso eu ou o impulso daquilo que sabemos ser nossos desejos mais fortes. E o que pensamos que vemos quando enxergamos além dos arranjos e das crenças estabelecidas ao nosso redor? Será que somos iludidos a acreditar que podemos virar o jogo em relação aos mundos dentro dos quais nos encontramos?

Uma outra consequência desta posição é excluir a possibilidade de que seríamos capazes de transformar o caráter de nossa relação com os mundos sociais e culturais que habitamos, ao invés de simplesmente mudar, pouco a pouco, o conteúdo dos arranjos e das crenças que os compreendem. É uma visão equivocada. Instituições e ideologias não são como objetos naturais, forçando-se sobre nossa consciência com força insistente e lembrando-nos de que nascemos num mundo que não é nosso. Nada mais são do que vontade congelada e conflito interrompido: o resíduo cristalizado a partir da suspensão ou da contenção de nossos conflitos.

Em consequência, as estruturas da sociedade e da cultura nunca existem univocamente, de uma só maneira, com apenas um grau de força. Eles existem mais ou menos, em graus variados. Podem ser arranjadas de modo a se defenderem, tanto quanto possível, do desafio e da mudança. Experimentaremos então um aumento da distância entre os movimentos rotineiros que fazemos dentro do contexto estabelecido e os movimentos excepcionais através dos quais nós o modificamos. O resultado será naturalizar o cenário social e cultural de nossas vidas e colocar a vontade transformadora e a imaginação sob uma espécie de encantamento.

Alternativamente, porém, nossas sociedades e culturas podem ser arranjadas de modo a facilitar e organizar sua própria revisão experimental gradativa. Nós então encurtaremos a distância entre os movimentos de rotina dentro de um contexto e os movimentos excepcionais em torno do contexto; experimentamos este último como uma extensão direta e frequente do primeiro. A resultante é que desnaturalizamos a sociedade e a cultura: nós as descongelamos. É como se, no mundo físico, um aumento de temperatura começasse a derreter as distinções rígidas entre as coisas, devolvendo-lhes o fluxo indistinto de onde vieram. À medida que nos deslocamos nesta direção, os fatos da sociedade e da cultura deixam de se apresentar à nossa consciência como um destino inescapável.

Este não é um mero contraste especulativo. Nossos interesses mais poderosos acabam se engajando nesta desnaturalização da sociedade e da cultura, nesta radicalização do experimentalismo, nesta alternância do destino para a invenção: nosso interesse material no progresso prático econômico e tecnológico, nosso interesse moral e político na emancipação dos indivíduos de hierarquias e divisões sociais embrutecidas e de papéis sociais estereotipados, e nosso interesse espiritual em sermos capazes de nos engajar com um mundo — sinceramente, embora não obsessivamente — sem termos de nos render a ele. A filosofia de que precisamos — um pragmatismo radicalizado é a teoria desta mudança; ele nos oferece uma maneira de abordar a situação, tanto no geral, como no particular, que caracteriza este ataque contra o destino e a fatalidade. É a ideologia operacional desta prática subversiva e construtiva. No entanto, esta quarta opção não nos fornece nenhuma maneira de entender as circunstâncias ou as potencialidades que podem fazer sentido numa tal reorientação.

As quatro posições que descrevi são posições relativas à sociedade e à cultura. Elas têm a ver com o teatro de ação humano imediato ao invés do cenário não-humano de nossas vidas: nosso lugar na natureza. Seu sujeito é a variedade de terrenos em que poderemos resistir e transformar este mundo humano ou abandonar a resistência e desistir da transformação.

Estamos acostumados a imaginar o contexto imediato da vida humana na sociedade e na cultura como um pequeno espaço dentro de um mundo grande — a natureza, o universo, o ser. O que pensamos daquele mundo e o que pensamos do nosso pensamento a respeito dele, parece, segundo este hábito, ser o que mais conta na definição de uma posição filosófica. Pensar sobre nós e sobre nossa relação com as construções feitas pelo homem parece apenas um assunto secundário.

Mas não é. Nós e nossas ações somos o começo; o resto é o resto. Nossos anseios e interesses mais constantes e poderosos têm a ver conosco e com nossa relação de um para com o outro. Nosso equipamento perceptual e cognitivo é construído numa escala adequada para operar dentro do horizonte limitado da ação humana. É somente por força do desapontamento com este mundo humano próximo que nos esforçamos e fingimos avistá-lo de uma distância divina. E é somente através da ambição enlouquecida, perpetuamente surgindo dos aspectos entrincheirados de nossa situação, que direcionamos nossa atenção para objetos distantes.

Se quisermos ficar mais livres, mais livres até para examinar a realidade como um todo, só poderemos fazê-lo ganhando maior liberdade de percepção e ação deste mundo. Este fato justifica uma classificação das posições filosóficas que as distingue umas das outras por suas implicações para a política: a reconstrução da sociedade e da cultura.

A visão que pretendo desenvolver aqui (**) começa a partir da insatisfação diante das quatro posições que descrevi. O futuro de nossas ideias mais gerais reside na radicalização intransigente deste descontentamento — numa medida e num rumo que as ortodoxias dominantes do pensamento contemporâneo nas ciências sociais e humanidades, bem como na filosofia, não estão dispostas a tolerar.

 

 

* O título: "Opções Rejeitadas" se refere ao Capítulo 1 do livro The Self Awakened: Pragmatism Unbound, Harvard University Press, 2007, obra que será publicada no Brasil no inicio do próximo ano pela editora Civilização Brasileira, sob o título O Homem Despertado: Imaginação e Esperança.  O texto “Unger, a Filosofia Brasileira e a Singularidade de nossa Experiência Contemporânea”, de José Crisóstomo de Souza, publicado aqui na Coluna Anpof (16/12/16), é uma rápida introdução a Unger e a esse livro. 

** Referência ao projeto no restante do Self Awakened, Pragmatism Unbound.



ANPOF 2017-2018

 A visão que pretendo desenvolver aqui[1] começa a partir da insatisfação diante das quatro posições que descrevi. O futuro de nossas ideias mais gerais reside na radicalização intransigente deste descontentamento — numa medida e num rumo que as ortodoxias dominantes do pensamento contemporâneo nas ciências sociais e humanidades, bem como na filosofia, não estão dispostas a tolerar.



[1] Unger se refere ao seu projeto no resto do Self Awakened, Pragmatism Unbound.

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