Coluna ANPOF

MEMÓRIA DO PORCHAT - Homenagem ao professor Oswaldo Porchat

Prof. Dr. José Raimundo Maia Neto

 

A primeira disciplina de filosofia que cursei, lecionada por Emílio Eigenheer, data do início dos anos 80, quando era aluno do curso de graduação em ciências sociais da UFF. O Emílio encontrava-se então bastante interessado no ceticismo, organizando a tradução de uma coletânea de artigos do Popkin em colaboração com os seus colegas de UFF Danilo Marcondes e Renato Lessa, os quais também tive a felicidade de ter tido como professores. Embora a disciplina fosse sobre filosofia moderna, o Emílio me recomendou a leitura do livro recém-publicado do Porchat e do Bento Prado Júnior, A Filosofia e a Visão Comum do Mundo. Lembro-me de ter ficado muito impressionado na ocasião pelo estilo em primeira pessoa, confessional, dos textos do Porchat, com sua formação religiosa e posterior descrença, com sua experiência do conflito das filosofias, com o relato do seu abandono da filosofia e retorno à vida comum. A passagem pelo ceticismo foi fundamental neste percurso do Porchat, embora neste momento ele ainda não considerasse o pensamento cético como a fonte principal para a solução de suas inquietações intelectuais. Nesta ocasião, encontrando-me bastante envolvido com o existencialismo (especialmente Kierkegaard), fui impressionado mais pelo aspecto vivido, existencial, do discurso do Porchat do que pelos argumentos céticos considerados nos seus textos.

A leitura dos textos do Porchat certamente contribuiu para a minha decisão de mudar de área, começando um mestrado em filosofia na PUC-Rio logo após minha graduação. Após conhecer a obra, vi e escutei pessoalmente seu autor em 1986 no primeiro colóquio realizado no Brasil inteiramente dedicado ao ceticismo, organizado pelo Porchat no Centro de Lógica e Epistemologia da Unicamp que ele havia fundado. Fui ouvinte deste evento inaugural dos estudos sistemáticos sobre o ceticismo no Brasil. Mais tarde, Plínio Smith me disse que ele também, então jovem estudante já sob a orientação do Porchat e terminando a graduação, encontrava-se nesta mesma audiência. Pouco depois do evento em Campinas, o Danilo convidou o Porchat para uma palestra na PUC e eu pude, após a palestra, timidamente falar-lhe do meu projeto de mestrado de estudar a ficção de Machado de Assis do ponto de vista do ceticismo. O Porchat não somente acolheu com entusiasmo o projeto como se dispôs a colaborar. Fiz então uma viagem de um dia a São Paulo onde passei uma memorável tarde na casa do Porchat, a quem expus minha interpretação do ceticismo na obra de Machado, recebendo sugestões e informações preciosas sobre o pirronismo antigo. Até então conhecia o ceticismo antigo de forma incipiente e sobretudo através de comentadores. Porchat ajudou-me a articular a minha leitura da sucessão cronológica dos romances de Machado, seguindo um determinado padrão evolutivo formal e de visão de mundo, ao caminho do filósofo rumo ao ceticismo, descrito por Sexto Empírico nos capítulos iniciais dos Esboços do Pirronismo.

Minha amizade com o Porchat consolidou-se durante a primeira metade da década de 90, quando retornei do meu doutorado nos Estados Unidos e me associei, como pesquisador do CNPq, à PUC-Rio. A amizade cresceu ao longo dos colóquios sobre o ceticismo, nos quais Porchat era o grande animador, que estruturaram os estudos céticos no Brasil, levando à criação dos atuais GTs da ANPOF Ceticismo e História do Ceticismo. Eu e o Danilo organizamos um primeiro (segundo, se começamos a contagem com o inaugural organizado pelo próprio Porchat na UNICAMP) no Rio em 1992. Também em 1992 o grande amigo do Porchat e estudioso
do ceticismo Ezequiel de Olaso organizou um outro em Buenos Aires e esta colaboração, juntamente com a colaboração entre o Olaso e o Popkin, deu início aos estudos sistemáticos sobre o ceticismo no âmbito das américas. (Popkin, outro grande amigo do Olaso, havia organizado no ano anterior, com a ajuda deste último, um colóquio sobre o ceticismo na história da filosofia em Riverside, Califórnia, reunindo pesquisadores das três américas. Por algum motivo que não me recordo o Porchat não pode comparecer, ficando a representação brasileira limitada a mim e ao Danilo.) O Plínio organizou um segundo colóquio brasileiro sobre o ceticismo em Curitiba em 1993, o Luiz Henrique Dutra um terceiro em Florianópolis em 1994 e eu, já professor da UFMG, juntamente com minha colega Lívia Guimarães, um quarto em Belo Horizonte em 1995.

Porchat foi um pesquisador exemplar. Desenvolveu uma filosofia original—algo raro entre nós—, o neo-pirronismo, privilegiando a qualidade sobre a quantidade da produção intelectual. Ao longo dos colóquios, ia trabalhando um aspecto do neo- pirronismo através da elaboração de suas relações com o ceticismo pirrônico antigo, com a vida comum (um tema caro ao Porchat), com a ciência, com temas debatidos na epistemologia contemporânea, com o ceticismo cartesiano. As discussões conosco que participávamos dos colóquios, bem como com seus alunos, eram parte integrante desta elaboração. Assim como buscava nossas reações às suas apresentações, sempre queria participar das nossas. Porchat jamais limitava sua participação nos colóquios aos dias de sua conferência. Fazia questão de assistir às de todos os demais participantes.

Foi também um orientador exemplar. Seu trabalho sobre o ceticismo frutificou e frutifica na excelência dos trabalhos dos seus ex-orientandos. Tive a honra de ter sido por ele convidado para a banca da defesa de doutorado na USP de um deles, o Roberto Bolzani, por cujo trabalho tenho grande admiração, assim como pelos trabalhos do Plínio e do Luiz Eva—para citar somente os seus ex-alunos cujos trabalhos acompanho desde o início dos anos 90. Porchat foi também um colaborador generoso de muitos que como eu tiveram a felicidade de participar com ele dos colóquios sobre o ceticismo. Foi enfim um amigo exemplar, exemplificando como ninguém o modelo da amizade filosófica antiga.

A memória do Porchat é um alento nesse tempo sombrio que nos ameaça.

ANPOF 2017/2018

 

 

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