Coluna ANPOF

REDE DE SENTIDOS E CAMELOS DO ALCORÃO

Laurenio Sombra 1

Quando João Gilberto mostrou seu novo e sofisticado jeito de
tocar violão a Tom Jobim, pela primeira vez, Tom perguntou:
“o que é isso, João?”. “Tirei dos requebros das lavadeiras de
Juazeiro”, respondeu João Gilberto.

Já foi muito comentada a citação de Jorge Luís Borges, que reverberou Gibbon, segundo o qual não havia menção a camelos no Alcorão, dado aparentemente surpreendente pois camelos faziam parte ativa da paisagem descrita pelo livro sagrado dos islâmicos. Exatamente por isso, dizia Borges. Não precisamos mencionar aspectos de uma paisagem que já nos pertence, que não exige de nós que voltemos a falar dela. Quando se escreve sobre algo que se quer destacar, mas que não se vive, esta descrição vem recheada de exotismos desnecessários a um habitante local. Alguém que quer forjar um mundo árabe que não habita provavelmente o salpicaria de camelos, beduínos e oásis a cada página. Borges, com isso, rejeitava discussões fáceis sobre uma “identidade argentina” e tentativas forçadas de adotá-la. Gostaria de usar esta metáfora como base para descrever um pouco do conceito que desenvolvi e batizei de rede de sentidos. Fiquemos, por enquanto com esta contraposição entre “camelos implícitos”, como no Alcorão, e “camelos salpicados”, aqueles que são inseridos exoticamente.

A paisagem descrita por Borges incluía um ente material – um camelo – que compunha o mundo árabe do século VII, como outros. Mas a “paisagem” humana é mais complexa. Além destes entes materiais, ela também inclui signos mais abstratos que povoam nossa vida prática com igual intensidade. Só para dar um exemplo: se trabalhamos/estudamos numa universidade, constatamos o tempo todo a existência de professores, alunos, reitoria, pró-reitoria, grupos de pesquisa, centros acadêmicos, notas, aulas, sindicatos, grupos de direita, grupos de esquerda, eleições... No fundo, não aprendemos que existem professores, notas, aulas, reitoria etc., nós vivemos uma vida em que lidamos com professores, notas, aulas, reitoria etc. E o modo com que vivemos esta vida faz toda a diferença para que esta paisagem se companha em nós.

O que há de comum com a imagem de Borges é que, na maior parte das vezes, não se reflete sobre boa parte da paisagem vivida – parte dela nem precisa mais ser descrita, como no caso dos camelos implícitos. De algum modo, é natural que seja assim, a vida precisa ser vivida. A grande questão é que a vida humana só ganha significado porque há uma paisagem, um ambiente (que não é totalmente “natural” para o ser humano, muito ao contrário) que antecede os atos cotidianos particulares, que lhe dão significado, que permite que eles sejam valorados de um modo ou de outro.

Em certo sentido, foi esta paisagem, esta ambiência humana, que resolvi estudar filosoficamente e traduzir no conceito de rede de sentidos. Nos artigos em que escrevi sobre isso, já defini a rede de sentidos de algumas formas levemente diferentes. Numa das últimas a defini como “uma configuração profunda, não totalmente consciente e explicitável” que “é histórica, e como tal transformável no decorrer do tempo, e é constituída ‘performaticamente’ a partir de diversos rituais diários de conformação do nosso modo de agir, sentir e significar o mundo”.

Se a ideia desta configuração profunda tinha vários antecedentes importantes (a ideia de mundo em Heidegger, a ideia de “gramática profunda” em Wittgenstein), há algo que eu considerava insuficiente em todas estas abordagens. O conceito de rede de sentidos tem, certamente, uma dimensão hermenêutica importante. Mas eu via nele, também, uma dimensão política menos óbvia e que, como tal, me parecia basicamente negligenciada. Explico.

Se a nossa “paisagem” é constituída social e historicamente, e se isso se faz performaticamente a partir de diversos rituais diários, é muito importante compreender as relações de poder que a possibilitam. A nossa rede de sentidos é povoada e conformada por signos articulados valorativamente, embora nunca possa ser resumida à mera soma deles e de suas relações. Os signos, por sua vez, também são históricos e constituídos socialmente. Eles são, conforme já tive oportunidade de dizer, uma “promessa de identidade”. Mas o cumprimento dessa “promessa” só se faz a depender de relações de poder que lutem para garanti-la. E há sempre resistência a estas relações, assim toda imposição performativa de um signo enfrenta diversas reações, lutas de toda ordem. As “paisagens”, portanto, não se fazem sem ações e reações, sempre disputadas. Na prática, convivemos em ambientes com diversas “paisagens” (diversas redes de sentidos) no mesmo espaço, em confronto.

E isso tende a incomodar. Muito. Por uma razão razoavelmente simples de explicar. Como eu havia dito antes, temos uma vida para ser vivida, e essa vida tem como ambiência uma rede de sentidos, a nossa “paisagem” naturalizada. Se há algo que a coloca em xeque diariamente, nós temos que lidar com e refletir sobre essa instabilidade. Os camelos deixam de habitar em paz, implícitos, no livro sagrado, e têm que ganhar primeiro plano. Mais que isso, têm de ser defendidos.

Explicando mais conceitualmente. Vivemos em ambientes de tensões entre redes de sentidos diferentes habitando, virtual ou fisicamente, o mesmo espaço. Essa condição eu batizei como antagonismo, para minha formulação um conceito tão importante quanto o de rede de sentidos.

Qual o significado disso? Se pensarmos em uma condição ideal, provavelmente nunca alcançada, de um ambiente humano em que vigora uma única paisagem, uma única rede de sentidos, todos tenderiam a habitar esta paisagem “naturalmente”. Não haveria muitos questionamentos, porque ela seria toda composta de camelos, oásis e beduínos, e teríamos passado a vida convivendo com estes entes, não precisaríamos discuti-los profundamente. O antagonismo é o oposto disso. A cada momento vemos nossa paisagem “atravessada” por outras que não se conciliam com ela, colocando-a em tensão, ameaçando-a. Temos de lidar com esta outra paisagem, nem que seja para tentar rechaça-la. Mas, eventualmente, para negociar com ela, incorporar alguns dos seus elementos, rejeitar outros, misturar alguns com os nossos. Isso exige algo que a paisagem única (a ausência de antagonismo) não estimula: reflexividade. E, claro, estimula transformações, disputas de poder (e de sentido).

Estas formulações podem ser usadas de diversos modos. Por exemplo: se Borges citou os camelos do Alcorão para repensar os discursos sobre identidade argentina, esses elementos conceituais podem trazer um novo olhar à questão da filosofia brasileira, rediscutida nos últimos anos sob vários ângulos, talvez desde uma provocação inicial de Rafael Haddock-Lobo, que pensava se a filosofia brasileira poderia ter uma “assinatura” própria (uma identidade?).

Pensemos. A própria ideia de “Brasil” decorre de uma confrontação antagônica de várias e diferentes “paisagens”: portuguesa; “indígena”, como uma soma de diversos povos originários dessa terra afetados pela colonização; “negra”, como uma soma de diversos outros povos escravizados a partir da África; composições identitárias decorrentes das relações entre esses povos; imigrantes posteriores de várias partes do mundo; e a influência dos países mais desenvolvidos a cada época: inicialmente Inglaterra, depois Estados Unidos. De uma forma muito complexa e antagônica, isso nos conformou e continua conformando, de modos diversos em cada parte do país, e mesmo em cada classe social.

Esta composição híbrida certamente conformou (de modos diferentes, repito) nossa cosmovisão, nossa religiosidade, nossos valores, nosso jeito de falar, nosso jeito de corpo, nossa sensibilidade em relação ao trabalho etc. Mas esse “hibridismo” não pode obnubilar um fator fundamental: ele se deu a partir de uma relação de poder que organizava suas principais funções institucionais de acordo com os poderes hegemônicos da Europa e, nas últimas décadas, dos Estados Unidos. Para resumir em uma categoria: de acordo com os poderes hegemônicos do Ocidente (2). Assim, tentamos organizar nosso sistema de direitos em bases ocidentais, e assim nosso modo de fazer ciência, nossa religiosidade dominante e, claro, nosso modo institucional de fazer filosofia. Em todos esses casos, com resistência, mas isso não impediu de se materializar uma forma hegemônica.

Nesse contexto, “Ocidente” tornou-se um grande camelo, normalmente implícito, da nossa paisagem. Apesar da nossa condição periférica, costumamos pensar, de modo pouco refletido na maioria das vezes, que fazemos parte óbvia do mundo ocidental 3 . É fácil ver uma afirmação “nós, ocidentais” sem maiores reflexões. Não é difícil entender. A maioria dos pesquisadores brasileiros em filosofia faz parte de uma classe média, majoritariamente branca (incluo-me entre eles), que conhece uma ou mais línguas ocidentais além do português, que conhece os grandes autores dessas línguas e trafega com facilidade as paisagens dela. Mesmo que em uma condição periférica.

No entanto, como nossa conformação sensível é maior que esse discurso hegemônico, essa “naturalidade” sempre aparenta, quando refletida, uma “ideia fora do lugar”, para ficarmos com imagem famosa de Roberto Schwarz. Sempre corremos o risco de levantarmos e investigarmos problemas filosóficos que são afetados por outras paisagens, não diria menos híbridas, mas com outras conjunções diferentes da nossa.

Por outro lado, fomos formados pesquisando assim, esta paisagem já nos é “natural”. Escapar dela já não é tão simples. E sempre corremos o risco, para desafiar os camelos implícitos, de salpicar camelos demais, não é fácil desafiar uma fórmula, e é preciso engenho e arte para fazê-lo de um jeito que não pareça meramente “politico” num sentido estrito da palavra. Isso também dependerá de nossa posição nessa discussão, do quanto somos afetados por uma sensibilidade que permite outras “assinaturas”.

Mas não podemos nos iludir. As formulações filosóficas sempre produziram estranhamento. Isso quer dizer: sempre apresentaram uma linguagem nova, conceitos estranhos, inverteram perspectivas valorativas, não à toa representaram, de quando em quando, um “ofício perigoso”, para usar o termo de Luciano Canfora. Sem dúvida nenhuma, sempre que isso aconteceu, os camelos voltaram a aparecer na paisagem, e foram novamente percebidos. Algumas vezes, com o engenho necessário. Não é possível filosofia sem antagonismo, mas também não é possível repor esse antagonismo sem uma paisagem, uma rede de sentidos, ao mesmo tempo imaginada e possível, dialogando com o nosso “torrão natal”, mesmo que este seja muito diferente para cada um de nós.

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1 Professor Adjunto de Filosofia pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Doutor em Filosofia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Agradeço a José Crisóstomo de Souza pela sugestão dessa publicação. Minha noção de rede de sentidos encontra-se exposta principalmente nos meus Identidade dos sujeitos: linguagem, constituição de sentido e valor (Sísifo, n. 1, Mai./Set. 2015) e O Ocidente como Problema Filosófico (Ideação, n. 35, jan./jun. 2017).
2 Foi nesse sentido que pensei o Ocidente como um problema filosófico, tentando discutir o nosso fazer filosófico a partir desse termo, “Ocidente”, com diversas implicações para a América Latina em geral.
3 Nem sempre os grupos dos países hegemônicos pensam igual. Eu começava meu artigo de 2017 citando um site conservador dos Estados Unidos que discutia: “serão os hispânicos ocidentais?”. E concluía basicamente com uma negativa. Basta investigar o termo West no Wikipedia inglês para ver como isso é mais controverso do que nos parece em terras tupiniquins.

 

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