Coluna ANPOF

Epistemologia em tempos de crise

Breno Ricardo Guimarães Santos
Professor Adjunto no Departamento de Filosofia da Universidade Federal 
de Mato Grosso (UFMT) e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em 
Filosofia da mesma Universidade

 

Pensemos na brincadeira “telefone sem fio”. Para quem não se lembra ou não conhece a brincadeira, aqui vai um guia rápido. Forma-se uma fila de pessoas; a primeira pessoa da fila inventa uma frase e transmite para a segunda; a segunda transmite para a terceira, e assim por diante. A graça da brincadeira era ver de que modo a frase chegaria ao seu receptor final. E, normalmente, ela chegava com algum grau de desfiguração.

O “telefone sem fio” é uma ilustração anedótica, e informativa, dos riscos da nossa vida epistêmica em comunidade. Dependemos uns dos outros para obter informações, mas essa dependência tem seus riscos e suas armadilhas. Quando atirado às garras de um mundo social e político complexo, esse telefone sem fio passa a ser, ao mesmo tempo, fundamental para conhecermos partes significativas do mundo e fonte de inúmeros problemas – alguns dos quais epistemólogas e epistemólogos contemporâneos tentam caracterizar e resolver.

Para entender a natureza do nosso telefone sem fio cotidiano, precisamos pensar no que faz esse jogo ser tão eficaz. Dependemos uns dos outros para conhecer muito do que conhecemos no mundo. Dependemos da palavra escrita, falada ou gestual de outras pessoas para que partes consideráveis do mundo se revelem para nós. Quando perguntamos a alguém, por exemplo, onde fica o prédio da reitoria, no campus de alguma universidade, estamos explorando essa relação de dependência mútua. Confiamos que, em geral, as pessoas nos dirão a verdade ou, pelo menos, que elas não nos dirão falsidades intencionalmente.

Nossa interdependência epistêmica é objeto de investigação de um ramo da Filosofia marcadamente social. Em especial, epistemólogas feministas das décadas de 80 e 90 já apontavam para esse aspecto pouco ressaltado da nossa vida epistêmica em comunidade. Em uma leitura otimista, podemos dizer que funcionamos excepcionalmente bem no desempenho de nossas tarefas coletivas para adquirir e transmitir conhecimento. Afinal, essas tarefas coletivas com frequência nos entregam informações confiáveis sobre o mundo – nos apoiando na capacidade cognitiva de outras pessoas conseguiremos facilmente encontrar o prédio da reitoria.

Esse é o aspecto fundamental do nosso telefone sem fio social. Dependemos de redes de informações e informantes, redes estas que podem se ramificar de forma longa e veloz. Mas, nos nossos contextos sociais complexos, esse telefone sem fio pode ver-se vulnerável à influência de forças não epistêmicas. E quando isso acontece, precisamos dar um passo atrás e pensar no que deu errado.

Em tempos recentes, termos como ‘fake news’, ‘bolhas epistêmicas’, ‘pós-verdade’, têm sido utilizados para expressar alguns sintomas de uma possível crise epistêmica (ou crise do conhecimento) pela qual estaríamos passando. Governantes são eleitos com base na disseminação de notícias falsas, militantes políticos rejeitam a objetividade em favor de um compromisso emocional com suas próprias convicções pessoais, usuários de redes sociais estão presos em bolhas endógenas de informação, etc. Dada a urgência de algumas dessas questões, supõe-se que a epistemologia, enquanto área da Filosofia preocupada com a nossa aquisição de crenças racionais e de conhecimento, esteja posicionada de modo privilegiado para dar respostas a essas questões. Bom, dado que esses problemas emergem não apenas como um aspecto aparentemente falho da nossa vida epistêmica em comunidade, mas também como fenômenos políticos e sociais importantes, respostas isoladas da epistemologia podem não ser capazes de lidar com a magnitude e as consequências dessas questões. Mas, ainda que o poder da epistemologia seja limitado nesse sentido, ela ainda pode ter muito a dizer sobre tais problemas.

Se voltarmos à nossa metáfora do telefone sem fio, com um olhar atento à maneira em que nossa prática informacional interdependente está entranhada à nossa vida social e política, podemos nos perguntar o que está em jogo quando recebemos informações de outros membros de nossa comunidade. Na brincadeira que originou nossa metáfora, se você sabe que a pessoa que está ao seu lado tenta, de forma recorrente, sabotar o jogo – sempre distorcendo de forma absurda a frase que está sendo transmitida –, parece razoável marcá-la como alguém que, efetivamente, atrapalha o jogo informacional. Essa marcação pode acarretar na exclusão dela deste jogo.

Na nossa vida informacional cotidiana, marcamos e identificamos aquelas pessoas que são ou parecem ser competentes ou comprometidas com o jogo que está sendo jogado quando trocamos informações sobre o mundo. No entanto, como já foi defendido largamente por inúmeras epistemólogas feministas – com um destaque especial para Lorraine Code, Linda Alcoff e Miranda Fricker, em um contexto social complexo, essa marcação ou identificação de bons informantes pode incorporar de forma danosa vícios e estruturas de poder presentes na nossa vida social e política. As identidades sociais das pessoas envolvidas nas trocas informacionais podem ser, e com frequência são, segundo essas filósofas, tidas como marcadores importantes de competência ou incompetência dentro do jogo informacional.

Em contextos racistas, misóginos, xenofóbicos, elitistas, etc., os marcadores de identidade social de cada participante de uma prática epistêmica de interdependência podem ser extrapolados como marcadores de sua competência para receber e transmitir informações. Um fenômeno central que expressa claramente formas danosas de extrapolar esses marcadores sociais para a prática de adquirir e transmitir conhecimento é o que Fricker chama de injustiça epistêmica. Uma injustiça epistêmica é uma exclusão da participação de um sujeito da prática epistêmica efetiva devido a um preconceito de identidade individual ou estrutural. Quando uma pessoa negra tem seu testemunho rejeitado por conta de um preconceito racial por parte do ouvinte do testemunho, essa pessoa está sendo epistemicamente injustiçada, segundo Fricker. Com a proposta de Fricker em mãos (associada, obviamente a ocorrências pregressas dessa discussão – como é o caso do debate promovido por Anna Julia Cooper e Sojourner Truth, por exemplo), a epistemologia, que já vinha empreendendo um esforço de se aproximar, ainda que timidamente, da nossa vida prática, promoveu uma virada social importante; importante particularmente para o nosso entendimento dos fatores que regulam nossa interdependência na hora de adquirir conhecimento.

Fricker nos mostra que esse telefone sem fio é mais complexo do que poderíamos imaginar de saída. Nós não apenas dependemos dos outros como fontes de informação. Nós dependemos uns dos outros de uma forma especial. Dependemos daqueles e daquelas que, em grande medida, possuem marcadores de competência reconhecidos, por nós ou pela nossa comunidade. Quando o reconhecimento desses marcadores reproduz estruturas de poder social e político, ele pode reproduzir injustiças, silenciamentos e desinformação. Uma prática informacional nesses moldes, operada a partir de estruturas de poder social e político, é uma prática parasitária da nossa visão otimista de interdependência. Dependemos uns dos outros para conhecer o mundo e isso pode ser fonte do nosso sucesso e da nossa ruína enquanto sujeitos epistêmicos sociais.

Se olharmos mais uma vez para os fenômenos epistemicamente (e politicamente) problemáticos que parecem afligir mais explicitamente nosso tempo, podemos ver de que modo tais fenômenos, e aqueles que os promovem, parasitam nossa vida epistêmica coletiva em tempos de crise. O fenômeno das fake news é um caso emblemático desse comportamento parasitário. As fake news, ainda que não estejam precisamente bem definidas, podem ser encaradas como fenômenos que se proliferam em cenários nos quais as relações de interdependência epistêmica estão corrompidas. Normalmente, esses cenários são cenários de redes sociais. Devido, por um lado, à impessoalidade das trocas informacionais desses espaços da internet e, por outro, à construção deliberada de câmaras de eco nas quais as autoridades informacionais das pessoas de fora da câmara são desacreditadas, essas redes são terrenos férteis para a manipulação das relações de confiança e das práticas de identificação de bons informantes, ambas cruciais para garantirmos a adequação da nossa interdependência.

Assim, em uma visão mais fatalista acerca das nossas relações de dependência mútua, poderíamos dizer que fenômenos como fake news são possíveis não apenas em situações nas quais fontes tradicionais de informação são automaticamente desacreditadas, mas também nas quais nosso trabalho coletivo de monitoramento das informações e dos reconhecimentos de autoridade falhou. Desse modo, há tanto uma perversão das nossas relações de dependência quanto uma ineficiência dessas relações. Nosso telefone sem fio cotidiano fica prejudicado quando quem está no fim da fila reconhece apenas a pessoa imediatamente ao seu lado como detentora da informação correta, quando esta pessoa imediatamente ao lado engana deliberadamente quem está no fim da fila, e quando as outras pessoas da fila se omitem sobre o que está acontecendo.

Desde o final dos anos 80 e início dos 90 a nossa vida epistêmica tem sido encarada como sendo fundamentalmente coletiva, comunitária. Essa visão ganhou contornos mais propriamente políticos através do trabalho das epistemologias feministas. Entender nossas práticas epistêmicas como coletivas e politicamente carregadas pode não nos fornecer
respostas precisas para os nossos problemas politico-informacionais, mas com certeza é um modo importante de localizar tais problemas e diagnosticar suas origens. O que foi apresentado aqui foi apenas um breve diagnóstico possível. Com a adesão crescente à epistemologia social, particularmente em língua portuguesa, quem sabe poderemos diagnosticar mais e melhor ao longo do tempo. Dada a complexidade das nossas vidas sociais e políticas, e todos os problemas que se originam dessa complexidade, não nos faltará o que diagnosticar.


Leituras recomendadas:
FRICKER, Miranda. Epistemic injustice: Power and the ethics of knowing. Oxford University Press, 2007. (O livro de Fricker é fundamental para entender o direcionamento político recente da epistemologia social. Há uma tradução para o espanhol, publicado pela Herder Editorial, e uma tradução para o português em fase de desenvolvimento);

GOLDBERG, Sandy. The division of epistemic labor. Episteme, v. 8, n. 1, p. 112-125, 2011. (Nesse artigo, Sandy Goldberg desenvolve uma teoria da dependência epistêmica para caracterizar a maneira pela qual nosso trabalho de aquisição e transmissão de conhecimento está dividido. É dele que vem a inspiração para este pequeno ensaio e para o exemplo central do “telefone sem fio”);

SANTOS, Breno Ricardo Guimarães. Genealogia epistêmica e normas de credibilidade. Sofia, v. 7, n. 1, p. 126-146, 2018. (Nesse artigo, eu trato de uma proposta genealógica para explicar o conceito de conhecedor através do conceito de bom informante e discuto quais os problemas dessa proposta em uma visão política da epistemologia).

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