O preço do ressentimento: sobre o ataque às ciências humanas

Érico Andrade
ericoandrade@gmail.com
Filósofo, psicanalista em formação, professor da Universidade Federal de Pernambuco

O ataque à ciência tem sido uma constante no governo Bolsonaro. Mas a sua destinação tem como foco principal as ciências humanas. O presente artigo tenta compreender porque esse ataque é deferido com tanta ênfase àquela área.

Longe de se localizar em certa noção de produtivismo, que exige extemporaneamente das ciências humanas uma produção científica simétrica àquela das ciências naturais, por exemplo, a minha aposta é que esse ataque se dirige mesmo à natureza das ciências humanas. Não se trata, portanto, de um ataque conjuntural. O que se quer combater é a noção mesma de humanidades produzida, sobretudo, nas universidades públicas do Brasil.

Essa noção está assentada em dois pilares. Por um lado, na crítica do capitalismo (parte importante da produção nas humanidades é direta ou indiretamente um questionamento de alguns impasses do capitalismo). Por outro, na compreensão de uma sociedade plural como modo próprio da vida democrática.

As humanidades sempre estiveram na linha de frente da crítica das relações de produção capitalista e à ideologia que acompanha esse sistema; tomemos como exemplo o seminário Marx da USP. De modo nenhum, essa crítica é homogênea (alguns dos membros do seminário Marx deram uma guinada liberal para ficar apenas com o exemplo ensejado aqui), nem muito menos unânime, mas é suficientemente difundida pelos corredores das universidades para constituir um elemento de crítica social que nos ajuda a compreender senão as falhas estruturais do sistema pelo menos os seus limites.

Nas humanidades também se localizam modos de vida contra hegemônicos que configuram novas formas de circulação dos afetos. A liberdade sexual, a convivência, pelo menos razoável, com orientações sexuais diversas e muitas vezes não definidas. A cultura da experimentação e os debates sobre as minorias não são incomuns nos centros de educação, de ciências sociais, de filosofia e arte. Apesar das dificuldades, nenhum ambiente institucional e público consegue acolher a complexidade e variedade dos afetos presentes, sobretudo na juventude.

Diante desse quadro de abertura para a diversidade e crítica das formas hegemônicas de dominação (tanto afetivas quanto materiais) um governo composto pela extrema direita não poderia ter um alvo mais certo. E o que dá o caráter extremo à direita no Brasil é o seu viés ressentido.

É nesse sentido que o ataque às humanas é violento. Ele é vingativo. As falas do ministro da educação, com o seu currículo pífio, longe de serem alegorias da ignorância são dirigidas ao público conservador para reunir esforços com vistas a aniquilar a vida universitária, leia-se, democrática porque plural. Ele tenta canalizar o ressentimento em face das políticas para as minorias (que supostamente subtraiu o espaço das “pessoas de bem” por lhes retirar o lugar de fala privilegiado e que sequestrou os valores cristãos) quando faz afirmações estapafúrdias que visam enquadrar a vida universitária na antítese dos ideais conservadores.

Com esse discurso caricato e mais facilmente palatável para um público conservador ele tenta mostrar que o dinheiro público serve apenas para patrocinar perversões, dos mais variados matizes, que chocam o público conservador para o qual um simples beijo homoafetivo, se não é propriamente um crime, deveria ser feito às escondidas: longe do espaço público. Ele estrategicamente manobra esse ressentimento de caráter moral para cumprir um projeto claramente neoliberal de extinção da universidade pública e mais ainda dos cursos de humanas. Assim, mesmo sem ser evangélico ou católico, ele mobiliza o ressentimento das classes conservadoras, formadas majoritariamente por aqueles grupos para passar uma pauta duplamente neoliberal. Por um lado, privatização da universidade. Por outro, destruição de um dos focos de resistência e de crítica ao capitalismo: a área de humanas.

Se o ressentimento do indivíduo ministro da educação (um exemplo cabal do conceito de loser que trabalhei em meu livro Sobre losers: fracasso, impotência e afetos no capitalismo contemporâneo) é perigosamente autoritário por conta do cargo que ele ocupa, o segundo ministério em orçamento, ele ganha a sua máxima feição violenta quando mobiliza um ressentimento muito amplo contra todas as pautas construídas nos últimos anos pelas universidades públicas e que certamente alargam, por incluir mais pessoas, a nossa experiência de humanidade. Nesse sentido, um ataque às ciências humanas é grave não apenas porque promove uma vitória da moral sobre a política para favorecer o neoliberalismo, mas porque diminui aquilo que o mercado não pode comprar: a nossa humanidade.

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