Filosofia, substantivo feminino

Nastassja Pugliese  - UFRJ

Outro dia me peguei pensando como é curioso o fato da filosofia não apresentar praticamente nenhuma obra escrita por uma mulher como parte de sua tradição e ao mesmo tempo ser “filo + sofia”, ou seja, ser a expressão de um tipo de amor pela sabedoria, virtude comumente personificada em forma de deusas e musas durante a antiguidade clássica. Quer dizer, é no mínimo uma infeliz coincidência entre gramática e história o fato da filosofia, que em Língua Portuguesa é um substantivo ironicamente feminino, dificilmente reconhecer mulheres como filósofas.

Esse pensamento me surgiu porque, preparando aula e pesquisando para um artigo, me debrucei sobre duas ocorrências de “sofia” na literatura filosófica que não podiam ser mais diferentes uma da outra. A primeira aparece em Emílio ou Da Educação de Rousseau. Sofia é o nome da companheira de Emílio, o personagem principal desse tratado iluminista sobre educação, escrito como um romance de formação. Na quinta parte do livro, Rousseau anuncia o que acredita serem os princípios que devem guiar a educação das mulheres. Dentre eles estão a fineza, a diversão, mas também a submissão à autoridade e ao senso comum. Isto porque, segundo Rousseau, como as meninas nunca alcançariam a maturidade do juízo e da razão, seu talento mais característico e que deveria ser aprimorado seria a capacidade de agradar aos outros.

A outra "sofia" que se fez presente nas minhas leituras de começo de ano foi [Sophia]. Pesquisadores se referem a essa(s) autora(s) como [Sophia] assim, com o nome entre colchetes, para indicar que não sabemos sua identidade. [Sophia] é uma autora anônima, inglesa, do século XVII que também escreveu sobre educação das mulheres e cujo pseudônimo pode ter sido usado por uma ou usado coletivamente por várias mulheres desconhecidas assinando um mesmo conjunto de obras em defesa da igualdade de direitos. A obra de [Sophia] é um conjunto de panfletos (livros curtos contendo argumentos políticos para o grande público). Dentre eles, constam duas versões significativamente diferentes do panfleto “Mulher não Inferior ao Homem” (“Woman not Inferior to Man”). Em ambas versões, [Sophia] argumenta pela necessidade de se melhorar as condições sociais das mulheres e defende que esta melhora depende da garantia de uma educação igualitária e de qualidade.

Comparando a ocorrência dessas ‘sofias’ nas bibliografias de cursos e em artigos publicados, constata-se que muitos alunos já tiveram a oportunidade de ler Emílio em seus cursos de
graduação e vários pesquisadores já escreveram sobre a teoria da educação e sobre a Sofia de Rousseau. Mas fica a pergunta: quem já ensinou os panfletos de [Sophia] como contraponto? Argumenta-se que Rousseau deve ser “desculpado” por seu ponto de vista sobre a educação das mulheres porque sua visão estaria de acordo com demandas próprias de seu tempo. Entretanto, isto é falso. Emílio é um texto do século XVIII (1762) e desde muito antes já havia um caloroso debate sobre a importância de uma educação emancipadora para as mulheres. Seguindo a tradição da Querelle de Femmes, que se inicia no século XV com Christine de Pizan e seu Cidade das Damas (1405), temos, por exemplo, na França, Marie de Gournay e seu Igualdade entre Homens e Mulheres (1622) e François Poulain de La Barre com seu Da Igualdade Entre os Dois Sexos (1679). Pouco tempo depois da publicação de Emílio, temos a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã de Olympe de Gouges (1791) – que foi guilhotinada – e outras obras em defesa da cidadania e educação plena das mulheres como as de Condorcet (1789). Na Inglaterra, tivemos as guerras panfletárias (pamphlet wars), um intenso debate sobre a necessidade de uma educação emancipadora para as mulheres, como atestam os “Panfletos [Sophia]”. E, finalmente, temos também a famosa resposta de Mary Wollstonecraft a Rousseau no capítulo cinco de seu Reinvidicação dos Direitos da Mulher (1792). Ou seja, levando em conta este contexto histórico e filosófico, as posições de Rousseau terminam por ser bastante atrasadas para sua época.

Meu ponto aqui é motivar a compreensão de que qualquer reconstrução narrativa, qualquer abordagem das obras da história da filosofia, que não leve em conta as obras escritas por mulheres e os temas trazidos por elas do modo e no estilo que foram escritos por elas é uma história da filosofia incompleta. Mais ainda, uma história da filosofia feita sem considerar estas obras, estes problemas e estes estilos é uma história feita a partir de uma abordagem metodológica já obsoleta, superada e inaceitável nos nossos tempos.

No entanto, como ainda precisamos responder pelos corredores perguntas impertinentes como “há alguma mulher filósofa?” e perguntas redundantes como “porque, como pesquisador/aluno de filosofia, devo estudar mulheres filósofas?”, ao invés de responder “há um grande número de mulheres filósofas e elas devem ser estudadas por aqueles interessados em filosofia porque escreveram obras de filosofia”, deixo aqui duas razões menos mal-humoradas e um pouco mais elaboradas.

A existência de mulheres na filosofia, de obras escritas por mulheres na história da filosofia, é uma questão de fato: mulheres produziram filosofia ao longo da história, escreveram textos filosóficos sobre questões filosóficas tradicionais e não-tradicionais, influentes e não-influentes, textos argumentativos e ensaísticos, de diversos estilos e com todo o tipo de argumento. Mulheres produziram e produzem filosofia. Não estudar, não ensinar, não ler estas obras é negligenciar uma parte grande e importante da história da filosofia. Sem conhecimento destas obras, a compreensão do que é a história da filosofia, do seu processo de produção, das condições materiais de seu alcance atual e pregresso, bem como o entendimento de sua complexidade ficam necessariamente comprometidos.

Estudar, conhecer, ensinar obras escritas por mulheres na história da filosofia é também uma questão de direito. Enquanto mulheres e estudantes, temos direito de saber sobre a nossa própria história e as causas de nossa atual condição. Temos direto à memória e ao pertencimento. E isso passa por saber como era a vida de outras mulheres que vieram antes de nós na história. A situação é semelhante à importância, para a construção de nossa identidade, de sabermos como era a educação de nossas bisavós e quais eram as expectativas sociais que se impunham sobre nossas avós. Para conseguirmos entendermos quem somos hoje, precisamos saber coisas como porque elas não estudaram e quais livros escreveram. Por esse motivo, na sala de aula é fundamental aprendermos sobre intelectuais como Nísia Floresta, filósofa brasileira que publicou livros em diversas línguas e defendeu o acesso e a educação de qualidade para as mulheres, no século XIX, no Brasil. Floresta ficou conhecida por ter, aparentemente, feito uma tradução livre da obra de Wollstonecraft para o Português, mas recentemente foi descoberto que o livro é, na verdade, a tradução de uma das versões do primeiro panfleto de [Sophia]. Floresta é uma mulher pioneira como intelectual brasileira, e temos o direito à tê-la como referência, como parte de nossa memória coletiva, de saber que ela foi lida, admirada e citada, por exemplo, por Camara Cascudo e Gilberto Freyre. Temos direito de saber a história das mulheres na filosofia (e na nossa filosofia) para sabermos como chegamos onde estamos hoje. A história, afinal, é um mapa do presente, um espelho de quem fomos. Sem esse conhecimento, não temos identidade e nem imagem pela qual nos reconhecer.

Mas estudar mulheres na filosofia também é uma questão de direito mais ampla, na medida em que a questão da desigualdade entre os sexos é um problema fundamental que abarca grande parte das outras desigualdades sociais. Para ocuparmos espaços coletivos em condição de igualdade, temos que exercitar nossa capacidade de autodeterminação. Para garantir isto é preciso que possamos discutir o lugar das mulheres na sociedade e que mulheres e meninas tenham acesso a uma educação que as enxergue como sujeitos de suas vidas e as prepare para a cidadania plena.

Hoje, a filosofia no Brasil se renova e há diversas iniciativas estimulando a pesquisa, a leitura e a divulgação das obras de mulheres filósofas. Não há dúvidas de que a filosofia vai cada vez mais soar e fazer ecoar estas vozes. Espero que esse compromisso de dar voz e escutar vozes femininas ocorra ao menos até que seja ressignificado este substantivo que nos é tão caro, mas que hoje ainda se confunde com uma espécie de chiste na Língua Portuguesa.


Nastassja Pugliese é professora de Filosofia da Educação na Faculdade de Educação
da UFRJ, professora-pesquisadora do PPGLM no Departamento de Filosofia da mesma
universidade, é uma das editoras do blog Mulheres na Filosofia e, no momento,
coordena o GT Mulheres na História da Filosofia da ANPOF.

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Referências bibliográficas:
(a ser publicado) Secco, G. & Pugliese, N. “Teaching Nisia Floresta: Mapping the Philosophical Grounds” em Teaching Women Philosophers. Springer, 2020. Rousseau, J-J. Emílio ou Da Educação. (trad. Laurent de Saes) Edipro. São Paulo, 2017.

Rovère, M. (org.) Arqueofeminismos Mulheres Filósofas e Filósofos Feministas Séculos XVII-XVIII. n-1 edições. São Paulo, 2019.

Floresta, N. Direitos das mulheres e injustiça dos homens. São Paulo: Editora Cortez, 1989a.
______. Opúsculo Humanitário. São Paulo: Editora Cortez, 1989b.

Campoi, I. C. “O Livro ‘Direitos das mulheres e injustiça dos homens’ de Nísia Floresta: literatura, mulheres e o Brasil do século XIX” em História (São Paulo) v.30, n.2, p. 196-213.

Wollstonecraft, M. Reivindicação dos Direitos da Mulher. Editora Boitempo. São Paulo, 2016.

Rieger, A. S. “Christine de Pizan contra os filósofos” em Vozes Femininas na Filosofia. (org. Schmidt, Secco & Zanuzzi). Ed UFRGS. Porto Alegre, 2018.

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