Coronavírus e o retorno à ontologia

Laurenio Leite Sombra (1)

O avanço de um vírus que nos ameaça a todos – embora não a todos igualmente – lembra-nos de uma fragilidade que obviamente já estava presente na nossa patente mortalidade, na nossa condição de seres corporais que adoecem e padecem, e no esgotamento crescente do nosso planeta-habitat. Apesar disso, esta fragilidade frequentemente parecia distante num mundo de produção incessante de riqueza, de um lado, e de informação cada vez mais prolífica e virtual, do outro. Qualquer ideia de natureza fica subsumida no imenso arsenal construído para forjar o “homo Deus”, expressão do historiador israelense Yuval Harari.

Mas aí chega o vírus. De repente, todo esse aparato - criação de riquezas, produção de informações - tem que se submeter em alguma medida a cuidados muito básicos, numa necessidade que nos parece imperativa de sobreviver. O vírus nos submete de modo que nos deixa perplexos porque afeta, no curto prazo, certa sensação de autonomia que havíamos adquirido. Se olhássemos com cuidado, só mudou a escala temporal: a nossa mortalidade e os riscos do planeta já nos assediavam, mas eram fatores de médio e longo prazo que não impediam, em geral, que seguíssemos nossa vida cotidiana. Mas não nos enganemos: esses vários tipos de “vírus” já estavam aí, já lidávamos com eles.

Essas questões dialogam de forma áspera (e agora abrupta) com minhas pesquisas dos últimos anos, estimuladas especialmente pela Ontologia do ser social, de Lukács. Relendo especialmente a obra de Marx, Lukács desenvolvia sua ontologia, num primeiro plano, a partir da constatação inexorável da natureza – esta que existe antes de toda escolha e nomeação humanas, que faz com que haja terra, rios, oceanos, que haja corpo, prazer, sensações, fome, medo, doença e mortalidade, que haja animais, plantas, bactérias e vírus. Nessa perspectiva, a natureza não existe a partir de categorias humanas, não é um “fenômeno” kantiano, muito embora as nossas categorias aportam certo modo de lidar com ela, de significa-la, até mesmo de nomeá-la como “natureza”.

Há uma ontologia da natureza, mas esta se desdobra em uma ontologia do ser social, que decorre da ação transformadora humana, do fato de que não deixamos o mundo natural como está, que o transformamos ativamente e geramos outros “mundos” a partir dessa transformação. Podemos chamar de trabalho ao processo humano que permite isso, desde que o termo abarque formas muito amplas de práxis, de transformações de mundo – agricultura, pecuária, indústria, novas tecnologias, mas também cuidar de pessoas, atividades religiosas, formas artísticas.

A ontologia do ser social diferencia, até onde sabemos, a vida humana de outras formas de vida. E isso só é possível, defendi em outra ocasião (2), em função da linguagem, ou do modo peculiar com o qual a linguagem nos constitui. A ambiência humana (nossa rede de sentidos ) (3) só se materializa numa relação complexa, valorativa e articulada de signos. A “promessa de identidade” que cada signo representa nos remete a uma abstração – a da identidade. Mas, paradoxalmente, ela só se realiza na vida concreta humana, justamente essa vida que age, que transforma e é transformada pela natureza, num contexto permanente em que lidamos com nossa finitude, nossa corporeidade, nossas necessidades, mas também em que projetamos possibilidades, compreensões de mundo.

O ser social se dá a partir desse amálgama. É em função da abstração da linguagem que ele pode constituir cultura, forjar instrumentos sofisticados, formas religiosas, divisões sociais, categorias de gênero e raciais, nações, instituições, mas também valores complexos, como justiça, liberdade, democracia, honestidade, santidade, pureza, castidade. É em função da abstração da linguagem que ele pode forjar regras de transação de valores, e inclusive uma medida de alto grau de abstração como é o dinheiro. Pensar ontologicamente nesse amálgama é constatar que ele constitui uma realidade tão palpável para a vida humana como a realidade natural. Nós vivemos uma vida concreta que abarca esses elementos, por mais que eles sejam disputados e transformados historicamente.

Por outro lado, o ser social nunca escapa da sua relação dialética com a natureza. Em última instância, é isso que o torna concreto. O mundo humano é feito de uma relação incessante com o mundo natural. É a partir dessa relação que obtemos energia, produzimos coisas, nos alimentamos, nos abrigamos. É no contexto dessa relação também que nos defendemos, lidamos com doenças, com riscos, com as intempéries do clima. É por meio dela que lidamos com a nossa corporeidade, com nossas emoções mais primárias, nossos medos, nossos desejos, nossos afetos, nossas dores.

Entendo que é essa relação intrínseca humano-natureza que fazia com que Marx considerasse o trabalho valor inexorável do mundo humano, base de todas as demais relações de valor. Ele fundamentava ontologicamente, embora não desenvolvesse essa fundamentação o suficiente, algo que tendia a ser encoberto por diversas camadas de abstração (valor de troca da mercadoria, dinheiro, capital) e que, embora dialogasse com essa base ontológica, a submetia e distorcia.

Essa noção do trabalho como base do valor não surgiu de Marx, como se sabe. Ela já estava presente em autores como John Locke, Adam Smith e David Ricardo. Coincidentemente, poucos anos depois de Marx lançar O Capital, começa a “revolução marginalista” na Economia que se afasta cada vez mais dessa noção em nome de uma análise puramente voltada à relação entre oferta e demanda. Se pensarmos que a ontologia do ser social é possibilitada pelo trabalho, a revolução marginalista parece consumar certo “esquecimento do ser” (para usar uma expressão heideggeriana) em nome de um jogo cada vez mais matemático para o qual natureza e trabalho parecem atuar cada vez mais como variáveis externas.

Em certo sentido, Marx já antecipava isso. A orientação ao dinheiro e ao crescimento “insaciável”, bases fundamentais do modo de produção capitalista, nos remete a uma organização cada vez mais abstrata. Não partimos da necessidade concreta e qualitativa das nossas vidas particulares, mas da mensuração puramente quantitativa do dinheiro e do seu crescimento – a curto e médio prazo. Não importa se produzimos roupas de luxo ou roupas para o povo, alimentos saudáveis ou adoecedores, medicamentos ou armas, soja transgênica ou feijão e arroz. Importa menos para o valor-dinheiro que façamos coisas “sem valor” como cuidar da casa, de bebês, de doentes, alimentação para a subsistência. A pergunta que importa é sempre qual dessas produções/reproduções será mais rentável e irá gerar mais capital. Se isso exigir explorar mais pessoas, esgotar recursos da terra etc., a pergunta pela rentabilidade continua a prevalecer. A própria questão do esgotamento das condições do planeta torna-se secundária, porque sempre remetida a um “amanhã” por demais vago.

Mas, insisto, chega o vírus, que parece nos acordar de um sonho dogmático. Não temos mais tempo de adiar. Temos de nos recolher, ficar em casa, sair o mínimo possível. Ao mesmo tempo, alguns de nós ficamos doentes, queremos ser cuidados, queremos um aparato de proteção. Precisamos de medicamentos. Precisamos de alimentos, materiais imunizadores.

Do outro lado, o presidente se assusta. O país precisa crescer – leia-se: crescer o valor abstrato que a economia, já toda “marginalista”, estabelece como métrica absoluta de valor. Note-se: não está em discussão que o país deve continuar a produzir/reproduzir os itens e serviços fundamentais para que nos cuidemos e consigamos passar o melhor possível por esse período. Há uma negação, uma insistência no esquecimento do ser, por mais que ele já paire como um fantasma enorme sobre as nossas cabeças. O fato de que nos atinge cada vez mais de perto não seria uma possibilidade de ampliarmos a sensibilidade e percebermos que, em diversas outras condições, ele sempre esteve aí?

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(1) Professor Adjunto de Filosofia da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Doutor em Filosofia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).
(2) SOMBRA, Laurenio. “Entre o discurso e a ontologia do ser social: possibilidades de um debate”. Revista Ideação, 39. Janeiro/Junho de 2019.
(3) SOMBRA, Laurenio. “Rede de sentidos e camelos do Alcorão”. COLUNA ANPOF, Janeiro de 2019.

Obtido no link https://anpof.org/portal/index.php/en/comunidade/coluna-anpof/1958-rede-de-sentidos-e-camelos-do-alcorao no dia 20/03/2020.

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