A aporofobia do bolsonarismo dá boas-vindas ao coronavírus

Por Vilmar Debona

 

Que o coronavírus esteja sendo “democrático” com os tipos de vida que ceifa mundo afora, que mate tanto ricos quanto pobres indiscriminadamente, é uma constatação relativa.  

Em especial no Brasil, essa pandemia está dando oportunidade inédita para falas e posturas que, despudoradas, apontam quem merece viver e quem pode morrer sem causar espanto. Quando o Governo Federal indica o que é prioritário, quem ouve a ciência ao invés de achismos não deixará de ver os piores cenários prestes a se concretizarem; e, neles, quem serão mais facilmente abatidos nessa terra de profundas desigualdades sociais. 

Estatísticas do Imperial College London para 
cinco cenários da COVID-19 no Brasilmostram que no pior cenário, previsto para o caso de não se adotar qualquer medida de mitigação, 1.152.238 pessoas podem sucumbir. O segundo pior, caso se adote distanciamento social de toda a população, seria de 627.047 mortes. O quinto e melhor cenário, caso se adote a medida de supressão precoce de circulação, seria de 44.212 mortes. No momento podemos fazer três afirmações: a) as medidas para o melhor cenário não foram adotadas; b) as medidas para o pior cenário só não foram adotadas porque felizmente Bolsonaro e os seus não são nossos únicos gestores públicos; c) pelas oscilantes e confusas medidas adotadas até o momento, estaríamos entre o segundo e o primeiro cenário. 

O vírus continuará sendo “democrático”? 

O presidente da República continua se pronunciando para minimizar, ridicularizar e atacar medidas de contenção. Recordemos suas ênfases naquela primeira entrevista televisiva: “Vão morrer alguns pelo vírus? Sim, vão morrer! Vai acontecer? Vai acontecer, lamento! Mas essa histeria prejudica a economia”. 

Economia ou morte? Mais uma falácia da virulenta ignorância que nos açoita. 

A impolidez diária do presidente esposou seu menosprezo por todos os cidadãos - mas especialmente pelos despossuídos - e pariu mais uma monstruosidade. Seus desejos necrófagos não são de hoje e ele não está só. É serviçal da elite e de parte do empresariado brasileiro que tiveram seus critérios para escolhê-lo. E o mais aterrador para o momento: que lhe mantém o apoio em meio à pandemia, endossam e sugerem suas posturas com ajuda direta de Paulo Guedes e as prioridades de seu Ministério. Nada mais que a elite do atraso e da rapina, destrinchada por nosso sociólogo Jessé Souza. 

Bolsonaro, Guedes, Mandetta e o empresariado da rapina sabem que os mais vulneráveis não são apenas os idosos e os já doentes. O Ministério da Saúde sabe que a fome ou a má-alimentação desidrata e aumenta as chances de o vírus atuar. Sabem também os endereços daqueles “alguns”, dentre os quais, aliás, há também os sem endereço. 

A entrevista ao SBT não era o pior. Viria ainda a ação, mais do que a omissão negacionista. O pronunciamento do chefe de Estado em rede nacional de rádio e televisão na noite de 24 de março, conclamando as pessoas a retomarem as atividades; as muitas desautorizações a governadores e prefeitos; a confusão, a falta de coordenação, liderança e comunicação unificada do governo federal com a população; e, por fim, a campanha milionária contra o isolamento social apoiada com carreatas pelo empresariado. Nenhum exagero em afirmar que tudo isso faz Bolsonaro e os seus assumirem o partido do coronavírus, dando-lhe as mais afáveis boas-vindas.  

As funerárias já anunciaram que, ao contrário do ocorrido na Itália, por aqui não faltarão caixões. 

Mas nem todos poderão pagar o caixão. A abissal e conhecida desigualdade social agora se escancara em termos de quem sequer tem água e sabão para desinfetar as mãos e de quem, muito além de álcool-gel a vontade, isola-se em mansões com jardins e piscina. Ou, no caso da classe média empresarial, em seus próprios automóveis imponentes quando saem em carreata pedindo que seus empregados voltem ao trabalho. Que os pobres voltem a se apinhar em ônibus e metrôs! Com que termos se referir ao que uma empresária de Curitiba escreveu no twitter como legenda de uma foto em sua caminhonete de luxo? “Meu funcionário tem que trabalhar porque essa Hilux não vai se pagar sozinha”! Nada tão longe dos 5 ou 7 mil mortos diante dos quais “o Brasil não precisa parar”, segundo o proprietário de uma grande hamburgueria.  

Levantamentos e entrevistas da 
Folha de São Paulo e do UOL mostram que o Brasil é o único país do mundo em que parte do empresariado se articula contra a quarentena. O jornalista Reinaldo Azevedo resumiu: seria melhor se fossem mais claros e dissessem: “ora, não vamos parar a economia por causa dos pobres”. 


Achile Mbembe poderia contar com exemplos especiais para sua noção de necropoder ou necropolítica se considerasse as posturas de Bolsonaro e dos seus ante a Covid-19. 

Se faltam palavras ao senso comum e à Filosofia para expressar nossa perplexidade em relação às atitudes do Presidente do Brasil, do Governo Federal e de seus apoiadores, uma precisa ser usada. Foi cunhada por uma filósofa espanhola, eleita a “palavra do ano de 2017” pela Real Academia de la Lengua, da Espanha, e incluída no Dicionário. Em 2018, por meio de projeto de lei do Podemos espanhol, passou a definir um agravante no rol dos “crimes de ódio” do Código Penal daquele país.  

A palavra é aporofobia; a filósofa, Adela Cortina.  

No livro “Aporofobia, el rechazo al pobre - un desafío para la democracia”, a autora define a noção como “rejeição, aversão, temor e desprezo pelo pobre, pelo desamparado que, ao menos aparentemente, não consegue devolver nada de bom em troca” (p. 6). A etimologia é grega: á-poros significa sem recursos; bos é fobia, medo ou aversão a alguém percebido como diferente.  

Adela Cortina criou o termo por notar que, por exemplo, xenofobia, aversão a alguém de outra etnia ou a quem “não é dos nossos”, aplica-se mal a realidades contemporâneas. Estrangeiros turistas com dinheiro para gastar, em geral são muito bem recebidos em qualquer canto do mundo. O estrangeiro não incomoda pelo fato de ser estrangeiro. Apenas quem não consegue oferecer nada de positivo ao PIB do país é motivo de incômodo. Mas esse “flagelo sem nome” se manifesta toda vez que se chuta mendigos dormindo na calçada (para não dizer dos casos em que se lhes ateia fogo), quando um vendedor de loja de grife mostra apenas os produtos mais baratos a quem entra na loja aparentando pobreza. E, no âmbito político, toda vez que se julga menos importante implantar políticas públicas aos pobres, que se destina a eles algumas migalhas ou nem isso. 

Recordemos: o Governo Federal propôs dar apenas R$ 200,00 a famílias carentes na mesma semana em que destinou cerca de um trilhão para salvar bancos. 

Uma mulher filósofa, portanto, dá o nome apropriado a uma das condições mais favoráveis que, para se alastrar, o novo coronavírus encontra no Brasil bolsonarista. A cabeça da elite da rapina e de setores do empresariado é aporófoba. Além de ajudarem a decidir os rumos do país em Brasília negligenciando os pobres, importam o vírus da Europa e dos EUA, transmitem a seus empregados, e não sentem qualquer incômodo ético ao demiti-los ou ao deixá-los sem salário durante a quarentena. 

Haveria termo mais pertinente? Os exemplos de aversão e desprezo já mencionados vão de par com uma série de ações governamentais. Em plena pandemia, o governo federal: 
- Cortou 158 mil cotas do Bolsa Família;  
Cortou milhares de bolsas da pós-graduação que se destinam fundamentalmente para a pesquisa científica feita por estudantes carentes; 
- Editou Medida Provisória que permitia suspender contratos de trabalhadores por quatro meses. Somente voltou atrás por pressão popular e panelaços; 
- Apressou-se em salvar os bancos e os acionistas da bolsa. Propostas de auxílio para os pobres vieram depois, e, não fossem as pressões populares e as iniciativas do Congresso, certamente não estariam sendo discutidas. 
A Fiocruz em parceria com o Ministério da Saúde estipula o preço de R$ 98,00 por teste da COVID-19. Há empresas cobrando R$ 590,00. 

Aporofobia flagrante! 

A necropolítica de Mbembe, nesses moldes, seria o procedimento, um modo político de agir, mas não a causa originária, a condição de possibilidade que permite a operação. A causa - ou uma das causas - é a aporofobia do cérebro de Bolsonaro, de Guedes e de seus apoiadores do empresariado, dos negócios e da bolsa de valores. Aliada número 1 do coronavírus, essa fobia oferece ajuda inusitada para a pandemia assolar o Brasil. Bolsonaro pode cair amanhã ou depois. Os que se identificam com sua cabeça aporófoba continuarão.  

Continuemos tentando chamar as coisas pelo nome mais apropriado, caso queiramos continuar a denunciá-las e a lutar contra elas. A Filosofia e as Ciências Humanas, não por acaso defenestradas pelos funestos que hoje nos governam, são decisivas para o diagnóstico e para a denúncia. 


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Vilmar Debona é Professor de Ética e Filosofia Política da UFSC. O autor agradece a Claudia Assunpção Dias pelas valiosas sugestões.


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