O que a pandemia revela da filosofia

Jordi Carmona Hurtado (professor de filosofia da Universidade Federal de Campina Grande, pesquisador pós-doutoral na Universidad Complutense de Madrid)

Quando o período que estamos atravessando terminar, ou, em qualquer caso, quando as águas dos acontecimentos começarem a descer com mais calma, será preciso se perguntar o que tem acontecido com a filosofia neste tempo, pois realmente está sendo tudo muito curioso. Até a crise atual ninguém dava a menor atenção: quase nenhum financiamento, quase nenhuma relevância nos planos de estudos, quase nenhuma presença nos meios de comunicação. Eis a típica marginalização neoliberal de tudo o que dissente e não é business, e que frequentemente é pior do que a censura direta. Porém, a pandemia que assola o mundo, fazendo com que os governos decretem medidas de exceção inéditas, chegou desde o começo acompanhada de uma autêntica febre filosófica, com muita demanda e muita produção de textos assinados por autores mais ou menos famosos que nossa sociedade reconhece como pensadores ou filósofos. Por sua vez, este fenômeno está produzindo, ao menos, dois tipos de reações gerais, bastante significativas.

Temos visto insignes professores universitários argumentarem que agora não é tempo de pensar, e que o melhor que os filósofos podem fazer para ajudar a sociedade na guerra contra o vírus, neste período em que os governos decretam consensualmente o confinamento dos cidadãos, é colocar voluntariamente o pensamento mesmo em quarentena. Essa estranha atitude de professores de filosofia que recomendam que ninguém pense se justifica habitualmente na prudência manifestada pela filosofia crítica de Kant em relação a qualquer desejo de especulação. Porém, os limites que a filosofia transcendental estabeleceu para todo conhecimento possível não separavam o pensamento do acontecimento; ao invés disso, submetiam pela primeira vez a exigência sistemática da filosofia à contingência da atualidade histórica, como Foucault argumentou com força, e Kant mesmo já tinha mostrado perfeitamente com suas sucessivas interpretações do significado da revolução francesa que lhe foi contemporânea. Por isso é mais provável que a atitude desses professores revele, mais simplesmente, a estreita e conformista concepção que eles possuem normalmente da filosofia, que seria, então, um enfeite cultural sem nenhuma seriedade, que só é adequado praticar quando tudo está tranquilo e ninguém arrisca nada, e que não deve fugir dos confins do saber universitário nem da jurisdição de seus guardiões.

Do outro lado, do lado dos “não-filósofos”, não temos deixado de observar atitudes típicas de consumidores indignados, que, mesmo se não pagaram nada pelos pensamentos alheios, não deixam de exigir a folha de reclamações, como quem comprou uma mercadoria estragada. Esses consumidores de teoria reclamam porque os filósofos erram nos seus diagnósticos, ou porque exageram, ou mesmo porque as imagens da situação variam de um pensador a outro, o que mostraria que a filosofia não é tão confiável como “a Ciência”, que aparentemente é infalível, como a verdadeira religião. Reclamam também porque cada filósofo usa seus próprios conceitos para descrever a situação atual, frequentemente em uma linguagem que lhes parece obscura, idiossincrásica e afastada da fala comum, o que revelaria que os pensadores apenas querem se distinguir e chamar a atenção, e que portanto são seres vaidosos e egocêntricos. Aliás, concluem esses cidadãos conscienciosos, como a validade de seus discursos é, no mínimo, duvidosa, assim como sua moralidade, e esses filósofos não repetem o que todo mundo diz e o que deve ser dito na urgência da situação atual, seria preciso fazê-los entrar no bom caminho, mesmo à força, e em geral o melhor seria que não escrevessem nada, porque as pessoas mais crédulas e inocentes poderiam se perder ao escutá-los, e não agir como é preciso. Assim, consumidores ocasionais e profissionais consagrados coincidem no final das contas em que o exercício da filosofia é vão ou mesmo perigoso, em nosso tempo de exceção.

Com certeza, a grande demanda e a superprodução de intepretações faz com que muito do que se publica nestes dias seja vazio, medíocre e oportunista, em diferentes níveis, como o leitor pode comprovar em coletâneas como Sopa de Wuhan. Esse tipo de produção revela mais profundamente um regime de pensamento muitas vezes dependente de uma temporalidade de ciclos muito rápidos estabelecida pelos meios de informação e as redes de comunicação, sem qualquer autonomia, que não é capaz de colocar seus próprios problemas nem caminhar a seu próprio ritmo. Poucos pensadores conhecem já essa “doçura de não ter nada a dizer”, ou tem a coragem de reivindicar o “direito de não ter nada a dizer”, que para Deleuze era a condição de que algo interessante fosse talvez dito alguma vez. A “paciência do conceito”, como a chamava Hegel, exige uma ascese que agora, em que as possibilidades de publicação se multiplicaram ao infinito e se fizeram imediatas para todo mundo, virou extremamente rara. E o que temos habitualmente é que aqueles que nossa sociedade reconhece como filósofos estão completamente entregues ao jogo e o ritmo da atualidade, respondendo a ela como intelectuais representativos que capitalizam as diferentes identidades sociais e correntes de opinião existentes, e moendo na carreira o grão do acontecimento com dispositivos conceituais já prontos que são como sua marca registrada. Assim a pobre filosofia tenta concorrer e termina por se aparentar demasiado à sofística do nosso tempo, encarnada por influencers, coachers e youtubers diversos.

Não é estranho, nas condições do pensamento em regime neoliberal, que esses filósofos mediáticos sejam geralmente incapazes de se abrir ao inédito do acontecimento em curso, e as demandas que lhes são dirigidas terminem muitas vezes no desapontamento. Aliás, podemos ter certeza de que se existe um verdadeiro trabalho de criação filosófica em conexão com as tendências mais profundas do nosso estranho tempo não será imediatamente reconhecido pela opinião. Mas é preciso se perguntar previamente pela legitimidade das demandas dessa opinião. Em nossas sociedades, tanto a divisão do trabalho quanto a tutela em todos os âmbitos estão tão profundamente enraizadas que as pessoas tendem a esperar que sempre exista um especialista a quem recorrer diante de qualquer problema. Se estamos doentes, chamamos o médico; se alguém não respeita a lei, chamamos a polícia; se não entendemos o que está acontecendo, chamamos o filósofo. Por isso, na situação tão anômala em que vivemos, não é só que os diagnósticos dos intelectuais mediáticos sejam insatisfatórios, mas que as exigências a que respondem supõem uma profunda incompreensão do sentido da filosofia. E num momento tão politicamente perigoso como o atual, em que já tantas restrições das liberdades fundamentais estão sendo aceitas pela população sem contestação, antes que decretar também autoritariamente o silêncio do pensamento ou da filosofia seria importante fazer um pouco de pedagogia, renovar um pouco a “pedagogia do conceito”, como diriam Deleuze e Guattari.

É preciso, então, lembrar que a filosofia não é “Ciência” nem pretende se substituir às ciências particulares; não é superior ou inferior, simplesmente seu projeto é outro. Ela não aspira,
como as ciências, nem à dominação e o controle da natureza nem à redução do real a uma objetividade sem sentido e manipulável. Ora, isso não retira à filosofia nem uma gota de seriedade, pois responde, como diria Hannah Arendt, a nossa necessidade de compreensão do que acontece, que em momentos como o atual se manifesta tão urgentemente. A compreensão é a ação humana mais essencial e o único fundamento de qualquer outra ação possível, pois cria a possibilidade de uma reconciliação com o presente. Só que, para chegar a alguma compreensão, a alguma verdade mundana desta situação inédita na qual estamos imersos, provavelmente seja preciso atravessar alguns erros: pois é através do erro que a gente consegue aprender algo novo. Também é importante perceber que é bem melhor que se fale em excesso a que não se fale nada, mesmo se frequentemente se dizem besteiras e coisas desnecessárias, pois quem sabe se talvez no canto de tal discurso sem interesse não caiu por acaso um pouco da poeira da verdade, que faz com que a gente se situe melhor na situação. Finalmente, é essencial entender que a filosofia não é um trabalho de especialista que apenas exija ser consumida, que ela não pede consumidores, mas reclama companheiros e companheiras de pensamento; que sua tarefa não é dar respostas nem guias para a ação, mas simplesmente fazer pensar. Ora, fazer pensar, mesmo que seja algo irritante, é especialmente importante – e provavelmente, também, especialmente irritante – em situações de emergência como a atual, em que o único que se exige de nós é a obediência unânime.

O tempo da exceção é justamente o tempo “normal” da filosofia; por isso seria politicamente importante que, em lugar do ódio ressentido contra a única tradição que permite habitar esse modo de temporalidade, se espalhasse uma nova cultura crítica filosófica bem para além do reduzido círculo de especialistas e pensadores mediáticos, e bem para além também do regime neoliberal tão pouco favorável ao pensamento do qual procedemos, e que a pandemia atual revela.

 

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