Em tempos de pandemia - biopolítica, política internacional e fim da exceção humana.

Davi de Conti

A pandemia provocada pela COVID-19 evidencia a importância do conceito de biopolítica para que se compreenda o modo como somos governados. O controle que ora se estabelece de modo evidente sobre a população tomada como corpo coletivo alude à característica central da noção de biopolítica. Não demora para que se obtenham dados a respeito de qual esfera da população é mais vulnerável, bem como o índice de mortalidade relativo aos diversos intervalos de idade. Viabiliza-se que o próprio fenômeno se revele. O desdobramento “natural” dos eventos permite que logo se estabeleça quais são os grupos de risco. O modus operandi do governo de matiz liberal é o laissez-faire, que abre caminho para que a vida revele o conteúdo que em seguida deve orientar a tomada de decisão política.

A conclamação do povo às ruas pode ser considerada a estratégia biopolítica por excelência, aproxima-se da ideologia do nacional socialismo alemão, que não pregava apenas a morte do outro, da “raça inferior”, mas também dos próprios alemães, que se fortaleceriam por meio da guerra, que ceifaria a vida dos mais fracos. O convite às ruas não significa apenas a morte do outro, neste caso sobretudo dos idosos, mas a morte de cada um. A morte do outro e mesmo a minha representariam um incremento da vida. A morte perde sua negatividade, torna-se produtiva, positiva, a morte do outro, do mais fraco, representa uma purificação da vida, que se torna mais sã ao final do processo.

Além de tornar evidente o mecanismo fundamental da biopolítica, que toma a vida simultaneamente como objeto e fundamento das estratégias de governo, a COVID-19 reforça o fato de que a biopolítica não substitui o poder disciplinar ou o poder soberano. Essas racionalidades de poder se sobrepõem, elas não se extinguem. O fechamento de fronteiras e as medidas de isolamento social adotadas em razão da pandemia expõem o conteúdo soberano-disciplinar da ação governamental. Vem à tona, por um lado, a noção de território como elemento definidor do Estado, característica fundamental do poder soberano; por outro, estabelece-se um controle mais estrito sobre os comportamentos, o que remete ao poder disciplinar enquanto ortopedia social.

A COVID-19 não explicita apenas os mecanismos soberanos, a estratégia disciplinar e os contornos biopolíticos da ação governamental. Byung-Chul Han, em texto publicado no periódico El País, faz referência a uma “biopolítica digital”, noção que denotaria o uso da tecnologia, especialmente pelos governos da China e da Coreia do Sul, para a contenção do vírus. Em razão dessa “biopolítica digital”, que define um controle biológico por meio da tecnologia, esses países teriam sido capazes de debelar a pandemia de modo mais eficiente. Essa capacidade de contenção da disseminação – que conta sobretudo com os celulares, as câmeras de monitoramento com reconhecimento facial e as pistolas de medição de temperatura –, envolve um controle bastante amplo da sociedade. Han, que no início de seu texto reforça o valor dessas medidas para que se supere a pandemia, teme que a eficácia de alguns países asiáticos na contenção do vírus sirva como fundamento para a adoção por tempo indeterminado desses mesmos mecanismos de controle nas democracias ocidentais. Para Peter Sloterdijk (2020), não resta dúvida, o sistema ocidental vai provar-se tão autoritário quanto o chinês.

Mais importante do que reconhecer as estratégias governamentais é perceber, como o faz Alain Badiou no texto “Sur la situation épidémique”, que algo como uma pandemia é incapaz de por si próprio viabilizar uma transformação política. Ainda é cedo para dimensionar as consequências econômicas e sociais da crise, mas o vírus não traz qualquer solução política para os problemas enraizados, não é uma panaceia para os problemas sociais; pelo contrário, pode agravar os problemas que há muito nos acompanham. A despeito de ser um fenômeno de consequências políticas profundas, o vírus não carrega o signo da revolução, antes reforça o lugar das mídias sociais como espaço de propagação de uma profunda paralisia mental. Badiou mostra-se bastante cético em relação a qualquer possível transformação decorrente da pandemia. Para o filósofo, a obrigação de distanciamento social é não apenas justificável, como também não requer qualquer exame mais profundo. A despeito de rejeitar a novidade do vírus, Badiou percebe no isolamento, no interlúdio epidêmico, um momento para formular novas ideias políticas, o que não depende do vírus, mas de cada um.

No cenário internacional, as medidas adotadas para a contenção do vírus denotam um reforço do nacionalismo e uma intensificação da xenofobia. Mais do que isso, o isolamento social exacerba o temor em relação ao outro de modo geral. O outro simboliza o risco de contágio. Além da distância que se deve assegurar para que não haja risco de contágio, o “inimigo”, aquele que pode colocar-me em contato com o vírus, não é apenas o outro, mas também eu mesmo. Para Agamben (2020d), após passada a pandemia, aquele que mantiver um mínimo de lucidez não poderá viver como antes, porque mais do que nunca integra um rebanho compassivo, pronto a adequar-se a todas as demandas do governo, mesmo que isso resulte alçar a sobrevivência ao posto de única crença.

Agamben (2020b) aponta para o que pode ser considerado a débâcle da ideia de comunidade. De acordo com o filósofo, uma comunidade fundada sobre o distanciamento social é inabitável. Abre-se mão de qualquer ideia de coletividade para que se deixe impor a sobrevivência a qualquer custo, a dissolução dos vínculos reais entre as pessoas, o império de uma realidade ainda mais virtual. Isso tudo, sustenta Agamben (2020b), não significa, como se poderia acreditar, uma intensificação do individualismo, mas antes a conformação de uma massa rarefeita e passiva.

Se voltaremos a viver como antes dependerá não apenas de nós, como também das consequências geopolíticas da crise. É possível que, em vez de municiar instituições internacionais como a Organização Mundial de Saúde em um esforço de coordenação política internacional, os países intensifiquem as medidas autoritárias e chauvinistas. O envio de médicos chineses à Itália, bem como o tratamento de alguns pacientes italianos pelo sistema de saúde alemão, são insuficientes para que se acredite em um reforço docosmopolitismo após o fim da pandemia. A ideia de um cidadão do mundo sofre importante revés quando os países realizam enormes esforços para resgatarem seus cidadãos enquanto diversos cruzeiros restam à deriva com sua tripulação multinacional.

Para Han (2020), o excesso de positividade que caracteriza nosso tempo diz respeito também ao fluxo incessante de informações e pessoas. Han acredita que o vírus traz de volta a negatividade da resistência da realidade em um tempo simbolizado pela intensa mobilidade. A cultura da positividade, simbolizada por essa mobilidade hiperbólica, deve enfrentar um vírus real. A resistência da realidade impõe-se a uma sociedade marcada pelo excesso de positividade. Para Žižek (2020), a obscenidade dos grandes cruzeiros que atracam pelos portos do mundo não é algo de que devamos nos sentir mal em nos despedirmos.

A COVID-19 não tem apenas consequências políticas, realça uma transformação metafísica. A formulação que separa os homens da natureza e se ancora no princípio da exceção humana é enfraquecida diante da pandemia. A divisão entre espécies que alça o ser humano a uma posição de destaque se baseia não apenas na definição do homem como único ser racional, mas também em sua supostamente exclusiva capacidade destrutiva. O vírus, como nota Emanuele Coccia (2020), também possui enorme força de destruição, nem isso é algo exclusivo ao ser humano. Como lembra o filósofo italiano, 8% de nosso DNA tem origem viral. Cerca de 100 bilhões de bactérias habitam o corpo de cada ser humano, são mais de 10 vezes o número de células que o compõem: não somos uma espécie alheia às demais, nossa estrutura molecular possui mesmo algo de mineral.

Coccia nota que a natureza não é o reino do equilíbrio perpétuo, mas um espaço de invenção permanente. A morte não representa o fim da vida, mas transformação. Nosso corpo será o alimento de outros organismos. O vírus, a despeito de sua posição na árvore da evolução, pode provocar uma transformação colossal. A relação de continuidade entre os seres anula a hierarquização entre espécies e mesmo a divisão entre seres orgânicos e inorgânicos. A matéria é sensível.

Uma metafísica que faça jus a essa mudança no modo de perceber a vida humana deve ser uma metafísica da mistura, capaz de assinalar o entrelaçamento entre os muitos entes que compõem a natureza. Essa metafísica fornece um novo modo de perceber a morte, que deixa de significar o fim de uma existência e passa a representar uma metamorfose. Coccia convida-nos a abandonarmos a ideia da vida como um absoluto, a qual é acompanhada por uma rejeição da morte. A vida passa de um corpo a outro, de uma espécie a outra, o nascimento não é o início da vida e nem a morte será o seu fim. Morte e vida deixam de ser percebidas em sentido absoluto, são mutuamente relativizadas pela decifração de sua imbricação permanente e sem demarcação precisa.

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Referências
AGAMBEN, G. “Contagio”. Sopa de Wuhan. Buenos Aires: Editorial ASPO, 2020a.

AGAMBEN, G. “Distanziamento sociale”. Sopa de Wuhan. Roma: Quodlibet, 2020b.

AGAMBEN, G. “La invención de una epidemia”. Sopa de Wuhan. Buenos Aires: Editorial ASPO, 2020c.

AGAMBEN, G. “Reflexiones sobre la peste”. Sopa de Wuhan. Buenos Aires: Editorial ASPO, 2020d.

BADIOU, A. “Sobre la situación epidêmica”. Sopa de Wuhan. Buenos Aires: Editorial ASPO, 2020.

COCCIA, E. Le vírus est une force anarchique de métamorphose, Il Blog di Pierluigi Piccini: 27/03/2020. Disponível em <https://pierluigipiccini.it/emanuele-coccia-le-virus-est-une-force-anarchique-de-metamorphose/>

FOUCAULT, M. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). 2ª. ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.

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______. Nascimento da Biopolítica: curso dado no Collège de France (1978-1979). São Paulo: Martins Fontes, 2008.

______. Segurança, Território, População: curso dado no Collège de France (1977- 1978). São Paulo: Martins Fontes, 2008.

HAN, B. “La emergência viral y el mundo de mañana”. Buenos Aires: Editorial ASPO, 2020.

SLOTERDIJK, P. Le système occidental va se révéler ausssi autoritaire que celui de la Chine. Le Point: 18/03/2020. Disponível em: https://www.lepoint.fr/politique/sloterdijk-le-systeme-occidental-va-se-reveler-aussi-autoritaire-que-celui-de-la-chine-18-03-2020-2367624_20.php

ZIZEK, S. “El coronavirus es um golpe al capitalismo a la Kill Bill...”. Sopa de Wuhan. Buenos Aires: Editorial ASPO, 2020.

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