A “pandemia dos números” e a temporalidade na experiência do isolamento social

Carlos Diógenes Côrtes Tourinho
Professor do Departamento de Filosofia e
do Programa de Pós-Graduação em
Filosofia da UFF

 

Na experiência do isolamento social, o caráter vertiginoso dos números da pandemia no Brasil e no mundo coloca-nos, continuamente, de um modo um tanto quanto peculiar se compararmos com a nossa vida habitual pré-pandêmica, face a tabelas, gráficos, estudos de projeções relacionados à expansão da doença, bem como frente aos efeitos econômicos e políticos resultantes deste crescimento em diferentes escalas. Retornamos, diariamente, confinados à limitação do espaço de nossas residências, aos números da pandemia, na expectativa de delinear algo sobre um futuro iminente, um tanto quanto nebuloso para cada um de nós. A analogia com o número assume, pela excepcionalidade do momento, contornos mais realçados e, por conseguinte, mais do que o habitual, somos recolocados em um registro no qual somos impelidos à apreciação e, sobretudo, diferenciação do fenômeno da COVID19 quase que ostensivamente em termos “numéricos”. E para além do sentido literal de se tomar algo nos referidos termos, a apreciação numérica supõe um sentido da nossa relação com o espaço, não deixando, contudo, de mexer com a nossa temporalidade. Afinal, sentimos, por vezes, durante a experiência do isolamento social, como se os dias fossem “todos iguais”. A compreensão deste sentimento exige-nos, antes, que consideremos o tratamento numérico e a relação com o espaço que ele supõe.

Podemos dizer, em termos gerais, independentemente do fenômeno da pandemia, que quando distinguimos numericamente o que quer que seja, supomos, obrigatoriamente, um fundo homogêneo (indistinto) do qual os indivíduos se destacam quantitativamente (por exemplo, se diferencio, numericamente, indivíduos em uma sala, o espaço ocupado por eles seria este fundo homogêneo; poder-se-ia dizer, então, que tal fundo não entra na conta, mas sim, como “fundo”, torna-se obrigatório para distinguir numericamente o que nele ocupa um lugar). O diferir em sentido estritamente “numérico” traz consigo esta marca: obriga-nos a reduzir, supondo este fundo indistinto, tais indivíduos a uma função comum e, só assim, podemos contá-los na medida em que os mesmos compartilham a referida função (por exemplo, “grupo de risco”, “grupo de infectados assintomáticos”, “grupo daqueles que se curaram”, e assim por diante). Contamos, então, o número de vezes em que tal função se repete, de modo que os indivíduos que “caem” sob tal agrupamento se distinguem tão somente in numero. Se os indivíduos pertencentes a um dado conjunto se distinguem somente em termos numéricos, poder-se-ia dizer, do ponto de vista qualitativo, e lembramos, aqui, do famoso “princípio dos indiscerníveis” de Leibniz, que é como se eles “fossem um só”. Vemos, então, que quando operamos, exclusivamente, com o diferir em termos estritamente numéricos, ainda que a definição de tais agrupamentos da pandemia seja rediscutida com a genealogia do vírus, tendemos, pela “pandemia dos números”, a ofuscar a diferença entre duas ou mais coisas em termos “qualitativos”. Mas, o que entendemos, exatamente, por isso? Se a diferença numérica supõe, por definição, o espaço como o tal “fundo indistinto” sobre o qual se perfilam os indivíduos que caem nos respectivos agrupamentos (infectados, curados, mortos, etc), o diferir o mesmo do outro em sentido “qualitativo” supõe o tempo, concebido não como uma grandeza numérica (tal como o concebemos habitualmente como “tempo objetivo da ciência”, o tempo do relógio, medido pela posição do sol, etc.), mas sim, como uma vivência de “duração”, isto é, de momentos que passam continuamente e na medida em que passam se conservam e se contraem, pelo papel da memória, nos momentos seguintes, assegurando, então, o “prolongamento do antes no depois” no interior de nossa vida consciente.

O referido tratamento numérico para diferenciar indivíduos e seus respectivos agrupamentos – tão ostensivamente presente no fluxo contínuo das informações sobre a pandemia – torna-se, durante a experiência do isolamento social, indissociável, contudo, da vivência da referida temporalidade em termos de uma duração na qual as lembranças de um passado irrompem, através de fotografias, músicas, filmes, etc. num agora atual, como sempre, “grávido do futuro”, mas, de um futuro que, no período pandêmico, se torna ofuscado pela pandemia dos números. Com freqüência, sentimos como se o tempo “tivesse parado” (como se o ar tivesse, nos termos de Domingos Pellegrini, “entrado dentro do relógio”) e houvesse certa homogeneidade entre os dias, tornando, constantemente, “opaca” a diferença qualitativa entre os momentos continuamente vividos durante o isolamento. Se considerarmos que a capacidade retrospectiva de conservação e acumulação do passado no presente é o que nos permite, no interior de nossa vida consciente, distinguir qualitativamente um momento de outro (um agora que “não é mais” de um agora atual), possibilitando-nos distinguir o “mesmo do outro” em sentido “qualitativo” (e não meramente em termos “numéricos”), a presença vertiginosa da relação com a instantaneidade dos números, somada ao sentimento nauseante de que os dias parecem, por vezes, “iguais”, delimita-nos, acentuadamente, pela própria excepcionalidade desta experiência, o horizonte de ações possíveis, resultantes das nossas tomadas de decisões nas quais se constitui o futuro para cada um de nós. Tal delimitação acentuada poderá nos ameaçar (em maior ou menor grau) com o “torpor”. Se considerarmos que não há consciência sem memória, que, apoiada sobre o passado, a consciência debruça-se, como nos diz o filósofo francês Henri Bergson, como um “traço de união” entre o que foi e o que será, sobre o futuro iminente, o sentimento da homogeneidade dos dias ameaça flertar, do ponto de vista prático, com o “automatismo das ações”, ofuscando o interior da consciência, separando, na instantaneidade dos números, o que seria vivido por cada um de nós como uma “continuidade de momentos”. Se tal ameaça se confirmar, a duração contínua desses momentos que faz prolongar o antes no depois tenderá a tornar “instantâneo” o que é “continuo”, tomando o que é heterogêneo qualitativamente em termos de uma heterogeneidade numérica, deixando, enfim, as nossas ações quase que restritas – no confinamento do espaço físico – a retomar as atividades dos dias, a “lavar os copos e contar os corpos” (como diz a música de Criolo), deixando a nossa consciência em meio à ameaça de um “adormecimento”.

O fenômeno da COVID19 se mostra, em termos dos gráficos e tabelas que nos são apresentados pela grande mídia, como um fenômeno biológico, político, econômico, social, “aberto para todos”, mas, em termos qualitativos e, portanto, do modo como cada um de nós vivencia o conjunto de apreensões que se sucedem face um futuro nebuloso, como um fenômeno “fechado para cada um”. Se o isolamento social torna-se, na condição de uma recomendação da OMS para atenuar o crescimento exponencial do vírus e dos seus efeitos, um desafio para as autoridades do mundo todo, o confinamento das pessoas a um espaço físico restrito representa, neste momento, um desafio que não pode ser dissociado dos perigos da automatização da vida consciente, perigos esses que ameaçam isolar as pessoas do seu próprio “solo espiritual”. Estaríamos, então, na iminência de um “duplo isolamento”, cujos riscos poderão deixar o nosso agora atual grávido de um futuro cada vez mais incerto e nebuloso, isolado, pelo atordoamento da pandemia dos números (e, no caso do Brasil, do “pandemônio político”), do passado acumulado e conservado pela vida espiritual. Em meio ao esvaziamento do espaço público, o fenômeno da pandemia atinge a temporalidade da vida consciente. Até que ponto o isolamento social nos livraria de um isolamento espiritual? Eis uma questão fechada para cada um na vida psicológica, mas, aberta para todos, caso consideremos os efeitos sociais e políticos deste duplo isolamento no âmbito coletivo.

Rio Bonito, 29 de abril de 2020.

 

Referências:
Bergson, H. “La Conscience et la Vie”. L´Énergie spirituelle. In: Oeuvres. Édition Du Centenaire. Paris: Presses Universitaires de France ([1911] 1959).
Leibniz, G. Principes de la Nature et de la Grâce/ Monadologie et autres textes 1703- 1716. Paris: Flamarion, 1996.
Pellegrini, D. A árvore que dava dinheiro. São Paulo: Editora Ática, 1994.
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