A filosofia como cuidado

Luís Fernando Crespo 1

 

 Viver um período de isolamento, por conta da pandemia do COVID-19, leva-nos a pensar a dimensão do cuidado de diferentes modos. Ao invés de um cuidado apenas individual, a humanidade é convocada para um cuidado coletivo – a ideia de que isolar-se não apenas implica cuidado de si, mas que inclui o cuidado do outro, é algo que, para algumas pessoas, não é de claro entendimento. Por isso é que medidas cada vez mais duras são tomadas pelos poderes constituídos com o intuito de fazer com que as pessoas deixem decircular e aguardem até que passe o momento crítico de contaminação. Não haveria necessidade de  instrumentos mais severos, caso as pessoas entendessem e assumissem a responsabilidade pelo cuidado. Parece faltar a própria consciência do cuidado.



A filosofia, muitas vezes, foi preterida diante de ações mais úteis aos diferentes contextos históricos; a ela fora atribuído o valor de inutilidade – talvez um desvalor. Ao ser deixado de lado um instrumento tão importante do pensar (Heidegger diria que pensar já é uma ação), as possibilidades de aperfeiçoamento do ser humano em sua virtude vão minguando. A ação virtuosa é cada vez mais cerceada, já que, nem sempre, ela corrobora as posições políticas e sociais assumidas. A filosofia tem condições de levar este ser humano a uma nova percepção da realidade e, nela, um novo agir que expresse cuidado de si, do outro, da comunidade. Enquanto um mal invisível ataca, o que resta ao ser humano é o cuidado.

Platão, no Alcibíades I, deixa claro um chamamento que faz ao ser humano para que este perceba que o cuidado é necessário e, mais que isso, que o cuidado do outro (social) apenas se torna possível quando se estabelece a preocupação com o cuidado de si. Por sua vez, cuidar de si exige que haja um conhecimento de si – daí a retomada da recomendação délfica do conhece- te a ti mesmo. Alcibíades tem o desejo de governar, mas, provocado por Sócrates, toma consciência de que não alcançaria sucesso em sua empreitada,

pois a ele não falta apenas conhecimento, mas lhe falta o cuidado de si. E o primeiro passo seria conhecer-se. Quem é Alcibíades? Um homem. E quem é o homem, senão sua alma?

A imagem de Sócrates que vai, ao longo de muito tempo, rodeando Alcibíades pode ser entendida como a relação entre a filosofia e a humanidade – o que rodeia é o filosofar e o rodeado é o ser humano. A filosofia está sempre perto, à espreita, mas o ser humano apenas consegue trazê-la para junto de si quando conquista maturidade. Depois de muito viver e conquistar fama para si, Alcibíades, que havia desprezado muitos que o seguiam, permite a aproximação de Sócrates. Do mesmo modo, não teria o ser humano conquistado muito diante do mundo e teve de perceber, com a pandemia, que ainda falta algo de mais essencial?

A filosofia aborda o ser humano quando este está em condições de ouvi-la. O mercado teve aplacado seu furor devorador; o mundo do trabalho percebeu que tem necessidade de se reinventar; o âmbito educacional passa a repensar sua organização. No fundo, o tempo teve de ser desacelerado e, com isso, abrem-se novas possibilidades de reflexão. Mas algo foi intensificado: a arte. Arte não entra na contabilização de produção e utilidade. Arte é cuidado com aquilo que o ser humano é, platonicamente: alma. Já na Apologia de Sócrates, Platão havia indicado que o cuidado com a alma deveria vir antes de qualquer outra preocupação, fosse com honrarias ou riqueza. No isolamento, diante da atrocidade da natureza e do governo – ela que mata e ele que se mostra irresponsável –, talvez o ser humano tenha mais condições de ouvir a filosofia e cuidar de sua alma. Ainda há tempo para o cuidado de si.

Segundo Foucault, em A hermenêutica do sujeito, a própria história da filosofia não deu tanta importância à temática do cuidado de si – pelo menos, em um período mais próximo de nós. Ele observa, porém, que durante aproximadamente mil anos o cuidado era tomado como elemento relacionado diretamente ao saber filosófico, especificamente entre os séculos V a.C. e V d.C. Ele desenvolverá o questionamento sobre o porquê de se ter rechaçado tal problemática a partir de então. Nesta mesma obra, ele reflete sobre o pensamento platônico apresentado no Alcibíades I.

É a partir da experiência de Sócrates com Alcibíades (em Platão e Foucault) que penso a filosofia como cuidado. Entendendo Sócrates como sendo a própria filosofia e Alcibíades como o ser humano em geral, Platão indica que o ser humano não tem tempo para a filosofia, pois ela não responde ao conceito de utilidade que a sociedade estabelece – ele teria algo mais importante com o que se preocupar. Ele não tem tempo para a filosofia, pois sabe de sua finitude e, assim, tem condições de fazer as melhores escolhas? Parece que não, pois Platão mostra Sócrates ensinando que Alcibíades não tem consciência de si e, consequentemente, de sua finitude. Quando falo de uma não consciência, trata-se de ter apenas um saber comum e trivial de que “todo mundo morre”.

Não sendo mais tão jovem nem ainda velho, Sócrates percebe ser o melhor momento para abordar Alcibíades. Sabendo do desejo que este último tem em dirigir a cidade, o primeiro quer ensiná-lo o saber sem o qual não pode conquistar o que quer. E Sócrates fala da recomendação délfica do conhece-te a ti mesmo, mas, apenas passando por ela, detém-se no conceito de cuidado de si. Conhecer a si é um modo de cuidar de si. Foucault desenvolve esta ideia e mostra que a primeira ação de cuidado é o conhecimento como reconhecimento de quem se é: reconhece-te como mortal, como parte, como inferior (diante dos deuses). O filosofar  – Sócrates – é que leva a este conhecimento.

No contexto da pandemia, é necessário o mesmo reconhecimento: és inferior!; mas, agora, a inferioridade é medida diante da força físico-natural da doença. A doença toma o lugar dos deuses (pode-se observar que, ao mesmo tempo, milhares de pessoas buscam em um deus o afastamento da morte, mesmo que seja unicamente de sua ideia). É diante da doença que o ser humano se reconhece como mortal. O filosofar é o cuidado para que este conhecimento não seja algo banal.

Fazendo alusão a outro texto de Platão – A república (VII) –, costumeiramente se ensina que a saída da caverna seja o ato de filosofar; porém, D. Mitchell, em seu artigo The Myth of the Cave and the experience of illness, interpreta o texto platônico, tomando a doença como o que leva para fora da caverna. O estado de doente faz o ser humano se reconhecer como mortal; e, se assim for, a pandemia que vivemos não faz outra coisa que, de modo avassalador, trazer esta consciência. Apenas a doença leva o ser humano a abrir os olhos para a realidade de prisioneiro na caverna, bem como a adequar a visão ao longo de cada estágio em direção à saída. A filosofia é cuidado no sentido de não deixar esta vivência ser compreendida como algo banal no sentido de “morre-se”. A filosofia é cuidado de si ao transformar a desgraça da morte em conhecimento de si, levando a novas percepções da realidade que poderiam estar soterradas pelo contexto histórico há muito tempo marcado pelo desenfreado movimento de exploração/produção capitalista.

O cuidado de si é uma prática de si; segundo Foucault é abertura de caminho para a tão almejada verdade. Seria, então, possível pensar algo como “lado bom da pandemia”? De maneira alguma; trata-se apenas de uma consequência. Ter consciência é algo positivo, algo bom, mas não pode levar à busca de um sentido positivo no elevado índice de contaminação e número de mortos. Tal consciência da finitude não poderia ser alcançada de outros modos? Sim, poderia; mas o ser humano não tem tanto tempo para a filosofia. Algo pode ser diferente nos tempos vindouros. Neste momento, as redes sociais estão plenas de espaço para artistas, poetas e filósofos; mas, quando tudo está razoavelmente bem, não há espaço para o pensamento do sentido.

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1 Doutor em Filosofia pela PUC-SP, professor do Colégio Etapa de Valinhos, pesquisador membro do Grupo de Pesquisa Educação, Política e Sociedade (GPEPS - IFSP/BTV))

Referências
FOUCAULT, Michel. A hermenêutica do sujeito. 3ª ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010.
MITCHELL, Derek. The Myth of the Cave and the experience of illness. J Eval Clin Pract. 2019 pp. 1-7. https://doi.org/10.1111/jep.13175.
PLATÃO. A república. Trad.: Carlos Alberto Nunes. Belém: UFPA. 2000. [Livro VII]
______. ‘O primeiro Alcibíades’. In: Diálogos. Trad.: Carlos Alberto Nunes. Belém: UFPA. 1975. [pp. 181-249]

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