Vários mundos para uma só pandemia: contra a universalidade do discurso filosófico

Érico Andrade
Filósofo, psicanalista em formação e Professor UFPE

Introdução

Já é possível preencher prateleiras de estantes com os textos produzidos sobre a pandemia. Mais do que isso: sobre o mundo pós-pandemia. A latitude desses textos é imensa e ampla. No entanto, a tendência aos diagnósticos globais e às soluções universais parece coordenar essas produções, sobretudo filosóficas, para um eixo comum: a negligência em relação ao contexto cultural e ao impacto local da pandemia. Nesse sentido, o mundo pós-pandemia se apresenta muitas vezes como um espelho de certa discursividade filosófica muito mais apaixonada por si mesma do que disposta a perceber as diferenças sociais que o Coronavírus acentua muito mais do que elimina.

E essas diferenças se fazem presente de forma mais radical em países como o Brasil, marcado pela desigualdade e por uma já duradora crise política. Nessa perspectiva, é preciso derrubar umas das primeiras teses aventadas na crise. O Coronavírus seria democrático. Isto é, contaminaria de forma indiscriminada as pessoas. Se é verdade que a sua circulação ocorre inicialmente em cidades importantes do mundo, nas quais várias pessoas de diferentes países circulam, não menos verdade é que essas cidades comportam variações importantes e que dentro do Brasil essas variações são dramáticas. Longe de ser uma doença democrática, no sentido de que todas as pessoas estariam igualmente submetidas a ela, a letalidade COVID-19 incide nas populações mais carentes e mais precarizadas. Que no Brasil é formada pelo contingente das pessoas negras e pardas (segundo levantamento do Ministério Público e que foi publicado na Folha de São Paulo 10/04/2020). O recorte de raça mais uma vez se mostra necessário.

Diante deste quadro a primeira questão que se nos impõe sobre o cenário pós pandemia é relativa aos diferentes mundos que a pandemia afeta. Não existe o mundo pós-pandemia. Existem mundos. Esse é o meu ponto.

E esses mundos são afetados em tempos e em espaços distintos. O contexto, sobre o qual insisto e que guia o presente artigo, é espaço e tempo. Para ser um pouco mais preciso: o espaço é circunscrição geográfica (física e humana) sobre a qual incide a pandemia e o tempo é o horizonte de expectativa que governa diferentes grupos sociais. Espaço e tempo são relativos. E sobre essa relatividade que meu artigo se concentra para sustentar a inviabilidade de um diagnóstico universal do mundo pós-pandemia (e mais radicalmente de um prognóstico).

Espaço: a desigualdade urbana

O Brasil tem favelas e incontáveis comunidades que formam bairros superpovoados nos subúrbios e periferias das grandes cidades. O que essas áreas urbanas têm em comum é que as moradias em geral têm um espaço profundamente reduzido. O uso do espaço urbano nesses casos é mais amplo com pessoas ocupando as ruas e calçadas. Assim, por conta da própria estrutura das moradias o confinamento social mais radical se dá de forma completamente diversa das pessoas que moram em regiões da cidade onde se encontram moradias com uma quantidade de metros quadros muito mais significativa. As pessoas não têm escolha que lhes habilitem a um isolamento social radical.

Se inicialmente é possível sublinhar uma desigualdade na metragem das moradias, do ponto de vista da relação com o espaço público a desigualdade urbana não é menos brutal. Os trabalhadores de aplicativos que servem à classe média e à classe alta em geral moram no subúrbio e na periferia onde este tipo de serviço não é prestado porque as pessoas andam alguns poucos metros e têm acesso a mercadinhos, pequenos comércios e farmácias. A circulação de pessoas pelas ruas nestes locais novamente é muito difícil de ser vedada, assim como contato entre elas.

Se é verdade que algumas comunidades e favelas têm se organizado para combater a pandemia, de modo autônomo em relação ao governo, sobretudo Federal, o que gostaria de sublinhar é que a desigualdade urbana (espacial) não se desfaz em nome de uma suposta pandemia democrática. Ela, pelo contrário, se torna aguda e põe em xeque a pretensão de um diagnóstico universal. Ou seja, as discussões sobre o controle estatal das pessoas, por um lado, não têm sentido em comunidades em que o isolamento social simplesmente não é viável espacialmente de modo pleno. Por outro, essas pessoas já são vigiadas e punidas pelo Estado e a sua necropolítica que usa a polícia como forma de manter o controle social por meio da opressão das pessoas pobres e negras. A pandemia altera pouco este quadro.

Para esse Brasil, o Brasil sobretudo negro, as mudanças no comportamento dificilmente se coadunam com a expectativa de alguns textos filosóficos seja porque a sociedade de vigilância já existe e bate nas suas portas todos os dias, seja porque um isolamento que muda o trabalho para a forma de um home office é inviável para as pessoas que vivem para servir quem trabalha home office.

Tempo: a desigualdade de profissões

A experiência do tempo não é uniforme. Tendo a pensar que o horizonte de expectativa varia de acordo com o contexto. As expectativas que se avizinham importam mais para as populações da periferia do que um debate filosófico, que se enreda numa discussão sobre o controle do Estado, parece notar. O Estado para essa parcela significativa da população brasileira já a vigia dia e noite, como disse. Para ela o Estado reprime como sol: de modo imediato e onipotente, como atesta uma das imagens mais fortes da literatura brasileira: a imagem do soldado amarelo de Vidas Secas. Ter mais ou menos vigilância, para quem a lei já vigia com os seus olhos de raios x, como diz a música, é pouco relevante. Certamente este não é o seu horizonte de expectativa porque já é um padrão que se lhe impõe no presente.

Para as pessoas desempregáveis a experiência do tempo é sempre imediata. É por isso que há uma resistência de parte da população em simplesmente parar todas as suas atividades. Enquanto a classe média pode organizar o seu tempo dividindo-o em conformidade com a rotina que a pandemia lhe impõe, a maior parte da classe trabalhadora lida com o tempo de forma profundamente apreensiva pela iminência de uma demissão ou de modo fortemente resignado diante de uma contaminação de que dificilmente pode escapar. Em nenhum desses cenários o tempo se faz como algo que se planeja num mundo pós Coronavírus. O tempo é o presente.

Há, portanto, um privilégio quanto ao manejo do tempo que a pandemia evidencia. E essa diferença só se torna mais aguda quando fazemos um recorte de gênero e raça. As mulheres pobres, sobretudo negras, que estão no Brasil, em geral, submetidas a uma dupla jornada, não terão o seu regime de trabalho alterado no mundo pós Corona Vírus sem uma política voltada especificamente para elas. A tendência, aliás, é que elas muito provavelmente ganhem menos ou fiquem sem qualquer perspectiva de aumento salarial, porque a classe média dificilmente vai abdicar do privilégio de ser servida mesmo com uma crise econômica.

Por fim, enquanto a classe média pode, em alguns casos, administrar as suas finanças de modo remoto, as classes menos privilegiadas são obrigadas a formar filas de dezenas de metros para conseguirem o mínimo junto aos bancos federais e continuam a sua longa jornada nos transportes públicos muitas vezes em direção aos bairros da classe média para cumprirem, de modo informal, as suas funções de vigia e entregadores. A desigualdade que marca o uso do tempo veda um diagnóstico universal para o mundo pós Coronavírus que apregoa uma mudança uniforme do tempo, especialmente das condições de trabalho.

É neste sentido que o tempo, assim como o espaço, é relativo à classe, à raça e ao gênero. Qualquer diagnóstico e, sobretudo, prognóstico que ignore estas diferenças tende a alimentar as mesmas discussões filosóficas que nem sempre tangenciam o Brasil porque têm no velho continente não apenas o seu foco, mas sobretudo o seu espelho.

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