A condição kafkiana da atualidade

Ulisses Razzante Vaccari (1)

Parece não restar dúvidas de que as redes sociais ocasionaram transformações no plano das relações humanas e, em especial, no mundo político. Ao mesmo tempo em que as redes assaram a desempenhar um papel preponderante em eleições presidenciais, os políticos passaram a fazer política principalmente por seus meios.

A relação entre política e meios de comunicação não é nova na história. Hitler, em 1935, fez uso do cinema visando construir a imagem de salvador da pátria, como ficou registrado em O triunfo da vontade, da cineasta alemã Leni Riefenstahl.

Em sua escalada ao poder, Hitler e seus asseclas compreenderam logo que o ministério da propaganda seria um dos pilares do Terceiro Reich, responsável por levar a cabo a chamada “estetização da política”. Ao ministério coube de fato a tarefa de revestir a ideologia nazista com carregado verniz estético, visando ludibriar com promessas religiosas uma população miserável e humilhada.

A escalada do nazismo ao poder foi assim propiciada pela apropriação dos meios técnicos de reprodução, utilizados para lançar ao vento imagens apoteóticas e redentoras do Führer. Por esse motivo, os intelectuais marxistas insistiram na ideia de que a luta contra o nazi-fascismo deveria passar pela conquista não apenas dos meios de produção, mas também dos de reprodução. Os regimes totalitários, afinal, se beneficiaram ao longo da história das relações espúrias entre estética e política, como sói havia ocorrido no Império Romano, aliás emulado pelos nazistas.

Fundamental na Alemanha de 1930, tais relações reaparecem hoje em dia, embora com outra roupagem. O cinema, o rádio, o jornal impresso e a televisão vêm sendo substituídos pelas redes sociais, implicando num vertiginoso aumento da capacidade de produção e reprodução da imagem e da informação.

Essa transformação, porém, não se resume apenas à quantidade e à velocidade de reprodução da informação, mas também ao modo como sua qualidade é atingida por esse processo. Se, por um lado, o formato das redes permite replicar com um simples clique reportagens e artigos de grandes jornais, por outro, esse replique por si mesmo parece contribuir para o processo de erosão do solo onde cresce toda comunicabilidade. Em vez de propiciar a construção de debates mais ou menos aprofundados sobre os temas, o formato parece antes apenas atiçar a fome narcísica do usuário em sua busca interminável por likes e seguidores, aprofundando com isso o abismo quase expressionista entre sujeito e objeto.

Ultimamente muito se tem debatido sobre o papel desempenhado pelas redes sociais nas últimas campanhas presidenciais. Há uma espécie de consenso de que o novo aparato tecnológico determinou o destino de eleições recentes, tendo se revelado extremamente eficaz na condução de outsiders aos postos políticos mais importantes do planeta, em
geral de figuras estranhas aos sistemas políticos tradicionais.

Como em 1935, criou-se a imagem, eivada do mesmo teor teocrático de então, de que os sistemas políticos estavam corroídos e degradados e que somente o enviado dos céus, que calhou ser o candidato do momento, seria capaz de salvar a nação das forças do mal que corroeram moralmente as instituições políticas desde o interior.

Não há dúvida de que o sucesso dessa empreitada passa necessariamente pelo processo de ressignificação da relação de poder sobre a informação, propiciada pelas redes sociais.

Estas ao mesmo tempo retiraram esse poder das mãos dos grandes meios de comunicação e entregaram-no ao indivíduo que, no conforto de sua casa, pode decidir diretamente o que é e o que não é verdadeiro, sem precisar incomodar-se em comprová-lo e verificá-lo.

Assistiu-se com isso à inundação midiática de falsas informações, que ameaçou a existência da própria mídia, da ciência e da política, conduzindo-nos a um estado kafkiano, em que o desvio e o desengano se tornaram regra. Vivendo dentro de um romance de Kafka, sentimos hoje em dia a mesma falta de ar que seus personagens (literalmente), desorientados por um mecanismo cujo objetivo é pura e simplesmente promover a ruptura da comunicação por meio da difusão da desinformação.

Quase sempre turvados por uma sombra ambígua e desfiguradora, própria dos sótãos e corredores sem saída nos quais vivem, os personagens kafkianos, como nós, assistem ao paulatino esfarelamento do próprio eu, à desintegração de sua consciência. Longe de ser mero estado onírico, surrealista, esse processo sombrio descreve com uma naturalização insuportável a regressão de um mundo baseado em princípios sólidos a outro tomado pela sombra e pelo indeterminado.

Como nós, os personagens de Kafka também foram testemunhas do doloroso processo de desmoronamento da verdade. O fato de nos vermos obrigados a retornar à hercúlea tarefa de provar que a terra é redonda não atesta de modo suficiente que o ambiente kafkiano nunca esteve tão próximo?

Como os personagens de Kafka, também hoje nos encontramos subitamente enredados num círculo vicioso, de caráter claramente mítico. Sentimos na pele o sofrimento do velho Sísifo, que consistia em jogar renovadamente no esquecimento todo trabalho realizado durante o dia.

A própria imprensa procurou tomar consciência desse fenômeno definindo-o com o mote: “era da pós-verdade”. Pomposo, esse título procura, em vão, definir em conceitos pseudo filosóficos algo que é do plano estético: o grotesco. Em estética, o grotesco é aquilo cuja inadequação monstruosa ao bom senso causa asco e aversão, como é o caso também da metamorfose de Gregor Samsa num inseto asqueroso.

A grotesca história de Sísifo renasce e se reproduz assim em nossa era equipada com um sistema de esquecimento cada vez mais poderoso. Sem saber que se tornou parte desse complexo sistema produtor de aparências, o indivíduo, com seu clique aparentemente inócuo, o reproduz e o fortalece, apagando seus próprios passos ao mesmo tempo em que anula sua liberdade, tornando-se mero joguete do destino.

E tudo isso visando àquele júbilo efêmero proporcionado pelo clique e seguido pelo like; e tudo isso visando fugir ao tédio pela entrega à promessa mefistofélica do prazer imediato. Ao fazê-lo, mal sabe o indivíduo que se torna mera engrenagem de um mecanismo cuja função, ao apagar a história, consiste apenas em manter-se funcionando, pura e simplesmente, como os personagens-engrenagem de Kafka.

Incapazes de pôr um fim no círculo vicioso de Sísifo, esses personagens, antes como agora, consomem-se em um cansaço cósmico. Mas, assim como a muralha da China no conto de Kafka, também esse sistema aparentemente inquebrantável possui falhas, por mais imperceptíveis sejam. Mesmo a mais rigorosa lógica já fabricada experimentará um dia um ato falho, por meio de cuja fresta brilhará a liberdade, por mais efetivos sejam os amanuenses do mito em sua tarefa de manter viva a aparência da necessidade e do destino.

Ao se tomar consciência de que a necessidade é apenas aparência, o caminho em direção à liberdade encontra-se percorrido em sua maior parte. Pois o trabalho mais árduo está em pôr em evidência o embaralhamento ideológico entre essência e aparência. E é aqui que se situa a literatura de Kafka.

Devido ao seu caráter alegórico, as parábolas de Kafka foram erroneamente lidas ao longo dos tempos como simples metáforas de situações terríveis. Ou então como meras descrições de estados oníricos, psicológicos, sem relação com a realidade. Tivessem sido interpretadas não como imagens, mas como o próprio real, talvez tivéssemos desenvolvido melhor a capacidade de não trocar indistintamente um pelo outro, como, ao que parece, estamos fazendo agora.

Ao comentar um de seus contos, Walter Benjamin afirmou que Kafka foi profético.

Seus escritos, segundo ele, não falam apenas do passado, mas projetam sua luz profeticamente em direção ao futuro. Lá dos idos da segunda década do século vinte, os escritos de Kafka nos iluminam aqui e agora, cem anos depois, ao mostrar a força centrípeta daquele círculo mítico que, a despeito do passar dos anos, insiste em girar sobre seu próprio eixo e nos sugar em direção ao seu centro.

Chamar a atenção para isso e mostrar sua ameaça eterna, eis a grande contribuição que nos legou a literatura de Kafka.

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1 Professor no Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

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