Homenagem à María Lugones por Susana de Castro (UFRJ)

“El lado oculto/oscuro del sistema de género fue y es completamente violento. Hemos empezado a entender la reducción profunda de los anamachos, las anahembras, y la gente “del tercer género”. De su participación ubicua en rituales, en processos de toma de decisiones, y en la economia precoloniales fueron reducidos a la animalidad, al sexo forzado con los colonizadores blacos, y a una explotación laboral tan profunda que, a menudo, los llevó a trabajar hasta la muerte.”
(María Lugones, in: “Colonialidad y Gènero”)

 

A comunidade filosófica foi surpreendia com a notícia do falecimento no dia 14 de julho da Professora argentina radicada nos Estados Unidos, María Lugones, aos 76 anos de idade. Professora da Universidade de Binghamton no Estado de Nova Iorque, ela havia participado recentemente de uma conversa virtual no dia 6 de junho ao lado da antropóloga brasileira Ângela Figueiredo sobre “Colonialidade e Gênero” no canal do YouTube, História em Quarentena. Nesse dia, analisou a importância do movimento Black Lives Matter nos EUA, fez referência à contribuição da feminista indiana Vandana Shiva para a reflexão sobre os impactos da Covid, e deu uma aula brilhante sobre feminismo descolonial, entre outros assuntos. Pela sua fala, notava-se o quanto estava conectada com os acontecimentos presentes e seus significados políticos. Ninguém poderia imaginar que morreria um mês depois. Deixa um vazio na vida de todos aqueles e aquelas com os quais trabalhou e para as/os quais teve um papel formativo fundamental em suas vidas, mas deixa também um legado intelectual para a filosofia contemporânea política e ética, em particular para os estudos feministas descoloniais. Ela mesma se intitulava uma teórica da resistência (“Toward a Decolonial Feminism”, 2010), resistência ao que nomeou de ‘sistema moderno colonial de gênero’.

A despeito da enorme relevância que o estudo histórico de Aníbal Quijano acerca da base colonial moderna do capitalismo e seus dois eixos de sustentação, o racismo e o eurocentrismo, que juntos configuram a ‘colonialidade do poder’, Lugones entende que a ‘colonialidade do poder’ enquanto sistema de controle político, econômico e da subjetividade do colonizado através fundamentalmente da classificação social a partir da noção de raça, não teria tido o sucesso esperado sem a concomitante introdução da noção de gênero. A mulher não europeia, não era ‘mulher’ no sentido completo, humano, categoria essa reservada à mulher branca europeia. Falar em ‘mulher’ colonizada é uma contradição. A nativa indígena ou a africana escravizada eram vistas como ‘objetos’ e propriedades, não possuíam culturas e valores, ‘poderes’ a transmitir. Lugones chama de ‘sistema moderno colonial de gênero’ essa estratégia de dominação mediante a qual a inferioridade da mulher nativa originava-se na sua não humanidade (“Colonialidad y Género”, 2008).

Considerando-se que o imaginário do colonizador não sumiu do imaginário das sociedades ocidentais contemporâneas (a ferida colonial continua aberta como podemos facilmente constar nas constantes denúncias de racismos presentes em nossas sociedades latino-americanas e na sociedade norte-americana), não faz sentido falar de um feminismo que não seja plural, multirracial, interseccional, pois as opressões de gênero e de raça (e de classe) não são vividas separadamente por grande parte da população mundial. A lógica da colonialidade não teria sido tão eficaz na sua dominação dos não europeus não fosse a introdução do sistema moderno-colonial de gênero ter transformado mulheres que antes detinham práticas, culturas e saberes vitais para o modo de organização da vida comunitária no período ante-moderno, em animais não humanos, diz Lugones.

Na fronteira entre a ontologia do colonizador, presente até os nossos dias nas hierarquias culturais e sociais marcadas pela intersecção de classe, raça sexo e gênero, que visibilizam somente aquilo que espelha a branquitude como se esta não fosse também racializada, está uma outra ontologia que resiste a seu apagamento. Lugones deixa um legado fundamental para todos os que transitam entre dois ‘mundos’ como ela (“Playfullness, “world”-Travelling, and Loving Perception”, 1987; Pilgrimages, 2003), o de não ceder a sedução do status quo acadêmico. Como deixa claro durante a conversa no canal do YouTube, referida acima, o fato de ela trabalhar em uma universidade americana, escrever em inglês, e, portanto, conseguir transitar nesse mundo acadêmico do ‘primeiro mundo’, no qual nunca deixou de se sentir uma estrangeira (outsider), jamais a fez esquecer ou deixar de ver a realidade do outro ‘mundo’, dos ‘invisibilizados’ e ‘subalternizados’ pela cultura hegemônica, mas que resistem com seus saberes e olhares. Por causa da sua identidade mestiça sabia o significado de viver como uma estranha em ambientes sociais racistas, exclusivos, em seu próprio país (“Playfullness ....”, 1987). Ser um estranho e transitar em dois ‘mundos’ produz um olhar crítico aguçado, importante para desbancar a identidade moral supremacista dos habitantes da cultura mundial hegemônica.

Paz, María. Obrigada por tudo!
Susana de Castro

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