Redes sociais: lucrando com as nossas “tretas”

Érico Andrade
ericoandrade@gmail.com
Filósofo, psicanalista em formação, professor da Universidade Federal de Pernambuco

 

O lucro anual do Facebook, Instagram e Twitter juntos passa de dezenas de bilhões de dólares. Certamente esse lucro deve ter um incremento neste ano de pandemia em que estamos mais confinados ao mundo virtual. Essas cifras são importantes para explicitar o óbvio, mas que ainda precisa ser dito. Essas empresas lucram e operam com a lógica – racionalidade – capitalista. E a forma delas lucrarem nos envolve diretamente. Elas lucram com os nossos posts, fotos, mas também e sobretudo com as nossas “tretas”, cancelamentos e momentos de celebridade.

Sabemos que a técnica não é neutra. O seu valor e destino estão no centro da disputa política. Assim, é evidente que as redes sociais têm fins que se prestam, dentre outras coisas, à luta antifascista; para ficar apenas com um exemplo. Com efeito, o meu ponto é que a racionalidade que lhe governa é fortemente focada no privilégio do indivíduo e nos exige, portanto, uma constante vigilância para não endossarmos o capitalismo naquilo que lhe é constituinte, a saber, a sua ontologia individualista. Isto é, o seu modo de conceber a sociedade como o somatório de indivíduos livres e completamente independentes uns dos outros.

Quando não estamos vigilantes ao caráter comercial e empresarial das redes sociais podemos reproduzir apenas uma lógica que garante o lucro para empresas, responsáveis pelo manejo das redes, ao passo que nos afastamos de uma dimensão orgânica da vida coletiva que envolve sobretudo a escuta.

É nesse sentido que diferentemente da escuta, a lacração e o cancelamento andam juntos porque reduzem a capacidade de diálogo na medida em que incrementam o nosso narcisismo; afeito sempre a nos colocar num lugar de superioridade moral. Essa superioridade se faz, na lógica do capital, por meio da diminuição do (a) outro (a) que não lacra como eu ou simplesmente pelo silenciamento do (a) outro (a) por apresentar uma opinião contrária a minha e a dos meus meus seguidores.

Esse fenômeno inevitavelmente forma bolhas nas quais as pessoas falam apenas para si mesmas – num mútuo processo de retroalimentação egoica – e servem para o Capital conhecer melhor o público para lhe dirigir determinadas publicidades. Ou seja, o sectarismo que toma conta das redes é muito oportuno para o Capital que consegue ter gratuitamente uma amostra de comportamento de grupos de consumidores para os quais dirige a sua publicidade. Isto é, o ambiente tóxico das redes não é outra coisa senão lucrativo para as empresas que as gerenciam e pontualmente para algumas celebridades.

Isso fica ainda mais claro com as “tretas”. Muitas pessoas passam a compartilhar uma mesma notícia ou polêmica, algumas ganham status quando conseguem fazer o comentário lacrador, e novamente é possível vender mais por se ter uma amostragem privilegiada do comportamento do consumidor. Funciona de modo análogo à lógica dos tabloides que vivem do sensacionalismo e da fabricação de polêmicas por meio das quais passam explicitamente a sua publicidade, bem como a sua receita de sucesso. Como somos humanos os erros não são acidentes em nossas vidas, mas aquilo que nos constitui, não irá faltar, portanto, erros para apontarmos os nossos dedos sedentos muitas vezes por fazer justiça com as próprias mãos; ainda que seja apenas teclando.

Perfis falsos, robôs, mas sobretudo pessoas como eu e você fazem a rede ser alimentada por um grande diapasão de egos, numa lógica fortemente individualista, que sempre se afirma pela diferença e afunda a possibilidade do diálogo.

Acredito que é importante ter sempre em mente que quem possui mais seguidores são as próprias redes sociais.

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