Ceticismo e pandemia: verdade, ciência e política

Marcelo de Oliveira
Mestre em Filosofia Moderna (UFMG) e Philosophie et Epistémologie
(Université de Lorraine) marcelofonsecardeoliveira@gmail.com

 

Se a verdade, mesmo que única, dependa, em boa medida, das perguntas que encaminharão a pesquisa até a sua descoberta; parece certo afirmar que, desde o rompimento desta pandemia, poucos foram aqueles que colocaram as perguntas certas. Alguns âmbitos que são a chave para o esclarecimento desta doença não foram sequer mencionados. A impressão de que o ‘acidente’ poderia ter sido evitado não é mais absurda do que a repetição embrutecida da fórmula monocórdia ‘fique em casa’.

Não precisamos, ainda, de acionar, em larga escala, uma teoria da verdade em Deus que se aparenta, como adequação entre idéia e essência, à definição de verdade proposicional como correspondência. Neste passo dado em direção ao niilismo moral, em contexto sócio-cultural no qual o materialismo tecnocrata avassala o homem comum; a fé, para aqueles que a possuem na sua autêntica interioridade, pode oferecer uma instância mais duradoura do que as medidas do ‘novo normal’.

O que os últimos acontecimentos mostram, contudo, é uma quase ausência de compromisso epistêmico, ou seja, com a verdade, ausência esta constatada a partir de discursos díspares e de anúncios duvidosos. Neste contexto, caoticamente prescrito, de informações confusas, a questão não é o que é a verdade, mas, sim, o que é verdade. A clareza e distinção de alguns dos principais atores deste novo cenário deixa a desejar, tal qual os pronunciamentos desencontrados e os erros de previsão do diretor da OMS em março e abril.

Assim, as teorias da pós-verdade se mostram, no contexto desta pandemia, ainda mais agravantes, tanto para a moral quanto para as conseqüências políticas. Abdicar de uma definição correspondencialista de verdade (uma proposição x é verdadeira quando descreve ou se aproxima, com verossimilhança, de um estado de coisas y) em contraposição à multiplicidade diafônica de discursos, parece uma falácia de corolários graves.

A ciência e seus erros estão e estarão implicados nesta pandemia. Enquanto acidente biológico, a medicina laboratorial foi levada ao primeiro patamar neste momento. Parece válido, então, retomarmos a relação moderna entre ciência e verdade. Esta identidade, fundamento sólido para o progresso, parece estar passando por ataques velados e contínuos. Mas a questão, ainda não colocada, é: o que há de falso na origem científica do acidente? O laboratório em Wuhan funcionava aquém das condições ideais de higiene. A gênese do acidente ainda não foi esclarecida. A explicação que vigora é confusa, pois apresenta pontos obscuros que mesclam a origem no laboratório com a origem no mercado de animais.

No entanto, mesmo tendo isto em premissa, estes fatos maculam a tese da ciência como verdade? A considerarmos que se trata de um laboratório onde experimentos bioquímicos são desenvolvidos em alto grau podemos, de modo minimal, afirmar que, nesta condição, a noção de natureza se perverteu. Mesmo que o vírus tenha uma origem natural, sua manipulação para outros fins (ou seja, mesmo que a forma de vida viral não tenha uma função específica, parasitando morcegos da espécie x) altera o seu caráter natural. Claro, a ciência opera deste modo ao longo de sua história. Este é o princípio dos fármacos. Porém, desta vez, a perversão (a inversão do natural, criando-se novas formas de vírus, em laboratório, a partir de uma forma natural) atingiu um patamar humanitário acarretando mortes, conseqüência paradoxal para toda a ciência da vida.

Um problema evidente é o problema da difusão e conseqüente politização do discurso cientificista. A tentativa de unanimidade é clara, mas o que testemunhamos foi a diaphonia entre cientistas e entre cientistas e partidários da interpretação econômica do fenômeno viral. O fato da ciência engajar-se com a política é um erro não somente lógico. O campo da política não se compromete necessariamente com a verdade. Já a ciência, se abdica da verdade, coloca vidas e a própria reputação em risco.

Se as profilaxias de higiene já estão estabelecidas, a diaphonia ocorre ao nível do tratamento. Mesmo as medidas de higiene sofrem com oscilações que depõe contra a medicina e, por conseguinte, contra o cientificismo. Ninguém definiu ainda, até a atual conjuntura, se o vírus é inoculável no organismo humano pelo ar. Em meio à dissonância dos discursos, não se chega à isosthenia. Pelo contrário, vimos a abdicação da busca pela eqüipolência entre os discursos cientificista e econômico, onde este parece orientar a ação (no Brasil, grande parte dos habitantes das grandes capitais não acatou ao toque de recolher) e aquele coordena, em um discurso que corre o risco de tornar-se um conjunto vazio; os hábitos domésticos. A zétésis é mantida e cresce, sem époché, inversamente proporcional à ataraxia, pois a necessidade da vacina é urgente.

Relembrarmos argumentos céticos neste momento parece mais que adequado. Toda esta invasão científica que, paradoxalmente, está longe da positividade de alguns argumentos imaginativos das science fictions; parece deliberada em inverter ou anular a premissa fundamental da modernidade, a que alia ciência e welfare ou bem estar. Os desgastes sociais e econômicos, inevitáveis, derivam-se, como corolários, do acidente bioquímico.

Aliás, o papel da técnica se evidencia ainda mais, com a imersão paliativa dos professores na vida digitalizada. A gradual digitalização do ensino se acelerou. Se haverá um ganho epistêmico com estas novas medidas de caráter urgencial, este é um tema pedagógico que merece outra conversa.

Mesmo com esta mistura de esferas, a virtude cética do bom senso parece ter vigorado, para alívio dos realistas, otimistas e para desgosto dos pessimistas. Quem mostra entusiasmo com a atual depressão ocidental, por nutrir esperanças escatológicas, revela não apenas todo o adoecimento do espírito, mas, também, toda a negatividade prejudicial de algumas paixões motivadoras.

Mesmo que suspendamos o juízo sobre hipóteses políticas deste acidente, que envolvam jogos de poder e intenções ideológicas, muitos equívocos foram cometidos pelas lideranças e a diaphonia inerente à forma democrática de enfrentar uma calamidade humanitária expôs falhas e despreparos. Pronunciamentos oscilantes indicaram falta de eficácia e a democracia ameaçou se encontrar sob o risco do impasse. Decisões equivocadas, como um hospital de campanha onde se ocupou 25% de sua capacidade máxima, mostraram o quão despreparada é a democracia brasileira, desde que lidou com projeções falsas.

Por fim, em meio ao fogo cruzado de discursos, seria preciso relembrar a fórmula da imparcialidade científica proclamada por Kant (1724-1804) na Segunda Crítica (1788, I.3.19.2-3); versão kantiana da honestidade intelectual cética: “(...) de que em toda indagação científica há necessidade de prosseguir tranquilamente o caminho próprio, com toda exatidão e sinceridade possíveis, sem levar em conta tudo aquilo que poderia opor-se à mesma fora do seu domínio, executando-se por si mesma, enquanto possível, de um modo complexo e verdadeiro.”

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