Adriano Correia Silva
09 Dez 2017

Há muito tempo circula nos encontros de filosofia, principalmente nos encontros nacionais promovidos pela Anpof, maiores a cada edição, a anedota em torno do primeiro encontro da Anpof reportando que a comunidade filosófica do encontro em Diamantina, em 1984, cabia em uma van. No último encontro da Anpof, em Aracaju, tivemos cerca de 2500 apresentações e nossa pós-graduação já conta com quase mil docentes, espalhados por todas as regiões do país. Não cabemos mais em uma van.

Como bem ressaltou o atual coordenador de área, Vinicius Figueiredo, em texto publicado recentemente neste fórum, o crescimento não foi apenas quantitativo, mas notavelmente qualitativo, o que tem trazido boas surpresas para a nossa comunidade, com a assimilação de docentes com formações as mais diversas e a possibilidade de um estudante hoje alcançar uma formação qualificada até o doutorado sem necessariamente se deslocar para os centros tradicionais de formação – que permanecem, não obstante, como referência para a atuação excelente na área e como centros privilegiados de cooperação.

O extraordinário e bem sucedido crescimento da nossa pós-graduação nos últimos quinze anos ainda terá notável impacto previsível em curto prazo (como a demanda provável de novos cursos de doutorado) e outros mais difíceis de vislumbrar, como o impacto na nossa cena acadêmica da assimilação de pesquisadores e docentes das diversas proveniências regionais e estilos de pesquisa. É certo, no obstante, que os próximos anos nos trarão bons desafios, também na defesa da área, e que o processo de avaliação deverá continuar em aprimoramento para estar à altura deles.

Um dos temas candentes e ainda não adequadamente aberto ao debate público em nosso processo de avaliação são os critérios de composição das comissões de avaliação. Ainda que seja uma prerrogativa legítima da coordenação da área, penso que o estágio atual de publicidade e de clareza na definição dos critérios de avaliação no documento de área – ainda que naturalmente remanesçam problemas – demanda que se tenha em consideração na definição da comissão de avaliação critérios como rotatividade, impessoalidade, representação regional e de estratos de avaliação, área de pesquisa e gênero.

Se isto é decisivo na comissão de avaliação, é imperioso na constituição da equipe que ocupará a função representativa mais importante da área nos próximos quatro anos. A Anpof, junto aos programas de pós-graduação da nossa área, participará da consulta definidora dos nomes que serão submetidos à apreciação da CAPES. Não pensamos ser compatível com o caráter institucional da Anpof que nós avancemos na indicação de quem quer que seja, ainda que possamos compartilhar a satisfação por até o presente momento dois representantes qualificados da nossa área terem apresentado seus nomes à comunidade.

É certo que não atuaremos na consulta para além da promoção do debate, mas é também certo que não apoiaremos nenhuma proposta que não apresente a equipe que pretende constituir na Coordenação Adjunta e na Coordenação Adjunta de Mestrado Profissional. Julgamos que a equipe, juntamente aos princípios de atuação e ao diagnóstico de nossa situação presente e dos desafios futuros, conforma o perfil da proposta. Além disso, é legítimo esperar que quem se apresente para uma atribuição tão fundamental já tenha em mente a equipe que constituirá – e da qual também temos o direito de esperar que expresse publicamente sua perspectiva sobre a coordenação nos próximos quatro anos.

Lembro-me de ter participado no XIV Encontro Nacional, realizado em Águas de Lindóia, em 2010, da reunião de coordenadores que elegeria a nova diretoria da Anpof. Em conversas entre a maioria dos coordenadores antes da reunião todos revelaram não fazer ideia até aquele momento de quem comporia a chapa ou as chapas que concorreriam para a diretoria e nem mesmo quem se apresentaria para a presidência da entidade.

A reunião decorreu em um clima desconfortavelmente tenso, com várias manifestações críticas ao processo e foi publicamente demandado da nova diretoria que se comprometesse com um processo eleitoral que permitisse aos coordenadores discutir com a comunidade que cada um representava as eventuais alternativas. Vem-se tentando avançar nesta direção justamente porque é notório que nossa comunidade, ainda mais plural e ampla que em 2010, não admite não participar republicanamente do que lhe é decisivo nem que as funções representativas da área sejam simplesmente legadas aos que são definidos à margem do debate público.

O crescimento e a consolidação da nossa comunidade em nível nacional em grande medida refletem os projetos e aspirações daqueles que fizeram parte de uma comunidade acadêmica de filosofia que praticamente cabia em uma van, nos idos anos 1980. O que é decisivo presentemente não é que não caibamos mais em uma van – afinal, apenas uma situação de fato –, mas antes de tudo que não conduzamos nossa política acadêmica como se ainda coubéssemos.


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